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Bem ou mal, tudo o que aqui está escrito é da autoria de naomedeemouvidos, salvo citações e/ou transcrições devidamente assinaladas, embora, alguns textos "EntreLetras" se baseiem em lendas ou histórias conhecidas.
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"Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio."
Em "Lágrima de Preta", António Gedeão
Há uns tempos, acabava de fazer as compras da semana e encaminhava-me para o carro, empurrando o carrinho de compras, à conversa com o meu filho, como acontece frequentemente. Ambos falamos “pelos cotovelos”, como se diz. Como de tantas outras vezes, cruzámo-nos com os funcionários que se encarregam de recolher os carrinhos de compras para os recolocar nos devidos lugares, para serviço e conforto de quem os utiliza. Mas, ao contrário de outros dias, naquele, o meu filho sossegou a conversa que trazia e perguntou-me, “mamã, porque é que os senhores que arrumam os carrinhos são todos negros?”
A pergunta sobre se Portugal é ou não é um país racista é recorrente, não está esgotada, muito menos, desactualizada, e não parece de fácil resposta. Basta ver os textos que já se escreveram sob esse título, desde os confrontos no bairro da Jamaica, que, suponho, a maioria dos portugueses nem sabia onde ficava, o que era e como era. Eu cresci num bairro social. Vivi lá mais de metade da minha vida. Comparado com o da Jamaica (parece que é ilegal e, esse, é outro problema) o meu bairro é um condomínio de luxo. Ao contrário do que pensam muitos dos que não conhecem a vida nos bairros sociais, a gente de bairro não é uma amálgama de ignorância, preguiçosa, contagiosa, mal-criadona, que vive à custa de rendimentos sociais e outros apêndices que tais. Também não vale a pena explicar muito o que é ser gente de bairro, pelo simples motivo que não merecem o tempo que se perde com isso aqueles que já formaram o seu juízo. O preconceito não se esgota no tom de pele.
Mas, Portugal é ou não é um país racista? Não sei responder. Suponho que se olharmos para outros, a resposta será um rotundo e inquestionável não! Se olharmos para aqueles que arrumam carrinhos de compras, limpam escadas e apartamentos chiques, ou menos chiques, para a evidente ausência (porque o número é residual) de negros (porque, maioritariamente, desses se fala por estes dias) em tudo o que são profissões mais visíveis, como jornalistas, professores, funcionários bancários, médicos, políticos, etc, etc, etc, é possível que a resposta não possa deixar de ser sim, se calhar, somos um país racista.
É importante, no entanto, não confundir o que é, ou devia ser, inconfundível. Não comparar o incomparável. Caiu-se no histerismo acéfalo habitual – a que não consigo habituar-me. Se gritássemos menos e falássemos mais, conversássemos mais, nos ouvíssemos mais, ganhávamos todos mais. Muito mais. Vamos classificar como racismo toda a acção que se tome contra um negro? Porque é negro? Um polícia que abusa da sua autoridade contra um branco é violento. Um polícia que abusa da sua autoridade contra um negro é violento e racista. É isso? E uma jornalista que pergunta a uma rapariga negra, com quem conversa em português fluente, numa manifestação em Portugal, onde a rapariga vive, “a menina é portuguesa”, é só estúpida? A mim, é capaz de me parecer mais racista do que o brutamontes do polícia.
É verdade que muitos dos que se dizem vítimas de racismo não têm qualquer interesse em deixar cair o estatuto. A cretinice não tem cor ou credo, tem sentido de oportunidade. Veja-se o nosso oprimidíssimo primeiro-ministro.
Não sou racista, mas…não sei se houve racismo no bairro da Jamaica. Estou convencida de que houve violência policial. É-me indiferente se os polícias foram recebidos à pedrada. Os agentes de segurança são treinados para suportar afrontas e tentativas de humilhação e confronto. Foi assim, aliás, que aguentaram a manifestação de 14 de Novembro de 2012: duas horas, mais coisa menos coisa, impávidos e mais ou menos serenos a serem agredidos com pedras arrancadas da calçada. Quando, finalmente, reagiram, também foram criticados, é verdade. O que só vem reforçar a necessidade de não tratar coisas sérias de forma leviana e estridente.
Não sou racista, mas…sei que há racismo, do mais reles e sabujo, quando alguns – inclusive, polícias – enchem páginas desse maravilhoso mundo que dá pelo nome de redes sociais com insultos racistas, destilando ódio contra a diferença, muitas vezes, impunemente e sempre, mas sempre!, de forma cobarde e infame. E pobre. Daquela pobreza que enoja e que, quando existe, não é exclusiva nem da cor, nem dos bairros sociais.
Entretanto, vou tentando explicar ao meu filho, a cada dia, o melhor que posso e que sei, por que é que são negros todos os que arrumam carrinhos de supermercado.
Idade - Tem dias.
Estado Civil - Muito bem casada.
Cor preferida - Cor de burro quando foge.
O meu maior feito - O meu filho.
O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.
Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.
Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.
Imprescindível na bagagem de férias - Livros.
Saúde - Um bem precioso.
Dinheiro - Para tratar com respeito.
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