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Do direito à greve ao dever de decoro.

por naomedeemouvidos, em 14.02.19

     

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aqui

      Há greves indecorosas. A dos enfermeiros, com recurso a crowdfunding, e a que um leviano e desbocado Mário Nogueira ameaça fazer em nome dos professores (será de alguns) são dois exemplos desse tipo de greves que deveriam envergonhar os profissionais sérios que dizem representar.

    Já muito se disse sobre estas duas greves em particular. E, sim, já sabemos que, quando se faz greve, alguém deve sair prejudicado, pois, de outro modo, torna-se difícil fazer ceder a outra parte. O que repugna é o total desprezo pelas consequências perversas que algumas greves imprimem à vida das pessoas que dependem directamente desses serviços em greve. Os enfermeiros grevistas acham aceitável que como consequência da sua greve – que, com o engenhoso esquema que engendraram de angariação de dinheiro (por muito legal que seja), podem prolongar ad eternum – milhares de cirurgia (só para usar um exemplo) sejam adiadas. Culpa-se o Governo, por intransigente, e mantém-se a consciência tranquila, porque a culpa do outro é maior que a minha. Os professores representados por Mário Nogueira acham aceitável suspender as avaliações de um ano lectivo inteiro e deixar alunos de 12º ano sem aulas no terceiro período. Mais uma vez, a culpa é do Governo, portanto, também nada pesará na consciência dos grevistas: "Há uma forma de evitar um final dramático de ano letivo que é o de o Governo negociar esta matéria, como está obrigado por lei, ainda no 2.º período. Se o fizer penso que o ano pode estar salvo". E, a negociação de que fala Mário Nogueira é a recuperação, sem qualquer reserva, dos nove anos, quatro meses e dois dias de tempo de serviço. O custo dessa espécie de slogan, é indiferente e marginal.

    Vamos por partes. O argumento dos professores é, à partida, uma daquelas verdades evidentes: têm tanto direito como os outros trabalhadores da administração pública de ver contabilizado integralmente o seu tempo de serviço e de progredir por antiguidade, independentemente do mérito. Só isto, deveria chegar para mostrar algum pudor, senão no teor das reivindicações, pelo menos, na forma. Quantos dos funcionários não-públicos sobem na carreira por antiguidade? Quantos são promovidos automaticamente? Quantos têm garantia de emprego para a vida, mesmo que alguns se revelem os maiores incompetentes? Porque há funcionários públicos incompetentes, inclusive professores, como há profissionais incompetentes em qualquer área, não advém daí qualquer afronta à classe. Como há professores excelentes que nunca vêem o seu mérito reconhecido, no que à carreira diz respeito, sem ter que esperar, com sorte, por esse admirável estatuto que é a idade profissional (se o professor calha em ser vaidoso, nem isso lhe vale). Nenhum professor medíocre ou incompetente deixa de progredir na carreira, como nenhum professor contratado competente pode, só por isso – que deveria ser o factor diferenciador – ficar colocado à frente de outro completamente inepto, mas, claro, com mais tempo de serviço. Mas, isto não incomoda o senhor Mário Nogueira e seus discípulos, porque, como se sabe, todos os professores são “Bons”. Só não são todos “Muito Bons” e “Excelentes” porque há um problema qualquer com as quotas; parece que não chegam. A qualidade dos professores não é indiscutível, como aquele se esforça por garantir a gritos. Só o chegará a ser, verdadeiramente indiscutível, quando houver promoção e progressão de carreira por mérito. Até lá, os professores – como todos os funcionários públicos – são uma classe privilegiada. É um facto, não necessariamente um drama; isso vem depois, associado ao abuso.

    A questão que aqui me traz não tem a ver, no entanto, com os privilégios em si mesmos. Eu também já fui funcionária pública, também já fui professora e, os que me conhecem sabem que sempre pensei exactamente o mesmo, em relação à carreira e às greves; aliás, nunca participei em nenhuma. A questão é saber se é legítimo, para quem nunca sofre as consequências das crises da mesma maneira que o sector privado, se é legítimo, dizia, fazer greve a qualquer custo (há quem questione o fazer greve, sequer), ameaçar com medidas que comprometem brutalmente a vida académica dos alunos. Dos alunos do ensino público, claro, os do ensino privado continuam a poder usufruir da tranquilidade e do privilégio de um corpo docente estável e alheio a greves.

    Disse Mário Nogueira: "Porque o ano letivo termina e a legislatura acaba. Tudo está em cima da mesa. É o que for necessário porque este governo não se pode ir embora e deixar a casa desarrumada tal como a tem neste momento". Fica o recado.

publicado às 08:00

A greve em crowdfunding.

por naomedeemouvidos, em 06.02.19

   

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    Muita gente sabe o que é o crowdfunding. Ou, pelo menos, já ouviu falar. Em português, pode dizer-se financiamento colectivo. Não é que seja uma coisa totalmente nova. A questão é que, com a Internet (como não?), passou a ser possível chegar a mais gente que possa simpatizar com a coisa, no caso, com a causa, a nossa, a de cada um, e pedir-lhes dinheiro. É como fazer uma vaquinha (lembram-se?), mas, esta voa mesmo, muito alto e muito longe. Dependendo do nível de simpatia que a coisa, a tal que é causa, desperte, em pouco tempo, às vezes minutos, pode atingir-se a lua, que o mesmo é dizer, muitos milhares, às vezes milhões, de euros. É melhor do que ir ao tanque procurar um tubarão disponível, de onde podemos sair com os nervos em frangalhos e o orgulho ferido à dentada.

    Ora, o crowdfunding serve imensas causas. Desde pagar casamentos e luas-de-mel, viagens de finalistas e afins, até à ajuda financeira de diversos negócios, de tamanho e importância de mercado variáveis. O dinheiro pode ser, simplesmente, doado, ou oferecido em troca de uma pequena contrapartida ou recompensa. Os meandros deste sistema de financiamento podem parecer simples, mas, talvez não seja bem assim. Para o que aqui me traz, não interessa nada. Ou talvez sim.

    E o que aqui me traz é a greve dos nossos enfermeiros. Em Dezembro passado, a greve dos enfermeiros alcançou um enorme sucesso, no que diz respeito ao crowdfunding: 360 mil euros de donativos angariados e batidos todos os recordes da plataforma PPL que, dizem (eu nunca tinha ouvido falar), ocupa 80% deste mercado de negócio.

    Na plataforma PPL, os enfermeiros dizem-se em luta para salvar o SNS. Eu não duvido. Não duvido mesmo. Acredito que o que reivindicam é justo e merecido, para a maioria destes profissionais de saúde e para a classe profissional a que pertencem. O que me incomoda sempre nas greves é os seus efeitos sobre os mais fracos e sobre aqueles que não têm voz. Dizem que é um preço que há que pagar, porque, se não for assim, nunca se consegue fazer pressão sobre as entidades patronais e garantir esse direito e essa justiça que se procura. E a greve é um direito. Mas, a greve também costumava vir acompanhada de uma forma de pressão, ou tampão, para quem exercia esse direito: a perda de salário para quem dele dispunha. Se essa variável sair da equação, até onde será possível levar esse direito? A possibilidade de manter o braço-de-ferro sem prejuízo financeiro para os que exercem um justo protesto parece um pouco perversa. Como ficam os doentes? Numa das suas últimas intervenções públicas, Lúcia Leite, presidente da Associação Sindical Portuguesa dos Enfermeiros, sugeriu que alguém que está há meses (não recordo o número que referiu) à espera de uma cirurgia, pode esperar mais um mês. Não faz muita diferença. Toda a gente tem direito a frases infelizes, mas, quando se trata de pessoas em situações de fragilidade física e psicológica, a inépcia choca um pouco mais.

    Não sendo ilegal, aparentemente, financiar uma greve recorrendo a um sistema de crowdfunding é difícil perceber onde pode ficar o limite aos danos (irreparáveis?) que esta forma de protesto financiado causa sobre os outros. Os doentes, neste caso. E, afinal, a quem é que interessa financiar a greve dos enfermeiros?

 

    Ontem, em entrevista à SicNotícias, António Costa – que, já antes, havia classificado a greve dos enfermeiros como “selvagem” e “absolutamente ilegal” – diz que o Governo chegou ao limite das negociações, condena a conduta da bastonária da ordem dos enfermeiros, a quem acusa de práticas que podem constituir “actividade sindical” em, eventualmente, ilegal oposição aos estatutos regem as ordens profissionais e deixou implícita a possibilidade de apresentar queixa às autoridades competentes. Entretanto, milhares de cirurgias vão sendo adiadas, há utentes a deslocarem-se dezenas de quilómetros em vão e a “guerra” não parece ter fim à vista.

publicado às 08:30



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

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