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E, às vezes, nem mesmo o vento se ouve passar.

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(imagens próprias)

 

 

 

 

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publicado às 18:27

    Não recordo bem a data em que iniciei este blog. É-me completamente indiferente. Não gosto de dias de…uma ou outra vez esquecemo-los, por algum motivo estéril, e, sem querer, ofendemos alguém que nos é muito querido. Os meus mais queridos já me conhecem e perdoam-me.

    Creio que tem cerca de dois anos. O blog. Sem eu perceber bem como, esta estupenda rapariga passou por cá. Talvez a caminho das suas avenidas, cheia de graça e elegância, num doce balanço, astuta, crítica, inteligente, indomável. Seguramente, generosa. Imagino-a também generosa. Daquela generosidade que aquece sem estalar, como um suave sol de Inverno. Dizem que os ruivos, as ruivas, são raros e, por isso, especiais. É o que dizem.

    Deu-se o caso, o assombroso acaso, de nos cruzarmos virtualmente; e eu, que não acredito em coisa nenhuma que mereça a pena à primeira vista, sucumbi sem nada ver, por castigo ou por virtude, enxergando, afinal, mais do que esperava, sem saber como retribuir o carinho a que, talvez por tonta e démodé teimosia, por pudor desmesurado, não ouso chamar amizade. Afinal, no meu tempo, não era assim. Hei-de vir a cumprir penitência.

    À Gaffe, mais as suas admiráveis avenidas, o meu enorme obrigada. Por ter vestido com primor e mestria este pequeno espaço que, acabei por perceber, apavorada, não é meu somente. Agradeço-lhe pelo tempo, pela paciência…pelo atrevimento. Obrigada, querida Gaffe!

 

    Estou absolutamente certa de que todos os que por aqui se perdem, incautos, honrando-me com a sua passagem e presença, ficarão tão pasmados quanto eu, neste momento. A todos esses, a todos vós, agradeço também o desassombro.

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publicado às 19:35

Desassossegos.

11.01.19

    Tornaram-se amigas à primeira vista. Tinham em comum uma alegria despreocupada e o riso fácil, e a empatia foi imediata. A espanhola era dez anos mais velha, mas não se notava, era magra, elegante e jovial, aquele tipo de mulher afortunada a quem até o trapo mais deslavado fica bem.

    Naquele dia, combinaram encontrar-se no café habitual. Quando chegou, a amiga já lá estava. Pediu um chocolate quente, espesso, e um mil-folhas, que, agora já sabia, não se dizia assim, em espanhol. A primeira vez, precisou de esperar que a amiga controlasse o ataque de riso, até ser capaz de lho explicar. Depois, tinham rebentado as duas em novas gargalhadas, até as mulheres de hidjab, da mesa ao lado, serem obrigadas a tapar ainda mais a cara, para esconderem e sufocarem as suas. Mas nunca mais se enganara.

    Desceram a rua até à medina, para as compras do dia. Saudaram o porteiro do hotel, onde a espanhola vivera mais de seis meses, logo após a chegada.

    Não havia, como agora, grandes supermercados e centros comercias cosmopolitas e arejados, pelo que, as compras, faziam-nas no mercado tradicional.

    Mergulharam nas entranhas fervilhantes de cores e sons que, como sempre, animavam as manhãs da velha medina. Comparam alhos, fruta, azeitonas e ovos e encaminharam-se para a parte do mercado do peixe. Pelo caminho, encontraram-se com as habituais crianças, minúsculas, pés desnudados, sujos, enfiados nos miseráveis e disformes chinelos, apesar das baixas temperaturas de Inverno. Como sempre, os miúdos ofereceram ajuda para transportar os sacos de compras a troco de algumas moedas. Como sempre, recusaram – como poderiam aceitar, os sacos maiores que os meninos que pertenciam à escola e aos pátios dos recreios, não ali. Em vez disso, como tantas vezes, comparam-lhes pão, grande, redondo e espalmado, a cheirar a fresco e a forno a lenha. Passava o aguador, e ofereceram-lhes, também, sumo de laranja fresca. Os miúdos já as conheciam.

    Começavam a aproximar-se do mercado de peixe quando se aperceberam da quebra na rotina habitual. Havia pouca gente e as bancas estavam praticamente vazias. Não viram o Mustafa, que amanhava o pescado como ninguém, o prazer e a alegria do ofício vertidos num saber ardiloso que emprestava ao produto final um sabor único e imaculado.

    Nenhuma da duas falava árabe, mas faziam-se entender entre o espanhol e o francês. Uma jovem mulher, com o traje característico das gentes das cadeias montanhosas do Arife, estava sentada num degrau de escada e, na sua frente, uma paleta de cores vibrantes, rabanetes, aipo, laranjas, molhos de salsa fresca. Nem sempre, as verduras, as frutas e os legumes tinham aquela vivacidade. Aqueles, pareciam ter-se deixado encantar pelo arrojado vigor da vendedeira. Mas, não havia peixe, naquele dia. A mulher explicou que tinha havido tormenta, os pescadores não puderam sair e, por isso, as bancas estavam vazias. Mustafa também não tinha vindo, pelo mesmo motivo, nada de cuidado.

    Estavam quase a voltar para trás, quando deram pela súbita agitação. Várias pessoas começaram a correr para junto das bancas, num corrupio, em atropelos, uma cacofonia de sons estridentes entendíveis por todos, menos por elas. Na entrada oposta àquela a que se encontravam, ainda, surgiu um homem alto, transportando um enorme saco preto. Mesmo sem entender quase nada, perceberam que o homem trazia, no saco, algo que interessava a muitos dos que acudiam ao seu encalço. O homem gritava, via-se que chamava os outros a quem, provavelmente, já anunciara, na azáfama, o motivo de reboliço. Foi só quando ele se aproximou de uma das bancas vazias e despejou o conteúdo do saco que, as duas puderam, enfim, desvendar a macabra encomenda. Dezenas de dentaduras jaziam, tão esgotadas como os seus defuntos, na pedra onde, não muitas horas antes, os linguados e as lagostas estrebuchavam em represálias inconsequentes às mãos dos homens do mar. Olharam uma para a outra, sem conseguir articular palavra. Mas, mesmo no silêncio, entenderam-se, num alívio tão fugaz, quanto malogrado: pelo menos, não era na banca do Mustafa…

    Mais tarde, acabariam por rir do absurdo, resgatando a história das suas lembranças, pasmando com a dimensão da pobreza, invocando-a, muitas vezes, pela necessidade que ambas tinham de assegurar-se de que não havia sido, apenas, um breve delírio.

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publicado às 13:56

    A agência da CGD não está muito cheia, mas, o tempo escorre lento e as senhas, nos modernos e elegantes écrans, arrastam-se ao ritmo dos funcionários que sobram e sobrevivem às horas de serviço. O ano está prestes a terminar e ninguém tem pressa, excepto os que exasperam e desesperam no compasso de espera.

    Alheias às angústias dos crescidos, duas meninas brincam com as mãos, desfiando uma daquelas lengalengas que acompanham com palmas. Uma é negra, muito negra, e a outra é branca, muito branca, tão branca como a bandeira da Polónia, mas, as duas são amigas, brincam, riem e não se vêem diferentes, nessa diferença nojenta e absurda que nos humilha a todos, não só àquele que é diferente.

    Enquanto observo as duas meninas penso nos meus desejos para 2019 e, de repente, todos me parecem fúteis e vazios, indecentes, quase. Naquele momento, desejo apenas que aquelas duas crianças nunca deixem de ser amigas e nunca deixem de se ver assim, sem cor, sem medo, sem ódio. Desejo que possamos, não só, sobreviver aos Trumps, Bolsanaros e seus congéneres, mas remetê-los ao buraco imundo de onde nunca deviam ter saído, rastejando como vermes que são, miseráveis e abjectos. Não rezo. Se rezasse, seria para que este meu desejo se realizasse.

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publicado às 12:40

Como Dixit?

28.12.18

    Volto, então, ao Dixit. Não por publicidade. Não por publicidade ao jogo, pelo menos, mas aos bons momentos que proporciona.

    Deixo o rigor das regras para outros. Vou, apenas, dizer que o objectivo de cada narrador (nada mais do que um jogador na sua vez) deve descrever uma das cartas que possui em mão de forma a que algum dos outros jogadores a identifique, mas não todos, ou não ganhará qualquer ponto. Ou seja, subtil, e não explicitamente. Normalmente, à custa de uma frase curta, ou expressão. A seguir, cada um dos outros jogadores deve escolher, de entre as suas próprias cartas, aquela que mais se aproximar dessa descrição. E, muitas vezes, há várias que se adaptam, o que torna tudo mais interessante.

    Nos conjuntos que deixei, ontem, aqui, houve sempre alguém, mas não todos, a acertar na carta descrita pelo narrador; logo, cada narrador obteve a pontuação máxima.

    Vejam e comparem. E confirmem, se for o caso.

    O meu pai usou a expressão "vias de comunicação" para descrever esta carta:

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O meu filho usou "o principezinho" para descrever esta:

 

O principezinho1.jpg

 

O meu sobrinho, "a sofrer de depressão", para esta:

 

a sofrer de depressão1.jpg

 

E, a minha irmã, "enigma", para esta:

 

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Atrevam-se. E divirtam-se.

 

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publicado às 20:47

    Entre os vários livros que recebi como prendas de Natal consta a Biografia de José Saramago (Joaquim Vieira), oferecida pela minha irmã. Quem me conhece sabe como me fascina a sua obra, muito antes do prémio Nobel. Como aluna do ensino secundário, odiei ser obrigada a ler O Memorial do Convento, como odiei ser obrigada a ler Os Maias. Não sei bem porquê. Talvez por embirração. Mas, como ouvi alguém dizer, o bom da estupidez da juventude é que tende a passar com a idade. Alguma (felizmente, não toda) dessa, passou-me, efectivamente. Não que seja estúpido não gostar de Saramago ou de Eça – são gostos, e ainda(?) temos a liberdade de não gostarmos todos do mesmo –, mas é estúpido seguir a corrente sem questionar a sua (in)utilidade. De modo que, recorrentemente, retorno, de encantada vontade, ao “Ramalhete”, normalmente, nas férias de Verão, e nunca saberei expressar bem o que me maravilha em Saramago. Mas, vinha isto a propósito de uma curiosidade que desconhecia totalmente (que pequena vergonha!) e que descobri ao ler as primeiras páginas da biografia: que o apelido Saramago não era de família, foi acrescentado pelo funcionário do Registo Civil da Golegã (eventualmente, por despeito, por ser nome de erva daninha e a família, mal-amada), sem que ninguém se tivesse apercebido, no momento, da graçola. “Entrei na vida marcado com este apelido Saramago sem que a família o suspeitasse, e foi só aos 7 anos, quando, para me matricular na instrução primária, foi necessário apresentar certidão de nascimento, que a verdade saiu nua do poço burocrático (…)”. A peripécia tem outro detalhe engraçado, mas fica para depois…

    A maneira como nos entretemos na noite de Natal – findo o repasto que começa com o tradicional bacalhau cozido com batata e penca à moda do Porto, que a minha mãe prepara como ninguém e o meu pai tempera como o fazia o meu avô – foi variando ao longo dos anos, mantendo-se sempre, no entanto, a boa-disposição vertida no riso fácil e nas gargalhadas tolas que jorram, inconsequentes e alheias, pelo menos, nessas horas, às desgraças que nos atormentam noutros dias. No meio do disparate tão caótico quanto alegre e prazeroso, o meu filho corre em busca do livro das “piadas secas” e começa a ler, armado de tontos e deliciosos tiques, “um amigo pergunta ao outro, então, já te divorciaste; sim, e já chegámos a acordo quanto à casa, ela fica com um lado e eu com o outro; e com que lado ficaste tu; com o lado de fora”, e ainda rimos como parvos quando o meu sobrinho, 10 anos de traquinice pegada e arrojada, atira com um “olha, ficou com o lado maior!”, e a galhofa continua, que é tempo de tolice e ingénua aventurança, sem momentos correctos ou incorrectos, apenas genuínos.

    As horas escorrem vagarosas e férteis em afectos e empatias. Se o Natal deve ter algum significado, que seja o de sermos, realmente, plenamente, família. Há que passar o tempo para abrir os presentes que não trouxe o Pai Natal, que escândalo!, e que não chegará à meia-noite, mas quando quisermos, como quisermos, presos apenas à nossa identidade e à nossa circunstância.

    O meu filho arruma as piadas e traz o Dixit, um jogo que lhe foi apresentado por uma amiga que não tem televisão em casa. Porque pode. Tem amigos especialmente estranhos, o meu filho. Ou será estranhamente especiais? As cartas do Dixit têm ilustrações magníficas. Cada jogador analisa as suas, cada narrador apostado em dizer o suficiente, nunca em demasia, com a subtileza suficiente, a inteligência suficiente, para descrever algo sem dizer tudo, apostando nas meias-palavras, no que nos conhecemos, uns e outros, no que já vimos, no que já imaginámos, nas histórias que partilhamos no antes e no agora, um apelo à imaginação e à criatividade, ao pensamento dentro e fora da caixa, estas para descrever vias de comunicação

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estas, para o principezinho

O principezinho.jpg

estas, para a sofrer de depressão

a sofrer de depressão.jpg

estas, para enigma

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e, em cada conjunto, apenas uma é a acertada.

    É preciso experimentar. Pelo menos, uma vez. A magia da época. Amanhã, o meu filho faz 12 anos e é o meu milagre de Natal. Logo eu, que não acredito em milagres.

 

    Amanhã, passo por cá, e desvendo cada carta.

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publicado às 16:22

Alienações.

14.12.18

Leu, algures, uma indignação profundamente sentida, incontida, contra aqueles que se preocupam mais com a violência das paredes esventradas e dos monumentos históricos violados do que com o sofrer das gentes, com a miséria do povo, com as humilhações, a fome, a exclusão social, o domínio dos mais fortes sobre os mais fracos. A impossibilidade de arranjar tempo para dar vida aos sonhos, pois que todo o tempo se esgota na labuta diária, servindo um capitalismo sôfrego, bárbaro, que promove uma nova forma de escravatura de que as classes populares se fartaram. Afinal, o que são carros incendiados, vidros partidos, casas espoliadas, ruas calcinadas, quando comparados com o desamparo de quem trabalha de sol a sol sem que, ainda assim, o dinheiro chegue, ao menos, para comer dignamente, quanto mais, para levar os filhos ao cinema, ao jardim zoológico, para almoçar fora ou ir de férias? Era repugnantemente verdade e foi acometida por profundo sentimento de vergonha. Também ela se indignara com o que não se poderia indignar. E, no entanto, fosse por culpa da alienação das massas, da informação manipulada e tóxica, da bolha de conforto e ignorância saloia em que vegetava, ou por pura e descuidada cegueira, também ela não vira, ali, essa aviltante desgraça. Olhava e continuava a não ver, ali, naquela circunstância exacta, essa gente que, esmagada, sofre miseravelmente. Seguramente, não via mulheres iguais àquela que pobre fora toda a sua vida, porém, quase sem queixume. Aquela que parira dezena e meia de filhos, quando essa era a regra, que amara para lá o admissível um homem que toda a vida a mal-tratou, como também se esperava que fizesse, e que, teimosamente, já que insurgência maior não podia, a cada agrura juntava uma esperança nova; a cada lágrima, um sorriso, a cada fraqueza, uma força redobrada. Sempre se deixara comover por aquela alegria encarniçada e insana; sempre admirara a sua capacidade de resistir, enfurecidamente, furiosamente, contra todas as contrariedades; a desconcertante faculdade para continuar a sorrir e a sonhar, irritantemente, para lá do tolerável.

Também leu que só quem nunca conheceu a miséria se permite pensar ser mais grave a barbárie de danificar um monumento histórico do que a impossibilidade de sonhar, viver e alimentar a família. Soltou uma gargalhada cínica e deu por si a pensar que até na pobreza e na miséria, a dignidade, como a falta dela, se pode viver de forma tão desconcertantemente diferente...

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publicado às 10:42

     

    “Mamã, ela não tem um olho, mas, não faz mal, pois não? Podemos levá-la na mesma? É tão querida…e era mesmo o que queríamos...”. Assim, sem pausas e em catadupa.

    Ela é um hamster sírio, de pelo fofo, ruivo e brilhante. Está na loja há muito tempo e, segundo a vendedora, será porque tem esse defeito físico indisfarçável. Daí a ansiedade, suponho, do meu filho.

    Quando somos pais, assaltam-nos montes de dúvidas e cometemos uma enormidade de erros. Pelo meio dessa esmagadora aventura e dessa responsabilidade avassaladora esperamos, acho eu, acertar de quando em vez, de modo que os nossos filhos, não sendo uns santos de pau oco, consigam ser solidários, mostrar empatia com os outros, enfim, ter algo daquilo a que chamamos de bom.

    Trouxemos a Pirata, baptizada logo ali. É tímida, mas irrequieta, e, sim, é mesmo querida. É só um ratinho de estimação. Mas, trouxe consigo um bocadinho de esperança…

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publicado às 12:47

          Acabara de chegar. Depois de olhar para o écran que exibia, vagarosamente, a passagem dos números com a indicação do serviço e do balcão, optei por esperar na loja. Queria ir à tesouraria, tinha a senha B15 e, no momento, piscava a B6, pelo que, decidi não arriscar a saída. Tinha um livro como companhia, como sempre. “Quem meteu a mão na caixa”, da Helena Garrido, oferecido pelo meu pai. Sempre que pretende explicar-me algo para o qual acha que não tem competências à altura, o meu pai oferece-me um livro. Quando fiz 15 anos, ofereceu-me “Os Filhos da Droga” e disse-me, “filha, não sei explicar-te isto de outra maneira, por isso, lê”, e eu li; entre os protestos da minha mãe, que sempre foi menos prática, como quem tira um penso rápido com todo o cuidado porque vai doer, em vez de o arrancar à bruta, se vai doer de qualquer maneira ao menos que seja expedito. Mas, isto talvez dê outra história.

                 Sentei-me, guardei a senha e abri o livro.

              Não levava cinco minutos sentada quando uma senhora ocupa a cadeira ao lado da minha. Só levantei os olhos do livro por dois segundos, mas, creio que, não só sempre tive ar de boa ouvinte, como acho que isso se nota à distância, de alguma forma. Pela enésima vez, algures nos meus tempos de espera em serviços públicos, a senhora desata a conversar comigo, como se tivéssemos mais do que sido apresentadas, e não era sequer o caso.

        Percebo que não está sozinha. Vem com o filho, um homem de 40 anos, desempregado há mais de cinco e que, ainda por cima, é um pouco “atrasado”, como me dirá daí a pouco. Vai alertando o filho para estar atento aos números, ela vê mal. É cedo, daqui a pouco já verá um bocadinho melhor, tem que ir habituando a vista e forçando um pouco a pálpebra e, para já, muito contrariada, deve fiar-se do filho. Sossego-a, ainda faltam cinco senhas e eu própria vou olhando e controlando, não se preocupe. O livro já está guardado e ouço-a dizer que já hoje fez duas dúzias de rissóis para a patroa. Ainda não são nove e meia da manhã e não controlo o espanto, a senhora tem, seguramente, mais de 70 anos e a pergunta salta do meu pensamento sem eu dar por isso. “Então, minha querida, como é que não hei-de trabalhar? Tenho 300 euros de reforma, aquele ali (aponta o filho) que não trabalha e um marido que, olhe, é o mesmo que ter outro filho. Tenho dois filhos, é o que é. Ainda hoje saiu para uma consulta e, olhe, nem vale a pena…”. Fico a saber que o patrão, alemão, faleceu há dois anos, que, desde aí, tem mais trabalho, que a patroa viaja imenso e recebe muito, com as meninas, que quase podiam ser todas irmãs, porque são filhas de um primeiro casamento do doutor. Mas são muito amigas dela, sente-se bem a trabalhar na casa, mas tem tido muito trabalho e está muito cansada.

             Continuo a olhar para o écran. Faltam três senhas para o seu número. Faço-lhe saber. Já vê melhor, as letras e os números já têm forma. O filho exalta-se um pouco, não chego a perceber porquê, ela manda-o acalmar-se, como quem sossega um bebé, já está quase, é só mais um bocadinho.

                Prossegue a narrativa. Está muito cansada. Ainda não há muito tempo, desmaiou e ficou de cama durante alguns dias. Um caos. Mostra-me o colo magro e seco e, de repente, o número da sua senha começa a piscar. Vimo-lo ao mesmo tempo, chama o filho e despede-se de mim, tão lesta e precipitada como chegou.

             Fico um pouco atordoada, eu própria esgotada, e é então que percebo que, tão preocupada com não perder a vez da senhora, deixei passar a minha própria vez. Sou a B15 e o monitor mostra já a B17. Levanto-me de um salto, engolindo impropérios, e dirijo-me ao balcão 1. O papelito avisa-me que há uma tolerância de 3 senhas, pelo que, ainda não estou perdida.

            No balcão, alguém está a ser atendido e há uma espécie de porta-retratos de plástico transparente com uma advertência: “Por Favor, Não Interrompa o Atendimento”. Não interrompo. Espero que aquela senhora saia e aproximo-me do balcão. Mostro a senha e digo que me distraí, lamento. A funcionária informa-me que acabou de chamar a senha B18, portanto, já passou a tolerância das três senhas. Passa-me qualquer coisa pela cabeça e faço um esforço para não descer dos saltos e mandá-la à merda. Percebo de integrais e de números de complexos, de funções racionais e irracionais e não percebo da arte de contar três senhas de tolerância. Aponto-lhe o letreiro, salientando o óbvio, se tivesse interrompido o atendimento, ela já não teria tido tempo de premir o botãozinho para chamar o número seguinte, tão indolentes na maioria das vezes, tão diligente naquele dia. A mulher insiste, se chegar o B18, não me poderá atender. Penso na senhora com o filho, no corpo cansado e seco, nos rissóis que já preparou para as meninas ainda a manhã não acabou de se espreguiçar. O B18 não chega e agradeço-lhe baixinho enquanto a mulher ao balcão lá se resigna a atender-me…

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publicado às 11:04

     “C’um carago!”, como diria o meu pai. Com tanta coisa para me perguntar, e tinha que vir isto! Não podia ser algo mais pacífico, tipo, porque que é que a Terra é redonda, mais ou menos, ou se os meninos podem usar cor-de-rosa e as meninas, jogar à bola? Se sou feminista? OMG! E já sei que o miúdo não se contenta com respostas assim-assim. Desde tenra idade, dizia-me, “mamã, não fales para trás, fala para a frente”, quando percebia que as minhas respostas às suas perguntas mais estapafúrdias, tendo em conta a idade, estavam a “enrolá-lo”. Como quando nunca desistiu de perguntar para onde vai o Sol à noite, até a resposta fazer sentido, naquela cabecinha curiosa. O “vai dormir” nunca o convenceu, “mas, é preciso uma cama muito grande…para onde vai o Sol?”, insistia. Ainda não tinha ele três anos e vi-me obrigada a pegar em duas bolinhas de brincar e “explicar-lhe” o movimento de rotação da Terra. “Vês esta bolinha? É o Sol. Imagina que é uma lâmpada sempre acesa. E, agora, esta é a Terra, que gira, assim, à roda de si mesma, como uma bailarina. Vês? Aqui há luz, ali não há. Agora, aqui é noite, daquela lado é dia”, “Ah!, e agora nós vamos dormir e os meninos do outro lado da Terra, estão a acordar, não é, mamã?”. Nesse dia, também eu recebi uma lição. Nunca devemos subestimar a inteligência das crianças e, sobretudo, nunca devemos tentar enganá-las!

     Mas, estava eu a falar de feminismo. Ele está a olhar para mim; como um inquisidor, de olhos arregalados (se vissem o tamanho dos olhos do meu filho, saberiam quão assustador pode ser…), armado da sua mais intimidatória e obstinada curiosidade de criança.

     A verdade é que eu não sei se sou feminista. Sofro de uma data de pecados de que, aparentemente, as feministas a sério estão isentas. Maquilho-me todos os dias, nem que saia apenas para despejar o lixo ou comprar pão (ok, ok, um dia ou outro, muuuuuuito excepcionalmente, saio de cara lavada). Uso saltos, no mínimo, de 10 cm, a não ser que vá à praia ou perder-me, voluntariamente e maravilhada, pelas ruas das cidades, aldeias ou vilas que gosto de visitar e conhecer nas férias. Tenho as unhas pintadas e mais compridas do que que qualquer tipo de feminismo permite, suponho. Fico furiosa se um homem pretender dar-me lições de estacionamento, mas não se pretender ceder-me a vez ao entrar no elevador. Não admitiria que o meu marido não partilhasse das tarefas domésticas, mas espero que me “proteja” de toques indesejáveis quando utilizamos transportes públicos atulhados. Já estive para levar na tromba, de um homem!, num parque de estacionamento (porque não consenti que me tirasse o lugar), mas sou absolutamente contra todas as formas de discriminação e, portanto, com base no género também. Nem todos os piropos me provocam repulsa ou sentimentos de humilhação, mas todas as formas de aproximações físicas indesejadas e/ou não consentidas dão-me náuseas. Não gosto de ver ninguém a chorar, mas, se for um homem, incomoda-me mais, como se a dimensão do sofrimento masculino fosse insuportavelmente maior. Abomino todas as formas de abuso e assédio, mas não me sinto assediada por uma “boca de rua”, mesmo a mais foleira ou ordinária, embora, finja sempre que não ouço. Já lido mal, muito mal, quando me julgam pela minha aparência, como se a competência e a inteligência fossem inimigas do bom-ar. Adoro as diferenças entre homens e mulheres, mas sou a favor da igualdade. Por isso, acho que sim, sou feminista.

     “Mamã, eu acho que tu não és feminista…”

     WTF! Mas o que é que te andam a ensinar na escola? Olha que te ponho de castigo até atingires a maioridade, ouviste?!

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publicado às 13:22



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

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Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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