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A arrogância da estupidez.

por naomedeemouvidos, em 10.04.19

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O Mayor de Nova Iorque declarou estado de emergência de saúde pública o surto de sarampo que atingiu um bairro da cidade. O comunicado do presidente da câmara refere – entre outras coisas – que, apesar da comprovada eficácia da vacinação na prevenção da doença, um número elevado de habitantes do bairro Williamsburg não está vacinado contra o sarampo, apesar dos esforços realizados para contrariar essa tendência (consequência dos movimentos anti-vacinação).

Mesmo depois de ter sido desmascarada a farsa promovida por Andrew Wakefield, o mito continua: na mente dos que se libertaram das amarras do conhecimento científico – às vezes, muitas, para aderir a um rebanho muito mais cool e visionário, como o dos gurus das redes sociais – as vacinas provocam coisas más nas pessoas e só servem para dar dinheiro a ganhar à indústria farmacêutica, essa corja de aproveitadores maquiavélicos que engorda o capitalismo peçonhento; os restantes influencers, os modernos, os novos deuses, são todos pobrezinhos, como se sabe, preocupados, apenas, como a verdade e o bem-estar dos outros.

 

Acreditar que a Terra é plana, que o Homem nunca pisou a Lua, que a água tem memória, que as vacinas causam autismo, ou que se calhar é mesmo o Sol que gira à volta da Terra (inevitável), não é ter opinião. É ser absurdamente estúpido. Lamentavelmente (se calhar não…), não sou capaz de classificar de maneira mais branda. A ignorância – menos grave, apesar de tudo, porque sempre pode vir a ser esclarecida – servirá para responder noutros casos; nunca no de quem rejeita (apesar de o ter) o privilégio de poder conhecer, de aceder à informação, de procurar, de questionar, se quiser. É delirante acusar os “defensores” da ciência de “falta de provas”, quando a exigência dos crentes se basta na sua própria opinião, eventualmente fundamentada noutras opiniões igualmente crendateiras. Não sei bem como é possível predispormo-nos a discutir o tamanho do elefante quando, logo à partida, um dos lados não reconhece o bicho (parece que foi mais ou menos o que a Fátima Campos Ferreira tentou fazer num dos seus Prós e Contras, com os resultados que se adivinhavam).

Passámos, então, do direito à liberdade de expressão, ao direito que cada um tem à sua verdade. E a continuar a lutar por essa sua verdade (ah!, o António Costa, o homem é mesmo um génio e não é só da política…).

 

De modo que, ao mesmo tempo que à ciência já não chega dar provas e pôr-se à prova, aos devotos basta-lhes acreditar. Não é “penso, logo existo”, é apetece-me, logo acredito, logo que se lixe tudo o resto. A dúvida deu lugar à imbecilidade janota. São, agora, iluminados todos os que ousam ignorar factos comprovados, porque sim, porque, como se vê (ou como só vêem alguns, os modernaços das balelas chiques anti-sistema ou lá o que é), é muito mais inteligente renegar evidências científicas com base em fezadas e teorias da conspiração, do que questionar razoavelmente a dimensão da fé na eficácia de curas milagrosas.

 

Os verdadeiros democratas, os acérrimos defensores da liberdade que cada um tem “de  opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão”, não vêem com bons olhos que se limite a possibilidade de os tolos expressarem sem reservas a sua imbecilidade. Ou de todos os assumidos-istas-e-óbicos promoverem as suas supremacias bafientas em todos os géneros e números, e sobre todos os palcos. Afiançam, esses democratas puros (não, não vou fazer a piada...) que essa é a melhor maneira de combater os brutos e defender a democracia. Pois, eu começo a ter muitas dúvidas…

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publicado às 13:54

Quanto tempo pode resistir um "shutdown"?

por naomedeemouvidos, em 17.01.19

    O Reino Unido anda às voltas com um Brexit que já poucos parecem querer e os EUA resistem, obstinadamente travados por um muro que Trump deseja como nenhum outro, pese embora alguns o tenham intentado antes.

 

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    A América continua sequestrada pela ausência de acordo entre democratas e republicanos (ou só entre democratas e Donald Trump) sobre quem constrói o quê e quem paga a conta antes, para ser apresentada aos mexicanos depois. O impasse mantém-se há 27 dias, a maioria dos americanos culpa o Presidente pelo shutdown, há milhares de funcionários federais a trabalhar sem remuneração e os conselheiros de Trump andam a avisá-lo acerca dos efeitos negativos que o apagão começa a ter na economia do país.  Nada que Donald Trump não aguente. Pode sempre despedir os conselheiros que não o aconselhem como ele gostaria (a seguir, pode insultá-los, no Twitter, para aliviar o stress), dispensar os funcionários públicos e continuar a mandar vir pizzas e hambúrgueres do McDonald’s e, quanto à economia, bom, o homem percebe imenso de negócios, construiu um império dos diabos, está habituado a agarrar o que quer por onde lhe dá mais jeito e gozo, há-de ter a competência e a teimosia necessárias e suficientes para dar a volta ao assunto.

    Parece, no entanto, que, nos bastidores, o Presidente anda um pouco enfadado. Irritado. Não percebe porque não se consegue chegar a um acordo. Talvez, porque o que Trump procura não é bem um acordo, é um acto de resignada vassalagem, eu quero, eu posso, eu mando, quem tem juízo obedece, os loucos que não atrapalhem. Afinal, quando Trump tiver terminado o seu muito higiénico e muito eficaz muro, acabar-se-ão todas as peçonhas, a América será grande outra vez e o povo americano, rendido à magnificência e visão do todo poderoso, não voltará a recordar estes dias de infortúnio; lembrará, sim, a intensa e ufana luta do melhor presidente das últimas décadas, empenhado em proteger a nação dessa horda de criminosos que são todos os emigrantes, com excepção da impecável e elegantíssima Melania, que faz decorações de Natal como ninguém, God Bless America (e, de passagem, o Brasil, que o senhor é omnipresente).

    Entretanto, num esforço hercúleo, e heroico, a bem do país como só ele é capaz, Donald Trump deu descanso ao Twitter presidencial durante grande parte da tarde de ontem, preservando o bom humor para a reunião com alguns democratas moderados – parece que eram sete –; aos radicais já tinha chamado partido do crime e das fronteiras abertas, nada preocupados com a crise humanitária na fronteira do sul. Ora, todos sabemos como Trump e os seus aliados se preocupam. Tanto, que usam um gás natural para repelir os intrusos. Tão natural que se pode comer com nachos, como é que ninguém se tinha lembrado disso antes.

    Se não for a bem, há-de ser a mal. E a contra-gosto. Até lá, bye-bye. Homem que é presidente não tem tempo a perder.

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publicado às 23:34

O que fazer com os migrantes?

por naomedeemouvidos, em 09.01.19

    Acreditar que Donald Trump está preocupado com uma crise humanitária, é o mesmo que acreditar no Pai Natal, e eu já tenho mais de 7 anos. Apesar do tom quase cordato com que manifestou a sua inquietação, o que Trump quer, já toda a gente sabe, como diria alguém, era escusado a Sala Oval, o outfit e as fotos de família.

   O que fazer, realmente, com os milhares de pessoas, entre elas, crianças, que fogem dos seus países em busca de algo mais do que sobreviver? Não podemos acudir a todos, socorrer todos, ajudar a todos. Mas, são pessoas. Como nós. Era tão simples, se fossem diferentes de nós. Piores do que nós. Bastava construir um muro, escorraçá-los como aos cães vadios, devolvê-los à sua pátria, reduzi-los à sua miséria, como bem mereciam. Se não fossem como nós. E, aí, acabava-se com a delinquência, com o crime, com o tráfico de drogas, com as doenças, enfim, com todos os males que trazem os que não são iguais a nós. Seríamos, finalmente, felizes para sempre. Grandes, outra vez. Basta acreditar...

 

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publicado às 11:41

“The world is a very dangerous place!”

por naomedeemouvidos, em 21.11.18

    Deve ser difícil manter uma conversa séria com Donald Trump. Pelo menos, no que diz respeito a garantir uma presidência funcional de um país que se quer grande. Excepto no que toca a conversas de balneário ou negócios mais ou menos obscuros (aí, o homem agarra quem quer que seja, por onde quer que seja, ao estilo do que por cá chamaríamos um pato-bravo), o vocabulário do presidente dos EUA está ao nível de uma criança que ainda não completou o primeiro ciclo escolar. Tem uma mão cheia de adjectivos que oscilam entre o bom, óptimo, mau, de vez em quando, um erudito perverso, eventualmente, apimentados com um eloquente muito e que servem para tudo, do clima às pessoas, dos ataques terroristas aos dantescos incêndios na Califórnia. As pessoas são boas, às vezes são mesmo great, ou, quando más, podem chegar a bad, bad people, a repetição elevando e enfatizando o grau de maldade do indivíduo.

    O senhor presidente tem uma opinião forte acerca das alterações climáticas. Graças a um tio que, no caso, era mais do que great, era mesmo um brilliant genius – que a família tem bons genes, basta olhar para a Ivanka – e com quem também discutia questões nucleares all the time. Pela força, da opinião, o presidente quer e terá um evidentemente great clima para os EUA. Enquanto o bom clima não chega, os americanos vão aprender a prevenir incêndios com os finlandeses, que sabem o que fazem e têm bons solos. Também se requer bons solos. E ancinhos. Mas Trump está habituado a ter o que quer e, além disso, já falou com o presidente da Finlândia, alternativamente sobre este ou outros temas, é indiferente; o que conta é a intenção.

    Noutro (perigoso) desvario caseiro, o presidente norte-americano recusou ouvir a gravação áudio do assassinato de Jamal Khashoggi. Já classificou o acto como perverso e como muito más as pessoas que o cometeram. Não quer ouvi-la e acha que não há razão nenhuma para que a ouça. Eu acho que é capaz de haver para cima de 100 mil milhões de razões para não alarmar o excelentíssimo príncipe da Arábia Saudita e Trump, ao contrário de uns quantos hipócritas, não tem pudor em lembrá-lo repetidamente. Afinal, a venda de armas é um excelente negócio, gera muitos, muitos empregos; a lot. Além disso, as pessoas têm direito a defender-se de ameaças, como se vê, semana sim, semana não, nos EUA. Esta semana foi em Chicago. Quando os professores americanos andarem armados, acabam-se os massacres. Como é que ninguém se tinha lembrado disso antes? E quando for o Jair a mandar, pode ser que todos os problemas da humanidade desapareçam por artes bélicas, pois teremos conseguido exterminar todos os maus da face da Terra; jamais os franceses voltarão a correr o risco de aprender alemão.

    Entretanto, há milhares de refugiados às portas do EUA na fronteira com o México. Uma caravana, várias caravanas, amálgamas de sonhos desesperados, de esperanças indomáveis, voluntariosas, fazendo das fraquezas individuais uma força resistente que renasce, como uma fénix, das cinzas que tentam e teimam em deixar para trás. Trump não os quer há muito, o México não tem como continuar a querê-los e nós vamos suspirando com envergonhado e cobarde alívio, porque não chegou à nossa porta. Ainda. Como será, quando chegar? O que fazer entre a obrigação moral de ajudar quem precisa e a frustrante incapacidade de chegar a todos? E se, por um acaso do destino, a caravana nos transportasse a nós?

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publicado às 09:17

"Ich weiss nicht was sie sagen"

por naomedeemouvidos, em 08.11.18

    Parece que foi o que respondeu Rui Rio a jornalistas portugueses, hoje mesmo, à porta do centro de congressos Messukeskus, em Helsínquia. Significa - diz quem sabe, que eu não percebo nada de alemão - "não sei do que estão a falar" e vinha, ainda, a propósito das presenças fantasma do secretário-geral do PSD, José Silvano. Enfim, questiúnculas da língua. Não sei como é que os alemães dizem iogurte, mas sei que o prazo de validade de Rui Rio caminha a passos largos para a expiração. Tenho pena, porque, faltam pessoas sérias e competentes na política e, francamente, não sei o que aconteceu a Rui Rio na versão presidente da Câmara do Porto.

 

    Donald Trump destratou, para não variar, um jornalista da CNN. Só visto, literalmente. Apesar do aparente esforço para não perder a calma, a irritação e a agressividade são palpáveis e, um destes dias, o homem passa das palavras aos actos (não por mãos próprias, mas, nunca fiando). O mais curioso (ou não; vivem-se tempos estranhos...) é que, grande parte dos comentários em português que li não são de repúdio pela atitude do presidente americano. Pelo contrário. Trump é que "os tem no sítio", Trump é que foi "atacado pelo jornalista", "Jim Acosta não é um jornalista, é um lacaio" apostado em denegrir a imagem de Trump (como se aquela pérola precisasse de ajuda nisso...), "com ele (ele-Trump, pois claro) não brincam", e outras variantes de apoio ao super-homem. Ainda me lembro dos meus tempos de infância, em que os super-heróis eram, pelo menos, uns belos pedaços; seriam, igualmente, uma tremenda fraude, mas, podíamos contemplá-los sem asco.

    Alguns jornalistas podem ser muito inconvenientes e/ou muitos incompetentes, mas não deixa de ser absolutamente espantoso ver o presidente norte-americano insultar e mandar um jornalista calar e sentar no mesmo tom em que se adverte um carrocho para lhe mostrar quem manda.

 

    Entretanto, em mais um dia normal na América, desta vez, num restaurante da Califórnia, um novo tiroteio fez mais 30 novas vítimas. É só mais uma banal inevitabilidade. Mato porque sou branco ou porque sou preto, mato porque sou pró-judeu ou anti-judeu, mato só porque sim, porque todos temos direito ao nosso dia de raiva. Entre mortos e feriados, quem e quantos iremos escapar?

    

    E, se podemos mudar de sexo ou de género, por que não mudar de idade? É isso mesmo que defende um holandês de 69 anos, que quer passar a ter, no máximo, 49. Parece que, com a idade actual, não tem muito sucesso no Tinder e, além disso, os médicos dizem que tem corpo aí para uns 45. Acho que sim...

 "Wir sehen uns morgen", que é como quem diz (se o Google não me falha), vou ali e já venho, ou, se calhar, até a amanhã.

 

P.S. Obrigada pelas mães! A minha acaba de me avisar que eu queria dizer “entre mortos e feridos” e não “entre mortos e feriados”. Como vivemos num tempo em que parece que as palavras não importam, olha, deixo como estava...

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publicado às 09:59

Fact-checking: para quê e para quem?

por naomedeemouvidos, em 07.11.18

    Chegou o Polígrafo, um site de fact-checking apostado em ajudar a salvar a democracia sequestrada, esventrada, pelas fake news. Em Portugal, é algo relativamente novo, mas existe há mais de uma década nos EUA.

   Numa entrevista ao Expresso, o jornalista Fernando Esteves, responsável pelo novo projecto em Portugal, afirma que no último debate entre Donald Trump e Hillary Clinton para as presidenciais americanas, “o Politifact teve 100 milhões de pageviews” e que “os jornais norte-americanos fizeram fact checking em direto dos debates e percebeu-se que é um tipo de jornalismo que pode desempenhar um papel fundamental na purificação das democracias”. Mas Donald Trump é, actualmente, o presidente dos EUA, por isso, pergunto-me: estão, as sociedades democráticas, realmente interessadas na verdade dos factos? Jair Bolsonaro venceu as eleições presidenciais no Brasil à custa, asseguram-nos, das perversas e prolíferas notícias falsas e, no entanto, muitos dos seus defensores alegam que ele não é nada assim, é só da boca para fora. Por isso, volto a perguntar? A quem interessa o fact-checking?

   “O fascismo cresce onde as pessoas são convencidas de que toda a gente mente”, afirmou Madeleine Albright. E a ciência já disse que o nosso cérebro de adapta à desonestidade. Tendo a acreditar. Basta observar a facilidade com que acabámos a normalizar (quase) todas as boçalidades proferidas, por exemplo, pelos novos nacionalistas salvadores da pátria e seus obedientes vassalos. Enquanto andamos a discutir se às meninas ainda é permitido preferir o rosa ao azul ou as barbies aos carrinhos, se a um homem ainda se consente que segure a porta a uma mulher, se a ambos ainda se tolera a crença na biologia do género e se as touradas são ou não suficientemente civilizadas para efeitos de IVA, eis que surgem esses magníficos, magnânimos, homens e mulheres, autênticos e justiceiros, narcisistas e fanfarrões, dispostos a combater o sistema a que juram não pertencer, embora dele tenham vindo a beneficiar mais ou menos descaradamente.

    A mentira na política (e não só) não é nova. E, face a essa fatal inevitabilidade, passámos a poder escolher alegremente e sem censura a mentira que queremos viver. Assim uma espécie de se não podes vencê-los junta-te a eles, até regressarmos, por culpa e vontade próprias, à idade das trevas.

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publicado às 11:37

Vou continuar a indignar-me, posso?

por naomedeemouvidos, em 04.11.18

    Se me é permitido, vou continuar a indignar-me. Violentamente e todos os dias, se for preciso. Recuso associar-me à normalização do mal e à banalização do absurdo. Um fascista é um fascista, é um fascista. Quem partilha dos valores do fascismo, não se esconda em subterfúgios. Quem não quer viver a democracia em pleno, não pretenda instigar a sua intermitência, descontinuando-a quando convém. Porque, talvez, nunca convenha a todos concomitantemente.

    Os EUA estão em campanha. Na próxima terça-feira há eleições intercalares. Ao seu estilo, Donald Trump continua a agitar as massas mentindo, mentindo e mentindo e alternando discursos consoante os ventos, naquela linguagem básica e paternalista que continua a colher: vem aí uma caravana cheia de malfeitores, criminosos em série, apostados em tomar a América de assalto. Se nos atirarem pedras, lembremo-nos que os nossos soldados têm espingardas, portanto, que considerem usá-las. Não nos esqueçamos que à frente da caravana vêm homens fortes e maus, muito maus. Não interessa que tragam milhares de quilómetros nos pés e venham esmagados pelo cansaço, porque trazem um ror de más intenções na alma. Querem os nossos empregos, na melhor das hipóteses. Na pior, vêm violar as nossas mulheres e matar os nossos filhos. Matar só está permitido aos bons. E, não nos esqueçamos, “grab them by the pussy” também não está al alcance de qualquer um; só dos que têm dinheiro e poder. Pior do que um criminoso rico, só um criminoso pobre, fedorento e estrangeiro.

    Como habitualmente, Donald Trump já veio desmentir-se a si próprio. Afinal, não vamos disparar sobre os migrantes. Vamos só prendê-los pelo tempo que for preciso. A mentira, num democrata, é inadmissível. Num populista, num nacionalista ou num fascista é um meio válido para atingir um fim. A corrupção, num democrata, é vício nojento que urge exterminar, qualquer que seja o meio. Num populista, é expedito; é competência e desembaraço.

    As migrações em massa e descontroladas são um problema sério, efectivamente. Nenhum país tem capacidade de acolher todos, socorrer todos, atender a todos. Mas, acredito que os mecanismos para fazer face a este e outros problemas devem ser encontrados dentro das normas democráticas. Há quem ache que não. Há quem acredite que, o que importa, é ter a economia a crescer e viver sem incómodos e sem sobressaltos. Se, para isso, for necessário suspender ou, mesmo, eliminar a democracia, seja. Tudo em nome da segurança. Ou será só em nome do conforto pessoal? E, é mau, querermos paz para os justos e justiça para os criminosos? É mau ansiar por bons empregos, bons ordenados e uma vida confortável e próspera, principalmente, quando pagamos os nossos impostos? Claro que não! Como é evidente, essa não é a questão. Mas, o mundo não é perfeito e não é o nosso quintal. A não ser que passemos todos a defensores da justiça por mãos próprias e pela supressão, quem sabe, pelas armas, de todos os que perturbam o nosso sossego como mosquitos, viver em sociedade dá trabalho e, muitas, muitas vezes, traz chatices.

    Voltemos ao Brasil e a Bolsonaro (sim, também há Maduro e outros que tais; infelizmente, o mundo está cheio de gente que só olha para o seu umbigo e que só quer o poder a qualquer preço, subjugando tudo e todos à sua tirania). Fiquemos só pelos bens intencionados; pelos que acreditam que ele não é tão mau como parece e que Sérgio Moro – o mesmo que jurava a pés juntos que jamais entraria para a política – está apenas interessado em ajudar o Brasil a preservar a democracia. O que vai acontecer quando, cada brasileiro de bem se sentir legitimado para matar um ladrão, um violador, um assassino? O que vai acontecer quando um polícia brasileiro se sentir impune, democraticamente, para matar um (mesmo não alegadamente) criminoso? Quanto tempo precisaremos de esperar para assistir à instituição da vingança em vez da aplicação da justiça? E, quanto tempo até passarmos, cada um de nós, a ser o alvo?

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publicado às 13:31

A ilegalidade de ser humano.

por naomedeemouvidos, em 16.10.18

       Na Hungria de Vickor Orbán, ser sem-abrigo é ilegal (não é só, eu sei). Assim, e no “interesse da sociedade”, a polícia húngara está, desde esta segunda-feira, autorizada a retirar dos espaços públicos quem não tem onde dormir. Teoricamente, estes seres ilegais devem ser encaminhados para abrigos. Se se recusarem a fazê-lo, três vezes em 90 dias, a polícia pode detê-los e destruir os seus pertences. Os cidadãos, os legais, obviamente, devem ter o direito de usufruir dos espaços públicos sem constrangimentos.

      Na América de Trump, (pelo menos) uma menina, hondurenha, de dois anos testemunhou sozinha, no “Tribunal Federal de Imigração nº 14” dos EUA. Na fronteira, foi separada da avó que tentava entrar ilegalmente nesse país tão grande outra vez. Na esclarecidíssima e iluminada opinião de Trump e de muitos dos seus apoiantes, se as famílias tiverem medo de serem separadas das suas crianças, não se atreverão, sequer, a tentar entrar. De resto, na América, por exemplo, está tudo a correr muito bem. A economia está a crescer a um bom ritmo e a administração Trump fez mais pelo país, nos últimos dois anos, do que praticamente todas as outras administrações anteriores, pese embora o facto de Melania ainda ser a maior vítima de bullying do mundo, e não sei qual das duas “constatações” tem mais piada, porque, convenhamos, o humor também faz falta, embora, parece que em alguns países é tão ilegal como algumas pessoas, mas adiante.

        Os brasileiros vão eleger Bolsonaro porque já não suportam o PT e a sua corrupção. Afinal, sempre é melhor um F-A-S-C-I-S-T-A para arrumar a casa e eliminar os corruptos, do que outro democrata possivelmente viciado. Nem sequer faz falta vir o diabo escolher. Até porque os moderados e democratabilíssimos checs-and-balances que o Brasil não tem irão acabar por refrear os piores instintos do capitão Jair, tal como os que, sim, existem (ou existiam) nos EUA (não!) serão suficientes para impedir nova eleição de Trump, em 2020; não esquecer que, com jeitinho, o homem ainda acaba prémio Nobel da Paz.

          Enfim, os problemas são o que são e, pelos vistos, a democracia deixou de servir como solução. Churchill estaria certo se não tivesse (ab)usado da chalaça: na actualidade, parece não haver pior forma de governo.

        Eu, como cidadã do mais impoluto e legal que há, penso até se não seria melhor voltarmos todos ao olho-por-olho-dente-por-dente: cortar a mão ao ladrão, apedrejar os adúlteros, castrar os violadores, enfim, garantir o descanso imaculado e sem sobressaltos das sociedades limpas e pagadoras de impostos…isso é que era!

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publicado às 11:08

Fake you!

por naomedeemouvidos, em 16.07.18

 Donald Trump voltou a ser Donald Trump. Depois das histéricas ameaças à NATO, depois dos insultos mais ou menos velados a Theresa May, depois dos disse-e-não-disse travestidos de fake news – tão caras ao próprio – o presidente dos EUA destratou, com pompa e circunstância, a rainha Isabel II.

Pessoalmente, não me incomoda muito que um homem rude, malcriado e estilo arruaceiro de esquina mal frequentada atropele protocolos monárquicos e, pelo meio, sua alteza a rainha-mãe. Não tenho qualquer afinidade com a monarquia, em nenhuma das suas vertentes. Mas, choca-me profundamente que um brutamontes desrespeite, ostensivamente e para o mundo inteiro ver, uma senhora de 92 anos e, ainda mais, sendo seu convidado.    

No entretanto, Donald Trump anunciou que será candidato a um segundo mandato como presidente da América, porque não vislumbra nenhum democrata capaz de lhe fazer frente. É natural. É sempre difícil argumentar com lunáticos. Mais ainda, com lunáticos que são, ao mesmo tempo, mentirosos compulsivos e candidatos brilhantes ao prémio de melhor bully do ano. Se fiquei absolutamente pasmada com a primeira eleição deste homem, já não me espantaria que voltasse a arrebatar a presidência dos EUA. Afinal, muitas são as críticas que lhe tecem, mas, a verdade é que o estilo vai colhendo frutos…

 

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publicado às 14:09

Demasiado, para um dia só!

por naomedeemouvidos, em 02.10.17

Carles Puigdemont montou, inteligentemente, a ardilosa armadilha. Mariano Rajoy, trôpega e ingenuamente, caiu. A grande questão é: e agora? De facto, a arte e a responsabilidade de gerir um país não é, de facto, para qualquer um...

 

Passos Coelho é, hoje, um homem violentamente derrotado. Apostado num "diabo" que não chegava (e não chegou, a não ser a ele) e sem nunca ter conseguido digerir o afastamento do renovado cargo de primeiro-ministro pela habilidosa geringonça de António Costa e companhia, fez o PSD refém da sua amargura. Os resultados estão à vista.

 

Isaltino Morais deve estar a rir a bandeiras despregadas. Se eu fosse eleitor por Oeiras, hoje não sairia de casa com vergonha de que me confundissem com um dos seus apoiantes.

 

Nos EUA de Donal Trump, a demência prossegue em directo e em catadupa. Nem é preciso provocar a Coreia do Norte: o "homenzinho do foguete" tem muitos "amigos" armados e explosivos, mais neuróticos do que ele, dispostos, também a matar sem dó nem piedade. Desta vez, foi em Las Vegas...

 

Há dias em que é preciso fazer um esforço enorme para não sucumbir à escuridão...

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publicado às 13:24



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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