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Os Novos Maestros

por naomedeemouvidos, em 06.12.19

“O rock ativa a droga, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto. A indústria do aborto, por sua vez, alimenta uma coisa muito mais pesada, que é o satanismo. O próprio John Lennon disse abertamente, mais de uma vez, que ele fez um pacto com o diabo”.

 

Há um novo Dante. Brasileiro, maestro, adepto de teorias da conspiração, e acaba de ser escolhido para presidente da Fundação Nacional de Artes. Dante também acredita que a Terra é plana, claro, e tem um canal de youtube onde esclarece os visitantes sobre o que há de melhor na música e não só. Por exemplo. Nem todo o rock é mau: parece que gosta dos Metallica e da banda brasileira Angra (o baixista da banda, entretanto, já veio dizer que não gosta assim tanto deste Dante) e considera que aquele tipo de música é bom quando se está a conduzir e nos dá sono; o que me faz pensar que, ainda assim, o maestro Dante é melhor pessoa do que eu, que não vejo nada de bom nas doutrinas que a criatura prega e alimenta.

 

Na Índia, mais uma mulher foi violada e morta por um grupo de selvagens que se acham homens. Para minorar assim uma espécie de dano colateral, um realizador indiano defende que as mulheres deviam andar com preservativos para o caso de serem violadas e que as violações não violentas, seja lá o que isso for, deviam ser legalizadas. “Ao satisfazer o desejo sexual, os homens não matariam as mulheres.”

Há soluções tão simples que não imagino como demoramos tanto tempo a percebê-las. É um descanso saber que, afinal, sempre há homens capazes de acumular duas funções.

Entretanto, não sabia bem como reagir à voz destas mulheres – veja-se no que transformaram o movimento #MeToo –, mas talvez não haja muita margem para dúvidas. Não, “a culpa não é minha, nem onde estava, nem o que vestia”! É bom não nos esquecermos disto. Homens e Mulheres.

 

Os EUA preparam-se para entregar a América a Donald Trump. Numa bandeja forjada na derrota inevitável e amplamente anunciada do processo de destituição. Não há número suficiente de Democratas para provocar a demissão do presidente, nem Republicanos com vontade de deixar cair o ídolo, ainda que, em surdina, lhes possam restar poucas dúvidas sobre a gravidade dos actos praticados. Richard Nixon está prestes a tornar-se um poço de virtudes, ou, no mínimo, um exemplo de nobreza de carácter.

Já sabemos que Donald Trump pode, se quiser, matar alguém a tiro e não perder votos. Resta saber até onde chegará a piada. É de uma piada que se trata, afinal, embora o meu sentido de humor ande péssimo. Nada destes disparates que viraram mantra na nova política séria, altamente democrática e nada diplomática é para levar a peito. Só ao peito, como um crachá de protesto. Não passam de umas bocas inconsequentes para entreter o público. Para que se foram os Democratas meter nisto, nomeadamente, Nancy Pelosi, sabendo, à partida, que dificilmente o presidente será destituído e que, assim sendo, a sua vitoria servirá, apenas, para aumentar desmesuradamente a sua sensação de impunidade? Imagino que seja porque chega uma altura em que já nada é igual. Donald Trump tem vindo a adulterar todas as regras básicas da democracia, recusa qualquer tipo de escrutínio, insulta todos os que ousam criticá-lo e trata qualquer adversário político como um inimigo pessoal que pode humilhar à vontade, com a cumplicidade dos seus apoiantes e de alguma comunicação social que, ora o veneram, ora são apenas imbecis – como perguntar a Nacy Pelosi se ela odeia o presidente. Agora não se pode discordar, duvidar, questionar, argumentar, rejeitar. Só odiar. Tudo é aceitar ou odiar.

 

De modo que, de momento, continuo a preferir o diabo de John Lennon ao deus dos beatos que prestam culto a trumps e a bolsonaros. Quanto a Dante, escolho o do outro Inferno.

 

E, sim, por cá há problemas maiores, porque são nossos, mas não me apetece. Como estamos em véspera de fim-de-semana, deixo só algumas imagens de que gosto. Algures entre o céu e o inferno.

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https://www.natgeo.pt/fotografia/2018/09

publicado às 11:35

Apesar de...

...até à derrota final?

por naomedeemouvidos, em 27.11.19

Tenho ouvido os argumentos de quem vota em não-democratas (travestidos de políticos sérios anti-regime) apesar de. Os brasileiros de quem gosto e com quem falo (o meu universo é algo limitado, pelo que, não são muitos e, claro, a amostra não é representativa; mas são “gente boa”, realmente, o que me preocupa ainda mais), votaram e/ou apoiam Bolsonaro apesar do que ele diz, porque estavam – estão – fartos da corrupção do PT, nomeadamente, do PT de Lula, e da violência bruta, gratuita, que manda nas ruas das principais cidades, onde a polícia está, ou a mando do poder dos gangues, ou impotente para impor a ordem necessária. A pergunta mais urgente entre quem tem filhos pequenos é como reagiríamos se os nossos filhos não pudessem andar na rua em segurança, se se fizessem transportar em carros blindados (os que podem) e, ainda assim, não sabermos se vão chegar a casa, ao fim do dia. Parece difícil argumentar contra isto. Recordo, apenas, que, nos EUA, foi esta uma das recentes campanhas de regresso às aulas, realizada por pais das vítimas dos tiroteios de 2012 na escola primária Sandy Hook. Mais um. Sem contar os que já ocorreram depois disso, mais os respectivos mortos. Mas parece que a economia americana tem crescido a bom ritmo. Ao mesmo ritmo a que passamos a tolerar o intolerável, a bem da prosperidade dos impolutos anti-sistema que hão-de salvar o mundo. O seu.

 

Adiante. Na outra ponta da defesa de Bolsonaro apesar das besteiras que ele diz está a sua aparente incapacidade para implementar as tais reformas que o país precisa. Eles não deixam. Eles são os membros do Senado, empenhados em boicotar todas as tentativas do capitão para tornar o Brasil um país livre dos pecados do PT. No limite e em desespero, é, por isso, preciso uma quase ditadura mais ou menos assumida, um chove-e-não-molha de imposições de força e passagens bíblicas, para levar os cidadãos brasileiros ao bom caminho. Reposta a ordem, resgatar-se-á a democracia, com ou sem Messias, dependendo do grau de conversão até lá.

 

Não pretendo saber o que é melhor para o Brasil. Seria igualmente arrogante e absurdo. Às vezes, nem sei bem o que é melhor para Portugal, que percebo eu dos dramas de viver naquele país, que visitei uma única vez, em férias, já lá vão mais de doze anos. E, apesar das discussões acesas, não sou a favor de Lula. Mas, sou contra, absolutamente contra, tudo o que representa gente como Jair Bolsonaro, Donald Trump, Viktor Orbán, e os outros todos da lista onde só não incluo, de momento, o nosso Ventura, porque não sei bem se o homem é tão perigoso como o pintam. Para ser vil, perigoso e constituir uma ameaça séria à Democracia, é preciso parecer isso tudo, e o André está mais próximo de uma espécie de experiência. Uma aventura. Eu sei…não teve graça.

Incluo, porém, nessa lista negra Santiago Abascal, o líder do Vox, para quem, aparentemente, a violência não tem género e, por isso mesmo, pela primeira vez em catorze anos, em Espanha, não houve unanimidade institucional para aprovar declarações de condenação contra a violência sobre as mulheres, por altura do 25 de Novembro. Podia ser só um pormenor – um mais – para não ser levado a sério. Afinal, esta gente só diz besteiras. Não querem fazer mal, só querem afrontar o poder instituído e acabar com as injustiças sociais. No processo, por vezes, excedem-se no verbo, sempre sem intenções infestas.

 

Creio que ninguém ignora que essas injustiças sociais existem. A nossa conivência – por actos ou omissões – com esse estado de coisas também é uma afronta à Democracia, um atentado contra a Liberdade que queremos defender com unhas e dentes, de preferência, sem levantar o rabo do sofá. É, obviamente, desse conluio confortável com os abusos de poder que se aproveitam estes estrategas da “desacreditação”, da negação do óbvio e da verdade dos factos que substituem por todas as alternativas necessárias para que a sua mensagem passe. Resta saber quanto tempo vai a nossa liberdade resistir à usurpação dos nossos ressentimentos em prol de uma guerra que já deixou de ter regras. Acredito que a manutenção da nossa democracia (também) depende disso.

publicado às 11:48

Inimigos Bestiais.

por naomedeemouvidos, em 28.08.19

“Tact is the art of making a point without making an enemy.”

Como acontece frequentemente com diversas citações, a frase vastamente atribuída a Isaac Newton é capaz de não ser dele. Será um outro Newton, eventualmente, uma outra frase com sentido idêntico. Para o caso, não interessa nada. O tacto, a diplomacia tornaram-se conceitos obsoletos. O que se espera, agora, de gente com capacidade de liderança e competências políticas em geral e presidenciais em particular é que seja capaz de dizer o que pensa, sem rodeios, sem hipocrisias travestidas de tactos chatos e falinhas mansas. Deixem Trump ser Trump, Bolsonaro ser Bolsonaro, e por aí afora. Foram escolhidos democraticamente e a democracia ainda é o melhor regime do mundo, não é? Não se pode suspender a democracia, mas poder-se-á suspender um parlamento. É capaz de não ser grave.

Há tanta coisa a acontecer que me falta a racionalidade necessária para acompanhar. Acabei de chegar de férias e já não tenho idade para mudanças de ares súbitas. Vinha falar da Amazónia, da sensibilidade de Bolsonaro e do seu enorme sentido de estado, de insultos escabrosos e pedidos de desculpa, mas, pensando melhor, vou repousar mais um pouco…porque, apesar de tudo, eu mereço.

publicado às 10:54

Baratas e outras pragas. Pô!

por naomedeemouvidos, em 07.08.19

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Olho com espanto e nojo para a figura do actual presidente dos EUA fingindo sentir compaixão pelas vítimas e familiares das vítimas da mais recente carnificina que atingiu o país. Bobo ridículo conseguiu – como não? – enganar-se no nome de uma das cidades atingidas pela tragédia que o próprio atiça com a leviandade burlesca e própria dos imbecis. Parece que é preciso habituarmo-nos. Os defensores e apoiantes acérrimos de Donald Trump riem, aplaudem, a economia americana cresce e diz-se que o homem tem carisma...pegajoso, mas há quem aprecie. Os outros, afinal, eram, são, um bando de corruptos, hipócritas, malfeitores, abusadores e restantes eteceteras de que Trump também goza, mas, a esse, permite-se.

Entretanto, nesse mesmo Texas atingido a tiro em nome da luta contra a invasão mexicana a que Trump já dedicou 2000 anúncios, dois agentes da polícia a cavalo levaram um prisioneiro negro puxado por uma corda até à esquadra, num “embaraço desnecessário”, mas, “sem qualquer má intenção”. Que alívio.

 

Animado pelo sucesso e glamour do sofisticado andar de cima das américas, o vizinho Bolsonaro, esse Messias desejado, adorado, adulterado, anseia por passar da mímica aos actos de morte encomendada, consentida e perdoada. Os dedinhos em riste – que já deram origem a outro fantoche idêntico, mas devidamente armado – passarão a fazer mira real aos criminosos escolhidos no acaso do momento, pois, como é sabido, todos os polícias são puros, todos os criminosos são abjectos e a gente de bem distingue-se a olho nu, despidos que somos, brancos, santos e bons, de preconceitos de qualquer tipo. Parece que tem que ser assim.

Entre os poucos brasileiros que conheço, não há nenhum que não apoie Bolsonaro. Alguns descaradamente, outros com alguma vergonhada escudada no indiscutível flagelo da criminalidade violenta, no medo de que os filhos morram no caminho que separa a casa e a escola.

Não vou fingir que sou completamente surda a esses argumentos. Na única vez que visitei o Brasil, ouvi - na companhia do meu marido e de uns amigos nossos espanhóis que aí viviam, na altura - um tiroteio a alguns metros do bar em que passávamos um bom serão. Os filhos desses amigos já tinham sido assaltados mais do que uma vez, nesse tal trajecto inocente. Mas, acredito profundamente que há, tem de haver, uma diferença entre o Homem e a Besta, entre a civilização e a barbárie. Não achamos assustadoramente primitivo amputar a mão ao ladrão, condenar o infractor a um castigo igual na forma à do crime cometido, como se pratica em muitos dos países “de cultura inferior”?

 

Por falar em culturas superiores, em Itália, Matteo Salvini agradeceu à Virgem Maria a aprovação do decreto que regulamenta o encerramento dos portos italianos para navios de ONG que socorrem imigrantes no mar e estabelece multas que poderão atingir um milhão de euros no caso de violação desta norma. Salvar vidas é ilegal, graças a deus.

 

Por cá, está tudo muito mais tranquilo. Continuamos reféns das ameaças dos motoristas e do ilustre ex-desconhecido Pardal Henriques, do familygate socialista e do absurdo de interpretar leis literalmente. Toda a gente sabe que as leis devem ser interpretadas alternadamente, consoante quem ocupa os lugares do poder.

publicado às 12:13

Ahmad Rahman

por naomedeemouvidos, em 09.05.19

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Aos oito meses, Ahmad foi atingido a tiro numa perna, na sequência de um conflito entre forças governamentais afegãs e elementos dos Taliban. A perna ferida do menino viria a ser amputada. 

Este é o vídeo em que Ahmad celebra a possibilidade de voltar a andar, a dançar, utilizando uma prótese.

 

Entretanto, no Brasil, crianças e adolescentes vão poder praticar tiro sem (até agora necessária) autorização judicial: passará a bastar o aval dos pais, ou de um responsável legal. O porte de arma passa, também, a ser mais fácil para "políticos eleitos, servidores públicos que trabalham na área de segurança pública, advogados em atuação pública, caminhoneiros, oficiais de Justiça, profissionais de imprensa que atuam em coberturas policiais, agentes de trânsito, entre outras categorias".

 

Como prometido, Bolsonaro junta-se, assim, ao amigo Trump nessa cruzada pela erradicação da violência armada, armando as potenciais vítimas. Dos alunos aos professores, dos políticos eleitos a outras categorias. Finalmente, alguém com ideias sobre como acabar com os tiroteios nas escolas, ou a violência nas ruas. É mais do que uma vergonha, embora, num caso e no outro, possam ser coisas diferentes.

 

 

 

publicado às 08:41

Não invocar o nome de Deus em vão.

por naomedeemouvidos, em 23.03.19

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Da última vez que verifiquei, ainda era um dos “dez mandamentos de Deus”. Não invocar o seu santo nome em vão. Mas, os tempos andam estranhos, entranham-se, mais ou menos, nas nossas novas rotinas, nas novas verdades, nas novas denominações do bem e do mal, do certo e do errado, do normal e do absurdo. O tempo é de guerra. Não se limpam armas, descarregam-se, antes, com fúria e sem remorsos, sobre aqueles que nos ameaçam, que com fastio nos maçam, sobre os que se atrevem a atentar contra identidades e supremacias. Brancas. Sejam quais forem. E, se não for isso, uma outra coisa qualquer coisa, uma outra causa, um novo ardil erguido pelo punho do mais puro ódio, arremessado contra todos os impostores que ousem atravessar-se, incautos ou conscientes, nesse louco caminho pela busca de um impiedoso sentido, sem sentido algum.

 

Pois, no delírio de alguns, Deus deve estar prestes a descer à Terra. Pela segunda vez. Desta feita, encarnado, salvo-seja, no meio da política, interna e externa, a Norte e a Sul, no seio de homens devotos e justos, como o Jair e o Donald, como Ele, empenhados em julgar os vivos, somando mortos, em nome da salvação de uma qualquer agenda há muito capturada pelos interesses (nada) obscuros dos que se dizem ao lado da liberdade e da democracia, as mesmas que profanam em enlevado pecado e sem decoro, enquanto acusam de fake todas as news que não reconheçam a sua imensa glória.

Professa, então, Mike Pompeo que esse Deus em que aquele acredita, amando-o e adorando-o sobre todas as coisas, como piedoso cristão, terá feito Donald Trump presidente dessa enorme, again, nação americana para que este possa salvar o povo judeu, protegendo-o do Irão, praise the lord. A sua fé tê-lo-á convencido desse bem-aventurado milagre da era moderna. Como que a prová-lo, Trump já reconheceu (pelo menos, até ao próximo tuite) a soberania de Israel sobre os Montes Golã – a vida são mais do que seis dias – e, entretanto, pelo sim, pelo não – não vá aquela danada miúda sueca surripiar-lhe o Nobel, que tanto trabalho lhe deu encomendar ao primeiro-ministro japonês – Trump também decidiu levantar, um dia depois, as sanções impostas à Coreia do Norte; o homem gosta do presidente Kim, quem diria… e, afinal, Deus também disse que devemos amar os nossos inimigos, o que já nem será bem o caso.

 

É reconfortante perceber o mundo, sabiamente guiado por abençoados líderes, à altura de todas as intempéries – ainda mais, agora, expurgada que está a miserável farsa do aquecimento global –, mundo esse que entra, finalmente, no bom caminho, nem por isso longo, pois que há-de terminar, logo ali, na Antártida, em frente ao muro de gelo onde o Terra termina, para glória de muitos, mas, principalmente, dos iluminados teóricos dessa coisa a que parece que chamam “conferência internacional da terra plana”. Seria em maiúsculas, se se desse o caso de valer pena a deferência. Bendita seja a liberdade de expressão, e benditas sejam todas as teorias que dela brotam, em arrojada clarividência.

 

Já é sábado. Pela décima nona vez, os "coletes amarelos" intentarão semear a violência e o caos pelas ruas de Paris. O protesto espontâneo (ou talvez não) contra o aumento do preço dos combustíveis - a que, rapidamente, se somou uma lista maior de reivindicações mais ou menos justas - converteu-se  numa espécie de mini-guerra civil, onde uma turba de arruaceiros apostados em destruir tudo o que surgir no seu caminho, sábado após sábado, vai procurando esgotar o Governo de Macron. Ou, apenas, promover a desordem, a arruaça, espalhar outro pequeno inferno. Tudo a bem da luta a favor dos direitos dos mais desprotegidos, claro está. Afinal, o que são uns carros incendiados; uns monumentos esventrados; umas montras partidas; umas lojas pilhadas; uns quantos de mortos? Se forem ricos, tanto melhor. 

publicado às 09:10

O (novo) Reino de Deus.

por naomedeemouvidos, em 02.01.19

    De repente, o Brasil transformou-se numa espécie de gigantesco templo dessa seita que dá pelo nome de Igreja Universal do Reino de Deus, onde digníssimos pastores andam de jacto privado, instrumento maravilhoso para a evangelização do mundo, pois até Jesus Cristo não andaria hoje montado no burro, se estivesse fisicamente na Terra. É capaz.

    Seja como for, o santíssimo, devotíssimo e duas vezes messiânico Bolsonaro, esse proclamado e aclamado mito, tomou, finalmente, posse como 38º Presidente do Brasil. Ontem, juntamente com a amantíssima mulher, desfilou num descapotável, sob a graça de Nosso Senhor, ela de Grace Kelly, ele igual a si próprio, logo, medonho, sem alfaiate que lhe valha, porque é uma fealdade também superlativa que brota de dentro e jorra, putrefacta e incontida, conspurcando tudo em seu redor. Bolsonaro é a voz do povo brasileiro, que lhe deu 58 milhões de votos para a defesa dos valores da pátria e para “restabelecer os padrões éticos e morais que transformarão nosso Brasil”. O de alguns, pelo menos. “Bíblia, Boi e Bala”, a nova Santíssima Trindade, em nome da qual Jair baptizou o novo Brasil, resgatado do Inferno, da corrupção e, principalmente, das malhas do PT. Os fiéis exultam, os impuros definham, como merecem.

 

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    Um pouco mais acima, ainda assim, abaixo de Deus, outro patriótico Salvador elogia o discurso. Pelo menos dois homens valentes e corajosos empenhados em construir, cada um, uma nação à sua imagem e semelhança, “sem discriminação ou divisão”, o primeiro, despedindo e insultando todos os que se lhe opõem, o outro, provavelmente, disparando as armas que simula empunhar, pelo menos, até que a evocação da “Ordem e o Progresso” legitime, de vez, o direito à legítima defesa por parte do “cidadão de bem”. E não há cidadão de bem que não apoie Bolsonaro, que foi eleito com a “campanha mais barata da história”. Imagino que, se houver dúvidas, ou dívidas, os acertos de contas ficarão a cargo da nova primeira-dama, não fosse o novo presidente um homem irrepreensivelmente impoluto, que não tem tempo de sair e, sobretudo, não quer esconder nada, não é essa a intenção.

    Abraham Lincoln disse, um dia, que quase todos os homens são capazes de suportar a adversidade, mas, que se alguém quiser testar o carácter de um homem, deve dar-lhe poder. Pois, chegou o tempo de testar, não o carácter de um homem, mas o de nações inteiras. E a resistência de um regime que deixou de ser o melhor, senão para todos, para muitos. Demasiados.

publicado às 17:47

Fact-checking: para quê e para quem?

por naomedeemouvidos, em 07.11.18

    Chegou o Polígrafo, um site de fact-checking apostado em ajudar a salvar a democracia sequestrada, esventrada, pelas fake news. Em Portugal, é algo relativamente novo, mas existe há mais de uma década nos EUA.

   Numa entrevista ao Expresso, o jornalista Fernando Esteves, responsável pelo novo projecto em Portugal, afirma que no último debate entre Donald Trump e Hillary Clinton para as presidenciais americanas, “o Politifact teve 100 milhões de pageviews” e que “os jornais norte-americanos fizeram fact checking em direto dos debates e percebeu-se que é um tipo de jornalismo que pode desempenhar um papel fundamental na purificação das democracias”. Mas Donald Trump é, actualmente, o presidente dos EUA, por isso, pergunto-me: estão, as sociedades democráticas, realmente interessadas na verdade dos factos? Jair Bolsonaro venceu as eleições presidenciais no Brasil à custa, asseguram-nos, das perversas e prolíferas notícias falsas e, no entanto, muitos dos seus defensores alegam que ele não é nada assim, é só da boca para fora. Por isso, volto a perguntar? A quem interessa o fact-checking?

   “O fascismo cresce onde as pessoas são convencidas de que toda a gente mente”, afirmou Madeleine Albright. E a ciência já disse que o nosso cérebro de adapta à desonestidade. Tendo a acreditar. Basta observar a facilidade com que acabámos a normalizar (quase) todas as boçalidades proferidas, por exemplo, pelos novos nacionalistas salvadores da pátria e seus obedientes vassalos. Enquanto andamos a discutir se às meninas ainda é permitido preferir o rosa ao azul ou as barbies aos carrinhos, se a um homem ainda se consente que segure a porta a uma mulher, se a ambos ainda se tolera a crença na biologia do género e se as touradas são ou não suficientemente civilizadas para efeitos de IVA, eis que surgem esses magníficos, magnânimos, homens e mulheres, autênticos e justiceiros, narcisistas e fanfarrões, dispostos a combater o sistema a que juram não pertencer, embora dele tenham vindo a beneficiar mais ou menos descaradamente.

    A mentira na política (e não só) não é nova. E, face a essa fatal inevitabilidade, passámos a poder escolher alegremente e sem censura a mentira que queremos viver. Assim uma espécie de se não podes vencê-los junta-te a eles, até regressarmos, por culpa e vontade próprias, à idade das trevas.

publicado às 11:37

Vou continuar a indignar-me, posso?

por naomedeemouvidos, em 04.11.18

    Se me é permitido, vou continuar a indignar-me. Violentamente e todos os dias, se for preciso. Recuso associar-me à normalização do mal e à banalização do absurdo. Um fascista é um fascista, é um fascista. Quem partilha dos valores do fascismo, não se esconda em subterfúgios. Quem não quer viver a democracia em pleno, não pretenda instigar a sua intermitência, descontinuando-a quando convém. Porque, talvez, nunca convenha a todos concomitantemente.

    Os EUA estão em campanha. Na próxima terça-feira há eleições intercalares. Ao seu estilo, Donald Trump continua a agitar as massas mentindo, mentindo e mentindo e alternando discursos consoante os ventos, naquela linguagem básica e paternalista que continua a colher: vem aí uma caravana cheia de malfeitores, criminosos em série, apostados em tomar a América de assalto. Se nos atirarem pedras, lembremo-nos que os nossos soldados têm espingardas, portanto, que considerem usá-las. Não nos esqueçamos que à frente da caravana vêm homens fortes e maus, muito maus. Não interessa que tragam milhares de quilómetros nos pés e venham esmagados pelo cansaço, porque trazem um ror de más intenções na alma. Querem os nossos empregos, na melhor das hipóteses. Na pior, vêm violar as nossas mulheres e matar os nossos filhos. Matar só está permitido aos bons. E, não nos esqueçamos, “grab them by the pussy” também não está al alcance de qualquer um; só dos que têm dinheiro e poder. Pior do que um criminoso rico, só um criminoso pobre, fedorento e estrangeiro.

    Como habitualmente, Donald Trump já veio desmentir-se a si próprio. Afinal, não vamos disparar sobre os migrantes. Vamos só prendê-los pelo tempo que for preciso. A mentira, num democrata, é inadmissível. Num populista, num nacionalista ou num fascista é um meio válido para atingir um fim. A corrupção, num democrata, é vício nojento que urge exterminar, qualquer que seja o meio. Num populista, é expedito; é competência e desembaraço.

    As migrações em massa e descontroladas são um problema sério, efectivamente. Nenhum país tem capacidade de acolher todos, socorrer todos, atender a todos. Mas, acredito que os mecanismos para fazer face a este e outros problemas devem ser encontrados dentro das normas democráticas. Há quem ache que não. Há quem acredite que, o que importa, é ter a economia a crescer e viver sem incómodos e sem sobressaltos. Se, para isso, for necessário suspender ou, mesmo, eliminar a democracia, seja. Tudo em nome da segurança. Ou será só em nome do conforto pessoal? E, é mau, querermos paz para os justos e justiça para os criminosos? É mau ansiar por bons empregos, bons ordenados e uma vida confortável e próspera, principalmente, quando pagamos os nossos impostos? Claro que não! Como é evidente, essa não é a questão. Mas, o mundo não é perfeito e não é o nosso quintal. A não ser que passemos todos a defensores da justiça por mãos próprias e pela supressão, quem sabe, pelas armas, de todos os que perturbam o nosso sossego como mosquitos, viver em sociedade dá trabalho e, muitas, muitas vezes, traz chatices.

    Voltemos ao Brasil e a Bolsonaro (sim, também há Maduro e outros que tais; infelizmente, o mundo está cheio de gente que só olha para o seu umbigo e que só quer o poder a qualquer preço, subjugando tudo e todos à sua tirania). Fiquemos só pelos bens intencionados; pelos que acreditam que ele não é tão mau como parece e que Sérgio Moro – o mesmo que jurava a pés juntos que jamais entraria para a política – está apenas interessado em ajudar o Brasil a preservar a democracia. O que vai acontecer quando, cada brasileiro de bem se sentir legitimado para matar um ladrão, um violador, um assassino? O que vai acontecer quando um polícia brasileiro se sentir impune, democraticamente, para matar um (mesmo não alegadamente) criminoso? Quanto tempo precisaremos de esperar para assistir à instituição da vingança em vez da aplicação da justiça? E, quanto tempo até passarmos, cada um de nós, a ser o alvo?

publicado às 13:31

    Normalizados que parecem estar todos os comportamentos que a civilidade nos habituou a considerar abjectos, haveremos de passar à actualização das gramáticas, com a mesma agilidade moderna e elevada com que já nos mandaram reescrever a História.

    Os novos homens fortes da política, os machos alfa salvadores da pátria, os que falam, curto e grosso, a língua do povo, são, actualmente, os únicos detentores da verdade. Se eles afirmam, é exacto. Se proclamam, é lei. Se exaltam, é culto. Todos os outros mentem. Costumava dizer-se que contra factos não há argumentos, mas, até os factos se tornaram alternativos ou descartáveis. Bolsonaro não tem nada de eticamente reprovável, como as demissões irrevogáveis não têm nada de irremediável. Haja vontade e gente para acreditar. Tal como uma mentira repetida muitas vezes arrisca converter-se em verdade absoluta, inquestionável, qualquer verdade renegada pela voz dos escolhidos esfumar-se-á das memórias dos cordeiros imberbes e adormecidos.

    Propaga-se a verdade e a liberdade – da de expressão à da imprensa – para, logo a seguir, ameaçar e amordaçar quem se atreve a duvidar e a discordar. Faz-se companha sobre os mortos – sumariamente eliminados pelo ódio – sem remorso e sem pudor, porque o espectáculo must go on e alterações de planos são uma maçada desnecessária porque incoerente.

    O povo anseia por sangue e força bruta. Cansou-se de esperar pela justiça, quer tomá-la nas mãos, domá-la e aplicá-la. Implacavelmente, sem hesitações e sem culpa. Apoiada na inocência, asseguram-nos, da retórica primária, inflamada e apaixonada, a turba caminha segura e decidida, mas, pouco formosa, pois não há réstia de graça na barbárie.

    Na cegueira da razão e da verdade de cada um, acabaremos miseravelmente sós, empunhando armas contra os fantasmas que criámos com a ajuda de heróis cobardes, sem capa e sem escrúpulos, mas orgulhosamente prenhos de ódios e escárnios. Infelizmente, não estão sós.

publicado às 12:39


“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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