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Não invocar o nome de Deus em vão.

por naomedeemouvidos, em 23.03.19

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Da última vez que verifiquei, ainda era um dos “dez mandamentos de Deus”. Não invocar o seu santo nome em vão. Mas, os tempos andam estranhos, entranham-se, mais ou menos, nas nossas novas rotinas, nas novas verdades, nas novas denominações do bem e do mal, do certo e do errado, do normal e do absurdo. O tempo é de guerra. Não se limpam armas, descarregam-se, antes, com fúria e sem remorsos, sobre aqueles que nos ameaçam, que com fastio nos maçam, sobre os que se atrevem a atentar contra identidades e supremacias. Brancas. Sejam quais forem. E, se não for isso, uma outra coisa qualquer coisa, uma outra causa, um novo ardil erguido pelo punho do mais puro ódio, arremessado contra todos os impostores que ousem atravessar-se, incautos ou conscientes, nesse louco caminho pela busca de um impiedoso sentido, sem sentido algum.

 

Pois, no delírio de alguns, Deus deve estar prestes a descer à Terra. Pela segunda vez. Desta feita, encarnado, salvo-seja, no meio da política, interna e externa, a Norte e a Sul, no seio de homens devotos e justos, como o Jair e o Donald, como Ele, empenhados em julgar os vivos, somando mortos, em nome da salvação de uma qualquer agenda há muito capturada pelos interesses (nada) obscuros dos que se dizem ao lado da liberdade e da democracia, as mesmas que profanam em enlevado pecado e sem decoro, enquanto acusam de fake todas as news que não reconheçam a sua imensa glória.

Professa, então, Mike Pompeo que esse Deus em que aquele acredita, amando-o e adorando-o sobre todas as coisas, como piedoso cristão, terá feito Donald Trump presidente dessa enorme, again, nação americana para que este possa salvar o povo judeu, protegendo-o do Irão, praise the lord. A sua fé tê-lo-á convencido desse bem-aventurado milagre da era moderna. Como que a prová-lo, Trump já reconheceu (pelo menos, até ao próximo tuite) a soberania de Israel sobre os Montes Golã – a vida são mais do que seis dias – e, entretanto, pelo sim, pelo não – não vá aquela danada miúda sueca surripiar-lhe o Nobel, que tanto trabalho lhe deu encomendar ao primeiro-ministro japonês – Trump também decidiu levantar, um dia depois, as sanções impostas à Coreia do Norte; o homem gosta do presidente Kim, quem diria… e, afinal, Deus também disse que devemos amar os nossos inimigos, o que já nem será bem o caso.

 

É reconfortante perceber o mundo, sabiamente guiado por abençoados líderes, à altura de todas as intempéries – ainda mais, agora, expurgada que está a miserável farsa do aquecimento global –, mundo esse que entra, finalmente, no bom caminho, nem por isso longo, pois que há-de terminar, logo ali, na Antártida, em frente ao muro de gelo onde o Terra termina, para glória de muitos, mas, principalmente, dos iluminados teóricos dessa coisa a que parece que chamam “conferência internacional da terra plana”. Seria em maiúsculas, se se desse o caso de valer pena a deferência. Bendita seja a liberdade de expressão, e benditas sejam todas as teorias que dela brotam, em arrojada clarividência.

 

Já é sábado. Pela décima nona vez, os "coletes amarelos" intentarão semear a violência e o caos pelas ruas de Paris. O protesto espontâneo (ou talvez não) contra o aumento do preço dos combustíveis - a que, rapidamente, se somou uma lista maior de reivindicações mais ou menos justas - converteu-se  numa espécie de mini-guerra civil, onde uma turba de arruaceiros apostados em destruir tudo o que surgir no seu caminho, sábado após sábado, vai procurando esgotar o Governo de Macron. Ou, apenas, promover a desordem, a arruaça, espalhar outro pequeno inferno. Tudo a bem da luta a favor dos direitos dos mais desprotegidos, claro está. Afinal, o que são uns carros incendiados; uns monumentos esventrados; umas montras partidas; umas lojas pilhadas; uns quantos de mortos? Se forem ricos, tanto melhor. 

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publicado às 09:10

Quanto custa apaziguar uma "cólera justa"?

por naomedeemouvidos, em 11.12.18

     É de um pessimismo alarmante pensar numa séria ameaça à paz na Europa?

    Domingo à tarde, entre amigos, discutíamos a relevância desta questão. Há ou não motivos para nos preocuparmos, seriamente, com o rumo dos acontecimentos mais ou menos recentes, entre os quais, a insurreição dos coletes amarelos, que tomaram de assalto as ruas de Paris?

    Emmanuel Macron perdeu o povo. É o que parece; e parece-me, também, irreversível. Diz-se que o discurso, já de si tardio, não convenceu, o que não espanta. De repente, o grito de revolta convergiu para uma única exigência que engorda a cada sábado: a demissão do Presidente francês, arremessado como símbolo da classe rica e das visceralmente odiadas elites. Não parece fácil de contrariar e, obviamente, a oposição não ajuda; ao invés, acicata. A questão é, e se a Macron não restar, como se perfila, outra alternativa que não a de se demitir? Porque, aparentemente, no próximo sábado haverá outra manifestação, que, como as anteriores, se avizinha violenta, a cólera justa projectada em estilhaços avulsos que tudo dizimam, implacavelmente, até aniquilar o alvo, em renovado caos e absoluto horror. Serão 100 euros e mais alguns trocos, ou migalhas, suficientes para comprar a paz social? Isto, admitindo que as medidas anunciadas passam, efectivamente, à prática, com consequências na gestão das expectativas dessa “France périphérique”, como lhe chamaram ou chamam, a França da periferia, em oposição à França sofisticada e rica das grandes cidades. Lá, como cá, os mesmos cansaram-se de acudir a todas as crises, tantas vezes recorrentes. Cá, ao contrário de lá, ainda vamos aguentando. Até quando, não sabemos. De momento, ouvi dizer que se vestem coletes, amarelos, a 21 de Dezembro.

    Se Macron cair, novas eleições em França talvez dêem a almejada vitória à temida - inevitável? - Marine Le Pen e ao seu renovado União Nacional. Com o Vox a engrossar a voz na vizinha Andaluzia, o cerco aperta-se. O CHEGA chegará para nos sacudir e assustar, ou já faz estragos silenciosos de que só daremos conta demasiado tarde? Ou, é ao contrário e a salvação das nações e dos povos subjaz, inevitavelmente, na emergência revigorante dos regimes nacionalistas e autoritários, eventualmente, ditatoriais?

 

P.S. Armando Vara foi à TVi insinuar que os últimos dez/nove anos da sua vida talvez tivessem sido diferentes se tivesse ajudado o juiz Carlos Alexandre. Talvez, até, não só a vida dele...

Com certeza, não serei só eu a ter uma opinião terrível sobre o significado disto.

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publicado às 14:20

Justiça e (ou?) violência.

por naomedeemouvidos, em 04.12.18

   

    “A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota.”

Jean-Paul Sartre.

 

    Mesmo que, nas mãos do povo, alguém a alcunhe de justiça, a violência não devia ser secundada, muito menos, atendida. E, às vezes, parece não haver outra alternativa.

    Em França, os “gilets jeunes” conseguiram, de momento, que Macron voltasse atrás no aumento do imposto sobre os combustíveis. Ao Governo francês não parecia restar muito mais, a não ser que houvesse demissões. Pode ser que isso seja suficiente para conter a próxima onda de horror que já começa a ganhar forma nas redes sociais; uma ameaça em crescendo, pronta para mais um sábado de anarquia e destruição bárbara. Pode ser suficiente, mas eu duvido. Quem se manifesta vestido como quem vai para a guerra, não estará forçosamente interessado no aumento ou diminuição de taxas, mesmo que as exigências, entretanto, já tenham ultrapassado o vulgar aumento dos combustíveis. Dizem que a violência é mais ou menos comum nos franceses e que nós, não-franceses, estaremos mais chocados do que eles. É possível, mas, não deixa de ser condenável e aterrorizador.

 

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    Entretanto, não percebi bem o que tentaram, por cá, ensaiar os bombeiros que se manifestaram ontem, em Lisboa. Mas não apreciei o “Deixa arder” e dispensava a simbologia das chamas, na concentração. Apenas para que o nojo não se cole à nobreza de alguns homens e dos valores que eles defendem, não vamos, nós também, perder a lucidez. E, sobretudo, para que não nos confundam, que os tempos já são suficientemente insanos.

 

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publicado às 12:39

Amarelo vivo, amarelo negro.

por naomedeemouvidos, em 03.12.18

    Nas ruas de Paris, milhares de vândalos soltaram a raiva e esventraram a França. Calçadas queimadas, carcaças de automóveis consumidos pelas chamas, barricadas, tochas, edifícios queimados, esmoucados, pilhados. Homens e mulheres preparados para a guerra, caras tapadas, alguns com máscaras antigás, provocatórios, violentos, focados num único objectivo: destruir; instalar o caos. Na selvática loucura, estropiaram os símbolos da República cuja protecção reclamam à mercê das suas vontades. Marianne assombra-se com horror, esburacada, esbofeteada às mãos dos bárbaros, talvez os mesmos que ajoelham em profano respeito pelo soldado desconhecido. Na fúria, pintaram de infâmia, em palavras de ordem, de rude e vulgar desordem, o Arc de Triomphe, avisando, jurando, manter a França a ferro e fogo, vilmente usurpada, até à capitulação daquele a quem culpam pela barbárie.

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    Mas, afinal, o que querem esses a quem chamamos “coletes amarelos"? Aparentemente, começaram por não querer o aumento do imposto sobre os combustíveis, organizando-se pelas redes sociais, num protesto onde – diziam camionistas portugueses (bloqueados nas estradas contra a sua vontade) – não havia franceses. Agora, querem muito mais, eventualmente não demasiado e, seguramente, a razão assiste-lhes. Aliás, dizem que é o povo quem protesta. Não são maquinações extremistas, nem de direita, nem de esquerda, hordas de javardos empenhados em semear o caos. Não. São gente normal, sofrida, esmagada pelos impostos, cujos ordenados teimam em ter menos dias do que aqueles que compõem um mês, e que já não suporta mais um presidente dos ricos. E, talvez assim seja; mas, é difícil de acreditar quando estarrecemos, incrédulos, ante o rasto de destruição. Pode gente normal, gente pacífica, manifestar-se de forma tão ultrajante, violentando o país a que orgulhosamente pertence? Saramago imaginou, pelo menos, uma vez, que sim; que podemos, em desespero, sucumbir à mais baixa condição. Descreveu-o, violentamente, no seu magnífico ensaio sobre essa cegueira que nos torna inumanos perante as piores agruras.

    Talvez, então, seja avisado olharmos. Dar ouvidos ao mal-amado arauto e, em podendo olhar, vermos. E, em pudendo ver, repararmos.

    Aproximam-se eleições – um ano é quase nada – e, na ânsia de agradar, se não a todos, aos que dão votos porque são muitos, os mesmos partidos (hoje são estes, amanhã serão os outros) que nunca se entendem nas coisas fundamentais para o país – como a educação, a saúde e a justiça – conseguem sempre entender-se no esbulho da pátria, esmifrando aqueles que alimentam os cofres do Estado com os seus impostos, muitos sem empregos garantidos e sem poder, nunca, recuperar o tanto que perderam. Seremos, os portugueses, mais civilizados e pacíficos que os franceses, ou, apenas, por mais tempo? Asseguram-nos que a austeridade acabou e que podemos virar a página das privações e, no entanto, parecemos prestes a cometar os mesmos pecados que já antes nos arruinaram. 

    A França recupera, em choque, da vontade do povo e, entretanto, Portugal é, outra vez, o melhor destino do mundo. Mas, é bom estarmos alerta.

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publicado às 07:28



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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