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naomedeemouvidos

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

Monte Encantado

Àquela hora, a atmosfera húmida esculpia as primeiras formas com a habilidade de um maestro regendo uma orquestra viva de cores que envolviam a ilha imortalizada nas inúmeras fotografias que já tinha admirado, muito antes de lá chegar.

A fraca luz solar animava as sombras fantasmagóricas que lambiam demoradamente as paredes da abadia. A maré tinha subido. Furtiva, insidiosa e matreira, cercara o monte, silenciosamente, acariciando-o como uma amante apaixonada e ardilosa e ele, imponente e quedo, sucumbira, uma vez mais, deixando-se arrebatar, resignado.

À sua frente, o rochedo erguia-se imponente e imperturbável, como uma barca sagrada, evocando o demónio que, séculos antes, assumira a forma de um dragão do mar para espalhar o terror e semear a desgraça entre as gentes pobres da região.

Na quietude da sua contemplação profunda, podia ouvir o ondular da Besta; as águas silvando impiedosamente, embalando o monstro na sua pérfida demanda de reinar sobre o seu castelo e tiranizar os seus vassalos, por toda a eternidade.

Fechou os olhos. As preces das velhas subiram de tom. Nas suas vestes andrajosas, vertiam lamúrias, maltrapilhas como elas, que, à força de lágrimas, espalhavam como uma praga por terras agora normandas.

Um clarão dourado e quente perturbou, brevemente, o seu êxtase. O Arcanjo Miguel emergiu das sombras desmaiadas, armado da sua espada redentora, chamado pela urgência aflita das rezas e subjugou o Mal, ordenando-lhe que retornasse às entranhas do mar e de lá não mais voltasse.

Os que assistiram à batalha imaginavam-se, de novo, confundidos pelo Diabo, enredados em mais uma das suas fétidas artimanhas. Demoraram a ceder ao pedido do Arcanjo de, naquele exacto monte, erguer um oratório em sua homenagem.

Sentiu, então, a pressão do dedo do Arcanjo contra a sua testa e abriu os olhos para contemplar a relíquia exposta na Basílica de Saint-Gervais d’Avranches. Afinal, verdade ou mentira, a viagem iniciara-se, apenas, e o encanto do lugar era, com toda a certeza, bem real…

Somos prisioneiros e temos medo.

As carrinhas dos carabinieri alinhavam com os impressionantes blindados militares. As metralhadoras suspensas dos ombros apontavam para o chão, mas os homens agarravam-nas firmemente em posição pronta a levantar e disparar. O aparato militar, muito maior que o policial, era brutal. Nas ruas, nas estações de metro, à porta de qualquer edifício governamental ou de interesse turístico, o que, naquela metrópole, significava, literalmente, em cada canto e recanto. Apenas aquela espécie de pompom que compunha o gorro vermelho dos militares fardados a rigor conferia alguma suavidade à hostilidade do cenário. Um adereço quase infantil num conjunto adverso, agressivo, oponente. Omnipresente.

A sensação de estarem em guerra atingiu-os mais violentamente do que nunca. Uma guerra silenciosa, na maioria das vezes. Uma guerra que, para eles, ainda aparecia apenas nos écrans de televisão ou nas páginas dos jornais. Uma guerra que ainda não os estropiara fisicamente nem lhes roubara nenhum ser querido; mas uma guerra de civilizações, um choque que já não cabia nas páginas do livro do Samuel, antes, irrompera pelas ruas e tomara-as de assalto. Tomara-os a todos de assalto.

O cenário deu forma à prisão das palavras para onde eles, os ocidentais, se foram deixando arrastar ao longo de anos. Esse politicamente correcto que os amputou da identidade e da riqueza da diferença, que os espoliou da paixão de discordar porque não! e concordar porque sim! e os obrigou a um permanente e insípido talvez, a bem de uma paz pálida, oca e chocha, esventrada de cores e de credos.

Que tontos se sentiram! A realidade ria-se deles, escarnecia, às gargalhadas. E, ali mesmo, sem compaixão nem piedade, roubou-lhes a ilusão da liberdade que julgavam ter e impôs-lhes o medo que gritavam não possuir.

Cidade Viva

A cidade, maravilhosa, repleta de vida e de História fascinara-os desde o primeiro instante, contrastando violentamente com a rudeza das gentes. O simples acto de validar um bilhete de eléctrico revelara-se uma tarefa algo complicada e, afinal, caricata, de tão rudimentar. E, a verdade, é que em Portugal, mesmo sem falar inglês ou outro qualquer idioma estranho ao seu, qualquer habitante local trataria de ajudar um turista em apuros. Mas não ali. Ali, pelo menos para eles e naquele verão em particular, os habitantes não primavam pela cordialidade; pelo contrário, eram rudes até na forma de vestir.

Estavam um pouco desencantados. Nunca antes haviam experimentado aquela hostilidade que os fazia sentir verdadeiramente “estrangeiros” e, sobretudo, “mal-vindos”.

Desceram apressadamente do eléctrico, entre risos um pouco nervosos, tentando afugentar um princípio de mau humor que os assaltara momentaneamente.

Passear pelas ruas antigas era esmagador! A Praça da Cidade Velha, com o seu relógio medieval e o seu irreal desfile dos doze apóstolos. Subir à Torre do Relógio e abraçar a História enegrecida como a icónica torre gótica onde a pólvora fora, em tempos, armazenada, valendo-lhe o nome de Torre da Pólvora. O encanto da cidade contrastando violentamente com a rudeza das gentes.

Apesar do calor, uma neblina espessa, ainda alta, e cinzenta começava a cobrir a cidade. Como um manto, descia sobre as magníficas estátuas da ponte Carlos, que ganhavam vida voltando-se lentamente para eles enquanto caminhavam, deslumbrados, pelo empedrado duro e alinhado. À luz fantasmagórica do fim de tarde, o próprio Cristo cruxificado parecia expiar uma vez mais os pecados dos Homens, no auge da paixão que lhe tingia a face de vermelho vivo. As outras estátuas, miravam-nos com a complacência empedernida dos séculos de adoração. Trinta esculturas vivas que a força do rio ameaçava roubar para si, chicoteando, louco de ciúmes, os arcos de arenito enterrados no Vltava. E elas, resignadas, ora adoradas, ora adorando, confundiam-se com os transeuntes, curvavam-se à sua passagem numa coreografia encantada e lenta que os inebriava.

Apressaram o passo a caminho do cemitério judeu. Apesar de a noite ainda tardar um pouco, a névoa ameaçava engoli-los vorazmente e, na verdade, preferiam não visitar os mortos a coberto da escuridão que se avizinhava.

Os túmulos amontoavam-se, desalinhados, acotovelando-se desordenamente por entre a vegetação, também ela caótica. Os raios de sol teimavam, ainda, em espreitar pelas densas nuvens, como crianças travessas, ora criando fantásticas sombras em cada recanto, ora pintando de tons maravilhosos as folhas caídas no chão.

Um esquilo atrevido atravessou-se-lhes no caminho, vindo não se sabe de onde, provocando-lhes um sobressalto.

O silêncio imperava à medida que caminhavam por entre as lápides. Impunha-se, tirânico, alarmando-os a cada restolhar das folhas, a cada trinar dos pássaros. Como se “A Metamorfose”, de Kafka, pudesse elevar-se do seu próprio túmulo, tomar forma e aprisioná-los entre as suas páginas. E, arrebatados pelo silêncio dos mortos, sentiam-se, eles próprios, personagens numa história encantada…

Cavaleiros na Noite

 

Mantinham-se em silêncio evitando dar forma a um prenúncio de medo que ameaçava apoderar-se deles. Se calhar, a emoção da experiência de fazer uma pequena incursão na medina, à noite, ainda que acompanhados por um guia, não tinha sido assim tão boa ideia. E que guia! Montado numa pequena motoreta, aparentemente tudo menos segura, colara-se ao automóvel assim que entraram na cidade e nunca mais os largara. Acompanhara-os até à porta do hotel e pensaram que aí os deixaria com um simples “obrigado”, mas o rapaz estava determinado a tirar algum proveito daquela pequena viagem e daqueles quatro turistas. A prática, aliás, era comum e familiar a qualquer um ocupantes da viatura: quando um carro de matrícula estrangeira entrava numa qualquer das principais cidades turísticas quase instantaneamente, como se brotassem das pedras, motociclo e motociclista materializam-se dando início à perseguição amigável mas implacável. Ainda assim, ficaram perplexos quando, umas boas duas horas depois, desceram com o intuito de conhecer a cidade e viram que o rapaz os esperava com um sorriso de orelha a orelha. Foi nessa altura, mas não antes da característica saudação, que lhes perguntou:

- As-Salaam-Alaikum! Querem fazer uma visita à Medina?

- Wa-Alaikum-Salaam! Agora? É noite e está tudo fechado!

- À noite, a medina tem outro encanto…

 

Agora, calcorreando as ruas (se assim poderiam chamar-se) estreitas da tão labiríntica quanto arrebatadora medina, percorría-os um electrizante misto de excitação, ansiedade e fascínio. O quadro que se lhes apresentava toldava-lhes os sentidos, embriagava-os, era um cenário avassalador! As ruelas desertas enfeitavam-se com as suas portadas de madeiras; algumas imponentes, outras humildes, todas e cada uma delas ocultando os seus encantadores e místicos segredos. Que magníficas histórias teriam agora para contar, sem os seus tapetes coloridos, sem a orgia de odores das excêntricas especiarias, sem o vai-e-vem dos homens precocemente envelhecidos que, de dia, hão-de mergulhar até à cintura nos tanques cheios de cal fumegante e tinta no frenesim da cor e do cheiro dilacerante do curtume?

As infinitas ruas sem os seus burros de carga, da carga que é preciso transportar todos os dias e os automóveis não servem, não cabem e ainda bem que não cabem, pois despojariam de todo o encanto e sedução este misterioso oásis impenetrável e secreto, onde o tempo deixa de contar.

Algumas das ruas engoliam-nos na sua imensa escuridão; noutras, um ténue luar teimava em recortar-lhes a silhueta apontada no chão, enquanto o bater ritmado dos seus corações se confundia com o bater ritmado dos seus passos nas desconcertantemente harmoniosas pedras do caminho. 

Perderam-se de amores pelas fontes adornadas de azulejos de que apenas adivinhavam, àquela hora, o contraste das cores e, no entanto, tal era suficiente para lhes arrebatar a alma. E quando a fachada da principal madrassa se levantou diante deles, ouviram o murmúrio das pedras, o murmúrio das preces e, subitamente, foi como se todo o ar que lhes enchia o peito corresse ao encontro daquele sussurro e os sufocasse no êxtase da contemplação.

O esforço de se manterem alerta, de absorver a singularidade daquela noite, de agarrar a magia daquele momento, tornou-se físico e os quatro corações, não batiam, explodiam a compasso, afinados, alinhados numa sinfonia quase metálica. Os sons cresceram, incorporaram-se, ganharam forma e vida e ameaçaram levar-lhes o resto de lucidez a que ainda se agarravam. E foi então que os viram. Ao cimo da rua emparedada por duas grandiosas portas de madeira que a luz ocre de um pequeno e improvisado candeeiro lambia timidamente, surgiram como fantasmas em todo o seu esplendor. O majestoso cavaleiro cujo imponente turbante azul esculpia a esquadro o belo rosto moreno no seu porte sumptuoso. E o animal soberbo, árabe, negro como a noite que os enfeitiçara. O pêlo do cavalo era uma tela surpreendentemente brilhante de seda fina através da qual se via pulsar o sangue, pulsava a alma na ousadia da cavalgada. Cavalo e Cavaleiro eram um só, unidos na elegância esmagadora de um instante tão curto quanto um sopro. Tão inesperadamente como haviam chegado, partiram deixando-os por momentos na inevitabilidade da dúvida. Teria sido real?

 

- À noite, a medina tem outro encanto… Abdullah!

Amphitheatrum Flavium

Enquanto subia as escadas sentia as gotas se suor correrem por entre os seus seios. Agarrava o guia electrónico como se este tivesse pernas e, animado de vida própria, lhe pudesse escapar à primeira distracção. O esforço despropositado fizera-a cravar as unhas nas palmas das mãos, o que agora lhe proporcionava um desagrável ardor intermitente a lembrar-lhe a idiotice do acto. Não conseguia explicar o nervosismo que sentia ao caminhar por entre aquelas paredes, apesar de consciente de que sempre sentira um fascinío algo mórbido por aquela época da história. Na sua mente, num acesso de infantilidade romântica, mulheres de vestes andrajosas transformavam-se em elegantes deusas de pele leitosa que os mantos abraçavam numa carícia amorosa. E homens bexiguentos, atarrecados, gordos e fedorentos como porcos depressa se transfiguravam em arrojados gladiadores em busca de glória, suportando estoicamente o peso das suas esplêndidas armaduras.

Continuou a caminhada. Candeeiros, de vidro e negro, vertiam sobre as escadas de pedra uma luz amarelada que tornava o ambiente um pouco fantasmagórico, apesar do corropio de gente que àquela hora se afadigava na mesma rotina.

  A subida despejou-a, subitamente, no patamar imediatamente acima da arena. As pernas tremiam-lhe, traíram-na, sentiu-se rodopiar numa longa vertigem e uma violenta náusea atingiu-a em cheio no estômago obrigando-a a curvar-se abruptamente. Invadia-a uma estranha sensação, a boca picava-lhe como se prenha de espinhos afiados e sentia um cheiro nauseabundo que parecia despontar do seu próprio hálito. Sem pudor e sem aviso, o imponente e intemporal colosso parecia cuspir sobre ela toda a barbárie que fora obrigado a aclamar ao longo dos séculos. Podia jurar que o ouvia gemer em agonia.

A custo, endireitou-se. O calor insuportável, era verdade, toldava-lhe a vista e agoniava-a um pouco, mas não conseguia libertar-se de um presságio avassalador. Observou a multidão ávida de sangue e circo encher o anfiteatro obedecendo à sua condição: o “podium” dos opulentos e privilegiados nobres, onde não faltava a tribuna imperial; os “maeniana”, primeiro, da classe média abastada, acomodada nos seus assentos de mármore branco, depois, dos soldados, dos casados e outras classes; e os mais miseráveis dos pobres e as mulheres, renegados, atirados para o "maenianum summum in ligneis", longe da gloriosa arena. A arena! Imponente, estendia-se languidamente e ardilosa como uma meretriz. Era o palco de todo o horror que a assolava, a personificação do mal que se abatera sobre os seus ombros despojando-a da razão. A “harenam” tingida de vermelho, manchada de sangue, suor e insânia, maior a dos homens do que a das feras.

Sobressaltou-a um ruído metálico quando o elevador rudimentar iniciou a subida e os dois magníficos animais emergiram do subsolo. Os rugidos enrouquecidos aumentaram de tom quando a jaula se abriu e as bestas se libertaram, possantes, em toda a grandeza e esplendor da sua fúria ameaçadora. Ficou suspensa da elegância dos arqueiros habilmente treinados para suster os ímpetos selvagens das feras e preservar a vaidade dos nobres e foi então, só então, que sentiu o chão fugir-lhe na vertigem que a acossava desde cedo. Fechou os olhos, deixou que as lágrimas quentes a lavassem do terror que a tomara de assalto até se deixar acariciar novamente pelo inclemente sol de Agosto.

“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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Eu Sou Assim

IDADE_Tem dias. ESTADO CIVIL_Muito bem casada. COR PREFERIDA_Cor de burro quando foge. O MEU MAIOR FEITO_O meu filho. O QUE SOU_Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa. IRMÃOS_ Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo. IMPORTANTE NA VIDA_ Saber vivê-la, junto dos amigos e da família. IMPRESCINDÍVEL NA BAGAGEM de FÉRIAS_Livros. SAÚDE_Um bem precioso. DINHEIRO_Para tratar com respeito.

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"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."