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Um dia como outro qualquer.

por naomedeemouvidos, em 30.10.19
É um dia como outro qualquer. Chove. O que não acontece todos os dias, é certo, mas não é extraordinário nesta época do ano. Gotas de chuva volumosas e cristalinas, perfeitas na sua forma, escorrem lentamente pelo vidro liso e frio, em atropelos desalinhados quando se cruzam os trilhos em que se desvelam. 

Não está frio, mas há gente afogada em gabardinas, e lenços, e guarda-chuvas vorazes, gravemente abespinhadas com a humidade do ar, com a desfaçatez do tempo, como se daí, e daí só, resultasse o mofo sombrio em que embebedam as suas vidas perfeitas e aprumadas, tão perfeitas e aprumadas quanto vazias, sem margem para imprevistos quezilentos da natureza, de natureza alguma.

Do outro lado do vidro, o mar vai e vem, desassombrado, alheio a enfados mundados, murmurando ladainhas acordadas e meigas, mornas, que crescem e morrem sob a batuta branca e espumosa das ondas que se esvaziam em paz na areia dourada da praia, numa ávida luxúria entretanto saciada.   

É um dia como outro qualquer. Entre as gotas da chuva suspendo memórias, e risos, e lágrimas, e tempos perfeitos e imperfeitos, como notas numa pauta, como acordes de música, sem medo de errar e cheia de dúvidas, sem mancha de remorsos e cheia de medos, numa harmonia mais-que-perfeita, alheia às amarras dessa felicidade absoluta com que pretendem corromper-me, tolher-me o desassossego de viver em constante sobressalto. Como se viver plenamente se pudesse de outro modo.

publicado às 11:30

Outubros.

(com alguns dias de atraso...)

por naomedeemouvidos, em 30.10.19

A casa começa a aquecer-se em Outubro. Com lenha trazida do coração das fazendas que ainda resistem ao amanho laborioso da terra, à mercê das mãos quase despidas, à força dos braços velhos, teimosos, que escapam do tempo e se entregam à vontade dos dias que sobram.

É imprescindível que se comece em Outubro. A casa é grande, talhada de pedra, de suor, de risos e lágrimas, assente em memórias dos despojos de outros tempos, de outras vidas, em tábuas e aços de caminhos-de-ferro perdidos, desconhecidos da gente nova e miúda, não fossem as histórias aquecidas à lareira, em molduras de mármores maciços de igrejas velhas, escassas no divino e devido culto. Começa-se em Outubro, porque, até no Verão, o fresco do santuário pode ser inquieto e rude sem o aconchego de um xaile sobre as costas vergadas.

Em dias de maior labuta, há que dar lume também ao forno de lenha da serventia, lá fora, onde o vento rodopia embalado pelas folhas secas, em frufrus suaves como num vestido de gala. Cozem-se broas de milho recheadas de farrapos de bacalhau demolhado ou tiras finas de presunto pouco seco, consoante a ordem e a dimensão do pecado.

O forno range e estala reclamando a massa generosa, benzida numa cruz para remissão de males em que já ninguém acredita, mas ninguém quer renegar. Quando as entranhas devolverem o pão quente e estaladiço, o milho amarelo e guloso cozido entre silvos caprichosos e aromas hereges, será tempo de saciar a alma até ao Outubro seguinte.

publicado às 09:14

Turistas.

por naomedeemouvidos, em 10.10.19

O barco desliza tranquilo sobre o leito de água manso e morno de final de tarde. O Sol desmaia no horizonte, afagando o dorso púrpura do mar estreito, soprando reflexos metálicos, de ouro e prata, que devolvem um brilho leitoso, a contraluz, salpicado de borbotos salgados e crus onde as gaivotas mergulham em voos planados, à espreita, à espera, enquanto o céu se incendeia esgalhado em fúrias policromáticas, uma imensa tela impressionista, viva, volátil, que se tece e se desmancha como as malhas finas de um croché rico e inacabado. Ao fundo, nuvens coradas a vermelho-laranja, densas, insurretas como a lava dilacerante acabada cuspir do ventre caprichoso da terra, irrompem em estampidos mudos, preenchendo o céu na linha submissa do ocaso.

 

Para trás, ficou o esfrangalhado tumulto da outra parte da cidade. A que desagua, miserável, no outro continente, longe da ousadia cosmopolita e moderadamente europeia. E, enquanto regresso ao caos mais organizado e desesperadamente consentido, guardo a memória da beira-mar desordenada, prenhe de cadeiras de plástico, outrora branco, onde se amontoam vidas cheias e simples, num marasmo vulgar de fim-de-tarde. Há famílias inteiras que se passeiam em burburinhos compassados, enchendo o passeio e os bancos improvisados, os mais pequenos comendo gelados e algodão doce azul, os graúdos escorropichando, incautos, cascas de mexilhão recheadas de arroz pastoso servidas em doses manhosas que circulam de mesa em mesa, descontadas que são e foram as que serviram para saciar a fome ou, apenas, uma curiosidade afoita e descuidada.

 

As gaivotas prosseguem na sua escolta elegante e inusitada. Há uma mulher sozinha, decentemente tapada, como ditam os costumes locais. Entretém-se a ler um livro cujas margens vai adornando de rabiscos confusos, e faço um esforço descarado para tentar perceber se, o livro, também o dita os costumes, ou, pelo contrário, é um acto de rebeldia mais consciente e pleno do que a melena de cabelo preto que teima em escapar-se-lhe do aprumo decoroso do véu.

 

O barco acaba de recolher os passageiros da última paragem. Na minha frente, sentam-se um casal absurdamente jovem com uma bebé de colo e uma velha muito velha que não consegue desviar os olhos de mim, nada mais acomodar-se. Não percebo o que diz, mas, percebo que faz a viagem sozinha, provavelmente, de regresso a casa. Reparo que fala com casal, mas, tenho a certeza de que lhe são estranhos.

Há já algum tempo que se levantou uma aragem fria, e vejo como aconselha a mãe a tapar a cabeça da criança. Há hábitos maiores em si mesmos. Continua a olhar para mim, e começa a inquietar-me. Não percebo o que diz, e essa manifesta incapacidade irrita-me, incomoda-me. Segreda qualquer coisa à rapariga, sem despegar-me a vista de cima e percebo, abruptamente, a palavra turista, no meio da salgalhada àspera em que se distraem. Quando, subitamente, se decide a interpelar-me já sei o que me vai perguntar ainda antes de a ouvir, pela segunda vez. Aceno um sim desajeitado e, agora, tenho absoluta certeza de que a ouço dizer à rapariga: viu, eu disse; turistas!

publicado às 11:53

Alguns dias, e algumas mortes.

por naomedeemouvidos, em 19.07.19

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Caminho sozinha e distraída pelas ruas estreitas do mercado. Terminei as poucas compras que não programei e tenho um tempo sem pressa, inútil, que posso desperdiçar a senti-lo correr, devagar, como eu. Não há muita gente, e o sol aquece sem sufocar, desenhando sombras traquinas que se esquivam à minha passagem para logo assomarem, adiante, em negro baço, sobre os umbrais das portas de madeira soberbamente esculpidas que se abrem para lojas de maravilhas amontoadas, de tesouros multicolores, como as cavernas de salteadores dos meus contos de criança. Um homem que nunca vi saúda-me e pergunta-me pelo meu marido. Sabe o seu nome e onde trabalha, e deseja-me um bom dia, que retribuo com um sorriso forçado, num espanto resignado. Passo pela velha sem idade, de chapéu de palha com tranças pretas de lã e a longa saia vermelha de finas riscas brancas, sentada no fundo da escada com a trouxa aberta, espalhada no chão, cheia de verduras mais frescas do que ela, os rabanetes em carne viva, os alhos duros e roxos, a salsa, os coentros verdes da esperança que se lhe escapa a cada dia. Sorri-me, desdentada. Acabo por comprar mais qualquer coisa. Há sempre mais qualquer coisa. Hei-de cruzar-me com algum menino descalço que se voluntariará para me transportar a pouca carga que carrego, a troco de uma compensação miserável; pelo menos, a mãe - ou uma irmã pouco maior que ele - terá com que preparar algo a que possam chamar uma refeição.

Uma algazarra miúda, a princípio, aproxima-se, arrastando um emaranhado de gente que brota, aos tropeções, de outras ruelas ainda mais estreitas. Reconheço os gritos estridentes, à laia de cântico tribal e agudo que afunila em sintonia com a multidão alvoroçada antevendo a desgraça. Encolho-me para deixar passar sem que me arrastem na sua pressa apocalíptica. Os gritos soam mais e mais alto, um frenesim atarantado, e atento ao fundo da viela, para onde todos correm numa aflição que me agonia. Num assombro, esperado por outros, um grupo de homens envergando túnicas brancas, imaculadas, irrompe por entre a mole de gente, sustendo uma liteira enfezada que mais parece levitar como um tapete voador sobre as suas cabeças. Num andor macabro, um corpo jaz como uma múmia, envolto num lençol alvo como uma nuvem de algodão-doce. A multidão atabalhoada, numa ordem que só a eles diz respeito, abraça a padiola fúnebre mais os seus gatos-pingados e parte sem nunca parar, em debandada, com o coro de gritos em música de fundo.

Preciso de um momento para me encontrar. Confundo o número de ruelas à direita e à esquerda, e ainda não me oriento bem na malha labiríntica da medina. Subitamente, os sacos pesam-me em penitência e sinto as unhas cravadas na palma da mão. Um menino puxa-me os sacos e pergunta se preciso de ajuda. Por uma vez, deixo que, antes de ir-se, me acompanhe até ao arco de pedra, à entrada, onde o sol me apazigua.

publicado às 15:36

Ouvir a Terra.

por naomedeemouvidos, em 10.07.19

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Ainda há sítios assim. Encantados. Onde se pode ouvir a água a correr, inquieta, o restolhar das folhas, o coaxar das rãs, descarado, em perfeita harmonia com o murmúrio solto e cristalino das pequenas cascatas que encantam o parque. Num dia perfeito, a Terra não dá pela nossa presença, esquece-nos por momentos. E, então, podemos cobiçá-la, com pudor, em enlevado assombro, sufocando o espanto, num esfoço de preservar o que ainda lhe resta de sagrado.

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publicado às 23:15

Casario.

por naomedeemouvidos, em 16.06.19

Não é nada como a outra ilha vistosa e chique que todos os guias de viagem recomendam, apesar de as duas não estarem assim tão afastadas; geograficamente falando, claro. Na realidade, são três as que enfeitam o conhecido Golfo. Mas, desta, diz-se que é um segredo bem guardado. E colorido. Colorido e quente, como a soberba palete de um apaixonado artista, onde a miscelânea atrevida de cores começa a ganhar forma, de mansinho, à medida que os barcos se aproximam do pequeno cais. Já, antes, tinha sido bastante complicado encontrar o porto de onde partem muitos desses barcos, que aguardam, sobretudo, os habitantes locais, por entre a estafa animada da azáfama rotineira. Os turistas, esses costumam rumar a outros destinos mais populares, à ilha exuberante e caprichosa, delicada mas não tanto sob o sol de Agosto, prenhe de viajantes ansiosos, sequiosos, irrequietos na busca estéril e apressada de souvenirs.

Esta, não. Esta é lenta como uma memória antiga, forjada na alma do poeta e da sua amada de tranças negras como a areia vulcânica da praia graciosa, onde o sol se põe mais cedo tingindo de verde esmeralda as águas calmas e cristalinas.

As vielas estreitas erguem-se, magníficas, assomando à varanda primorosa, arrojada, de respiração suspensa sobre o belo casario, tão belo como o da minha infância, namoriscando o mar imenso que, ora vem, ora vai, embalando suavemente as pequenas embarcações, agora mesmo, ociosas e benevolentes.

Por ali se perderam, por ali se encontraram, primeiro, o carteiro e outro poeta, depois, o jogador de raros talentos, impostor e endiabrado, uns e outros seduzidos pela beleza calma e ensolarada da ilha da jovem Graziella, a filha do pescador por quem se encantou, perdidamente, um também jovem escritor francês.

 

Vale a pena conhecê-la.

 

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publicado às 17:42

Inquietações.

por naomedeemouvidos, em 03.06.19

A morte nunca chegou a ser um tabu. Não houve tempo. Desde muito cedo, sobressalta-o uma curiosidade imensa de descobrir o que fica, afinal, para lá da vida; para lá da morte. Insiste em dizer "quando eu ainda não era vivo", em vez de "antes de eu ter nascido", como se nessa ardilosa divergência pudessem caber inúmeras existências diferentes, únicas, insubstituíveis.

No início, a insistência incomodava-me. Ensaiei - tantas vezes! - sossegá-lo com artimanhas miúdas, fastidiosas, como se fosse possível aquietar, com a ligeireza de um devaneio inconsequente, a sagacidade voraz de uma criança arguta e desassombrada. “Não fales para trás, fala para a frente!”, exigia, impaciente, quando percebia o logro. E o para a frente levava-nos sempre mais longe do que eu poderia esperar.

Pacientemente, apaziguada, fui aprendendo a não deixar que os meus medos, a minha insipiência, lhe ensobrassem os caminhos.

Há poucos - pouquíssimos - dias, a dúvida subiu de tom. Afinal, qual é o propósito disto? Sendo isto, aquilo a que chamamos vida. Desde a existência ou não de uma alma, ao que - existindo realmente - lhe sucede quando o corpo cede e sucumbe, finalmente. Inquieto-me. Não sei se quero falar sobre isso. Não sei se sei. Por vezes, ainda me enfureço. Não por ele; não com ele, exactamente. Comigo, por não conhecer tudo, por me faltarem respostas tão evidentes, tão urgentes.

Talvez a vida encerre um mistério maior ainda do que a morte. Há gente que morre sem nunca ter vivido. E há quem permaneça eternamente vivo, muito para além da morte. Talvez haja, nisto, algum propósito.

publicado às 22:22

Privações

por naomedeemouvidos, em 20.05.19

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"Jejuareis determinados dias; porém, quem de vós não cumprir jejum, por achar-se enfermo ou em viagem, jejuará, depois, o mesmo número de dias. Mas quem, só à custa de muito sacrifício consegue cumpri-lo, vier a quebrá-lo, redimir-se-á alimentando um necessitado;"

 

Era o fim do jejum. Naquele ano, o mês de Ramadão coincidira com o pico de Verão. Nos lugares públicos, sempre evitara desrespeitar o costume, embora tal costume nunca lhe tivesse sido imposto. Pelo contrário. Nas cidades, com raras excepções, os bares, padarias, restaurantes funcionavam no horário normal, e os estrangeiros, turistas ou não, não estavam obrigados a qualquer privação. Eventualmente, evitariam comer ou beber na rua. Um dia, ainda uma recém-chegada distraída e estouvada, cedeu à gula e comeu um pedaço de pão acabado de cozer, mesmo à saída da padaria habitual. Um homem repreendeu-a, fazendo-a sentir-se como uma miúda apanhada desprevenida a meio de uma travessura.

 

Mas, naquele ano, naquele dia, o calor era quase insuportável. Nunca soube como aguentavam. Não beber. Sobretudo, não beber, do nascer ao pôr-do-sol, no meio de um calor abrasador. Paciência e benevolência, diziam. E a consciência da superação. 

 

Encaminharam-se para o comboio que os levaria a Marraquexe. Havia passageiros a embarcar, guiando, pela trela (na verdade, pedaços de corda demasiado gastos, ameaçando romper-se à primeira cisma do bicho), gordos e imprudentes cordeiros que, daí a algumas horas, sacrificarão ao ritual do desjejum que marca o fim do Ramadão.

Tinham pedido dormitórios num dos vagões de primeira classe. Era a primeira viagem num transporte público local, imersos numa realidade estranha, dramaticamente alheia aos seus costumes. Estavam preparados, mais ou menos, mas, ainda assim, para um número limitado de experiências bizarras. 

Chegaram ao número que indicavam os bilhetes. Não havia qualquer dúvida, pernoitariam ali os quatro. Para lá da porta, dois beliches duplos, numa armação mal-amanhada de metal oxidado, mas, aparentemente, robusta. As camas estavam preparadas com lençóis que desejavam (e, na  verdade, pareciam) limpos, apesar do quadro um pouco ameaçador. Sobre cada uma delas, repousava um cobertor fino, demasiado curto e com aspecto bastante mais agreste do que tudo o resto. Foi então que se deram conta de que tudo estava perfeito.

publicado às 08:30

No silêncio.

por naomedeemouvidos, em 26.03.19

Sentado na mesa à minha frente, o homem fala num italiano baixo e levemente rouco. Tem o guardanapo pousado no colo, de forma descuidada, enquanto engole a coca-cola directamente da garrafa de vidro demasiado baço, cujo gargalo segura com uma ligeira fúria, como se a esganasse, deixando que o gás se escape por entre um chiar manso, mas grave, como um pequeno balão que se esvazia em agonia.

Ao seu lado, uma morena voluptuosa de cabelo arrojadamente curto e negro como a asa sedosa de um corvo, vai ouvindo, distraída, sem desviar os olhos do écran do telemóvel que martela ritmadamente com a ponta do anelar inclinada, num exercício de espantosa agilidade à vista da alongada unha impecavelmente pintada de vermelho vivo. Tem umas mãos maravilhosas. Muito mais elegantes e sofisticadas do que o resto do conjunto, demasiado vulgar. Como o homem ao lado, que parece estorvar-lhe.

No outro canto da mesa, o menino mostra-se perdido num momento só seu, alheio ao desenrolar do monólogo seco. Tem o cabelo da mesma côr do da mãe. Percebi que é a mãe. Parece atento, no entanto; não exactamente àquele instante enfadonho. Vai movendo os lábios de forma quase imperceptível, como se falasse sozinho. Talvez não tivesse chegado a reparar, se não estivesse sozinha. Por um breve momento, podia, até, jurar que o vi sorrir. Um sorriso frio, quase um esgar que, por algum estranho motivo, me sobressalta. Parece entretido, numa cumplicidade muda e algo sinistra. Lembrei-me de que as crianças podem ter amigos imaginários, dizem. Alguns podem ser anjos, outros demónios.

O menino levanta, inesperadamente, os olhos para mim, como que avisado da minha indecorosa intromissão. São de um azul quase transparente. Os olhos. Frios, como o sorriso - estou, agora, certa - que lhe surpreendi há pouco. E, então, vi-o. O demónio.

publicado às 11:49

Memórias.

por naomedeemouvidos, em 12.03.19

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    O menino dorme um sono tranquilo, enrolado na manta branca e macia. Está esgotado da viagem. As chamas bailam, insubmissas, moldando os toros de pinheiro acabado de rachar e o calor vai emprestando ao ar da sala um suave odor a resina, enquanto a madeira geme baixinho em estalidos secos e quentes que embalam a conversa solta e fora de horas. É um tempo de recordação e memórias, de lembrar um passado que se fez de mais de um século e que finda agora como, daí a pouco, a chama amarelecida da lareira que, por ora, afaga suavemente a face apaziguada do menino.

    Dizem as gentes da terra que já não há mulheres assim. Daquelas que dão à luz sozinhas, parindo nada mais chegar do campo, com uma ligeira indisposição, talvez seja a hora, vou a casa, ver se isto passa ou se, pelo contrário, aqueço, antes, a água na panela, enquanto ato, numa pressa, um lençol grande a duas cadeiras, para ajudar a amparar a menina, para o caso de estar mesmo a chegar. E o caso é que lá chegou, assim foi, num enorme pranto, cheia de vida acabada de colher no meio da sala, num lençol limpo, não demasiado esticado, é preciso uma tesoura, escaldada, pelo sim, pelo não, também lá está, logo ali à mão, e a menina sozinha com sua mãe, como se, à época, fizesse falta qualquer outra coisa mais. Talvez a parteira, que já não veio a tempo, é certo, mas, ao menos, só para ter a certeza que as duas estão bem de saúde. Está tudo como deve ser. E a dorzita passou, afinal. Calhando, amanhã, ainda volto ao campo… 

    Seguramente, ainda haverá mulheres assim. Era bom que já não houvesse, que fôssemos todas iguais.

 

    O menino ainda dorme, sob o olhar amoroso. Não acredita em anjos. Se acreditasse, talvez fosse fácil imaginá-los assim, aquecidos pelo lume da lareira, ouvindo, num sono quieto e venturoso, histórias de encantar.

publicado às 11:05



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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