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Discutir a eutanásia, mas a sério!

por naomedeemouvidos, em 20.04.18

Eu thanatos, a morte sem sofrimento. Aparentemente, a expressão grega não teria nada que ver com a ideia que temos, actualmente, da palavra eutanásia e, menos ainda, com a discussão (às vezes, irracional) que opõe os “defensores da vida” aos “defendores da morte”. A primeira, à data, referir-se-ia a uma morte tranquila, sem sofrimento, de facto, mas natural. A segunda, nos dias de hoje, está praticamente reduzida à acção de ajudar a alguém a morrer, igualmente sem sofrimento, mas de forma não natural.

O tema, como qualquer tema importante, é legitimamente controverso, consensualmente discutível e, infelizmente, muitas vezes, levianamente debatido.

No último (e recente) Prós e Contras que a RTP promoveu sobre a eutanásia, um enfermeiro presente na plateia usou como termo de comparação para o diferente entendimento que (felizmente) todos temos acerca do sofrimento aquele de que podemos padecer porque o nosso "clube perdeu". Por aqui se vê onde pode chegar o absurdo da argumentação para a defesa incondicional da “vida”. É possível que o senhor se tenha arrependido do que disse assim que terminou a frase, mas, vamos ser sérios?

É absolutamente inquestionável o direito que outro tem de acreditar que, em momento nenhum, se justifica provocar, intencionalmente, a morte a alguém. Haverá sempre quem defenda o não auxílio à morte induzida de outro ser humano, seja qual for a circunstância. Tenho o maior respeito pelos médicos e outros profissionais de saúde que se recusam a facilitar a morte extemporânea de um doente. É, para esses, um dever, deontológico ou de consciência, tanto faz, do qual não querem abdicar. Ainda bem. Nada pior do que sermos obrigados a pensar por cabeça alheia.

A discussão parece, no entanto, resvalar demasiadas vezes para o absurdo.

Vamos chamar as coisas pelos nomes. Estamos a falar de morte, sim. Mas estamos, também, a falar de mais do que matar alguém; porque esse alguém já não vive. Nem sequer sobrevive.

Vamos deixar de discutir o direito de uns e começar a defender o direito de todos? Não estamos a falar de um extermínio em massa de todos os “inadaptados” da sociedade, como muitos querem fazer crer. Não se trata de eliminar os nossos velhos ou os nossos doentes, como se fossem material descartável. Tão-pouco, de erradicar vidas “inconvenientes” com a facilidade com que nos livramos de um vendedor porta-a-porta. Estamos a falar de terminar, sim, com o sofrimento atroz, desnecessário, que diminui o ser humano na sua dimensão de vida, precisamente. Privando-o de dignidade, sim! Que dignidade pode ter alguém que tem que passar a usar uma fralda? Onde está a dignidade de alguém que já só pode ser alimentado por uma sonda? Que dignidade nos resta quando dependemos de outrem para satisfazer as nossas necessidades mais básicas?

Há doenças que há muito mataram o corpo que habitam, mesmo que esse corpo ainda “viva”. Não se diga que cuidar, com toda a dedicação, amor e carinho, de um doente terminal é suficiente para que ele não sofra. Não é! Todos os que já assistimos, imponentes e horrorizados, ao definhar de um ente querido, sabemos como o sofrimento é avassalador. Para o doente, em primeiro lugar, obviamente. E para os seus, evidentemente. E, não, não é por comodismo, porque é uma “maçada” não poder sair para jantar, quanto mais ir de férias. É porque sofremos com ele. Porque o vemos em permanente agonia, que se agrava de dia para dia, hoje menos capaz do que ontem, uma degradação acelerada, alucinante, estúpida e sem marcha-atrás.

A eutanásia é mais do que matar alguém. É respeitar a vida na sua plenitude. Que não se obrigue médico algum a facilitar a morte de alguém. Mas que não se condene nem julgue os que estão dispostos a ajudar um doente terminal a “morrer bem”.

 

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publicado às 14:03

A vida é para ser vivida. É, não é?

por naomedeemouvidos, em 19.04.18

A princípio, eram coisas menores. Uma pequena tarefa, sem importância, que ficava a meio, o escritório numa desarrumação pouco habitual para uma mente metódica, um colarinho desalinhado para um homem que sempre cultivara uma imagem impecável, um desconcertante desvio na estrada num caminho que se conheceu e se percorreu toda a vida.

As irritações passaram de pontuais a permanentes, os conflitos intensificaram-se. Já não era apenas uma maçã oxidada, em agonia, esquecida na beira do prato; uma luz que permanecia acesa, viva, fora de horas, um cordão de sapato desapertado em contraste com o elegante chinelo de quarto, prontos, ambos, a passar a porta; agora, era um carro capotado na estrada, um milagre de vidas salvas e o silêncio ensurdecedor, perturbado, para dar lugar ao choro da criança, denunciador, como um murro no estômago, a suspeita violentamente escancarada.

Da inquietante presunção ao diagnóstico, foi pouco mais que um gemido. Um gemido que, com o passar dos dias, ganhou forma, agigantou-se, varreu todos os sonhos com a violência de uma onda furiosa e inclemente. Ainda assim, a esperança irrompia como um acto de rebeldia. Talvez os tratamentos funcionassem, talvez um medicamento chegasse a tempo, talvez houvesse um milagre. Mas o monstro voraz, o pior e mais agressivo, de todos o mais implacável, depressa se encarregou de dissipar as dúvidas e enterrar todas as ilusões. Operar, impossível. Da descoordenação à mobilidade assistida e dependente, do aprumo ao descontrolo, da contemplação à escuridão mais sombria, uma debandada estridente de sentidos a anunciar o mais temível e degradante dos fins. Apenas aquela lágrima, teimosa, como um derradeiro grito de resistência, um clarão fugaz de clarividência em horrendo contraste com aquele amontoado de pele e osso, outrora transbordante de vida e alegria.

Vendo bem, a esta distância, a morte não se fez esperar muito. E, mesmo assim, foi demasiado. Porque se fez suplicada, a ferro e fogo, num sofrimento diário, constante e atroz. Apesar de todo o carinho, cuidado e amor. Todo o dia. Todos os dias.

A vida é para ser vivida, gritam muitos. Não posso estar mais de acordo. E o que é uma “vida” a “ser vivida”, exactamente?

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publicado às 17:00



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

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