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naomedeemouvidos

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

Explica-me como se eu fosse muito burra...

O pedido que agora faço meu era apresentado pela Maria Rueff ou pela Ana Bustorff, não estou segura, de forma que se pretendia cómica, num anúncio de televisão, aqui há alguns anos. Já não recordo a que se referia, ou quem era o interlocutor, mas não interessa nada. A pergunta parece impor-se por si própria, nos dias que correm, tal é a intermitência de pensamento que desassossega variadíssimas almas de ainda mais variados sectores, aqui e ali, e o que se disse ontem foi ontem e devia ter lá ficado, pois hoje é hoje, um novo dia, e amanhã ainda vem longe.

De modo que, expliquem-me como se eu fosse muito burra. Se tiverem paciência e forem menos burros ou burras do que eu.

Um juiz em pleno uso das suas faculdades e competências, supõe-se, profissionais e outras, assinou um acórdão onde afirma que o adultério da mulher é um atentado, grave, à honra e dignidade de um homem e, por isso, vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher, leia-se, a agressão com recurso a uma moca com pregos na defesa dessa tão maltratada honra. O mesmo juiz- dias depois, não de ter redigido o acórdão, mas de ter sido apontado em praça pública- vem defender que não é retrógrado e muito menos é tolerante à violência doméstica, violência essa que constitui um grave atentado à condição da mulher e cujas versões são, muitas vezes, desvalorizadas em tribunal. Segundo a revista Visão, estas últimas palavras são do mesmo juiz que escreveu as primeiras no dito acórdão. E parece que o senhor juiz está incrédulo com as reacções que suscitou. A sério? Ninguém diria…

O diz-que-é-mas-parece-que-não engenheiro José Sócrates fez face a algumas das suas despesas à custa de empréstimos desse fantástico e milionário bom amigo, de seu nome, Carlos Santos Silva. Parece que recebeu “um ou dois” empréstimos do amigo Carlos, por volta dos “cinco, sete mil euros”, que não se lembra bem para quê, mas lembra-se que pagou. Também se lembra que convenceu o seu amigo a trocar um Júlio Pomar por “seis ou sete” outros quadros que tinha em casa lá em casa. Parece que a esposa de Carlos, ou o próprio, gostava mais desses. Há, ainda, o testamento desse amigo, homem endinheirado, empresário internacional, que prefere guardar dinheiro em cofres e levantar em numerário somas avultadas, que favorece com 80% de seis milhões de euros (segundo apurou o Ministério Público) um primo de José Sócrates. Parece que o valor está relacionado com um negócio em Angola, ao qual o ex-primeiro-ministro é totalmente alheio, o primo e o amigo é que já foram sócios. Já a ex-mulher de Sócrates recebeu uma avença mensal de 5.000 euros por serviços prestados a uma empresa do omnipresente Carlos, pois, quem mais? O apartamento de Paris é outra grande prova de dedicação e amizade, mas já estou confusa que chegue. O nosso ex-primeiro acha que, não só, tudo isto é circunstancial, como nada tem de estranho ou suspeito e, colericamente indignado, como é seu hábito, garante que, no fim, não sobrará folha sobre folha. E é muita folha, pelo que, estou inclinada a acreditar que o homem deve saber o que diz…

O DDT e, aparentemente, igualmente tóxico Ricardo Salgado vive, actualmente, com o equivalente a um ou dois (não percebi bem) salários mínimos, mas, de consciência tranquila. Afinal, o Banco de Portugal é que criou os lesados do BES. A resolução do banco foi um desastre e o banco, o BES, não o de Portugal, tinha dinheiro suficiente para respeitar os compromissos com esses clientes, assegura o Ricardo. Entre suspeitas de sacos azuis e pagamentos mais avultados e menos claros a nomes como Carlos Santos Silva (não!, a sério?), Zeinal Bava e Henrique Granadeiro, aliados a outros nomes (a que também não falta o primo de José Sócrates, o José Paulo) e a dois tremendos negócios com muito por explicar, Ricardo Salgado vai alternando o profundamente chocado com o esquecido ou ignorante em doses mais ou menos moderadas. Se o choque e a suposta e ensaiada ignorância não chegarem, Ricardo Salgado, esse grande economista, monstro da banca, administrador de topo, não sente qualquer embaraço em evocar (ou, talvez invocar?) o Diabo mais as suas coincidências. Afinal, ninguém pretende a economia uma ciência exacta, pois não? Se um juiz chama Deus, um banqueiro de peso e renome, por maioria de necessidade, há-de poder chamar o Diabo. E, não pára de me espantar, como é que grandes gestores, principescamente pagos por excelência e competência, conseguem aparentar tantas falhas de memória, desconhecimento e imperícia sempre que lhes convém. A selectividade da memória e da habilidade deve fazer parte das cadeiras de economia e gestão.

Na Catalunha, a telenovela continua em novos episódios. O querer independentista era tanto e tão grande que, agora, muitos não sabem o que fazer com ele. Nos últimos dias, as sondagens já passaram de repudiar os independentistas nas urnas para lhes garantir a maioria nas próximas eleições. E, no meio do caos, como é que dizem dos ratos e dos navios? Bem me parecia.

E, então, explicam-me? Como se eu fosse muito burra?

Independente sim, independente não...

 

Às vezes, a política diverte-me. De um modo algo sado-masoquista, mas diverte-me.

Diverte-me ver os aflitivos contorcionismos, linguísticos, intelectuais e outros (físicos, não, porque isso, para alguns, já seria arriscar demais) que políticos e comentadores políticos fazem para tentar dar um ar sério às engenhosas explicações que são obrigados a produzir, para explicar monumentais fiascos. Sem lhe chamarem fiascos, evidentemente, porque aí reside a sua arte.

O último poderia dar pelo nome de “Independência Suspensa”. Da Catalunha, pois claro, que, num majestoso golpe da maior arte do flop, Carles Puigdemont se viu obrigado a ensaiar até ser capaz de o disferir com a dignidade que lhe foi possível. Aconteceu ontem, em directo, com um atraso simbólico da difícil digestão do maior sapo por alguém engolido, na História recente. A Catalunha será independente! Um dia, quem sabe, à semelhança do que já ansiavam uns quantos antes do referendo que produziu a mais estapafúrdia votação e subsequente contagem de votos, numa democracia europeia. Carles Puigdemont montou uma cilada que se voltou contra ele próprio. Pelo que é quase hilariante, não fosse o caso grave, ver tantos procurarem justificações honrosas, hábeis, inteligentes e moderadas no gesto de um homem que, começou por ser ardiloso e acabou a mostrar que, se a Catalunha merece, um dia, vir a ser independente, não o merece, seguramente, pela rédea de Puigdemont.

Os analistas políticos verão isto de outra forma. É a sua função, e ainda bem. Eu vejo assim: um homem com muita ambição e alguma sede de protagonismo quis liderar uma batalha para a qual não estava preparado. Apoiado numa ideia algo poética aliada a uma interpretação bastante enviesada das leis e dos direitos dos povos, este homem quis impor uma vontade que julgou legítimo liderar. Eis senão quando um pragmático, e nada romanesco, revés surge-lhe ao caminho. O capitalismo e a economia gostam de ficção, mas, no cinema, e a debandada de empresas com sedes na Catalunha começou a fazer tremer os alicerces de um sonho que, afinal, parecia não caber nas ruas de Barcelona. Confrontado com o fracasso, não lhe restou outra alternativa que a de fingir que declarava a “independência”, adiando a dita para momento oportuno, porque agora parece que não dá muito jeito… Ou, talvez, a última manobra, não sendo honrosa nem moderada, pode, seguramente, ser inteligente e hábil no mais puro sentido espanhol de “tramposo”, porque, convenhamos, Puigdemont está ferido, mas não está morto. E, morto estivesse, os deputados da CUP encontrariam maneira de ultrapassar esse problema menor. Afinal, não aplaudiram o discurso, mas assinaram, ordeiramente, a suposta declaração de independência. É sempre bom ver alguém lutar, com integridade e carácter, pelos seus ideais, não é?

Chegámos, então, a um novo impasse. Não sei se a Catalunha tem “direito” a ser independente. A não ser que queiramos alterar completamente as leis das sociedades em que também queremos viver, essas leis existem para manter alguma ordem nessas sociedades e para as fazer funcionar eficazmente. E, comparar o direito à autodeterminação do povo catalão com o direito à autodeterminação do povo de Timor, por exemplo (como já li), parece-me de uma absurda falta de senso comum, para não dizer que é quase um insultuoso abuso.

Mas, o diálogo impõe-se sempre como a melhor maneira de vencer desafios desta ordem, embora se torne difícil dialogar quando cada uma das partes parece já ter previamente tomadas todas as decisões…

A independência da Catalunha, a ocorrer, merecia mais glamour e, sobretudo, mais seriedade.

E agora, Catalunha?

Bem me quer, mal me quer… assim vai papagueando, imagino eu, Carles Puigdemon, esta manhã, enquanto prepara a presença, mais logo, no parlamento catalão. As jogadas políticas têm destas coisas: às vezes, correm mal. Muito mal.

Depois de estender a armadilha a um impreparado e imbecil Mariano Rajoy, atirando velhinhas e crianças para a frente de batalha, matreiramente consciente que algo correria a favor do seu ardil, Puigdemon vê-se a braços com uma vontade de independência que, pelos vistos, não era tão fervorosamente desejada. Não tanto como ele pensava ou desejaria, pelo menos. Às transferências anunciadas das sedes de várias empresas e bancos para fora da Catalunha (quem diria?!), seguiu-se uma manifestação maciça, nas ruas de Barcelona, contra esse desejo de independência e por uma Espanha unida. Não sei se seriam 350 mil manifestantes ou 950 mil, mas, a não ser que as imagens fossem manipuladas, ao melhor estilo Trump, o que vimos nos écrans de televisão foram muitos milhares de pessoas (catalães e suponho que não catalães, eventualmente), a negarem, de forma surpreendentemente pacífica, o que Carles Puigdemon lhes quer, tão patrioticamente, oferecer. Até os jornalistas que cobrem o drama passaram de romanticamente adeptos da “causa catalã” a uma não menos romântica moderação, nas expectativas à volta da declaração unilateral de independência.

E agora? Agora, não me admirava nada que o senhor Puigdemon voltasse atrás nos seus intentos e refreasse paulatinamente a sua sede de fazer estória.

A "democracia" e a "autodeterminação dos povos".

Arrependo-me profundamente de sempre ter “detestado” a disciplina de História, enquanto fui obrigada a tê-la. Era aluna “de ciências” e, das disciplinas “de letras” só gostava de Português. Hoje, e de há alguns anos a esta parte, reconheço a enorme importância da História. E envergonho-me de não saber mais. Se todos soubéssemos alguma coisa de História, talvez não disséssemos tanto disparate, no calor do momento, guiados por construções românticas, incendiando paixões, e embalados pelos “direitos” individuais, que, de tão individuais, têm vindo a ludibriar-nos. Com a cumplicidade, perigosa, de quem era suposto investigar, analisar, racionalizar e informar.

O “direito” do momento é o da “autodeterminação dos povos”. As palavras têm, de facto, um grande poder. É preciso reflectir muito, sempre, e ver um passo à frente para lidar, a seguir, com todas as implicações e consequências dessas palavras. É um exercício esgotante. É mais fácil disparar ao sabor do momento, consoante as modas, acarinhando os “oprimidos” e surfando a, já enfadonha, onda do não menos enfadonho politicamente correcto. Foi assim que se chegou a uma espécie de seguidismo acrítico e acéfalo dos movimentos de “defesa” do que quer que seja, desde que seja moda.

O “povo” catalão quer ser independente do “Estado Espanhol”. E muitos apoiam, pelo menos, o “direito” ao referendo popular, com base no tal outro direito, o da “autodeterminação dos povos”.

Não sei se o cidadão comum, como eu, entenderá toda a dimensão do problema e das consequências do que quer que venha a acontecer amanhã. O que é o direito à “autodeterminação dos povos”?

Parece que o direito à “autodeterminação dos povos”, tal como o conhecemos, aplica-se a territórios que foram ocupados na sequência de uma invasão. A Catalunha foi invadida por Espanha? Os românticos acham que sim. Afinal, foi por um casamento, nada democrático, não sei se romântico, algures no século XV, que a Catalunha passou a fazer parte de “Espanha”.

Parece que também se aplica, o direito à “autodeterminação dos povos”, a territórios onde haja, de forma generalizada, discriminação e falta de liberdade e respeito pelos direitos humanos. A Espanha não é uma democracia? Para os defensores da independência da Catalunha, aparentemente, não. Afinal, o “Estado Espanhol” não respeita a vontade do “povo” Catalão de ser independente. E, os catalães, quererão mesmo ser “independentes” de Espanha, no sentido de se tornarem, de facto, um novo país? Ou esta é apenas uma vontade de grupos, mais ou menos, organizados de independentistas que propor-se-ão fazer tantos referendos ou consultas quantos os necessários para que, finalmente, vença essa sua vontade?

E o papel da imprensa e dos jornalistas, nomeadamente, dos portugueses na sua missão de (des)informar? É intencional, ignorante ou leviano apor o “Estado Espanhol” à “Catalunha”, na narrativa (tantas vezes, inflamada) do conflito, sempre que pretendem mostrar as diferenças de posições? Alguns jornalistas portugueses parecem embevecidos pelo “amor” que os catalães têm pelos portugueses. Afinal, gostam mais de nós do que dos “espanhóis”, não é? E nós retribuímos; afinal, de “Espanha”, nem bons ventos, nem bons casamentos…

Democraticamente, juridicamente, constitucionalmente, o “Estado Espanhol” compreende a região da Catalunha. Os catalães são espanhóis. A democracia tem regras que não se suspendem quando dá jeito. E eu gosto de viver em democracia. Afinal, é “o pior de todos os sistemas, com excepção de todos os outros”.

O dia depois de amanhã...

Espanha prepara-se para produzir um mártir na guerra (não sei se com aspas ou sem aspas…) com a Catalunha. Em pleno século XXI, numa democracia europeia de um país desenvolvido, pondera-se gerar um preso político e pretende-se, com isso, esmagar uma vontade que, legítima ou não, grita cada vez mais alto e não parece querer dar tréguas.

Na Alemanha, pela primeira vez depois da segunda guerra mundial, abriu-se a porta a um partido cujo líder (um deles, pelo menos) apela aos alemães para  que “reclamem o seu passado”, enquanto afirma que uma ministra de outro partido deveria ser recambiada para a Anatólia… estendeu-se o tapete vermelho aos representantes do AfD, esse partido (que dizem ser) de extrema-direita, mas que não se identifica como xenófobo, antes se considera uma “alternativa”, essa palavra tão de moda que já não sei bem o que significa.

Entretanto, Kim Jong-Un e Donald Trump continuam a trocar mimos e a brincar aos soldadinhos de chumbo. O primeiro acusa o segundo de declarar guerra à Coreia do Norte e ameaça abater bombardeiros norte-americanos mesmo que em espaço aéreo internacional. O segundo (essa alma que dispara tweets à velocidade da luz, enquanto inventa atentados terroristas na Suécia, confunde a Namíbia com a Nâmbia e evoca a mulher “ausente” que está mesmo ali ao seu lado…) responde ao “homenzinho do foguete” informando-o que “não estarão por aí por muito mais tempo”, um alívio, portanto!

Por cá, as coisas estão bem mais tranquilas. Parece que só temos um candidato racista e xenófobo, a quem (quase) todos os comentadores e cronistas dizem que não se deve dar palco, mas que falam dele todos os dias.

Assim que, nada de novo. É como dizem, tudo está bem quando acaba bem. Oh!, espera…

  

“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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