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O Murmúrio da Água

por naomedeemouvidos, em 29.07.18

.

 

   O caminho de terra amarelecida serpenteava por entre o tapete verde manchado de folhas secas e estaladiças que, ao pisar, libertavam um intenso cheiro a Outono. As árvores semi-nuas ofereciam, languidamente, os seus ramos à brisa soalheira da tarde que com eles dançava num vibrante e alegre corrupio.

   Caminhava devagar. Acenando aos pássaros e aos esquilos, detendo-se um momento mais nas derradeiras folhas, briosas do seu ar, que teimavam em manter-se agarradas aos caules, viçosas, vermelhas, ostensivamente belas, enchendo o ar de contrastantes perfumes, numa luxuriante orgia de odores intensos. Enquanto as admirava, surgiu-lhe ao caminho um pequeno riacho encimado por uma elegante ponte de madeira, em arco. Surpreendeu-se; nunca, até aí, o vira. Correu para a água clara e cristalina que escorria tranquila sob a romântica ponte e depressa tratou de mergulhar os pés pequenos e delicados naquele manto fresco, brilhante e vivo. Brincou com os seixos, lisos, de diferentes cores, formas e tamanhos, alheia ao passar das horas e às variações das sombras, ora espreitando, ora fugindo, em constante mudança.

   O tempo foi escoando, derramando-se esquivo e sorrateiro até a envolver devagar e suavemente, como uma fina teia de aranha. Alarmada, deu-se conta do inusitado silêncio que pairava no ar. Não se ouviam os pássaros, nem os esquilos. Os arbustos não se agitavam, como antes, e os pavões, que já tinha visto passar arrastando as suas majestosas mantilhas azuis e verdes, pareciam ter existido apenas na sua lembrança.  Como um quadro mal pendurado, subitamente desajustado ao redor, a paisagem alterara-se, transfigurara-se, como uma tela pintada e toscamente sobreposta na mancha verde da floresta. Um arrepio agoirento fê-la levantar, em sobressalto.

   Ergueu os olhos para as copas despidas das árvores. Uma neblina densa ameaçava irromper em fúria por entre os troncos quietos e mudos. Não queria que o fim de tarde, sempre tão adiantado nesta época, a apanhasse ainda no coração daquele bosque encantado. Que imprevidente fora! Teria muito que explicar, quando chegasse a casa!

   Sentiu outro arrepio e uma aragem fria afagou-lhe o rosto, de forma insidiosa e sombria. Antes que pudesse voltar-se, em desassossego, uma escuridão profunda engoliu tudo ao derredor. O chão afundou-se como um mar agitado de tempestade e sentiu-se desfalecer como a chama periclitante de uma vela à mercê de um sopro breve e sinistro, os cachos de cabelo doirado impecavelmente dispersos na água fria da corrente, como nenúfares.

 

 ..

 

   Acordou banhado em suor, esgotado. Ainda a ouvia chorar. Os pesadelos eram, agora, menos frequentes, mas ainda o atormentavam. A imagem do corpo a flutuar no riacho, como uma boneca de trapos, materializava-se, frequentemente, nas suas memórias, desde o dia em que a encontrara.

   Levantou-se e tomou o pequeno-almoço, antes de se perder entre as flores do jardim e as verduras da horta. Havia que preparar as encomendas, pois logo começaria a chegar a freguesia. Deixara de ir à vila para poder dedicar mais tempo à edificação, abnegada, do seu santuário, mas os seus produtos eram frescos e a oferta não era muita, entre os habitantes, pelo que, as pessoas subiam até à ilha, para se abastecerem. Na realidade, muitas vinham impelidas por uma curiosidade mórbida, mas a azáfama fazia-lhe bem. Distraía-o dos sonhos maus e das alucinações constantes dos últimos meses.

   Por vezes, os sussurros tornavam-se insuportáveis e cuidar da terra ajudava-o a manter alguma serenidade. Isso e cuidar do tétrico relicário. Sabia que eram muitos os que o consideravam louco, mas não o incomodavam e ele também não. Desde que o deixassem sozinho com as suas lembranças e as suas bonecas.

   Nos dias mais curtos, notava-a mais inquieta. Os lamentos cresciam e um burburinho de vozes enfurecidas, em uníssono, ameaçavam enlouquecê-lo. As noites tornavam-se demasiado longas, os passos urgentes e desordeiros, ameaçadores. Tapava os ouvidos e entoava as suas preces, baixinho, mas, sabia que precisava de lhe acalmar o espírito, por isso, as recolhia e as usava como ornamentos que outros viam como macabros, mas não ele. Muitas vezes, mais recentemente, costurava-as ele, enchia-as de trapos velhos e dava-lhes forma, embalado pela recordação dos seus cabelos loiros e do corpo franzino de menina.

   O culto tornara-se parte reclamada da sua rotina e surtia efeito. Acalmava-o a ele, mas, sobretudo, apaziguava-a a ela. Não sabia bem quando iniciara, como iniciara, a inusitada jornada. Depois de começar a ouvi-las, seguramente. As vozes. E os passos miúdos e ansiosos, quando deambulava pelo bosque, sozinha, atordoada, pisando as folhas secas e murmurejando as canções de embalar que aprendera da mãe. Pressentir a voz da mãe sempre tivera o poder de a acalentar, como se nenhum mal pudesse medrar desde que fosse capaz de continuar a ouvi-la.

   Nesse dia, acabara de costurar outra linda boneca de trapos. Contemplou-a longamente, admirando a arte que fora aperfeiçoando ao longo do tempo. Era maravilhosa! Encantá-la-ia! Mais do que a última, menos do que a próxima. Assim se ia dando conta do aprimorar da sua obra, a cada etapa, pelo silêncio reparador que se seguia. As longas noites permaneceriam tranquilas durante algumas semanas, cessariam os passos e os murmúrios aflitos e incansáveis. E, desejosamente, deixaria, por algum tempo, de escutar a corrente apressada e caprichosa, implacável como uma tormenta.

   Sim, estava linda! Sabia, exactamente, onde colocá-la, mas, haveria tempo amanhã. Por ora, precisava de descansar e dispor prazerosamente do raro sossego da noite.

 

...

 

   A lua enchia o céu limpo, imenso, derramando a sua luz prateada como um manto de seda macia que escorria, indolente, pela paisagem adormecida.

   Viu-se a entrar na floresta, descalço e obediente, pois há muito que lhe pertencia. Percebia a urgência do seu apelo. Ele também estava muito cansado. Não tinha tanta pressa, mas rendera-se à agonia dela e consumira-se. Chegara a hora e sentia-se em paz.

   A corrente estava calma, desmaiada entre os seixos polidos como um amante saciado. Os pássaros chilreavam em notas aliviadas e harmoniosas, sem o habitual prenúncio de morte, que ironia! Talvez pudesse ficar; cuidando dos esquilos, voando com os colibris e admirando os pavões com as suas magníficas caudas garridas de penas aveludadas. Mas, não. Ela reclamava-o e ele pertencia-lhe desde o instante em que a descobrira, repousando nas águas frias do riacho, como uma eterna e adorável bela adormecida.

   Um calor doce e tranquilizador envolveu-o com deleite. Abandonou-se à volúpia da morte e permitiu-se repousar, por fim.

 

(Inspirado na lenda da ilha das bonecas, México)

 

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