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No silêncio.

por naomedeemouvidos, em 26.03.19

Sentado na mesa à minha frente, o homem fala num italiano baixo e levemente rouco. Tem o guardanapo pousado no colo, de forma descuidada, enquanto engole a coca-cola directamente da garrafa de vidro demasiado baço, cujo gargalo segura com uma ligeira fúria, como se a esganasse, deixando que o gás se escape por entre um chiar manso, mas grave, como um pequeno balão que se esvazia em agonia.

Ao seu lado, uma morena voluptuosa de cabelo arrojadamente curto e negro como a asa sedosa de um corvo, vai ouvindo, distraída, sem desviar os olhos do écran do telemóvel que martela ritmadamente com a ponta do anelar inclinada, num exercício de espantosa agilidade à vista da alongada unha impecavelmente pintada de vermelho vivo. Tem umas mãos maravilhosas. Muito mais elegantes e sofisticadas do que o resto do conjunto, demasiado vulgar. Como o homem ao lado, que parece estorvar-lhe.

No outro canto da mesa, o menino mostra-se perdido num momento só seu, alheio ao desenrolar do monólogo seco. Tem o cabelo da mesma côr do da mãe. Percebi que é a mãe. Parece atento, no entanto; não exactamente àquele instante enfadonho. Vai movendo os lábios de forma quase imperceptível, como se falasse sozinho. Talvez não tivesse chegado a reparar, se não estivesse sozinha. Por um breve momento, podia, até, jurar que o vi sorrir. Um sorriso frio, quase um esgar que, por algum estranho motivo, me sobressalta. Parece entretido, numa cumplicidade muda e algo sinistra. Lembrei-me de que as crianças podem ter amigos imaginários, dizem. Alguns podem ser anjos, outros demónios.

O menino levanta, inesperadamente, os olhos para mim, como que avisado da minha indecorosa intromissão. São de um azul quase transparente. Os olhos. Frios, como o sorriso - estou, agora, certa - que lhe surpreendi há pouco. E, então, vi-o. O demónio.

publicado às 11:49



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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