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O príncipe com orelhas grandes.

por naomedeemouvidos, em 11.07.18

– Mamã, contas-me uma história?

– Claro, meu amor. Foi há muito, muito tempo…

 

“Pairava no ar um cheiro a jasmim. Os passarinhos chilreavam pousados nos ramos castanhos das árvores frondosas e verdes do jardim do Castelo, enquanto os esquilos, macios e marotos, roíam avelãs que seguravam nas suas patinhas pequenas e ágeis. Algumas sardaniscas verde-esmeralda serpenteavam esbaforidas, em busca de um qualquer buraquinho minúsculo por onde se pudessem esgueirar. Coelhinhos brancos e felpudos saltitavam e afundavam-se na relva verde polvilhada pela geada daquela linda manhã, enquanto flores de todas as espécies baloiçavam ao sabor do vento suave, que transportava o seu pólen a todos os cantos do jardim encantado, fazendo aumentar a tela de cores e aromas que chegava a todos os habitantes do reino.

Porém, nem tudo era alegria, naquele jardim encantado. No tronco robusto de uma das árvores mais antigas do jardim havia um buraco por onde descida um túnel até às mais profundas entranhas da terra. E desse túnel, emergia, agora, um choro abafado e tão triste, tão triste que afugentava algumas das avezinhas que esvoaçavam nas proximidades da árvore.”

 

– O que era, mamã?

– Vou contar-te, meu querido.

 

“Os reis daquele reino distante tinham tido um filho. Mas, ao invés de exultarem de alegria, ficaram envergonhados porque o bebé nascera com umas grandes orelhas, o que o tornava diferente dos outros meninos. E os reis seus pais, movidos pela vergonha e preconceito de terem um filho diferente, esconderam-no dentro da árvore.

Os anos foram passando e o principezinho foi crescendo no interior do tronco da árvore, tendo por amigos alguns dos animaizinhos do jardim. Os esquilos traziam-lhe avelãs e os coelhinhos, cenouras e, assim se alimentava todos os dias. As formiguinhas traziam-lhes as folhas com que cobria o chão em que se deitava; os passarinhos deixavam-lhe penas fofas e coloridas com que se cobria; as cigarras cantavam-lhe belas canções com as quais afugentava as suas mágoas e serenava os seus serões, os furões traziam-lhe livros, com que se instruía e sonhava, e os pequeninos mas valentes ouriços protegiam-no, com os seus espinhos, de outros animaizinhos menos afáveis.

Enquanto o menino crescia – e à medida que os anos passavam, os reis seus pais recordavam-no cada vez menos… até que, um dia, o esqueceram por completo.

Uma manhã, o rei acordou em sobressalto, o seu coração apertado e angustiado num prenúncio de mau agoiro e coisa ruim que se aproxima a passos largos. Acordou a rainha no seu leito e, juntos, assomaram à janela da torre mais alta do castelo. Alarmados e confusos, tudo o que avistaram foi uma profunda escuridão. Chamaram os criados e as aias, os cozinheiros e os cocheiros, os jardineiros e os cutileiros. Gritavam, gesticulavam, exigiam explicações. Mas, ninguém sabia explicar. As trevas tinham engolido as casas, os estábulos, os caminhos, o jardim, a floresta, e todos os habitantes, dos mais ricos aos mais pobres, sentiam uma profunda e inexplicável tristeza.

Vários dias se passaram.

As flores definharam no jardim; as árvores, outrora robustas e frondosas, vergaram como se carregassem o peso de todas as desilusões; os animais fugiram assustados, não se sabe bem para onde. O sol mergulhou no mar e não voltou, a lua perdeu o seu brilho, as colheitas secaram, a fome bateu a todas as portas e em todas consegui entrar. O Rei e a Rainha sentiam-se confusos e impotentes e, em breve, por todo o reino, tudo eram choros e lamentações.

Mais anos foram passando sem que ninguém conseguisse devolver a alegria ao reino ou, tampouco, perceber o porquê de tanta desgraça. Já não se distinguiam os reis dos seus súbditos: a miséria deixara-os a todos maltrapilhos e famintos e deambulavam todos pelo reino, sem qualquer propósito.

Um dia, no meio de um enorme desespero e sofrimento, temendo pelo futuro do seu reino e dos seus súbditos, os reis rezavam pedindo auxílio, suplicando por uma luz que os ajudasse a traçar um caminho de esperança. Soluçavam baixinho, quando começaram a ouvir um choro sufocado e triste, como que vindo de muito, muito longe, mas que crescia, crescia…. E à medida que o choro se tornava mais forte, ia penetrando nos corações do rei e da rainha, inundando-os de uma dor tão intensa que chegou ao mais profundo da sua alma e os fez sucumbir de remorsos.”

 

– Era o principezinho, mamã?

– Era, sim, meu amor, de quem os reis se envergonharam à nascença e que, agora, os envergonhava mais ainda, pelo seu acto tão cruel!

– E o que aconteceu depois, mamã?

– Vou contar-te, meu querido.

“Quando os reis se aperceberam do choro do príncipe – que eles próprios tinham escondido e esquecido – perceberam a enorme injustiça que tinham cometido com o seu filhinho. E perceberam, também, que todas as agruras por que estavam a passar mais não eram do que um castigo bem merecido pelo seu preconceito e pela sua crueldade. Então, de imediato, correram ao jardim encantado, procuraram a árvore onde tinham encerrado o príncipe, escorregaram pelo túnel e, com a ajuda dos animaizinhos resgataram o menino, que, entretanto, se convertera num belo rapaz, tão instruído e sensato, conversador e simpático, que ninguém reparava nas suas grandes orelhas.

E, a partir desse dia, o sol voltou a brilhar sobre o reino, as colheitas foram mais fartas do que nunca, as árvores mais belas, as flores mais cheirosas, os animais mais alegres e brincalhões.

E, à noite, o mais lindo e prateado luar emoldurava aquele quadro de harmonia e felicidade…

 

– Foi uma bela história! Não devemos julgar os outros pelas aparências, pois não mamã?

– Nunca, meu querido. Se ligarmos aos preconceitos, mais tarde ou mais cedo, perderemos a oportunidade de conhecer alguém maravilhoso.

– Boa noite, mamã.

– Bons sonhos, meu amor.

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