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      Já passaram, creio que, cinco dias desde a primeira publicação do tal cartoon de Serena Williams. Como toda a gente já sabe, o autor, Mark Knight, foi severamente acusado de racismo e sexismo e, segundo li algures, sentiu-se mesmo obrigado a suspender a sua conta no Twitter, tal seria a natureza das críticas que começou a receber.

      A primeira vez que vi a notícia sobre o cartoon (penso que logo no dia em que foi publicado), o rótulo já vinha colado. Ainda assim, não reparei, na altura, num pormenor: o facto de a adversária de Serena Williams ter sido retratada como uma mulher loira, apesar de Naomi Osaka ser uma “haitiana-japonesa”. Vi, apenas, o grande plano e a piada do árbitro. Vi, apenas, uma sátira humorística ao comportamento de Serena Williams e não uma tentativa de humilhação a uma atleta pelo facto de ela ser mulher e ser negra.

      Acabei por esquecer todo o ruído à volta do tema, consciente de que Serena Williams é uma atleta de excepção, que foi, muitas vezes, vítima de preconceitos e insultos, que se fez a ferro e fogo, mas que, naquele dia, em particular, esteve muito mal. Acrescia, ainda, o facto aparentemente unânime e, portanto, incontestável de Carlos Ramos ser um árbitro implacável, mas justo e rigoroso, que já castigou severamente outros tenistas, incluindo homens.

      Hoje, ao ler uma outra opinião acerca do assunto, no jornal The Guardian, voltei a deparar-me com a referência ao retrato de Naomi Osaka: demasiado branca e demasiado loira.

      Fui ver, outra vez, o cartoon. De facto, a tenista a quem o árbitro pergunta (candidamente?, impacientemente?, asperamente? – poderia haver aqui espaço para outra discussão) “can you just let her win?”, não se parece muito com Osaka. Qual foi o propósito? Foi intencional? E será este o pormenor que torna o cartoon racista? Porque, a mim, talvez por ingenuidade, não me parece racista que a Serena apareça com os seus traços de mulher negra, mesmo estando exagerados; afinal, não é o que também se faz, num cartoon, exagerar os traços físicos do retratado, seja um cabelo desgrenhado, umas mamas generosas, uns olhos tortos, uma orelhas grandes, um rabo proeminente? E se o cartoonista australiano tivesse, ao contrário, esbatido os traços de mulher negra de Serena Williams, seria acusado de quê?

     Decidi procurar um outro olhar.

    Desde que sou mãe, nunca mais deixei de me surpreender – e deliciar – com a sabedoria pura e bruta das crianças. Menosprezar a sua argúcia e lucidez é um acto de enorme estupidez e arrogância, ainda que, por vezes, o façamos de forma inconsciente e sem segundas intenções. Por isso, chamei o meu filho (11 anos) e perguntei-lhe se ele sabia o que é um cartoon. Respondeu que sim, que era “assim, tipo, um desenho”. Mais ou menos, mas, de momento, chegava-me. Depois, perguntei-lhe se ele sabia com que objectivo alguém desenhava um cartoon. A não ser para se divertir e passar o tempo, não, não sabia. Expliquei, brevemente, que um cartoon podia ser uma forma de crítica e intervenção social e/ou política, como a música, ou a arte em geral, como quando lhe explico a dimensão das mensagens musicadas de Zeca Afonso, por exemplo. Percebeu. Perguntei, ainda, se ele tinha ouvido, recentemente, alguma coisa sobre uma tenista chamada Serena Williams. Não. Então, mostrei-lhe o cartoon e perguntei-lhe o que via e que mensagem achava que estava a ser transmitida. Observou, em silêncio, durante uns segundos. Percebe inglês suficiente para entender o completo significado da frase no desenho, pelo que, não precisou de qualquer ajuda. A seguir, respondeu que o cartoon era sobre “esta” senhora (apontando para Serena Williams), que está a fazer uma birra e, por isso, está com o cabelo todo pfff (gesticulou); partiu uma raquete e a chupeta é porque lhe estão a chamar bebé; por causa da birra”. Pedi-lhe para descrever, fisicamente, as duas mulheres, na imagem. “Esta é mais gorda, esta é mais magra; esta é uma mulher negra, esta é branca.” Curiosamente, não referiu que a mulher branca era loira até eu insistir em mais pormenores físicos, para distinguir as duas. Finalmente, perguntei-lhe a sua opinião acerca da crítica que o autor pretendia fazer, com o cartoon: “à atitude dela”. Uma crítica à atitude de Serena Williams. Olhei para ele, acho que inconscientemente, à espera de mais qualquer coisa e, então, encolheu os ombros e disse-me, com alguma impaciência, “O quê? O que queres que te diga mais?”.

      O que é que há mais, de facto, se tinha sido exactamente isso que eu tinha visto, inicialmente?

      Não pretendo ser ingénua ao ponto de não perceber que, muitas vezes, o diabo está nos detalhes e que há formas bem subtis, por vezes, com rasgos de uma perversa elegância, de insultar, humilhar e desprezar o outro. Seja com base no sexo, na cor, na orientação sexual, na religião, enfim, com base em qualquer diferença que nos incomode ou ameace. E é fundamental estarmos conscientes dessas abomináveis subtilezas para nos podermos defender e, sobretudo, lutar contra todas as formas de discriminação. Mas podemos, ao menos, tentar fazê-lo com inteligência e sem histerismos?

      Não sei se Mark Knight retratou uma Osaka loira para humilhar uma Williams negra, mas sei que muitos, como eu (e o meu filho) viram apenas uma crítica, sem cor, sem raça, sem sexo, à atitude e que haverá sempre alguém que, a coberto de seguidismos acéfalos e modas instantâneas.net, verá sempre ameaças mesmo onde elas não existem.

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