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Ensino sem rede

por naomedeemouvidos, em 22.04.20

Tinha deixado preparada uma experiência de Física, montada na bancada do laboratório, para a primeira aula depois das formalidades de apresentação. Já me tinham avisado de que a turma era um pouco complicada. Nunca sei bem o que significa exactamente uma turma complicada, de modo que pretendia impressioná-los. Aos alunos e alunas da dita. Até porque não dava aulas numa escola pública há mais de trezes anos e, por um enorme acaso, quis (isso a que chamam) o destino que tivesse aceitado substituir, temporariamente, uma professora em processo de recuperação de uma intervenção cirúrgica. Corria o passado mês de Janeiro de forma mais ou menos tranquila, de sobrolho erguido mas longe ainda (tão longe!) da anormalidade que, entretanto, esmagou a nossa rotina.

 

Há várias formas de complicar a tarefa de um (pontualmente "aspirante a", neste meu caso) professor - esse será sempre o dilema, ou o desafio. Uma delas é boicotar, pelo silêncio absoluto, uma aula planeada ao detalhe para promover a participação activa dos alunos. Motivá-los, como dizem, porque o principal problema da mediocridade do ensino assenta inquestionável e confortavelmente na incapacidade dos professores para motivar os seus alunos e dinamizar uma sala de aula. Isso também nos dizem. Convictamente. Principalmente, os que gostam de debater os problemas do insucesso e da indisciplina na sala de aula e na escola sem nunca lá terem regressado. Assim se chega à conclusão de que o tal sucesso académico dos alunos não depende dos próprios, nunca: reside maioritariamente na habilidade do/a professor/a para o entretenimento, muito para além da sua competência técnica. Afinal, o processo de aprendizagem deve ser, sobretudo, lúdico, nada de maçar os miúdos com coisas chatas, ou lá o que é.

Falava, no entanto, de silêncios. Dos que castigam. Pois, lá acabei por provar do meu próprio veneno. Era, precisamente, pelo silêncio que, quando leccionava em tempos há muito idos, acabava, muitas vezes, com o tumulto nas salas de aulas de outras turmas complicadas (porque não há nada pior do que gritos sobrepostos para tentar impor alguma disciplina). E foi assim, pelo silêncio firme e perverso, que toda a preparação elaborada de uma lição – entre uma experiência prática, um powerpoint construído para ser atractivo, de suporte competente aos tais conceitos teóricos e pensado para durar dois tempos lectivos de 50 minutos cada – se esgotou ainda quase não tinha acabado a primeira aula. Passei os 15 minutos de intervalo (felizmente, era agora o tempo do intervalo grande…) a repensar a estratégia para os 50 minutos seguintes.

 

Já quase me tinha esquecido do principal motivo por que alguns dos meus amigos e amigas – e, no topo da lista, a minha irmã – não desistem da profissão que escolheram. É avassaladora a sensação de, finalmente, conseguir captar a atenção de um auditório irrequieto e que "detesta" (como não se cansam de nos dizer) a disciplina que tentamos ensinar. E também já sabia do preço que paguei por ter desistido do ensino tradicional, como se diz (e se faz). Daí que as mensagens de despedida daquela turma complicada, em particular, me tenham preenchido a alma. Mesmo que alguns continuem a detestar; mesmo que alguns tenham aprendido pouco no escasso período em que os acompanhei. Mesmo que não tenha conseguido chegar a todos. Ainda assim, valeu a pena não ter desistido.

 

Com a discussão ao rubro sobre a melhor estratégia para concluir o ano lectivo, acredito que nada substitui a aula presencial, por muito avançada que seja a tecnologia. Não completamente. Nunca nos anos que antecedem o acesso ao ensino superior. Há uma dinâmica impossível de reproduzir virtualmente e uma ligação afectiva (e efectiva) que se estabelece sem fios, também, mas com tudo o resto. Wireless, mas não muito; e muito para além da eficiência asséptica de transmissão de conceitos. Independentemente de haver, de ambos os lados - alunos e professores - gente que pertence a outro lugar. Mas isso é tema para outra discussão. E isto sou eu. De ressaca, depois de uma recaída inesperada e sem rede.

De repente, é tudo diferente e precisamos de um certo fingimento da normalidade que perdemos irremediavelmente. Só não sabemos, ainda, o melhor método para colar os cacos.

Não vai ficar tubo bem, o que não quer dizer que não vá ficar tudo melhor do que está. Conscientes, porém, da inevitabilidade de haver sempre aqueles - inclusive, alunos de turmas complicadas e outros - a quem nunca se consegue chegar, porque a inacessibilidade pode ser teimosa, descarada e intransmissível, sim, mas, por mera opção.

E - para que não restem dúvidas - continuo a encontrar no silêncio uma arma à altura de muitos desafios, em muitos contextos diferentes. Outras vezes, faz-me falta não ficar calada; mesmo que já me tivesse despedido disto.

 

publicado às 10:45

On / Off

por naomedeemouvidos, em 16.09.19

Era uma vez, uma sala de aula numa escola de elite em Silicon Valley, onde estudam os filhos de alguns directores executivos dos "gigantes tecnológicos".

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É tão insensato negar as vantagens dos recursos digitais como ignorar os efeitos perniciosos da sua utilização precoce e sem regras. Não deve haver ninguém que não o saiba. E, como sempre, quem melhor o sabe é quem melhor o conhece.

Não é assunto novo, mas, vale sempre a pena recordar. Os avanços tecnológicos são cada vez mais ousados. Convém sabermos como funciona e para que serve, por exemplo, um interruptor. Físico, virtual, virtuoso.

Acho que se lê bem aqui; o espanhol não nos é de má leitura (por acaso, escolhi mais pela fotografia). E, gosto mais do que aqui, embora, também esteja aqui. Talvez chegue para o essencial.

E também temos, pelo menos, uma escola assim. Ou parecida. Vale a pena ler.

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publicado às 13:34

Deus, Pátria e Bolsonaro.

por naomedeemouvidos, em 26.02.19

    Há uns meses, foi notícia a deputada brasileira Ana Caroline Campagnolo. Motivo? O apelo que fez, publicamente, para que os alunos filmassem as aulas de professores que revelassem discursos "político-partidários ou ideológicos", uma forma pouco velada de dizer denunciem todos os professores que ousem criticar esse messias, literalmente, dos tempos modernos, Jair Bolsonaro, o santo presidente do Brasil. "Na semana do dia 29 de outubro, muitos professores doutrinadores estarão inconformados e revoltados. Muitos não conseguirão disfarçar sua ira", assim rezava a deputada, logo a seguir à eleição do seu amado presidente. Daí até a desembaraçada menina abrir um denunciário online, para acolher os danosos, e danados, pecados desses reles doutrinadores, pouco éticos e incompetentes, foi um clique no sítio habitual. Aliás, “é só comportar direitinho que não precisa ter medo, cidadão” (não sei se será só a mim que isto causa calafrios...). Caso contrário, já sabe. E salvaguarda-se, como não?, a identidade do arrojado e casto denunciante.

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aqui

       Entretanto, a Justiça terá determinado a remoção da publicação do apelo na página de Facebook da senhora deputada do PSL, e a intrépida defensora da liberdade dos desde que mui adequados costumes até chegou a ver as suas contas reprovadas

 

    Ora, suponho que para garantir que o cidadão continue a portar-se direitinho, o Governo braileiro pretende, agora, pôr os alunos, nas escolas, a cantar o hino e a ler uma espécie de oração que termina com o todo-poderoso, conspícuo, mais-que-conhecido slogan “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos!”. Afinal, é de pequenino que se torce o pepino. Não se dirá assim, por lá – não faço ideia – mas, sendo o objectivo exterminar problemas, ou professores incómodos, também não deve fazer grande diferença. E, porque um país grande em qualquer parte da América há-de ser, por força, um país em perfeita sintonia, também se aconselha que o acto solene – ou, pelo menos, parte dele – seja filmado por um representante da escola e o vídeo enviado, com os dados da escola. Aleluia. Qualquer rasgo de semelhança com alguma suposta ditadura é pura maledicência de gente desordeira, impura e completamente ignorante.

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publicado às 14:30

(Não sei se) Passei a LGBTI.

por naomedeemouvidos, em 11.11.18

    A Escócia será o primeiro país a incluir aulas de LGBTI em todas as escolas, sendo que, já é considerada um “dos países europeus mais progressivos na igualdade das pessoas LGBTI”.

    A recente notícia fez-me pensar, mais uma vez, na normalidade ou anormalidade, seja lá o que isso for, das relações entre as pessoas e no direito de todos, quer ao respeito, quer à diferença.

    Há cerca de dois ou três anos, não recordo bem, o meu filho perguntou-me se era normal um menino namorar com outro menino. Mandava, manda, o politicamente correcto que lhe tivesse respondido imediatamente que sim, sem hesitações, cheia de certezas e tolerâncias puras, variadas e coloridas. Mas, tolerância é uma palavra que me incomoda, neste contexto, e certezas não tenho assim tantas. E, afinal de contas, o que é ser normal?

    Ensinar a tolerar a diferença incomoda-me, porque, não poucas vezes, a tolerância reveste-se de uma espécie de superioridade, seja moral, social, intelectual e por aí fora. Ensinar a respeitar a diferença é imperativo e devia começar em casa. Porque todos somos pessoas diferentes sob várias formas e todos temos direito a ver a nossa identidade respeitada. Mudei, inclusivamente, de ideia quanto à adopção de crianças por casais homossexuais quando percebi que parte da minha resistência assentava mais no preconceito do que na razão. Mas, algures entre a exigência do respeito associada à luta legítima pelos direitos iguais em circunstâncias iguais e a aparente imposição de um pensamento, de uma linguagem, de uma ideologia, perdi-me um pouco e, temo que, irremediavelmente. Corro, inclusive, o risco de ser chamada de homofóbica, dado o grau de intolerância que os ditos tolerantes – tão pios e diligentes quanto às suas causas – ostentam em relação à diferença de opinião dos outros.

    A violência sobre os homossexuais ou sobre as pessoas transgénero é repugnante e intolerável, como o é a violência sobre qualquer outra pessoa. Não preciso de qualquer esforço ou doutrina régia para explicar ao meu filho que todos temos o direito a não ser discriminados ou humilhados, seja com base na cor, na religião, no género, na orientação sexual, na nacionalidade e em tudo o mais em que a diferença exista. Creio que grande parte dessas “explicações” e dessa “educação” vêm naturalmente. Não temos, em casa e em família, o hábito de apontar o dedo ao outro, de o rotular, “olha que gordo, olha que magro, olha que feio, olha que lindo, olha o cabelo, olha os sapatos”, e penso que, inevitavelmente, o miúdo não vê na diferença, mesmo evidente, uma ameaça. Mas também não vê – e não quero que veja – uma imposição: no modo de ser, de pensar, de estar e de se exprimir.

    A sigla LGBTI designa “lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e intersexuais”. Seguramente por incompetência, já tenho dificuldade em compreender plenamente a diferença entre transexual e intersexual. Mas, parece que também há LGBTQQIAAP (Lesbian, Gay, Bisexual, Transgendered, Queer, Questioning, Intersex, Asexual, Allies, Pansexual) e acho que foi entre umas e outras que passei definitivamente a gozar do estatuto de homofóbica. A luta mais do que justa pelos direitos dos homossexuais transformou-se, por parte de alguns, num delírio em que, mais do que promover a igualdade, tem contribuído para agitar fantasmas e atiçar ódios que, evidentemente, não se esvaziam por decreto, e não sei bem o que pensar sobre a existência de “aulas de LGBTI” nas escolas. É substancialmente diferente de ensinar regras básicas de cidadania, civismo e igualdade? Talvez seja, porque isso ainda não nos ensinou a abolir a violência sobre as mulheres, por exemplo. Ou a pagar salários iguais por trabalhos iguais. Mas, a educação escolar inclusiva já mostrou que está, como o inferno, cheia de boas intensões que, nem por isso, deixaram de se revelar fiascos absolutos. Se calhar, é mais importante ensinar que ser normal é aceitar que somos diferentes e que, não só, não há mal nenhum nisso, como é tão intolerável vilipendiar o outro por ser diferente como é insuportável deixar que nos imponham uma forma de pensar.

 

publicado às 11:15

Excelência e autonomia.

por naomedeemouvidos, em 05.11.18

    Os professores continuam em greve pelos 9 anos, 4 meses e 2 dias que o governo lhes quer roubar. Quando a frustração cresce, o nível da linguagem baixa e esse facto parece ser independente do nível de escolaridade. Os professores, e a sua luta, seriam mais bem-vistos se trocassem o Mário Nogueira, seguramente.

   A greve é um direito que assiste a todos ou a quase todos. E eu já trabalhei como professora contratada em várias escolas públicas. Conheço bem as razões dos professores e, melhor ainda, a falta dela em muitos casos. Enquanto professora contratada, nunca fiz greve e, quando me cansei do que a escola (não) tinha para me oferecer, saí. Comecei a trabalhar por conta própria, dando aulas particulares nas três áreas em que os alunos são instruídos, desde cedo, para não perceberem nada: matemática, física e química. Qualquer um destes temas, aparentemente, só está ao alcance de génios e é este o espírito, mesmo entre grande parte da classe docente. Não se ensina a pensar, porque, isso dá muito trabalho e não dá para cumprir programas. O melhor é impingir fórmulas, desde pequeninos, de preferência em duas ou mais variantes, porque os miúdos, coitados, não têm capacidade para perceber como é que se passa de umas para as outras. Os professores (os bons; para os maus, é indiferente), esgotados e desanimados, fazem o que podem com entusiasmo nulo, porque é arrasador estar constantemente a lutar contra a maré, mesmo para os que estão cheios de boa-vontade.

    Eu optei por abdicar do ensino normal. Paguei o meu preço, ganhando em estabilidade e autonomia o que perdi com a partilha das dificuldades e com o estimulante desafio, renovado a cada ano, de conquistar a atenção de grupos de adolescentes rebeldes q.b. Encontro outros desafios, não seleccionando, por exemplo, os meus explicandos por notas, mas a escola, é a escola. Não me arrependo; fiz uma escolha.

    A minha irmã ainda não desistiu. Apesar de 14 anos, muitos meses e muitos dias de serviço, continua refém de um sistema que trata os excelentes e os medíocres da mesma forma. Por que não se faz greve pela promoção de um sistema que expulse, sem dó nem piedade, os maus professores? E há maus professores, como há maus médicos, como há maus engenheiros, como há maus carpinteiros, como há maus empregados de limpeza, etc, etc, etc. Mas, as escolas públicas não têm autonomia para escolher os melhores, porque isso implicaria contratar um excelente professor com 9 anos de serviço em detrimento de um professor medíocre com 9 anos, 4 meses e 2 dias de serviço, e isso é, obviamente, inadmissível, não é? A antiguidade sobrepõe-se à competência, independentemente do mérito de cada uma.

    Daqui por dois dias, a minha irmã acabará o (mais um) contrato temporário a que teve direito desde Setembro passado. Mais uma vez, vai ficar à espera que algum colega liberte um horário que ela possa aceitar.

   A minha irmã – e muitos outros professores que conheci! – faz parte dos bons professores. Digo-o sem falsas modéstias. Faz parte daqueles professores substitutos a quem, muitas vezes, os miúdos dedicam abaixo-assinados pela manutenção na escola. Comigo também chegou a acontecer, mas, no meu caso, tem algo de batota. Eu leccionava físico-química e é difícil ser um mau professor de físico-química: uma vez, numa turma complicada, fiz explodir (uma mini-explosão, entenda-se) um pequeno pedaço de sódio no laboratório e tive os miúdos entusiasmados o ano inteiro. Mas, a minha irmã lecciona filosofia. Filosofia! Quando já pouca gente entende a utilidade da filosofia, como é que se consegue manter o interesse de uma turma, a ponto de se fazerem abaixo-assinados? Deve ser porque se é bom professor. Os miúdos são os melhores avaliadores do trabalho dos professores, e não tem nada a ver com notas.

    As escolas estão cheias de bons professores que não podem fazer mais, nem dar mais. Não devia haver solidariedade para quem não tem o brio profissional, muitas vezes, nem a competência necessária, prejudicando a aprendizagem dos alunos e, assim, comprometendo o seu sucesso académico. E se os professores fizessem greves pela promoção do mérito e da autonomia das escolas?

publicado às 11:46


“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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