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Ódios (in)humanos.

por naomedeemouvidos, em 14.10.19

O Discovery Channel estreou ontem um documentário de seis episódios sobre o "ódio". Ou melhor, sobre o que poderá estar na sua origem, e se esse sentimento, expresso de tantas formas diferentes, é exclusivamente nosso, ou se também pode ser sentido, vivido e exibido por outras espécies. “Why We Hate” foi pensado por Steven Spielberg e realizado por Geeta Gandbhir e Sam Pollard.

Logo na abertura, somos alertados para o conteúdo da coisa. A série explora o conceito de ódio (se assim posso dizer) e, portanto, contém imagens racistas, discursos de ódio e violência. Assim é. Os abraços generosos que começam por encher o écran, escudados na legenda que exorta a nossa capacidade "inigualável de amar e colaborar", rapidamente cedem lugar a representações de intolerância, seja individual ou em matilha, anónimas ou gravadas em dolorosas verdades históricas (que alguns grupos de imbecis alternativos pretendem limpar com recurso a uma espécie de breviário redentor de sofisticadas teorias conspirativas da humanidade). Afinal, por que motivo somos capazes de odiar, às vezes, até à morte?

 

O primeiro episódio centra-se na “origem” dessa “habilidade” para odiar e na capacidade para a exprimir violentamente. Será exclusivamente humana? Brian Hare, um antropólogo evolucionista, propõe-se tentar perceber isso mesmo, procurando pistas no comportamento animal, nomeadamente, observando e interagindo com grupos de chimpanzés e bonobos dentro das suas comunidades. Perturbadoramente parecidos connosco, indistinguíveis a olhos leigos ou mesmo a especialistas pouco treinados, aqueles dois grupos de primatas não-humanos (mais ou menos, já que, em termos genéticos, parece que são 99% humanos), são, no entanto, radicalmente diferentes em termos de comportamento social: os chimpanzés organizam-se numa sociedade muitíssimo mais agressiva, e Brian Hare e a sua equipa foram tentar perceber porquê. Intuitivamente, percebemos que, enquanto humanos, podemos encaixar nos dois extremos: na tranquilidade afável e protectora dos bonobos, ou na violência bruta e territorial dos chimpanzés. Vale a pena ver.

 

O mais assustador é ver o ódio associado a pessoas aparentemente normais. Não é novidade. Cada vez menos, aliás. O rapaz que diz à jornalista que a odeia porque ela é americana. A senhora de meia idade que não se reprime de os mandar para a lixeira de onde vieram e que fiquem por lá, uma outra que diz a um mexicano que o odeia porque ele é mexicano. O homem que veste uma T-shirt com o busto de Hitler, num dia-a-dia banal com as crianças; a menina amorosa que segura um cartaz onde se lê que Deus odeia os homossexuais, e os transeuntes que saem dos carros empenhados em atacar esses mesmos que se manifestam contra os gays, num dia, contra os judeus, noutro. O ódio - como o amor - não parece conhecer barreiras. E, à cabeça de todas as banalidades, a facilidade com que a propaganda despejada já não só e apenas pelas mal-afamadas redes sociais, mas pelos próprios meios de comunicação mais convencionais, é capaz de contaminar o cidadão mais pacato, agrupando frustrações, misérias e desencantos que, subitamente, conduzem a uma escalada de violência massificada pronta a colher a vítima mais à mão, a satisfação da turba esvaziada até ao próximo desabafo; como a adicção a uma droga, em que a dose anterior deixará de ser suficiente para acalmar a crescente corrupção do corpo e, sobretudo, a corrupção da alma.

 

No documentário, inevitavelmente, o bulliyng surge como a expressão presente e mais visível do ódio de que somos capazes contra o outro, contra a sua diferença, que vemos quase sempre como uma ameaça. Entre os testemunhos de adolescentes “fora da norma” e, por isso, vítimas de agressão, impressiona o da menina que passou de vítima a carrasco, de apoucada a popular, espaldada e adorada pelo novo grupo depois de, farta de ser achincalhada, resolver virar o jogo e espancar uma outra miúda da escola, na escola. Cicela Hernandez não estava habituada a esse poder, e o poder deixou-a fascinada. O seu círculo de amigos era, agora, formado pelos miúdos mais populares da escola, que a respeitavam na proporção da sua maldade para com os outros. Este é, aliás, o meu ponto de partida para uma discussão que me desassossega e que, para mim, tem expressão máxima na figura do actual presidente americano. Bem sei que há outros, o mundo está cheio de monstros. Vêmo-los todos os dias, em qualquer lugar. Se nos esquecermos, há sempre alguém inteligente e disponível para nos lembrar: então e o Orbán, então e a Le Pen, então e o Salvini, então e todos esses ditadores que tratamos de não incomodar a troco das boas relações comerciais, diplomáticas e outras desculpas que tais? É possível que seja falta de visão da minha parte, essa visão que se me tolda, inquietando-me o espírito sempre que vejo aquele séquito adulador que, nos comícios de Trump, ri como um bobo e aplaude com deleitoso escárnio as injúrias que o seu formidável presidente gosta de distribuir pelos adversários. O maior palco político democrático convertido num cenário de reality show fedorento, uma orgia ansiada de insultos rasteiros outorgados e celebrados como sinal de uma América maior outra vez. O recreio da escola fina, elitista, o balneário das conversas despreocupadas, onde os poderosos se besuntam na humilhação orgástica dos mais fracos, respaldados pelas claques vestidas a rigor no corpo e na alma. Esse poder glorioso e inebriante de que a jovem Cicela Hernandez não sabia de como abdicar uma vez provado, e de que Donald Trump (e os da sua elegante estirpe) vive, numa paranóia crescente, achando-se invencível e à prova de qualquer limite moral, may Donald bless America. A sua, pelo menos. 

 

Nos últimos dias, a pretexto das diversas reacções que o filme “Joker” tem provocado, muitos são os que têm discutido sobre a verdadeira influência que este tipo de arte pode ter sobre as massas. Há os que acham a sugestão séria e acreditam que é real o perigo que a exibição ostensiva de violência (física e não só), ainda que contida numa forma ficcionada, pode representar para soltar o rastilho, inflamar o pior que há em nós, principalmente, junto dos que se sentem diminuídos, marginalizados e/ou ostensivamente injustiçados. Depois, há aqueles que consideram que a ligação entre as duas coisas é manifestamente exagerada; paranóica, até. Afinal, garantem-nos, já houve outros filmes, outras provocações, e a humanidade não anda, propriamente, a copiar massacres em alucinado frenesim, a converter badaladas estreias e obras aclamadas pela crítica em desgraças reais a cada sucesso de vendas. É certo. Mas, talvez, nunca até estes dias houve tamanho despudor em idolatrar a infâmia. E isso, seguramente, há-de representar um perigo.

publicado às 12:50

A inevitabilidade do ódio?

por naomedeemouvidos, em 26.10.18

    Em tronco nu, numa (outra) manhã qualquer, Amon Leopold Göth assoma à varanda da sua casa, com vista privilegiada para o campo de concentração nazi de Plaszow. Agarra na espingarda, observa a azáfama dos condenados, ajusta a mira da arma e escolhe a primeira vítima. Pousa o cigarro e aponta certeiro à mulher agachada no chão. Assim que ela se ergue, dispara a matar. Recolhe, indolente, o cigarro pousado no muro e, entre duas passas, escolhe uma segunda vítima. Aleatoriamente, sem qualquer critério especial. Apenas porque pode e porque isso lhe dá gozo.

    A violenta cena que retrata a barbárie sangrenta e insana da época nazi é imortalizada por Ralph Fiennes em A Lista de Schindler, e dispensará mais apresentações. Quem a viu, gravou-a para sempre na memória; cada um pelas suas razões, porque há filmes, ou partes deles, que teimosamente se materializam nos nossos pesadelos e nas nossas consciências quando menos esperamos. Lembrei-me dela pela alienação dos dias que correm. Já não fazem falta varandas com vista nem espingardas em riste. Substituímos as primeiras pelas páginas virtuais e as segundas pelos insultos gratuitos e carregados de ódio. Cada um escolhe o seu palanque, a sua arma, a sua vítima. Os métodos serão diferentes; os ódios serão diferentes; talvez, até os objectivos sejam diferentes. Mas deixam o mesmo rasto de aniquilação, de devastação nojenta na eliminação de adversários, políticos e não só. Só porque sim, só porque se pode. Como uns podem mais do que outros, os ódios destilam-se em diferentes graus, com diferentes requintes de malvadez e de eficácia e atingem mais ou menos alvos, de acordo com a circunstância de cada um. Das caixas de comentários aos assassínios por encomenda, da propagação de mentiras à distribuição de bombas como quem distribui rebuçados, dos comícios políticos convertidos em arenas de imberbes sedentos de vinganças, urgentes de sangue, como nos tempos dos enforcamentos sumários nas praças públicas, à apologia dos regimes ditatoriais e fascistas como solução para todos os males.

    Cada vez é mais difícil manter uma discussão séria sobre os diferentes problemas que se abatem sobre as sociedades democráticas. As pessoas não ouvem. Confundem, como diz o povo, alhos com bugalhos. Um homem insulta pública e violentamente uma mulher negra, chama-lhe feia, vaca, preta, bastarda e ouvimos dizer, e “se fosse ao contrário, também era notícia”; “porque é que não deixam o homem defender-se, primeiro”? Mas, são surdos? Os americanos tinham um nome para este tipo de gente, mas não me lembro agora. Os que, numa discussão, recorrem sistematicamente à evocação de argumentos que, só na aparência, se relacionam. Uma espécie de desconversadores selectivos cujo objectivo nunca é discutir com seriedade nem, muito menos, encontrar soluções, mas baralhar, partir e dar, como num jogo de pocker.

    Nos dias de hoje, voltamos a desdenhar dos pobres, a rir dos aleijados, a humilhar os ofendidos e a insultar os inimigos. A turba pede sangue como quem pede água sob o sol abrasador do deserto. Sucumbimos ao medo, e o ódio, afoito e arguto, tomou-nos nos braços.

    Nos EUA, Donald Trump condena, para as câmaras, a mesma violência que exacerba, horas depois, no Twitter. Apela a uma América unida e tudo faz para rasgar as feridas. Hostiliza a imprensa livre porque são fakes todas as notícias que não se dediquem à promoção acérrima e acrítica da sua fantástica presidência. A melhor de todos os tempos. Apela ao respeito que não tem pelos adversários, nomeadamente, políticos. O mesmo homem que exaltou o Lock her up! de Hillary Clinton e afirmou que Obama – que nem americano era! – fundou o estado islâmico, chama, hipocritamente, à união os americanos para repudiar actos de ameaças e violência política. Já sabemos da sua coerência discursiva e não só; depende da ocasião e do interlocutor.

    No Brasil, parece que Bolsonaro tem vindo a perder pontos para Haddad, nos últimos dias. O Messias (haja ironia!) já veio dizer que só perde se houver uma fraude eleitoral, como já antes tinha dito que só aceitaria os resultados das eleições se ganhasse. Gritar ameaças, espalhar a confusão, semear a discórdia e instigar à agitação social. Sempre de forma cobarde, sem sair do conforto do sofá, porque, como se sabe, o homem convalesce de uma facada, que deve agradecer todos os dias, pela facilidade divina com que conseguiu escapar de qualquer debate político sério, mostrando tudo o que não tem para apresentar aos brasileiros.

    É o mesmo princípio. Se me convém, está tudo bem. Se não, é uma fraude. A Folha de São Paulo sucks too. Como fede tudo o que se meter no caminho destes tresloucados salvadores da pátria. Se for possível tirar alguma coisa boa desta indecente demência que atormenta os nossos dias, que seja não deixarmos Portugal refém do medo nem cair nas garras do ódio.

 

P.S. Já depois de ter publicado este post, li isto.

publicado às 11:18

Odiar para reinar.

por naomedeemouvidos, em 25.10.18

"Nada une tão fortemente como o ódio - nem o amor, nem a amizade, nem a admiração."

Anton Chekhov   

publicado às 08:45

"Ugly black bastard!"

por naomedeemouvidos, em 22.10.18

     O vídeo que mostra um energúmeno (não se pode chamar homem àquilo!) a insultar violentamente uma mulher negra, idosa e com algumas dificuldades motoras, num voo da Ryanair, é absolutamente ultrajante para qualquer pessoa com o mínimo de decência, independentemente da cor, nacionalidade e todos os outros etcetaras. É de indignar à náusea.

     Incomodado – que deve ser o estado natural daquela criatura, que só deve preocupar-se com o seu branco e bonito, imagino, umbigo – vai vomitando impropérios até chegar ao inqualificável ugly black bastard. Entretanto, já tinha apelidado a mulher de vaca, feia, repetidamente, e outros tantos abusos. Perante a relativa, senão indiferença, passividade da maioria dos restantes passageiros e tripulação.

     A filha, creio, da mulher reclama e manda-o calar-se, sem sucesso, enquanto alguns passageiros vão saindo de cena (diz-se de fininho), porque, se ficar a ouvir públicos discursos de ódio, em pleno século XXI!, não é para todos, defender alguém dos insultos mais primários e reles, aparentemente, também não. Por azar, naquele voo, naquele dia, não devia haver ninguém da brigada dos ofendidos instantâneos das redes sociais – e, sim, sinto-me à vontade para criticar, ferozmente, porque já me meti onde não(?) era chamada por muito, mas muito menos: não é coragem, é fracos fígados para certas obscenidades intoleráveis. Excepção e honra feitas à pessoa que filma (neste caso, talvez se justifique, de facto) e a um outro rapaz que está na fila imediatamente atrás e que há-de acabar por intervir.

     Já o monstro espuma de raiva e de ódio por todos os poros do muito grande e muito branco corpo quando, finalmente, o tal jovem lhe diz que já chega, que baixe o tom de voz, que não há necessidade disso. A senhora, entretanto, diz-lhe que ele cheira mal. A besta responde que tomou um banho de manhã. Não se apercebe que tresanda, também, da alma pobre e apodrecida, não, eventualmente, só do corpo. Mais alguém – parece ser o homem que filma – se compadece da mulher e diz ao comissário de bordo para o expulsarem a ele, à boçal avantesma.

     Estou furiosa, tenho as unhas cravadas nas palmas das mãos, apetece-me gritar para o écran, incrédula pela facilidade da agressão, pela vulgaridade, pela falta de pudor, pelo deboche, não me fale numa língua estrangeira, se eu digo para ela sair, ela sai, e qualquer coisa dentro de mim instiga-me a dizer à mulher (como se ela me ouvisse e não se tivessem já passado dois dias) manda-o à merda, paga-lhe na mesma moeda e chama-lhe porco, gordo e seboso, que é exactamente o que ele parece. Recomponho-me e penso, não, não é civilizado combater o insulto com o insulto. Raios partam a educação, mas é o que nos distingue dos ineptos. Chamo o meu filho e mostro-lhe o vídeo. A educação também é isto. Conversamos sobre o que se deve e não deve fazer em situações como aquela; sobre o respeito pelo outro; e, sim, mesmo que o outro seja um imbecil fanático e acéfalo. Mas não deixo de lhe recordar que “para que o mal triunfe, basta que os homens bons não façam nada”. E penso que, talvez, nunca como agora tenha sido tão urgente apelar, já não apenas à voz, mas ao mais enérgico clamor de repúdio de todos os homens bons.  

publicado às 22:24

Jean-Paul Sartre

por naomedeemouvidos, em 11.10.18

"Basta que um homem odeie outro para que o ódio ganhe a pouco e pouco a humanidade inteira."

publicado às 10:41

Acerca do "ódio".

por naomedeemouvidos, em 14.08.17

"Se odeias uma pessoa, odeias algo que faz parte de ti. O que não é parte de nós, não nos perturba."                                                                                                                         Hermann Hesse

publicado às 16:45



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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