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naomedeemouvidos

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

Alienações.

Leu, algures, uma indignação profundamente sentida, incontida, contra aqueles que se preocupam mais com a violência das paredes esventradas e dos monumentos históricos violados do que com o sofrer das gentes, com a miséria do povo, com as humilhações, a fome, a exclusão social, o domínio dos mais fortes sobre os mais fracos. A impossibilidade de arranjar tempo para dar vida aos sonhos, pois que todo o tempo se esgota na labuta diária, servindo um capitalismo sôfrego, bárbaro, que promove uma nova forma de escravatura de que as classes populares se fartaram. Afinal, o que são carros incendiados, vidros partidos, casas espoliadas, ruas calcinadas, quando comparados com o desamparo de quem trabalha de sol a sol sem que, ainda assim, o dinheiro chegue, ao menos, para comer dignamente, quanto mais, para levar os filhos ao cinema, ao jardim zoológico, para almoçar fora ou ir de férias? Era repugnantemente verdade e foi acometida por profundo sentimento de vergonha. Também ela se indignara com o que não se poderia indignar. E, no entanto, fosse por culpa da alienação das massas, da informação manipulada e tóxica, da bolha de conforto e ignorância saloia em que vegetava, ou por pura e descuidada cegueira, também ela não vira, ali, essa aviltante desgraça. Olhava e continuava a não ver, ali, naquela circunstância exacta, essa gente que, esmagada, sofre miseravelmente. Seguramente, não via mulheres iguais àquela que pobre fora toda a sua vida, porém, quase sem queixume. Aquela que parira dezena e meia de filhos, quando essa era a regra, que amara para lá o admissível um homem que toda a vida a mal-tratou, como também se esperava que fizesse, e que, teimosamente, já que insurgência maior não podia, a cada agrura juntava uma esperança nova; a cada lágrima, um sorriso, a cada fraqueza, uma força redobrada. Sempre se deixara comover por aquela alegria encarniçada e insana; sempre admirara a sua capacidade de resistir, enfurecidamente, furiosamente, contra todas as contrariedades; a desconcertante faculdade para continuar a sorrir e a sonhar, irritantemente, para lá do tolerável.

Também leu que só quem nunca conheceu a miséria se permite pensar ser mais grave a barbárie de danificar um monumento histórico do que a impossibilidade de sonhar, viver e alimentar a família. Soltou uma gargalhada cínica e deu por si a pensar que até na pobreza e na miséria, a dignidade, como a falta dela, se pode viver de forma tão desconcertantemente diferente...

Esperança em doses pequeninas.

     

    “Mamã, ela não tem um olho, mas, não faz mal, pois não? Podemos levá-la na mesma? É tão querida…e era mesmo o que queríamos...”. Assim, sem pausas e em catadupa.

    Ela é um hamster sírio, de pelo fofo, ruivo e brilhante. Está na loja há muito tempo e, segundo a vendedora, será porque tem esse defeito físico indisfarçável. Daí a ansiedade, suponho, do meu filho.

    Quando somos pais, assaltam-nos montes de dúvidas e cometemos uma enormidade de erros. Pelo meio dessa esmagadora aventura e dessa responsabilidade avassaladora esperamos, acho eu, acertar de quando em vez, de modo que os nossos filhos, não sendo uns santos de pau oco, consigam ser solidários, mostrar empatia com os outros, enfim, ter algo daquilo a que chamamos de bom.

    Trouxemos a Pirata, baptizada logo ali. É tímida, mas irrequieta, e, sim, é mesmo querida. É só um ratinho de estimação. Mas, trouxe consigo um bocadinho de esperança…

Em modo automático.

          Acabara de chegar. Depois de olhar para o écran que exibia, vagarosamente, a passagem dos números com a indicação do serviço e do balcão, optei por esperar na loja. Queria ir à tesouraria, tinha a senha B15 e, no momento, piscava a B6, pelo que, decidi não arriscar a saída. Tinha um livro como companhia, como sempre. “Quem meteu a mão na caixa”, da Helena Garrido, oferecido pelo meu pai. Sempre que pretende explicar-me algo para o qual acha que não tem competências à altura, o meu pai oferece-me um livro. Quando fiz 15 anos, ofereceu-me “Os Filhos da Droga” e disse-me, “filha, não sei explicar-te isto de outra maneira, por isso, lê”, e eu li; entre os protestos da minha mãe, que sempre foi menos prática, como quem tira um penso rápido com todo o cuidado porque vai doer, em vez de o arrancar à bruta, se vai doer de qualquer maneira ao menos que seja expedito. Mas, isto talvez dê outra história.

                 Sentei-me, guardei a senha e abri o livro.

              Não levava cinco minutos sentada quando uma senhora ocupa a cadeira ao lado da minha. Só levantei os olhos do livro por dois segundos, mas, creio que, não só sempre tive ar de boa ouvinte, como acho que isso se nota à distância, de alguma forma. Pela enésima vez, algures nos meus tempos de espera em serviços públicos, a senhora desata a conversar comigo, como se tivéssemos mais do que sido apresentadas, e não era sequer o caso.

        Percebo que não está sozinha. Vem com o filho, um homem de 40 anos, desempregado há mais de cinco e que, ainda por cima, é um pouco “atrasado”, como me dirá daí a pouco. Vai alertando o filho para estar atento aos números, ela vê mal. É cedo, daqui a pouco já verá um bocadinho melhor, tem que ir habituando a vista e forçando um pouco a pálpebra e, para já, muito contrariada, deve fiar-se do filho. Sossego-a, ainda faltam cinco senhas e eu própria vou olhando e controlando, não se preocupe. O livro já está guardado e ouço-a dizer que já hoje fez duas dúzias de rissóis para a patroa. Ainda não são nove e meia da manhã e não controlo o espanto, a senhora tem, seguramente, mais de 70 anos e a pergunta salta do meu pensamento sem eu dar por isso. “Então, minha querida, como é que não hei-de trabalhar? Tenho 300 euros de reforma, aquele ali (aponta o filho) que não trabalha e um marido que, olhe, é o mesmo que ter outro filho. Tenho dois filhos, é o que é. Ainda hoje saiu para uma consulta e, olhe, nem vale a pena…”. Fico a saber que o patrão, alemão, faleceu há dois anos, que, desde aí, tem mais trabalho, que a patroa viaja imenso e recebe muito, com as meninas, que quase podiam ser todas irmãs, porque são filhas de um primeiro casamento do doutor. Mas são muito amigas dela, sente-se bem a trabalhar na casa, mas tem tido muito trabalho e está muito cansada.

             Continuo a olhar para o écran. Faltam três senhas para o seu número. Faço-lhe saber. Já vê melhor, as letras e os números já têm forma. O filho exalta-se um pouco, não chego a perceber porquê, ela manda-o acalmar-se, como quem sossega um bebé, já está quase, é só mais um bocadinho.

                Prossegue a narrativa. Está muito cansada. Ainda não há muito tempo, desmaiou e ficou de cama durante alguns dias. Um caos. Mostra-me o colo magro e seco e, de repente, o número da sua senha começa a piscar. Vimo-lo ao mesmo tempo, chama o filho e despede-se de mim, tão lesta e precipitada como chegou.

             Fico um pouco atordoada, eu própria esgotada, e é então que percebo que, tão preocupada com não perder a vez da senhora, deixei passar a minha própria vez. Sou a B15 e o monitor mostra já a B17. Levanto-me de um salto, engolindo impropérios, e dirijo-me ao balcão 1. O papelito avisa-me que há uma tolerância de 3 senhas, pelo que, ainda não estou perdida.

            No balcão, alguém está a ser atendido e há uma espécie de porta-retratos de plástico transparente com uma advertência: “Por Favor, Não Interrompa o Atendimento”. Não interrompo. Espero que aquela senhora saia e aproximo-me do balcão. Mostro a senha e digo que me distraí, lamento. A funcionária informa-me que acabou de chamar a senha B18, portanto, já passou a tolerância das três senhas. Passa-me qualquer coisa pela cabeça e faço um esforço para não descer dos saltos e mandá-la à merda. Percebo de integrais e de números de complexos, de funções racionais e irracionais e não percebo da arte de contar três senhas de tolerância. Aponto-lhe o letreiro, salientando o óbvio, se tivesse interrompido o atendimento, ela já não teria tido tempo de premir o botãozinho para chamar o número seguinte, tão indolentes na maioria das vezes, tão diligente naquele dia. A mulher insiste, se chegar o B18, não me poderá atender. Penso na senhora com o filho, no corpo cansado e seco, nos rissóis que já preparou para as meninas ainda a manhã não acabou de se espreguiçar. O B18 não chega e agradeço-lhe baixinho enquanto a mulher ao balcão lá se resigna a atender-me…

Mamã, és feminista?

     “C’um carago!”, como diria o meu pai. Com tanta coisa para me perguntar, e tinha que vir isto! Não podia ser algo mais pacífico, tipo, porque que é que a Terra é redonda, mais ou menos, ou se os meninos podem usar cor-de-rosa e as meninas, jogar à bola? Se sou feminista? OMG! E já sei que o miúdo não se contenta com respostas assim-assim. Desde tenra idade, dizia-me, “mamã, não fales para trás, fala para a frente”, quando percebia que as minhas respostas às suas perguntas mais estapafúrdias, tendo em conta a idade, estavam a “enrolá-lo”. Como quando nunca desistiu de perguntar para onde vai o Sol à noite, até a resposta fazer sentido, naquela cabecinha curiosa. O “vai dormir” nunca o convenceu, “mas, é preciso uma cama muito grande…para onde vai o Sol?”, insistia. Ainda não tinha ele três anos e vi-me obrigada a pegar em duas bolinhas de brincar e “explicar-lhe” o movimento de rotação da Terra. “Vês esta bolinha? É o Sol. Imagina que é uma lâmpada sempre acesa. E, agora, esta é a Terra, que gira, assim, à roda de si mesma, como uma bailarina. Vês? Aqui há luz, ali não há. Agora, aqui é noite, daquela lado é dia”, “Ah!, e agora nós vamos dormir e os meninos do outro lado da Terra, estão a acordar, não é, mamã?”. Nesse dia, também eu recebi uma lição. Nunca devemos subestimar a inteligência das crianças e, sobretudo, nunca devemos tentar enganá-las!

     Mas, estava eu a falar de feminismo. Ele está a olhar para mim; como um inquisidor, de olhos arregalados (se vissem o tamanho dos olhos do meu filho, saberiam quão assustador pode ser…), armado da sua mais intimidatória e obstinada curiosidade de criança.

     A verdade é que eu não sei se sou feminista. Sofro de uma data de pecados de que, aparentemente, as feministas a sério estão isentas. Maquilho-me todos os dias, nem que saia apenas para despejar o lixo ou comprar pão (ok, ok, um dia ou outro, muuuuuuito excepcionalmente, saio de cara lavada). Uso saltos, no mínimo, de 10 cm, a não ser que vá à praia ou perder-me, voluntariamente e maravilhada, pelas ruas das cidades, aldeias ou vilas que gosto de visitar e conhecer nas férias. Tenho as unhas pintadas e mais compridas do que que qualquer tipo de feminismo permite, suponho. Fico furiosa se um homem pretender dar-me lições de estacionamento, mas não se pretender ceder-me a vez ao entrar no elevador. Não admitiria que o meu marido não partilhasse das tarefas domésticas, mas espero que me “proteja” de toques indesejáveis quando utilizamos transportes públicos atulhados. Já estive para levar na tromba, de um homem!, num parque de estacionamento (porque não consenti que me tirasse o lugar), mas sou absolutamente contra todas as formas de discriminação e, portanto, com base no género também. Nem todos os piropos me provocam repulsa ou sentimentos de humilhação, mas todas as formas de aproximações físicas indesejadas e/ou não consentidas dão-me náuseas. Não gosto de ver ninguém a chorar, mas, se for um homem, incomoda-me mais, como se a dimensão do sofrimento masculino fosse insuportavelmente maior. Abomino todas as formas de abuso e assédio, mas não me sinto assediada por uma “boca de rua”, mesmo a mais foleira ou ordinária, embora, finja sempre que não ouço. Já lido mal, muito mal, quando me julgam pela minha aparência, como se a competência e a inteligência fossem inimigas do bom-ar. Adoro as diferenças entre homens e mulheres, mas sou a favor da igualdade. Por isso, acho que sim, sou feminista.

     “Mamã, eu acho que tu não és feminista…”

     WTF! Mas o que é que te andam a ensinar na escola? Olha que te ponho de castigo até atingires a maioridade, ouviste?!

Istambul Como A Recordo

    Arrastava-se há alguns minutos na fila para passar o controlo de passaportes quando reparou nela, pela primeira vez. Um fantasma negro, como um corvo, coberta da cabeça aos pés, de luvas pretas, completamente tapada, irreconhecível. Nem mesmo um fugaz vislumbre dos olhos. Um violento e opressivo Niqab, mais esmagador do que a burka, como nunca tinha visto, nem mesmo no Marrocos mais remoto, que conhecia bem. Convivera, já, com mulheres de Niqab e luvas negras, sauditas, na maioria, onde a beleza profunda dos olhos encarcerados se assumia (muitas vezes) muito mais tentadora e acirrante do que um vulgar colo desnudo. Mas nunca tinha visto aquele tipo de vulto ignoto, sem pele, sem olhos, sem identidade, naquele vai-e-vem constante de gente, entre voos e escalas, empunhando passaportes manejados como leques na esperança de afastar o calor sufocante, apesar dos aparelhos de ar condicionado ligados.

    Usou da relativa vantagem da sua posição na fila de espera e da disposição alternada dos guichés de polícia para espreitar – com o pudor e a descrição possíveis – aquela sombra negra. Afinal, estavam numa zona de controlo de fronteira. Preparavam-se para se mostrar e fazer-se reconhecer e aprovar pelos funcionários, alguns frouxos e desesperadamente lentos, que escorriam pelas cadeiras em poses desleixados e pouco formais. Como o faria ela? Reparou em como foi mudando de corredores, evitando ser atendida por um homem, nunca se afastando muito, no entanto, por sorte, do local em que se encontravam. Em algum momento, teria de entregar o passaporte e mostrar o rosto e não poderia expor-se senão a uma outra mulher.

    Faltavam, ainda, três pessoas para a sua própria vez quando a austera desconhecida alcançou o respectivo posto de controlo. Virou-se, discretamente, para o marido, de costas para a cabeça da fila, para poder observá-la claramente. A mão enluvada, negra, entregou o passaporte árabe à mulher atrás do balcão, que o recolheu com uma ligeira irritação. O denso manto negro que a cobria não era, como já suponha, uma peça única. Levantou, primeira e ligeiramente, o hijad aparentemente compacto que a cobria da cabeça até um pouco abaixo dos ombros, de forma a deixar apenas os olhos a descoberto. A seguir, baixou um segundo véu que lhe cobria o rosto desde a linha inferior dos olhos até cerca de um palmo e meio abaixo do queixo, revelando, por fim, o rosto redondo e imaculado, mas por breves momentos; o relance repentino do fundo de um prato sem poder ver-lhe a borda. Demorou uma ínfima fracção de tempo. Muito menos do que o suficiente para que a agente de segurança turca pudesse garantir, com absoluta certeza, que a face fantasmagórica que acabara de emergir, precipitadamente, na sua frente, correspondia à fotografia do passaporte que ainda segurava na mão direita. Ainda assim, deixara-a passar sem mais delongas ou reparo. Perdeu-lhe o rasto quando, ao chegar a sua vez de atravessar o detector electrónico, o monstro de metal desatou a berrar, estridente, com as frenéticas luzes vermelhas a piscar em espasmos ritmados e acusadores, obrigando-a a sujeitar-se a uma daquelas revistas demasiado próximas e incómodas. Aceitou-a de forma resignada, como uma espécie de castigo pela sua atrevida contemplação, instantes antes.

 ••

    Contra todos os vaticínios prévios – lidos, sugeridos, soprados, comentados, anunciados – não se rendeu à cidade imediatamente. A magia da metrópole fervilhante, o pulsar irrequieto das ruas a transbordar, a mistura desassossegada de culturas, a profusão inebriante de cheiros, a ostentação mais sensual do que religiosa dos diferentes véus emoldurando rostos belíssimos e artisticamente maquilhados, o encanto luminoso do Corno de Ouro e a inclemência sofisticada do Bósforo rasgando a cidade entre dois continentes, não se abateram sobre ela logo aos primeiros dias. Algures, entre (algum)a simpatia forçada e seca de muitos serviços, a dificuldade de uma comunicação fluida mesmo numa língua dita universal, o inconveniente, porém, óbvio roubo do telemóvel na carruagem atolada do metro e o estrondoso desencanto da mítica Mesquita Azul e os seus seis minaretes, tardou em deixar-se seduzir pela lendária e histórica cidade de Constantino, antes, Bizâncio, actual Istambul, a intrépida cidade dos gatos. Estava, no entanto, decidida a contrariar as primeiras (más) impressões.

    Voltara as costas à Mesquita Azul. Interessante, mas não arrebatadora. Viriam mais; mais ousadas e sedutoras, até, como as imperiais Sehzade Mehmet Camii e Süleymaniye Camii. Entre o põe e tira de lenços e saias compridas, numa cacofonia absurda de cores e estilos que a acompanharia durante todas as visitas às inúmeras e magníficas mesquitas da cidade.

•••

    Avançou, resoluta, para a entrada principal da imponente Basílica de Santa Sofia. No interior do magnífico templo da sabedoria divina – três vezes ressuscitado, sobrevivente a quatro impérios – ancestrais mosaicos bizantinos (ou o que deles resta) com representações de Cristo, da Virgem e dos Arcanjos, convivem, agora, em paz aparente com o gracioso mihrab, apontando a Meca, e os mahfilis dos muezins, desde que passou a servir de centro de oração para os seguidores do Islão.

    Admirou os quatro impressionantes painéis circulares exibindo a elegante caligrafia árabe, evocando Alá e Maomé e passagens e versos do Corão. Os candeeiros colossais em quedas vertiginosas, suspensos do tecto, num equilíbrio perfeito e impossível, debruando um quadro de urnas de mármore e tapetes flamejantes. Uma basílica e uma mesquita, numa metamorfose de diferentes estilos e várias fés, passada de império em império, opulenta, esplêndida, cobiçada e adorada por todos na sua majestosa natureza singular. Mosaicos geométricos, mosaicos com figuras, ouro, prata, vidro, terracota, pedras coloridas, mármore branco de Mármara, rosa, de Afyon, amarelo, do Norte de África, colunas da Anatólia e da Síria, do Egipto e do Templo de Ártemis em Éfeso. Uma profusão frenética de luzes e cores, múltiplos reflexos irrequietos, repartindo histórias, um colosso de arquitectura e de resistência teimosa e sobranceira.

    De uma das janelas do segundo andar, voltou a olhar o popular contorno da Sultan Ahmet Camii, com os seus insolentes, quase profanos, seis minaretes. Recordou os hipnóticos arabescos da Cúpula, repousando sobre grossos pilares, os famosos azulejos, sobretudo azuis, de Iznik e a primitiva e singela Fonte das Abluções – onde, actualmente, os fiéis muçulmanos já não lavam os seus pés impuros – perdida no imenso pátio exterior coberto de mármores de Ilha de Mármara.

    Enquanto se encaminhava para a saída, deslumbrou-se, uma vez mais, com a representação de Cristo entre o imperador Constantino IX e a imperatriz Zoé, com o mosaico de Maria sustendo o Menino e ladeada pelo imperador João II e pela imperatriz Irene, com a beleza da Virgem Maria e João Baptista com Cristo Pantocrator.

    No exterior, tomou o caminho da cisterna. Preparava-se para mergulhar nas profundezas do bairro de Sultanahmet, no ventre de Ayasofya, acudindo ao chamamento encantado da intemporal Yerebatan Sarnıcı, o mais assombroso depósito de água da época bizantina. Sem o romantismo, é certo, do barco a remos de James Bond, em Da Rússia com Amor, nem a urgência da ameaça moderna e algo tosca do Inferno de Dan Brown, mas profundamente misterioso e de uma beleza impressionante.

  Perdeu-se entre as magníficas colunas de mármore, envolvida pela rigorosa e deslumbrante simetria das linhas harmoniosas, subindo vertiginosamente nove metros acima do solo. Àquela hora, a ténue luz amarela, de dezenas e dezenas de lâmpadas na base das colunas, emprestava à bizarra estrutura uma presença fantasmagórica, avermelhada e irrequieta, que cortejava descaradamente os pasmados visitantes. Esquecida durante anos pelo Império Otomano, vingava-se, agora, atraindo em melódica surdina, como as sereias de Homero, os incautos turistas que para sempre sucumbiam ao seu encanto.

    Deambulou entre as colunas, pelos túneis, ouviu o ranger suave da madeira e o choro desesperado e exausto dos escravos, derramado, em atormentadas formas, pela coluna das lágrimas e chegou, enfim, às duas colunas suportadas pelas excêntricas cabeças de Medusa, uma invertida e a outra esmagada sobre a sua face direita e sob o peso do pilar, ambas de olhos bem abertos e ameaçadores, convertida, ela própria, em pedra pelo reflexo maquiavélico das águas... ou talvez não.

(continua)

M, de Marrocos!

Sempre que me perguntam aonde ir ou o que visitar em Marrocos, nunca hesito. Fez, Fez, Fez!

Não que seja fácil escolher, para uma visita de poucos dias, o melhor postal ilustrado vivo que irá perdurar na nossa memória retratando aquela viagem que levámos, às vezes, anos a planear. Não sei se porque lá vivi mais de dois anos, porque lá tive a minha primeira casa recém-casada, porque Marrocos é um país de violentos contrastes e partilha histórica com Portugal, são várias as cidades encantadas onde nos podemos perder com enorme e avassaladora paixão. Da cisterna portuguesa em El Jadida à praça Djemaa el Fna, em Marraquexe (a praça dos mortos mais viva de que há memória, suponho!), do hipnotizante pôr-do-Sol em Ouarzazate às estonteantes Gorge du Dadès no Atlas, da graciosidade de Asilah à exuberância de Chefchaouen, da quase sobriedade de Rabat à vibrante Essauira, da mundana Casablanca à elegância de Ifrane (e mais, e mais, e mais!), Marrocos tem um sem número de recantos que exaltam os nossos sentidos. Mas, Fez tem qualquer coisa de mágico que se cola à nossa pele. Parece parada no tempo, ao contrário, por exemplo, de Tânger que, em pouco mais de 20 anos, tornou-se numa cidade verdadeiramente cosmopolita.

A primeira vez que visitei Fez foi em 1997. E quantas memórias guardo! Recém-casada, recém-chegada a Tânger, onde eu e o meu marido tivemos a primeira casa, nunca esqueceremos, eu e ele, a visita nocturna à Medina de Fez. A grande Medina. A de El-Bali, com as suas mais de 700 mesquitas. Se o lugar já parece mágico à luz do dia, torna-se irreal ao luar. As portadas das lojas exibindo toda a sua beleza, as ruas e ruelas sinuosas e estreitas por onde os burros, daí a algumas horas, hão-de passar transportando diferentes mercadorias, as sombras que ora se apressam ora se encolhem à nossa passagem, os assobios da brisa morna lambendo as lânguidas esquinas…e, depois, a visão daquele cavalo possante e belo, negro como a noite, que surgiu do nada num momento fugaz de magnífica graciosidade para logo ser levado pelo garboso cavaleiro, como numa tela de cinema.

Fez, com toda a certeza!

Voltámos a Fez em Março último. Já lá tínhamos estado outras vezes, mas ainda não tínhamos o nosso filhote e, eu especialmente, ansiava por levá-lo a Marrocos. Que conhecesse a rua onde morávamos, em Tânger, os amigos que ainda lá temos e, sobretudo, que visse por si próprio que nem todos os árabes e muçulmanos são criminosos e terroristas. Que percebesse que as crianças são crianças e as árabes e muçulmanas não são tão diferentes dele, a não ser por a maior parte ter menos privilégios. Também queria que o meu filho sentisse isso, para que pudesse perceber melhor, dentro da inocência dos seus 11 anos, porque é que tantos meninos como ele perdem a vida no Mediterrâneo. Como estancar essa sangria alienada, se não podemos acudir a todos nem, tão-pouco, entregá-los à morte, dando de ombros como se o drama não fosse, também, nosso?

Há cerca de 20 anos, era impossível mergulhar na Medina de Fez sem um guia. Agora não. Ou melhor. Não necessariamente. Existem percursos numerados e assinalados com cores diferentes que se podem seguir facilmente. Basta ir de nariz no ar, procurando as pequenas placas suspensas nas ruas da Medina. Desta vez, usámos essa opção, até porque o nosso filho se entusiasmou bastante com a hipótese de ser ele a guiar-nos e foi uma experiência bem divertida. No entanto, continuo a achar mais interessante a opção de contratar um guia local. Há cantinhos que só eles, de facto, conhecem e histórias que só eles sabem contar. Sem isso, a experiência fica incompleta, como fica incompleta sem provar a comida marroquina. No restaurante Clock, bem no coração da Medina de Fez, foi divertido ver como um casal jovem, na mesa ao lado, olhava genuinamente incrédulo para a gula do nosso pequenote que se deliciava com um belo prato de cuscuz de galinha e legumes, enquanto eles se contentavam com um vulgar hambúrguer com batatas fritas.

Com um guia físico ou não, há trilhos imperdíveis, como o bairro dos curtidores, que nos guia pelo cheiro, ou o bairro dos latoeiros que nos guia pelo som. Há, aliás, em Fez, experiências para todos os sentidos.

“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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Eu Sou Assim

IDADE_Tem dias. ESTADO CIVIL_Muito bem casada. COR PREFERIDA_Cor de burro quando foge. O MEU MAIOR FEITO_O meu filho. O QUE SOU_Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa. IRMÃOS_ Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo. IMPORTANTE NA VIDA_ Saber vivê-la, junto dos amigos e da família. IMPRESCINDÍVEL NA BAGAGEM de FÉRIAS_Livros. SAÚDE_Um bem precioso. DINHEIRO_Para tratar com respeito.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."