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Sobre tecnologias.

Uma espécie de continuação do post anterior.

por naomedeemouvidos, em 21.11.19

“Agora há uns assim, livres-pensadores educados abruptamente no espírito da descrença, do negativismo e do materialismo. Antigamente (…), o livre-pensador era por vezes uma pessoa educada a princípio nos conceitos da religião, da lei, da moral, só depois chegando sozinha ao livre-pensamento, pela luta e pelo trabalho; mas agora surgiu um novo tipo de livres-pensadores ingénitos que crescem sem ouvirem sequer que existem leis da moral, da religião, que havia autoridades. Crescem espontaneamente com os conceitos da negação universal impregnados neles, ou seja, selvagens”.

 

Costumo usar as férias grandes para satisfazer vícios de leitora compulsiva. Leio ou releio com avidez, com a plena entrega que não alcanço tão frequentemente fora dessa época, porque sou incapaz de ler de qualquer maneira. Não leio na cama, não leio para descontrair – pelo contrário, preciso de estar no pleno uso dos meus sentidos, alerta como um vigilante – e sou incapaz de ler naqueles dez ou quinze minutos perdidos numa pausa entre labores; eventualmente, uma ou outra notícia de jornal, mas só. Caprichos. Como não beber vinho num copo sem pé, nem tomar café num copo de plástico. Mas isto não interessa nada. Interessa é que, contrariamente ao costume, estamos a caminho do final de Novembro e ainda me sobrou um livro de férias. Em minha defesa, este Verão, abusei de feiras do livro, de promoções e descontos, e decidi não deixar para outro ano o que andava há muito para ler e não li. Cumpro, por isso, a minha penitência antes dos livros de Outono-Inverno.

 

O excerto que transcrevi lá em cima é, claro, do livro de Lev Tolstói, Anna Karénina, escrito entre 1872 e 1877. “Todas as famílias felizes são parecidas” e, aparentemente, não só elas. Há resmungos, não só parecidos, como intemporais. Com as devidas adaptações, vamos ouvindo discursos quase idênticos ao longo dos tempos, uma espécie de ode ao pessimismo da gente mais conservadora e avessa ao progresso. Nos nossos dias, podemos transpô-lo para as críticas mais ferozes em relação à vertiginosa e omnipresente evolução tecnológica; em particular, na relação entre a verdade e a mentira, entre a liberdade de expressão e a faculdade de construir e espalhar boatos, falsidades aburdas, com intencional dolo, faculdade essa ao alcance de qualquer sonso, sem qualquer escrutínio, minando qualquer tentativa de debate, porque a pressa já não é só inimiga da perfeição: tornou-se, paradoxalmente, num empecilho útil à proliferação de todas as demagogias, dos chiliques instantâneos com as misérias alheias, ao ataque cerrado e cirúrgico às regras do jogo democrático.

 

A liberdade de expressão tem servido de respaldo a todos os perseguidos por livre-pensarem a sociedade que lhes apetece, a gente que lhes apetece, o mundo que lhes apetece, independentemente de qualquer razão, excepto a sua própria, inquestionável, inviolável, à prova de qualquer discussão, porque, obviamente, não é esse o objectivo. Mas, quando o chorrilho de vontades alternativas por medida ou encomenda atinge o despudor criminoso de incitar à morte, à violação, à perseguição de outro ser humano, sobra pouca tolerância para a liberdade dessa expressão.

 

De entre os que se insurgem contra tais revolucionários de pacotilha -  nem por isso menos perigosos - erguidos sobre os escombros de todos os nossos descontentamentos e ressentimentos, há que os que consideram que, ainda assim, a solução não passa pela censura dos conteúdos partilhados como pólvora. Associam a censura, de qualquer tipo, a um calamitoso acto de condicionamento da nossa expressão máxima de liberdade, receando que, a reboque e a coberto desses limitações apocalípticas, acabemos, afinal, quase todos amordaçados. Não digo que seja infundado receio. Não tenho uma opinião definitiva sobre o assunto. Sabemos o resultado de tentar calar vozes incómodas. Mas, já não é bem disso que se trata, pois não? 

 

publicado às 16:14


12 comentários

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De Sarin a 21.11.2019 às 17:05

Não, já não é bem disso que se trata.
Neste momento, e falo por mim, manter-me fiel a tais princípios de liberdade serve para que não perca o pouco chão que ainda me deixam ter. Não quero ser igual a eles, e ainda não encontrei melhor solução de defesa do que a clareza de ideias de palavras de acções.
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De naomedeemouvidos a 21.11.2019 às 17:11

Percebo-te perfeitamente. Temos discutido muito o tema, cá em casa e entre amigos. Não há uma solução "fácil" à vista...desejo que, quando se encontrar alguma, o balanço seja insuportavelmente trágico.
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De Sarin a 21.11.2019 às 17:18

O problema passa, da forma como o vejo, pelo facto de quererem mudar em minutos o que demora anos a educar - valores, raciocínio, debate... exigência. AGORA, muito nos queixamos das notícias falsas (como se novidade), do populismo (como se nascido ontem), da cultura da incultura. Quem se está a fechar para melhor reagir, está a educar os seus mais novos a fazê-lo também -daqui a 20 anos o problema persiste ou rebenta. Num balanço insuportavelmente trágico mas que nos é, afinal, natural - temos a História pejada de tais balanços.
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De naomedeemouvidos a 21.11.2019 às 17:28

E, ainda assim, eu acho que o cenário é bastante pior do que o foi alguma vez. Posso estar errada.
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De Sarin a 21.11.2019 às 17:38

Temos mais informação, dispomos de outra tecnologia, a globalização é mais imediata.
De resto, o sangue continua a ser vermelho e fácil de deixar escorrer se aos outros.
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De naomedeemouvidos a 21.11.2019 às 19:42

Por isso é que pergunto se não teremos que procurar outra forma de conter os danos. Uma coisa é opinião, ainda que parva, como a minha tantas vezes. Outra coisa bem diferente é aquilo a que se vem assistindo, uma banalização da mentira, do medo, do insulto e da promoção do ódio e do ataque pessoal, entre o deleite de alguns e o lucro financeiro de outros. Sem reservas, sem escrutínio e sem pudor.
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De Sarin a 21.11.2019 às 20:15

Procurar, procuramos. A solução é que não surge, e o abuso vai entrando em todo o terreno menos firme. A única solução que me ocorre é mantermo-nos de pé e insistirmos no diálogo, na explicação, no apelo à racionalidade, na recusa da sombra - mesmo que tema breve o dia em que teremos de o fazer com a protecção da noite.

Há sempre alguém que resiste. Espero que sejamos muitos.
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De naomedeemouvidos a 21.11.2019 às 20:21

Junto-me a ti :))
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De júlio farinha a 21.11.2019 às 20:03

Texto soberbo. Definitivamente!
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De naomedeemouvidos a 21.11.2019 às 20:20

Vindo de quem escreve como o Júlio (ainda agora lá passei), nem sei como responder. Agradeço o comentário. É bom, realmente, quando o que escrevemos chega a alguém que também lemos com gosto.
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De cheia a 21.11.2019 às 21:12

Não estou tão pessimista. Essas coisas aconteceram em todos os tempos. Hoje, são mais rápidas e incisivas, se não tiverem importância, não lhe devemos dar ouvidos, se forem graves teremos de recorrer à justiça.
Não tenho Facebook, por aquilo que oiço, é um sítio onde não se deve estar.
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De naomedeemouvidos a 21.11.2019 às 22:11

É bom ouvir opiniões diferentes, e mais optimistas :))

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“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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