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"Leaving Neverland". Quando amamos os monstros.

por naomedeemouvidos, em 24.03.19

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Acho que nunca tive ídolos. Ou, pelo menos, nunca vivi de forma carnavalesca, delirante quase, aquele êxtase arrebatador que leva gente aparentemente normal a gritar e a arrancar cabelos à vista do cantor preferido, da banda do momento, do atleta sobre-humano, daquele actor ou actriz, do tal concerto de uma vida. Imagino que se todos os fãs fossem tão comedidos como eu a vida das estrelas seria bastante menos hiperbólica. Não é que não seja capaz de maravilhar-me com a sua arte, pelo contrário. Simplesmente, não ao ponto do absoluto histerismo que parece toldar a razão até dos mais capazes. Talvez por isso, ontem, ao assistir ao recente documentário da HBO que dá cara e voz a dois dos homens (e aos seus familiares mais próximos) que acusam Michael Jackson de abuso sexual, à época em que, ainda crianças, viveram intensamente o seu conto de fadas, como lhe chamaram, me tenha sobretudo chocado a aparente normalidade daquelas famílias, principalmente, daquelas duas mães que dormiam no quarto ao lado daquele em que, de forma consciente e consentida, deixavam que os seus filhos pequenos partilhassem a cama com o ídolo adorado, a perfeita personificação dos seus maiores sonhos, sem nunca, aparentemente, duvidarem, por um momento que fosse, da suposta candura da história maravilhosa.

 

Os relatos são tão intensos, tão brutalmente sinceros, tão penosamente serenos que se tornam absolutamente assustadores pela facilidade com que vemos ser possível ignorar todos os sinais – mesmo os mais escandalosamente evidentes – de que algo de muito errado se passa só porque o monstro é, simultaneamente, aquela espécie de deus – até ali, inatingível – que  encarna todos os nossos sonhos e desejos mais profundos. O delírio de viver o tal conto de fadas, lado-a-lado com o príncipe encantando, de igual-para-igual, esmagou, para aquelas crianças e suas famílias, qualquer possibilidade de ver para além da luz maravilhosa e ofuscante daquela estrela popular e adorada. E restam poucas dúvidas de que aquelas "coisas sexuais que aconteciam", entre Michael Jackson e, pelos menos, aqueles dois meninos, acontecessem exactamente assim, como diziam. Com a bênção das mães dormindo num quarto ao lado, num piso abaixo, na Terra do Nunca, num qualquer hotel de luxo, orgulhosas e felizes pela enorme ventura de se terem cruzado com a sorte, a dada altura da tenra vida dos seus filhos. É só um relato, é um facto. Ou dois. Mais, se tivermos em conta os das esposas, depois; os dos dois irmãos de Wade; das duas mães sufocadas pela culpa. Da avó de Wade. O testemunho de Wade Robson é o que mais me impressiona.

 

Impressiona, também, a forma quase indecorosamente romântica como James Safechuck e Wade Robson vão relatando o desenrolar da relação que mantiveram com seu ídolo. Os seus testemunhos não contêm vestígios de ódio ou raiva. Adoravam aquele homem e a vida que com ele partilhavam até serem dispensados e substituídos por outros miúdos. Chegaram a adultos calando os abusos que, durante muito tempo, não viram sequer como abusos. Wade Robson – que se tornou um coreógrafo famoso e com bastante sucesso (trabalhou com outros artistas, como Britney Spears), pelo menos, até certo ponto, parece continuamente enamorado de Michael Jackson até à altura em que atinge, finalmente, o colapso emocional.

 

Continuo, até ao fim, suspensa da surpresa, da imensa facilidade com que se acredita no que se quer. Principalmente, quando julgamos maiores do que nós aqueles em quem cremos. A dada altura, chego a imaginar que, pelo menos, as mães, simplesmente, não terão querido ver. Não pelo facto de serem mães – como se esse estatuto nos devesse tornar infalíveis na protecção dos nossos filhos (seria tão simples) – mas porque era demasiado doloroso aceitar a horrível verdade. Enquanto os filhos conseguissem negar, talvez tudo não tivesse passado de um pesadelo disforme e macabro. Ninguém o diz assim, no documentário. Sou eu que o imagino, depois de as ouvir. E, sobretudo, depois de James e Wade, cada um à sua maneira, relatarem a dificuldade em lidar com essa nova realidade; não consegui abraçá-la ou ainda estou a trabalhar nisso. Como se as mães tivessem sempre a obrigação de perceber os monstros escondidos, à espreita, à espera da melhor oportunidade de atacar. Teriam, aquelas? É fácil pensar que sim. Eu penso que sim. Mas, penso também, que talvez seja mais fácil ainda pensar que Michael Jackson não era um monstro qualquer. A maior parte dos que admiram a sua arte, continuará a adorar o artista. Quem disse que a justiça é igual para todos?

 

Barbra Streisand afirmou, numa entrevista, que acredita nas denúncias de Wade Robson e James Safechuck, mas que Michael Jackson não os matou, afinal, os dois são casados, actualmente, e têm filhos. E, para que não restem dúvidas, to be crystal clear, que há palavras que nunca bastam à primeira, Streisand terá esclarecido, depois, que não há qualquer situação ou circunstância em que seja O.K., para quem quer que seja, tirar partido da inocência das crianças.

 

Não sei se Michael Jackson os matou. Sei que haverá várias formas de morrer.

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publicado às 09:35



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"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

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