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É bastante cómico, de facto.

por naomedeemouvidos, em 19.03.19

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Donald Trump quer que se investigue os programas de humor que passam nas estações televisivas americanas. É um exagero, eu sei. Não serão toooodos os programanas, de toooodas as estações. Na realidade, creio que só pretenderia, se pudesse, acabar com o "Saturday Night Live"...vá lá saber-se porquê. O presidente sabe. Acha que aquilo não tem piada, nem talento, e ataca apenas uma pessoa, ele próprio, e sem mencionar o outro lado. Deve ter confundido os programas. Tornar a América grande outra vez é bastante extenuante, compreende-se. Além disso, pelo que tenho visto, o outro lado é bastante mencionado...apenas não da maneira que Trump gostaria.

 

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publicado às 13:47

Quanto tempo pode resistir um "shutdown"?

por naomedeemouvidos, em 17.01.19

    O Reino Unido anda às voltas com um Brexit que já poucos parecem querer e os EUA resistem, obstinadamente travados por um muro que Trump deseja como nenhum outro, pese embora alguns o tenham intentado antes.

 

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aqui

 

    A América continua sequestrada pela ausência de acordo entre democratas e republicanos (ou só entre democratas e Donald Trump) sobre quem constrói o quê e quem paga a conta antes, para ser apresentada aos mexicanos depois. O impasse mantém-se há 27 dias, a maioria dos americanos culpa o Presidente pelo shutdown, há milhares de funcionários federais a trabalhar sem remuneração e os conselheiros de Trump andam a avisá-lo acerca dos efeitos negativos que o apagão começa a ter na economia do país.  Nada que Donald Trump não aguente. Pode sempre despedir os conselheiros que não o aconselhem como ele gostaria (a seguir, pode insultá-los, no Twitter, para aliviar o stress), dispensar os funcionários públicos e continuar a mandar vir pizzas e hambúrgueres do McDonald’s e, quanto à economia, bom, o homem percebe imenso de negócios, construiu um império dos diabos, está habituado a agarrar o que quer por onde lhe dá mais jeito e gozo, há-de ter a competência e a teimosia necessárias e suficientes para dar a volta ao assunto.

    Parece, no entanto, que, nos bastidores, o Presidente anda um pouco enfadado. Irritado. Não percebe porque não se consegue chegar a um acordo. Talvez, porque o que Trump procura não é bem um acordo, é um acto de resignada vassalagem, eu quero, eu posso, eu mando, quem tem juízo obedece, os loucos que não atrapalhem. Afinal, quando Trump tiver terminado o seu muito higiénico e muito eficaz muro, acabar-se-ão todas as peçonhas, a América será grande outra vez e o povo americano, rendido à magnificência e visão do todo poderoso, não voltará a recordar estes dias de infortúnio; lembrará, sim, a intensa e ufana luta do melhor presidente das últimas décadas, empenhado em proteger a nação dessa horda de criminosos que são todos os emigrantes, com excepção da impecável e elegantíssima Melania, que faz decorações de Natal como ninguém, God Bless America (e, de passagem, o Brasil, que o senhor é omnipresente).

    Entretanto, num esforço hercúleo, e heroico, a bem do país como só ele é capaz, Donald Trump deu descanso ao Twitter presidencial durante grande parte da tarde de ontem, preservando o bom humor para a reunião com alguns democratas moderados – parece que eram sete –; aos radicais já tinha chamado partido do crime e das fronteiras abertas, nada preocupados com a crise humanitária na fronteira do sul. Ora, todos sabemos como Trump e os seus aliados se preocupam. Tanto, que usam um gás natural para repelir os intrusos. Tão natural que se pode comer com nachos, como é que ninguém se tinha lembrado disso antes.

    Se não for a bem, há-de ser a mal. E a contra-gosto. Até lá, bye-bye. Homem que é presidente não tem tempo a perder.

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publicado às 23:34

O que fazer com os migrantes?

por naomedeemouvidos, em 09.01.19

    Acreditar que Donald Trump está preocupado com uma crise humanitária, é o mesmo que acreditar no Pai Natal, e eu já tenho mais de 7 anos. Apesar do tom quase cordato com que manifestou a sua inquietação, o que Trump quer, já toda a gente sabe, como diria alguém, era escusado a Sala Oval, o outfit e as fotos de família.

   O que fazer, realmente, com os milhares de pessoas, entre elas, crianças, que fogem dos seus países em busca de algo mais do que sobreviver? Não podemos acudir a todos, socorrer todos, ajudar a todos. Mas, são pessoas. Como nós. Era tão simples, se fossem diferentes de nós. Piores do que nós. Bastava construir um muro, escorraçá-los como aos cães vadios, devolvê-los à sua pátria, reduzi-los à sua miséria, como bem mereciam. Se não fossem como nós. E, aí, acabava-se com a delinquência, com o crime, com o tráfico de drogas, com as doenças, enfim, com todos os males que trazem os que não são iguais a nós. Seríamos, finalmente, felizes para sempre. Grandes, outra vez. Basta acreditar...

 

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aqui

 

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publicado às 11:41

"Ich weiss nicht was sie sagen"

por naomedeemouvidos, em 08.11.18

    Parece que foi o que respondeu Rui Rio a jornalistas portugueses, hoje mesmo, à porta do centro de congressos Messukeskus, em Helsínquia. Significa - diz quem sabe, que eu não percebo nada de alemão - "não sei do que estão a falar" e vinha, ainda, a propósito das presenças fantasma do secretário-geral do PSD, José Silvano. Enfim, questiúnculas da língua. Não sei como é que os alemães dizem iogurte, mas sei que o prazo de validade de Rui Rio caminha a passos largos para a expiração. Tenho pena, porque, faltam pessoas sérias e competentes na política e, francamente, não sei o que aconteceu a Rui Rio na versão presidente da Câmara do Porto.

 

    Donald Trump destratou, para não variar, um jornalista da CNN. Só visto, literalmente. Apesar do aparente esforço para não perder a calma, a irritação e a agressividade são palpáveis e, um destes dias, o homem passa das palavras aos actos (não por mãos próprias, mas, nunca fiando). O mais curioso (ou não; vivem-se tempos estranhos...) é que, grande parte dos comentários em português que li não são de repúdio pela atitude do presidente americano. Pelo contrário. Trump é que "os tem no sítio", Trump é que foi "atacado pelo jornalista", "Jim Acosta não é um jornalista, é um lacaio" apostado em denegrir a imagem de Trump (como se aquela pérola precisasse de ajuda nisso...), "com ele (ele-Trump, pois claro) não brincam", e outras variantes de apoio ao super-homem. Ainda me lembro dos meus tempos de infância, em que os super-heróis eram, pelo menos, uns belos pedaços; seriam, igualmente, uma tremenda fraude, mas, podíamos contemplá-los sem asco.

    Alguns jornalistas podem ser muito inconvenientes e/ou muitos incompetentes, mas não deixa de ser absolutamente espantoso ver o presidente norte-americano insultar e mandar um jornalista calar e sentar no mesmo tom em que se adverte um carrocho para lhe mostrar quem manda.

 

    Entretanto, em mais um dia normal na América, desta vez, num restaurante da Califórnia, um novo tiroteio fez mais 30 novas vítimas. É só mais uma banal inevitabilidade. Mato porque sou branco ou porque sou preto, mato porque sou pró-judeu ou anti-judeu, mato só porque sim, porque todos temos direito ao nosso dia de raiva. Entre mortos e feriados, quem e quantos iremos escapar?

    

    E, se podemos mudar de sexo ou de género, por que não mudar de idade? É isso mesmo que defende um holandês de 69 anos, que quer passar a ter, no máximo, 49. Parece que, com a idade actual, não tem muito sucesso no Tinder e, além disso, os médicos dizem que tem corpo aí para uns 45. Acho que sim...

 "Wir sehen uns morgen", que é como quem diz (se o Google não me falha), vou ali e já venho, ou, se calhar, até a amanhã.

 

P.S. Obrigada pelas mães! A minha acaba de me avisar que eu queria dizer “entre mortos e feridos” e não “entre mortos e feriados”. Como vivemos num tempo em que parece que as palavras não importam, olha, deixo como estava...

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publicado às 09:59

Fact-checking: para quê e para quem?

por naomedeemouvidos, em 07.11.18

    Chegou o Polígrafo, um site de fact-checking apostado em ajudar a salvar a democracia sequestrada, esventrada, pelas fake news. Em Portugal, é algo relativamente novo, mas existe há mais de uma década nos EUA.

   Numa entrevista ao Expresso, o jornalista Fernando Esteves, responsável pelo novo projecto em Portugal, afirma que no último debate entre Donald Trump e Hillary Clinton para as presidenciais americanas, “o Politifact teve 100 milhões de pageviews” e que “os jornais norte-americanos fizeram fact checking em direto dos debates e percebeu-se que é um tipo de jornalismo que pode desempenhar um papel fundamental na purificação das democracias”. Mas Donald Trump é, actualmente, o presidente dos EUA, por isso, pergunto-me: estão, as sociedades democráticas, realmente interessadas na verdade dos factos? Jair Bolsonaro venceu as eleições presidenciais no Brasil à custa, asseguram-nos, das perversas e prolíferas notícias falsas e, no entanto, muitos dos seus defensores alegam que ele não é nada assim, é só da boca para fora. Por isso, volto a perguntar? A quem interessa o fact-checking?

   “O fascismo cresce onde as pessoas são convencidas de que toda a gente mente”, afirmou Madeleine Albright. E a ciência já disse que o nosso cérebro de adapta à desonestidade. Tendo a acreditar. Basta observar a facilidade com que acabámos a normalizar (quase) todas as boçalidades proferidas, por exemplo, pelos novos nacionalistas salvadores da pátria e seus obedientes vassalos. Enquanto andamos a discutir se às meninas ainda é permitido preferir o rosa ao azul ou as barbies aos carrinhos, se a um homem ainda se consente que segure a porta a uma mulher, se a ambos ainda se tolera a crença na biologia do género e se as touradas são ou não suficientemente civilizadas para efeitos de IVA, eis que surgem esses magníficos, magnânimos, homens e mulheres, autênticos e justiceiros, narcisistas e fanfarrões, dispostos a combater o sistema a que juram não pertencer, embora dele tenham vindo a beneficiar mais ou menos descaradamente.

    A mentira na política (e não só) não é nova. E, face a essa fatal inevitabilidade, passámos a poder escolher alegremente e sem censura a mentira que queremos viver. Assim uma espécie de se não podes vencê-los junta-te a eles, até regressarmos, por culpa e vontade próprias, à idade das trevas.

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publicado às 11:37

Vou continuar a indignar-me, posso?

por naomedeemouvidos, em 04.11.18

    Se me é permitido, vou continuar a indignar-me. Violentamente e todos os dias, se for preciso. Recuso associar-me à normalização do mal e à banalização do absurdo. Um fascista é um fascista, é um fascista. Quem partilha dos valores do fascismo, não se esconda em subterfúgios. Quem não quer viver a democracia em pleno, não pretenda instigar a sua intermitência, descontinuando-a quando convém. Porque, talvez, nunca convenha a todos concomitantemente.

    Os EUA estão em campanha. Na próxima terça-feira há eleições intercalares. Ao seu estilo, Donald Trump continua a agitar as massas mentindo, mentindo e mentindo e alternando discursos consoante os ventos, naquela linguagem básica e paternalista que continua a colher: vem aí uma caravana cheia de malfeitores, criminosos em série, apostados em tomar a América de assalto. Se nos atirarem pedras, lembremo-nos que os nossos soldados têm espingardas, portanto, que considerem usá-las. Não nos esqueçamos que à frente da caravana vêm homens fortes e maus, muito maus. Não interessa que tragam milhares de quilómetros nos pés e venham esmagados pelo cansaço, porque trazem um ror de más intenções na alma. Querem os nossos empregos, na melhor das hipóteses. Na pior, vêm violar as nossas mulheres e matar os nossos filhos. Matar só está permitido aos bons. E, não nos esqueçamos, “grab them by the pussy” também não está al alcance de qualquer um; só dos que têm dinheiro e poder. Pior do que um criminoso rico, só um criminoso pobre, fedorento e estrangeiro.

    Como habitualmente, Donald Trump já veio desmentir-se a si próprio. Afinal, não vamos disparar sobre os migrantes. Vamos só prendê-los pelo tempo que for preciso. A mentira, num democrata, é inadmissível. Num populista, num nacionalista ou num fascista é um meio válido para atingir um fim. A corrupção, num democrata, é vício nojento que urge exterminar, qualquer que seja o meio. Num populista, é expedito; é competência e desembaraço.

    As migrações em massa e descontroladas são um problema sério, efectivamente. Nenhum país tem capacidade de acolher todos, socorrer todos, atender a todos. Mas, acredito que os mecanismos para fazer face a este e outros problemas devem ser encontrados dentro das normas democráticas. Há quem ache que não. Há quem acredite que, o que importa, é ter a economia a crescer e viver sem incómodos e sem sobressaltos. Se, para isso, for necessário suspender ou, mesmo, eliminar a democracia, seja. Tudo em nome da segurança. Ou será só em nome do conforto pessoal? E, é mau, querermos paz para os justos e justiça para os criminosos? É mau ansiar por bons empregos, bons ordenados e uma vida confortável e próspera, principalmente, quando pagamos os nossos impostos? Claro que não! Como é evidente, essa não é a questão. Mas, o mundo não é perfeito e não é o nosso quintal. A não ser que passemos todos a defensores da justiça por mãos próprias e pela supressão, quem sabe, pelas armas, de todos os que perturbam o nosso sossego como mosquitos, viver em sociedade dá trabalho e, muitas, muitas vezes, traz chatices.

    Voltemos ao Brasil e a Bolsonaro (sim, também há Maduro e outros que tais; infelizmente, o mundo está cheio de gente que só olha para o seu umbigo e que só quer o poder a qualquer preço, subjugando tudo e todos à sua tirania). Fiquemos só pelos bens intencionados; pelos que acreditam que ele não é tão mau como parece e que Sérgio Moro – o mesmo que jurava a pés juntos que jamais entraria para a política – está apenas interessado em ajudar o Brasil a preservar a democracia. O que vai acontecer quando, cada brasileiro de bem se sentir legitimado para matar um ladrão, um violador, um assassino? O que vai acontecer quando um polícia brasileiro se sentir impune, democraticamente, para matar um (mesmo não alegadamente) criminoso? Quanto tempo precisaremos de esperar para assistir à instituição da vingança em vez da aplicação da justiça? E, quanto tempo até passarmos, cada um de nós, a ser o alvo?

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publicado às 13:31

A morte não nos fica bem.

por naomedeemouvidos, em 19.10.18

    As notícias que vão chegando sobre o (praticamente dado como certo) abate e esquartejamento animalesco do jornalista Jamal Khashoggi são mais do que macabras. Drogado, torturado, desmembrado ainda vivo, mergulhado em ácido, eliminado por um esquadrão da morte saudita, tudo parece mais do domínio da ficção policial hardcore; principalmente, do ponto de vista dos países ditos livres e moderados, mesmo que o sejamos cada vez menos. A civilidade em que vivemos está, há muito, ameaçada, é certo, e, ainda assim, tudo me parece demasiado maquiavélico e escabroso.

    Já não parece haver dúvidas de que Khashoggi entrou no consulado da Arábia Saudita, em Istambul, para nunca mais ser visto, a não ser, pelos seus carrascos, implacáveis, mesmo aqueles gostam de ouvir música enquanto trabalham, que a arte serve a todos. A cidade eternizada pela História, romanceada pela lente devota de Ara Güler (falecido há dois dias) e cujo retrato vivo ainda guardo nas minhas memórias de verão, convertida em palco esconso de um assassínio tétrico, anunciado e necessário para calar a crítica contundente e incómoda a um regime opressivo, hipocritamente embalado pelas grandes potencias mundiais, porque imensamente rico (para alguns) e segundo na lista das maiores reservas mundiais de petróleo. Ninguém quer arriscar. Quanto valem, por exemplo, os milhares de milhões de dólares que a Arábia Saudita gasta em armas compradas aos EUA? Seguramente mais do que a vida de um jornalista, que nem sequer era americano. Como a morte (in)útil e a soldo será difícil de justificar e defender abertamente, pode sempre tentar-se, entre outras coisas, atacar o carácter do defunto, não é também o que habitualmente se promove, nestes casos sabujos? O mais provável é que o homem se tenha posto a jeito, esse maravilhoso estatuto que desculpa sempre o recurso à mais vil cobardia e consequente violência.

    Em discursos erráticos e cheios de nada, como sempre, o presidente dos EUA vai dizendo que “não gosta” que se matem jornalistas, ou outros, mesmo que não sejam americanos, é um “terrível precedente”. Mas, também não gosta da “ideia de parar um investimento de 100 mil milhões de dólares, porque “eles” vão pegar nesse dinheiro e vão “gastá-lo na Rússia, na China, ou noutro lugar qualquer”. E, claro, só um louco arriscaria perder um negócio assim, não Donald Trump, seguramente; além disso, ninguém ainda sabe nada sobre o assunto, embora, circulem “por aí histórias bastante más”. Tirando isso, o presidente americano está bastante empenhado “em chegar ao fundo” da questão, tendo, aparentemente, já chegado: Jamal Khashoggi está morto, “isto é mau” e as “consequências devem ser severas”, só ainda não se percebeu que consequências, quão severas e dirigidas a quem. Mas, será que isso interessa substancialmente?

    A política – nacional, internacional – move-se em terrenos cada vez mais obscuros. Cada um – presidentes, ministros, ilustres desconhecidos, eleitores e não eleitores – arroga-se o direito à verdade em causa própria, ao que considera ser os seus factos. E essa verdade, esses factos, facilmente se ajustam, ou à crise, ou à oportunidade do momento. Pode falar-se muito sem dizer absolutamente nada; defender-se, convictamente e sem corar, uma coisa e o seu contrário, no mesmo discuro, até; converter todas as formas de diplomacia em descarada vassalagem; tourear, sem corninhos e com igual mestria, adversários políticos; usar a comunicação social como uma prostituta tão útil quanto descartável. A quem é que importa o rigor da informação? Ditadores e projectos de ditadores inundam as redes sociais de fake news, apenas para que a turba sucumba aos seus propósitos, e depois? Falta pouco ou nada para que já nem mentir seja necessário; bastará cada um servir com mais ou menos requinte aquela que considera (como alguém já disse) a sua verdade; ou, tão somente, a verdade que mais adeptos colher, no calor do momento, para tomar o poder de assalto.

    Mike Pompeo terá aconselhado Trump a esperar mais alguns dias pela versão da Arábia Saudita acerca da morte de Jamal Khashoggi. Aguarda-se, talvez, a conjuntura mais favorável para o mundo acatar a melhor das verdades, de forma mansa e sem comprometer os mais altos interesses das nações.

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publicado às 20:29

A implosão das democracias_2

por naomedeemouvidos, em 08.10.18

            Uma amiga que estimo e que não tenho por fascista, nem sequer por radical, confessou-me o seu voto em Bolsonaro. “O Brasil precisa de uma ditadura”, respondeu perante o meu ar de espanto. E continuou, “o criminoso, no Brasil, já não é um criminoso comum, a vida não vale nada, as ruas estão tomadas pelo crime, é impossível ter uma vida normal, criar os filhos, viver com tranquilidade. Eu não concordo com tudo o que Bolsonaro diz, mas é preciso alguém que contenha a escalada de violência”.

            Uma coisa é um fascista defender Bolsonaro. Outra coisa, bem diferente e que tem, obrigatoriamente, de nos pôr a pensar a todos é uma pessoa comum, pacífica, educada, vivendo em função de valores democráticos, considerar que um homem como Bolsonaro pode ser uma solução para o Brasil. Como Donald Trump, para os EUA, e Viktor Orbán, para a Hungria, embora estes não estejam ao nível de Bolsonaro. Ainda?

            Vale a pena lembrar que Bolsonaro preferia ter um filho morto do que homossexual; que afirmou que o voto, no Brasil, não mudará nada, só “uma guerra civil, fazendo o trabalho que o regime militar não fez”; que vai “bater” se “vir dois homens se beijando na rua”;  que não viola mulheres feias, porque elas não merecem; que o “erro da ditadura foi torturar e não matar”; que os seus filhos foram “muito bem educados” e, portanto, “não correm o risco” de se relacionarem com mulheres negras ou com homossexuais e ele, Bolsonaro, não discute “promiscuidade com quem quer que seja”. Ao quinto filho, Bolsonaro deu “uma fraquejada e veio mulher” e as mulheres devem ganhar menos do que os homens porque engravidam; os índios, ou, alguns deles, deviam “comer capim” para “manter as origens” e os pobres devem ser “esterilizados” como forma de combater a criminalidade e a miséria.

            Admitindo que há muitos que votam em Bolsonaro e não partilham destes juízos, como explicar, de facto, a decisão de correr o risco de apoiar um homem como este?

            Há quase dois anos, os EUA elegiam Donald Trump como o seu 45º presidente. Poucas semanas, poucos dias!, antes daquele 8 de Novembro de 2016, a grande maioria dos analistas e comentadores políticos, de vários quadrantes e nacionalidades asseguravam que Trump não seria eleito. Era impensável e impossível. E, no entanto, nem mesmo qualquer um dos típicos escândalos – sexuais, financeiros, de interferência política – que já fizeram cair outros candidatos presidenciais e abalaram reputações chegou para abanar Trump, antes ou depois da sua eleição. As instituições que, afiançavam-nos, iriam contrabalançar o poder do presidente dos EUA, eram o garante inabalável do normal funcionamento das instituições democráticas americanas. As convicções informadas, esclarecidas, eruditas, experientes, vão caindo como peças de um dominó populista, demagogo e demoníaco, sem escrúpulos, porque as pessoas estão cansadas, incrédulas e assustadas. E desesperadas!

           A imposição de um “politicamento correcto” que nos tornou refém das palavras e minou os debates políticos e sociais; os movimentos activistas que querem promover uma igualdade que apenas oprime diferentes formas de pensar; a exaltação dos direitos das minorias como formas veladas de reeducação em massa das sociedades, confundido a obrigação do respeito pelo outro com a negação da identidade do próprio; a visão romântica e simplista de que todos os problemas sociais são possíveis de resolver com solidariedade e “aceitação”, e a soberania ignorante e descontrolada do logro sofisticado – ou apenas popular – instigado pelas redes sociais, esmagou a verdade, a vontade, a cultura, a civilidade e, pior, a capacidade de reagir e contrariar.

           Os políticos sem escrúpulos crescem, estão bem e começam a recomendar-se porque a verdade deixou de ser importante, a justiça deixou de ser cega e os factos passaram a ser, não só alternativos, como moldáveis à vontade de cada um.

                O Brasil não sobreviverá a Bolsonaro e eu temo que a Europa sucumba à onda de "segurança" promovida pelo medo.

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publicado às 11:28

A dupla negativa...

por naomedeemouvidos, em 18.07.18

Já estávamos familiarizados com as delicadas inverdades, as inconvenientes fake news e os coloridos factos alternativos. Também não desconhecíamos os lapsus linguae (acontece aos melhores…) e as dramáticas descontextualizações; as proveitosas amnésias dos políticos e dos donos disto tudo e o desconhecimento periclitante e amador dos gestores de topo. Faltava-nos, no entanto, a inovadora e elegante dupla negação que Donald Trump (quem mais!?) invocou para se defender da chuva de duras críticas de que foi alvo, por assumir publicamente que tomava como verdadeira e impoluta a palavra de Vladimir Putin no que toca à alegada ingerência russa nas últimas eleições presidenciais americanas.

“Em quem acredita?”, perguntou o jornalista da Associated Press, Jonathan Lemire, a Donald Trump lado a lado com o presidente russo, em plena conferência de imprensa, em Helsínquia. Uma pergunta simples nem sempre exige uma resposta simples, é um facto. Mas, Donald Trump deu uma resposta simples; à sua maneira. Se não no conteúdo, pelo menos, na forma. Com a sua habitual inépcia e vocabulário rudimentar, Trump começou por dizer qualquer coisa do género “a minha gente falou comigo, Dan Coats e outros, e dizem que acham que foi a Rússia”. Ora, com o presidente Putin ao seu lado, nada mais inteligente e astuto do que perguntar ao próprio, não?, pelo que, Donald Trump rendeu-se a essa brilhante e eficaz estratégia política e rematou “eu tenho o presidente Putin a dizer que não foi a Rússia e digo isto: não vejo por que razão seria”. “Não vejo por que razão seria”. Vários forward and rewind depois (afinal, o inglês, aparentemente, também é uma língua traiçoeira…), posso jurar que foi mesmo isto que Trump disse. Mas, só que … parece que não.

Dois dias de mimos depois – desde traidor, erro trágico, vergonhoso, bizarro e afins – Trump foi ao Twitter (outro must) reforçar a GREAT confidance que tem nos SEUS serviços de inteligência. Assim, em letras gordinhas e maiúsculas para não haver mal-entendidos. E, para que não restassem mesmo dúvidas – afinal “devia ter sido óbvio, pensei que fosse óbvio, mas, queria esclarecer para o caso de não ter sido” – Trump veio afirmar que, nas suas declarações em Helsínquia, usara a palavra, “seria”, em vez de “não seria”. Ou seja, frase deveria ter sido “Não vejo nenhuma razão por que não seria a Rússia.” Uma espécie de dupla negativa, também nas sábias palavras do próprio. Tudo isto, em directo para as televisões e sem corar de vergonha. A seguir, ainda aceitou (imagino que a custo) a conclusão dos Serviços Secretos americanos de que houve interferência da Rússia nas eleições de 2016, para logo acrescentar que também poderiam ter sido outros, pois há muita gente por aí

Imagino que, quando voltar a reunir-se com Vladimir Putin, Donald Trump lhe explique que, desta vez, terá usado a palavra “aceito” em vez de “não aceito” a conclusão dos seus Serviços Secretos. Mas o diabo mora nos detalhes e, a provar que eles andam mesmo por aí, as luzes da sala onde Donald Trump se desdizia com máxima e empolgante convicção desligaram-se.

Tudo isto teria imensa graça, não fosse dramático e perigoso. Foi inaugurada uma nova forma de estar na política (e não só), onde cabem todas as formas possíveis da mais perniciosa desonestidade e com as quais, aparentemente, se convive bem, pois causam menos indignação do que todas as formas do é p´ro menino e p´ra menina e seus derivados.

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publicado às 17:07

Make Israel Geat Again

por naomedeemouvidos, em 07.12.17

Há uma frase de Isaac Newton de que gosto particularmente, embora nada tenha a ver com qualquer das três famosas leis da Física: "Tact is the art of making a point without making an enemy".

Ora, todos sabemos que tacto é coisa que o mais recente e alaranjado presidente dos Estados Unidos não tem. De facto, Donald Trump é o elefante da loja de porcelanas e a loja de porcelanas é o mundo ao seu redor. Cada vez que o homem levanta a mão direita para debitar os 4 ou 5 adjectivos que enriquecem o seu léxico, ou para disparar mais um twitte naquele que é o seu de comunicação predilecto, parte-se mais uma peça. Desta vez, a peça partida tem um valor incalculável porque não consta que a paz tenha preço, pelo menos, em termos monetários apesar das modernices das moedas virtuais, como as bitcoins e afins.

Donald Trump é o rufia valente do agarrem-me-senão-vou-me-a-eles e parte do problema é que ninguém o agarra. Já se percebeu. Arrogante e autoritário (e mais uma série de títulos bem menos eufemísticos), manda nos Estados Unidos como manda nas suas empresas, trata todos quantos o rodeiam como trata os seus empregados e, se não concordam, estão despedidos! Espanta-me sempre como é que um homem que parece menos inteligente do que o meu filho de 10 anos (que tem, pelo menos, um vocabulário mais vasto) seja um reconhecido empresário de sucesso, um monstro dos negócios, um magnata não self-made, mas quase e, já lá vai um ano, presidente dos EUA. É fantástico!

O Hamas já apelou, vigorosa, perigosa e apaixonadamente, a uma nova Intifada contra Israel, pelo que, entre os enormes atributos de Trump, também constará para a História, a habilidade de ter feito mais do que o próprio Daesh pelo ódio contra o mundo ocidental. Creio que não será preciso ser grande analista político ou especialista em questões do Médio Oriente para imaginar o que por aí vem. A não ser que a imaginação não chegue.

Donald Trump escolheu colocar-se ao lado de Benjamin Netanyahu. Assim, numa espécie gémea do Make Israel Great, talvez sem o Again, mas definitivamente com a sua bênção. Ao mesmo tempo,  tenta lavar as mãos do desastre que se avizinha assegurando que EUA apoiam a solução de dois Estados “se ambas as partes estiverem de acordo”. Só sou eu a não entender bem o alcance deste raciocínio?

Parece que foi em 1995 que se aprovou, no Congresso norte-americano, uma lei para, efectivamente, mudar a embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém, estipulando 31 de Maio de 1999 como a data definitiva para essa mudança. E parece também que, desde 1995, todos os seis meses o presidente americano em exercício assinava um documento em que suspendia essa transferência.  De modo que, aos fervorosos adeptos e fãs de Donald Trump é fácil fazer o discurso do assim-é-que-é, basta-de-hipocrisias, acabe-se-com-o-Islão, os-muçulmanos-são-todos-terroristas e quem-não-está-comigo-está-contra-mim.

A urgência do politicamente correcto, a imposição por decreto de formas de pensar, a higienização da sociedade dita ocidental, a tentativa de reeducação em massa das populações, onde se pretende abolir os sexos e suspender os géneros, impedir as meninas de gostarem de se vestir de côr-de-rosa e de “quererem ser” princesas e os meninos de serem machos e usar azul, eliminar os estatutos de pai e mãe substituindo-os por gestantes-progenitores-cuidadores, criminalizar o mais inofensivo dos piropos e mais um ror de absurdos, tem feito bastante pela crescente onda de insatisfação das gentes, mesmos das mais pacíficas.

Enquanto continuarmos a confundir aceitar e respeitar a diferença- a nossa e a do outro- com a obrigação de pensarmos e agirmos todos da mesma forma, os “Trumps” deste mundo vão continuar a brotar como cogumelos, a escalada de violência não vai parar de aumentar e o ódio acabará por fazer mais vítimas.

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publicado às 15:02



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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