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Inimigos Bestiais.

por naomedeemouvidos, em 28.08.19

“Tact is the art of making a point without making an enemy.”

Como acontece frequentemente com diversas citações, a frase vastamente atribuída a Isaac Newton é capaz de não ser dele. Será um outro Newton, eventualmente, uma outra frase com sentido idêntico. Para o caso, não interessa nada. O tacto, a diplomacia tornaram-se conceitos obsoletos. O que se espera, agora, de gente com capacidade de liderança e competências políticas em geral e presidenciais em particular é que seja capaz de dizer o que pensa, sem rodeios, sem hipocrisias travestidas de tactos chatos e falinhas mansas. Deixem Trump ser Trump, Bolsonaro ser Bolsonaro, e por aí afora. Foram escolhidos democraticamente e a democracia ainda é o melhor regime do mundo, não é? Não se pode suspender a democracia, mas poder-se-á suspender um parlamento. É capaz de não ser grave.

Há tanta coisa a acontecer que me falta a racionalidade necessária para acompanhar. Acabei de chegar de férias e já não tenho idade para mudanças de ares súbitas. Vinha falar da Amazónia, da sensibilidade de Bolsonaro e do seu enorme sentido de estado, de insultos escabrosos e pedidos de desculpa, mas, pensando melhor, vou repousar mais um pouco…porque, apesar de tudo, eu mereço.

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publicado às 10:54

Baratas e outras pragas. Pô!

por naomedeemouvidos, em 07.08.19

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Olho com espanto e nojo para a figura do actual presidente dos EUA fingindo sentir compaixão pelas vítimas e familiares das vítimas da mais recente carnificina que atingiu o país. Bobo ridículo conseguiu – como não? – enganar-se no nome de uma das cidades atingidas pela tragédia que o próprio atiça com a leviandade burlesca e própria dos imbecis. Parece que é preciso habituarmo-nos. Os defensores e apoiantes acérrimos de Donald Trump riem, aplaudem, a economia americana cresce e diz-se que o homem tem carisma...pegajoso, mas há quem aprecie. Os outros, afinal, eram, são, um bando de corruptos, hipócritas, malfeitores, abusadores e restantes eteceteras de que Trump também goza, mas, a esse, permite-se.

Entretanto, nesse mesmo Texas atingido a tiro em nome da luta contra a invasão mexicana a que Trump já dedicou 2000 anúncios, dois agentes da polícia a cavalo levaram um prisioneiro negro puxado por uma corda até à esquadra, num “embaraço desnecessário”, mas, “sem qualquer má intenção”. Que alívio.

 

Animado pelo sucesso e glamour do sofisticado andar de cima das américas, o vizinho Bolsonaro, esse Messias desejado, adorado, adulterado, anseia por passar da mímica aos actos de morte encomendada, consentida e perdoada. Os dedinhos em riste – que já deram origem a outro fantoche idêntico, mas devidamente armado – passarão a fazer mira real aos criminosos escolhidos no acaso do momento, pois, como é sabido, todos os polícias são puros, todos os criminosos são abjectos e a gente de bem distingue-se a olho nu, despidos que somos, brancos, santos e bons, de preconceitos de qualquer tipo. Parece que tem que ser assim.

Entre os poucos brasileiros que conheço, não há nenhum que não apoie Bolsonaro. Alguns descaradamente, outros com alguma vergonhada escudada no indiscutível flagelo da criminalidade violenta, no medo de que os filhos morram no caminho que separa a casa e a escola.

Não vou fingir que sou completamente surda a esses argumentos. Na única vez que visitei o Brasil, ouvi - na companhia do meu marido e de uns amigos nossos espanhóis que aí viviam, na altura - um tiroteio a alguns metros do bar em que passávamos um bom serão. Os filhos desses amigos já tinham sido assaltados mais do que uma vez, nesse tal trajecto inocente. Mas, acredito profundamente que há, tem de haver, uma diferença entre o Homem e a Besta, entre a civilização e a barbárie. Não achamos assustadoramente primitivo amputar a mão ao ladrão, condenar o infractor a um castigo igual na forma à do crime cometido, como se pratica em muitos dos países “de cultura inferior”?

 

Por falar em culturas superiores, em Itália, Matteo Salvini agradeceu à Virgem Maria a aprovação do decreto que regulamenta o encerramento dos portos italianos para navios de ONG que socorrem imigrantes no mar e estabelece multas que poderão atingir um milhão de euros no caso de violação desta norma. Salvar vidas é ilegal, graças a deus.

 

Por cá, está tudo muito mais tranquilo. Continuamos reféns das ameaças dos motoristas e do ilustre ex-desconhecido Pardal Henriques, do familygate socialista e do absurdo de interpretar leis literalmente. Toda a gente sabe que as leis devem ser interpretadas alternadamente, consoante quem ocupa os lugares do poder.

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publicado às 12:13

Ahmad Rahman

por naomedeemouvidos, em 09.05.19

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Aos oito meses, Ahmad foi atingido a tiro numa perna, na sequência de um conflito entre forças governamentais afegãs e elementos dos Taliban. A perna ferida do menino viria a ser amputada. 

Este é o vídeo em que Ahmad celebra a possibilidade de voltar a andar, a dançar, utilizando uma prótese.

 

Entretanto, no Brasil, crianças e adolescentes vão poder praticar tiro sem (até agora necessária) autorização judicial: passará a bastar o aval dos pais, ou de um responsável legal. O porte de arma passa, também, a ser mais fácil para "políticos eleitos, servidores públicos que trabalham na área de segurança pública, advogados em atuação pública, caminhoneiros, oficiais de Justiça, profissionais de imprensa que atuam em coberturas policiais, agentes de trânsito, entre outras categorias".

 

Como prometido, Bolsonaro junta-se, assim, ao amigo Trump nessa cruzada pela erradicação da violência armada, armando as potenciais vítimas. Dos alunos aos professores, dos políticos eleitos a outras categorias. Finalmente, alguém com ideias sobre como acabar com os tiroteios nas escolas, ou a violência nas ruas. É mais do que uma vergonha, embora, num caso e no outro, possam ser coisas diferentes.

 

 

 

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publicado às 08:41

Não invocar o nome de Deus em vão.

por naomedeemouvidos, em 23.03.19

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Da última vez que verifiquei, ainda era um dos “dez mandamentos de Deus”. Não invocar o seu santo nome em vão. Mas, os tempos andam estranhos, entranham-se, mais ou menos, nas nossas novas rotinas, nas novas verdades, nas novas denominações do bem e do mal, do certo e do errado, do normal e do absurdo. O tempo é de guerra. Não se limpam armas, descarregam-se, antes, com fúria e sem remorsos, sobre aqueles que nos ameaçam, que com fastio nos maçam, sobre os que se atrevem a atentar contra identidades e supremacias. Brancas. Sejam quais forem. E, se não for isso, uma outra coisa qualquer coisa, uma outra causa, um novo ardil erguido pelo punho do mais puro ódio, arremessado contra todos os impostores que ousem atravessar-se, incautos ou conscientes, nesse louco caminho pela busca de um impiedoso sentido, sem sentido algum.

 

Pois, no delírio de alguns, Deus deve estar prestes a descer à Terra. Pela segunda vez. Desta feita, encarnado, salvo-seja, no meio da política, interna e externa, a Norte e a Sul, no seio de homens devotos e justos, como o Jair e o Donald, como Ele, empenhados em julgar os vivos, somando mortos, em nome da salvação de uma qualquer agenda há muito capturada pelos interesses (nada) obscuros dos que se dizem ao lado da liberdade e da democracia, as mesmas que profanam em enlevado pecado e sem decoro, enquanto acusam de fake todas as news que não reconheçam a sua imensa glória.

Professa, então, Mike Pompeo que esse Deus em que aquele acredita, amando-o e adorando-o sobre todas as coisas, como piedoso cristão, terá feito Donald Trump presidente dessa enorme, again, nação americana para que este possa salvar o povo judeu, protegendo-o do Irão, praise the lord. A sua fé tê-lo-á convencido desse bem-aventurado milagre da era moderna. Como que a prová-lo, Trump já reconheceu (pelo menos, até ao próximo tuite) a soberania de Israel sobre os Montes Golã – a vida são mais do que seis dias – e, entretanto, pelo sim, pelo não – não vá aquela danada miúda sueca surripiar-lhe o Nobel, que tanto trabalho lhe deu encomendar ao primeiro-ministro japonês – Trump também decidiu levantar, um dia depois, as sanções impostas à Coreia do Norte; o homem gosta do presidente Kim, quem diria… e, afinal, Deus também disse que devemos amar os nossos inimigos, o que já nem será bem o caso.

 

É reconfortante perceber o mundo, sabiamente guiado por abençoados líderes, à altura de todas as intempéries – ainda mais, agora, expurgada que está a miserável farsa do aquecimento global –, mundo esse que entra, finalmente, no bom caminho, nem por isso longo, pois que há-de terminar, logo ali, na Antártida, em frente ao muro de gelo onde o Terra termina, para glória de muitos, mas, principalmente, dos iluminados teóricos dessa coisa a que parece que chamam “conferência internacional da terra plana”. Seria em maiúsculas, se se desse o caso de valer pena a deferência. Bendita seja a liberdade de expressão, e benditas sejam todas as teorias que dela brotam, em arrojada clarividência.

 

Já é sábado. Pela décima nona vez, os "coletes amarelos" intentarão semear a violência e o caos pelas ruas de Paris. O protesto espontâneo (ou talvez não) contra o aumento do preço dos combustíveis - a que, rapidamente, se somou uma lista maior de reivindicações mais ou menos justas - converteu-se  numa espécie de mini-guerra civil, onde uma turba de arruaceiros apostados em destruir tudo o que surgir no seu caminho, sábado após sábado, vai procurando esgotar o Governo de Macron. Ou, apenas, promover a desordem, a arruaça, espalhar outro pequeno inferno. Tudo a bem da luta a favor dos direitos dos mais desprotegidos, claro está. Afinal, o que são uns carros incendiados; uns monumentos esventrados; umas montras partidas; umas lojas pilhadas; uns quantos de mortos? Se forem ricos, tanto melhor. 

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publicado às 09:10

O (novo) Reino de Deus.

por naomedeemouvidos, em 02.01.19

    De repente, o Brasil transformou-se numa espécie de gigantesco templo dessa seita que dá pelo nome de Igreja Universal do Reino de Deus, onde digníssimos pastores andam de jacto privado, instrumento maravilhoso para a evangelização do mundo, pois até Jesus Cristo não andaria hoje montado no burro, se estivesse fisicamente na Terra. É capaz.

    Seja como for, o santíssimo, devotíssimo e duas vezes messiânico Bolsonaro, esse proclamado e aclamado mito, tomou, finalmente, posse como 38º Presidente do Brasil. Ontem, juntamente com a amantíssima mulher, desfilou num descapotável, sob a graça de Nosso Senhor, ela de Grace Kelly, ele igual a si próprio, logo, medonho, sem alfaiate que lhe valha, porque é uma fealdade também superlativa que brota de dentro e jorra, putrefacta e incontida, conspurcando tudo em seu redor. Bolsonaro é a voz do povo brasileiro, que lhe deu 58 milhões de votos para a defesa dos valores da pátria e para “restabelecer os padrões éticos e morais que transformarão nosso Brasil”. O de alguns, pelo menos. “Bíblia, Boi e Bala”, a nova Santíssima Trindade, em nome da qual Jair baptizou o novo Brasil, resgatado do Inferno, da corrupção e, principalmente, das malhas do PT. Os fiéis exultam, os impuros definham, como merecem.

 

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    Um pouco mais acima, ainda assim, abaixo de Deus, outro patriótico Salvador elogia o discurso. Pelo menos dois homens valentes e corajosos empenhados em construir, cada um, uma nação à sua imagem e semelhança, “sem discriminação ou divisão”, o primeiro, despedindo e insultando todos os que se lhe opõem, o outro, provavelmente, disparando as armas que simula empunhar, pelo menos, até que a evocação da “Ordem e o Progresso” legitime, de vez, o direito à legítima defesa por parte do “cidadão de bem”. E não há cidadão de bem que não apoie Bolsonaro, que foi eleito com a “campanha mais barata da história”. Imagino que, se houver dúvidas, ou dívidas, os acertos de contas ficarão a cargo da nova primeira-dama, não fosse o novo presidente um homem irrepreensivelmente impoluto, que não tem tempo de sair e, sobretudo, não quer esconder nada, não é essa a intenção.

    Abraham Lincoln disse, um dia, que quase todos os homens são capazes de suportar a adversidade, mas, que se alguém quiser testar o carácter de um homem, deve dar-lhe poder. Pois, chegou o tempo de testar, não o carácter de um homem, mas o de nações inteiras. E a resistência de um regime que deixou de ser o melhor, senão para todos, para muitos. Demasiados.

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publicado às 17:47

Fact-checking: para quê e para quem?

por naomedeemouvidos, em 07.11.18

    Chegou o Polígrafo, um site de fact-checking apostado em ajudar a salvar a democracia sequestrada, esventrada, pelas fake news. Em Portugal, é algo relativamente novo, mas existe há mais de uma década nos EUA.

   Numa entrevista ao Expresso, o jornalista Fernando Esteves, responsável pelo novo projecto em Portugal, afirma que no último debate entre Donald Trump e Hillary Clinton para as presidenciais americanas, “o Politifact teve 100 milhões de pageviews” e que “os jornais norte-americanos fizeram fact checking em direto dos debates e percebeu-se que é um tipo de jornalismo que pode desempenhar um papel fundamental na purificação das democracias”. Mas Donald Trump é, actualmente, o presidente dos EUA, por isso, pergunto-me: estão, as sociedades democráticas, realmente interessadas na verdade dos factos? Jair Bolsonaro venceu as eleições presidenciais no Brasil à custa, asseguram-nos, das perversas e prolíferas notícias falsas e, no entanto, muitos dos seus defensores alegam que ele não é nada assim, é só da boca para fora. Por isso, volto a perguntar? A quem interessa o fact-checking?

   “O fascismo cresce onde as pessoas são convencidas de que toda a gente mente”, afirmou Madeleine Albright. E a ciência já disse que o nosso cérebro de adapta à desonestidade. Tendo a acreditar. Basta observar a facilidade com que acabámos a normalizar (quase) todas as boçalidades proferidas, por exemplo, pelos novos nacionalistas salvadores da pátria e seus obedientes vassalos. Enquanto andamos a discutir se às meninas ainda é permitido preferir o rosa ao azul ou as barbies aos carrinhos, se a um homem ainda se consente que segure a porta a uma mulher, se a ambos ainda se tolera a crença na biologia do género e se as touradas são ou não suficientemente civilizadas para efeitos de IVA, eis que surgem esses magníficos, magnânimos, homens e mulheres, autênticos e justiceiros, narcisistas e fanfarrões, dispostos a combater o sistema a que juram não pertencer, embora dele tenham vindo a beneficiar mais ou menos descaradamente.

    A mentira na política (e não só) não é nova. E, face a essa fatal inevitabilidade, passámos a poder escolher alegremente e sem censura a mentira que queremos viver. Assim uma espécie de se não podes vencê-los junta-te a eles, até regressarmos, por culpa e vontade próprias, à idade das trevas.

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publicado às 11:37

Vou continuar a indignar-me, posso?

por naomedeemouvidos, em 04.11.18

    Se me é permitido, vou continuar a indignar-me. Violentamente e todos os dias, se for preciso. Recuso associar-me à normalização do mal e à banalização do absurdo. Um fascista é um fascista, é um fascista. Quem partilha dos valores do fascismo, não se esconda em subterfúgios. Quem não quer viver a democracia em pleno, não pretenda instigar a sua intermitência, descontinuando-a quando convém. Porque, talvez, nunca convenha a todos concomitantemente.

    Os EUA estão em campanha. Na próxima terça-feira há eleições intercalares. Ao seu estilo, Donald Trump continua a agitar as massas mentindo, mentindo e mentindo e alternando discursos consoante os ventos, naquela linguagem básica e paternalista que continua a colher: vem aí uma caravana cheia de malfeitores, criminosos em série, apostados em tomar a América de assalto. Se nos atirarem pedras, lembremo-nos que os nossos soldados têm espingardas, portanto, que considerem usá-las. Não nos esqueçamos que à frente da caravana vêm homens fortes e maus, muito maus. Não interessa que tragam milhares de quilómetros nos pés e venham esmagados pelo cansaço, porque trazem um ror de más intenções na alma. Querem os nossos empregos, na melhor das hipóteses. Na pior, vêm violar as nossas mulheres e matar os nossos filhos. Matar só está permitido aos bons. E, não nos esqueçamos, “grab them by the pussy” também não está al alcance de qualquer um; só dos que têm dinheiro e poder. Pior do que um criminoso rico, só um criminoso pobre, fedorento e estrangeiro.

    Como habitualmente, Donald Trump já veio desmentir-se a si próprio. Afinal, não vamos disparar sobre os migrantes. Vamos só prendê-los pelo tempo que for preciso. A mentira, num democrata, é inadmissível. Num populista, num nacionalista ou num fascista é um meio válido para atingir um fim. A corrupção, num democrata, é vício nojento que urge exterminar, qualquer que seja o meio. Num populista, é expedito; é competência e desembaraço.

    As migrações em massa e descontroladas são um problema sério, efectivamente. Nenhum país tem capacidade de acolher todos, socorrer todos, atender a todos. Mas, acredito que os mecanismos para fazer face a este e outros problemas devem ser encontrados dentro das normas democráticas. Há quem ache que não. Há quem acredite que, o que importa, é ter a economia a crescer e viver sem incómodos e sem sobressaltos. Se, para isso, for necessário suspender ou, mesmo, eliminar a democracia, seja. Tudo em nome da segurança. Ou será só em nome do conforto pessoal? E, é mau, querermos paz para os justos e justiça para os criminosos? É mau ansiar por bons empregos, bons ordenados e uma vida confortável e próspera, principalmente, quando pagamos os nossos impostos? Claro que não! Como é evidente, essa não é a questão. Mas, o mundo não é perfeito e não é o nosso quintal. A não ser que passemos todos a defensores da justiça por mãos próprias e pela supressão, quem sabe, pelas armas, de todos os que perturbam o nosso sossego como mosquitos, viver em sociedade dá trabalho e, muitas, muitas vezes, traz chatices.

    Voltemos ao Brasil e a Bolsonaro (sim, também há Maduro e outros que tais; infelizmente, o mundo está cheio de gente que só olha para o seu umbigo e que só quer o poder a qualquer preço, subjugando tudo e todos à sua tirania). Fiquemos só pelos bens intencionados; pelos que acreditam que ele não é tão mau como parece e que Sérgio Moro – o mesmo que jurava a pés juntos que jamais entraria para a política – está apenas interessado em ajudar o Brasil a preservar a democracia. O que vai acontecer quando, cada brasileiro de bem se sentir legitimado para matar um ladrão, um violador, um assassino? O que vai acontecer quando um polícia brasileiro se sentir impune, democraticamente, para matar um (mesmo não alegadamente) criminoso? Quanto tempo precisaremos de esperar para assistir à instituição da vingança em vez da aplicação da justiça? E, quanto tempo até passarmos, cada um de nós, a ser o alvo?

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publicado às 13:31

    Normalizados que parecem estar todos os comportamentos que a civilidade nos habituou a considerar abjectos, haveremos de passar à actualização das gramáticas, com a mesma agilidade moderna e elevada com que já nos mandaram reescrever a História.

    Os novos homens fortes da política, os machos alfa salvadores da pátria, os que falam, curto e grosso, a língua do povo, são, actualmente, os únicos detentores da verdade. Se eles afirmam, é exacto. Se proclamam, é lei. Se exaltam, é culto. Todos os outros mentem. Costumava dizer-se que contra factos não há argumentos, mas, até os factos se tornaram alternativos ou descartáveis. Bolsonaro não tem nada de eticamente reprovável, como as demissões irrevogáveis não têm nada de irremediável. Haja vontade e gente para acreditar. Tal como uma mentira repetida muitas vezes arrisca converter-se em verdade absoluta, inquestionável, qualquer verdade renegada pela voz dos escolhidos esfumar-se-á das memórias dos cordeiros imberbes e adormecidos.

    Propaga-se a verdade e a liberdade – da de expressão à da imprensa – para, logo a seguir, ameaçar e amordaçar quem se atreve a duvidar e a discordar. Faz-se companha sobre os mortos – sumariamente eliminados pelo ódio – sem remorso e sem pudor, porque o espectáculo must go on e alterações de planos são uma maçada desnecessária porque incoerente.

    O povo anseia por sangue e força bruta. Cansou-se de esperar pela justiça, quer tomá-la nas mãos, domá-la e aplicá-la. Implacavelmente, sem hesitações e sem culpa. Apoiada na inocência, asseguram-nos, da retórica primária, inflamada e apaixonada, a turba caminha segura e decidida, mas, pouco formosa, pois não há réstia de graça na barbárie.

    Na cegueira da razão e da verdade de cada um, acabaremos miseravelmente sós, empunhando armas contra os fantasmas que criámos com a ajuda de heróis cobardes, sem capa e sem escrúpulos, mas orgulhosamente prenhos de ódios e escárnios. Infelizmente, não estão sós.

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publicado às 12:39

No Brasil, ganhou um mito.

por naomedeemouvidos, em 29.10.18

    Primeiro a Bíblia, depois a Constituição. Dos quatro livros que Bolsonaro tinha em cima da sua mesa, no seu primeiro discurso de vitória, a partir de sua casa e através das redes sociais, a Bíblia mereceu o primeiro lugar. “O Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, haveria de repetir e reforçar.

    Bolsonaro presidente falou de respeito pela Constituição brasileira, pela democracia e pela liberdade. Bolsonaro candidato tinha falado, com saudade, da ditadura militar, das virtudes da tortura e da obediência que as minorias devem às maiorias, entre outras coisas.  Entre os que apoiaram o capitão e que rejubilam, agora, com a eleição do mito, há, creio, dois tipos de gente: os que querem, realmente, sangue, e anseiam pela exterminação implacável de todos os vícios e os que, a coberto de um enorme desespero e impotência, viram no Messias o único caminho para reverter a situação dramática em que o Brasil mergulhou. Para estes, do que Bolsonaro diz, nem tudo se escreve e, por isso, desvalorizam o discurso mais extremo de hostilização dos negros, dos homossexuais, dos pobres e das mulheres.

    Bolsonaro saiu à rua, mais ou menos, para agradecer a Deus e aos brasileiros a sua eleição. Deram-se as mãos e rezaram. Afinal, “essa é uma missão de Deus”. Bolsonaro lê o discurso de vitória.  “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. E a exultação da verdade arranca um ámen da boca da recém primeira dama, mesmo ali ao lado, com os olhos postos no marido e no céu. Deus é mesmo brasileiro e voltou a descer à Terra pela mão de Jair Messias Bolsonaro.

    O novo presidente do Brasil foi eleito pelos seus pares. Apesar de tudo, não me parece que seja uma vitória baseada, apenas, em notícias falsas. É preciso fazer uma reflexão mais profunda. A confiança das pessoas nas instituições democráticas está profundamente abalada e é impossível continuar a olhar para o lado, chamando de ignorantes, ditadores e fascistas todos os que procuram alternativas radicais.

    O Brasil elegeu um mito. E, agora? Agora, esperemos pelo melhor e façamos todos um exame de consciência.

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publicado às 09:55

A inevitabilidade do ódio?

por naomedeemouvidos, em 26.10.18

    Em tronco nu, numa (outra) manhã qualquer, Amon Leopold Göth assoma à varanda da sua casa, com vista privilegiada para o campo de concentração nazi de Plaszow. Agarra na espingarda, observa a azáfama dos condenados, ajusta a mira da arma e escolhe a primeira vítima. Pousa o cigarro e aponta certeiro à mulher agachada no chão. Assim que ela se ergue, dispara a matar. Recolhe, indolente, o cigarro pousado no muro e, entre duas passas, escolhe uma segunda vítima. Aleatoriamente, sem qualquer critério especial. Apenas porque pode e porque isso lhe dá gozo.

    A violenta cena que retrata a barbárie sangrenta e insana da época nazi é imortalizada por Ralph Fiennes em A Lista de Schindler, e dispensará mais apresentações. Quem a viu, gravou-a para sempre na memória; cada um pelas suas razões, porque há filmes, ou partes deles, que teimosamente se materializam nos nossos pesadelos e nas nossas consciências quando menos esperamos. Lembrei-me dela pela alienação dos dias que correm. Já não fazem falta varandas com vista nem espingardas em riste. Substituímos as primeiras pelas páginas virtuais e as segundas pelos insultos gratuitos e carregados de ódio. Cada um escolhe o seu palanque, a sua arma, a sua vítima. Os métodos serão diferentes; os ódios serão diferentes; talvez, até os objectivos sejam diferentes. Mas deixam o mesmo rasto de aniquilação, de devastação nojenta na eliminação de adversários, políticos e não só. Só porque sim, só porque se pode. Como uns podem mais do que outros, os ódios destilam-se em diferentes graus, com diferentes requintes de malvadez e de eficácia e atingem mais ou menos alvos, de acordo com a circunstância de cada um. Das caixas de comentários aos assassínios por encomenda, da propagação de mentiras à distribuição de bombas como quem distribui rebuçados, dos comícios políticos convertidos em arenas de imberbes sedentos de vinganças, urgentes de sangue, como nos tempos dos enforcamentos sumários nas praças públicas, à apologia dos regimes ditatoriais e fascistas como solução para todos os males.

    Cada vez é mais difícil manter uma discussão séria sobre os diferentes problemas que se abatem sobre as sociedades democráticas. As pessoas não ouvem. Confundem, como diz o povo, alhos com bugalhos. Um homem insulta pública e violentamente uma mulher negra, chama-lhe feia, vaca, preta, bastarda e ouvimos dizer, e “se fosse ao contrário, também era notícia”; “porque é que não deixam o homem defender-se, primeiro”? Mas, são surdos? Os americanos tinham um nome para este tipo de gente, mas não me lembro agora. Os que, numa discussão, recorrem sistematicamente à evocação de argumentos que, só na aparência, se relacionam. Uma espécie de desconversadores selectivos cujo objectivo nunca é discutir com seriedade nem, muito menos, encontrar soluções, mas baralhar, partir e dar, como num jogo de pocker.

    Nos dias de hoje, voltamos a desdenhar dos pobres, a rir dos aleijados, a humilhar os ofendidos e a insultar os inimigos. A turba pede sangue como quem pede água sob o sol abrasador do deserto. Sucumbimos ao medo, e o ódio, afoito e arguto, tomou-nos nos braços.

    Nos EUA, Donald Trump condena, para as câmaras, a mesma violência que exacerba, horas depois, no Twitter. Apela a uma América unida e tudo faz para rasgar as feridas. Hostiliza a imprensa livre porque são fakes todas as notícias que não se dediquem à promoção acérrima e acrítica da sua fantástica presidência. A melhor de todos os tempos. Apela ao respeito que não tem pelos adversários, nomeadamente, políticos. O mesmo homem que exaltou o Lock her up! de Hillary Clinton e afirmou que Obama – que nem americano era! – fundou o estado islâmico, chama, hipocritamente, à união os americanos para repudiar actos de ameaças e violência política. Já sabemos da sua coerência discursiva e não só; depende da ocasião e do interlocutor.

    No Brasil, parece que Bolsonaro tem vindo a perder pontos para Haddad, nos últimos dias. O Messias (haja ironia!) já veio dizer que só perde se houver uma fraude eleitoral, como já antes tinha dito que só aceitaria os resultados das eleições se ganhasse. Gritar ameaças, espalhar a confusão, semear a discórdia e instigar à agitação social. Sempre de forma cobarde, sem sair do conforto do sofá, porque, como se sabe, o homem convalesce de uma facada, que deve agradecer todos os dias, pela facilidade divina com que conseguiu escapar de qualquer debate político sério, mostrando tudo o que não tem para apresentar aos brasileiros.

    É o mesmo princípio. Se me convém, está tudo bem. Se não, é uma fraude. A Folha de São Paulo sucks too. Como fede tudo o que se meter no caminho destes tresloucados salvadores da pátria. Se for possível tirar alguma coisa boa desta indecente demência que atormenta os nossos dias, que seja não deixarmos Portugal refém do medo nem cair nas garras do ódio.

 

P.S. Já depois de ter publicado este post, li isto.

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publicado às 11:18



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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