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Portugal não é racista, pois...é?

por naomedeemouvidos, em 29.01.19

   

"Nem sinais de negro,

nem vestígios de ódio.

Água (quase tudo)

e cloreto de sódio."

Em "Lágrima de Preta", António Gedeão

 

    Há uns tempos, acabava de fazer as compras da semana e encaminhava-me para o carro, empurrando o carrinho de compras, à conversa com o meu filho, como acontece frequentemente. Ambos falamos “pelos cotovelos”, como se diz. Como de tantas outras vezes, cruzámo-nos com os funcionários que se encarregam de recolher os carrinhos de compras para os recolocar nos devidos lugares, para serviço e conforto de quem os utiliza. Mas, ao contrário de outros dias, naquele, o meu filho sossegou a conversa que trazia e perguntou-me, “mamã, porque é que os senhores que arrumam os carrinhos são todos negros?”

    A pergunta sobre se Portugal é ou não é um país racista é recorrente, não está esgotada, muito menos, desactualizada, e não parece de fácil resposta. Basta ver os textos que já se escreveram sob esse título, desde os confrontos no bairro da Jamaica, que, suponho, a maioria dos portugueses nem sabia onde ficava, o que era e como era. Eu cresci num bairro social. Vivi lá mais de metade da minha vida. Comparado com o da Jamaica (parece que é ilegal e, esse, é outro problema) o meu bairro é um condomínio de luxo. Ao contrário do que pensam muitos dos que não conhecem a vida nos bairros sociais, a gente de bairro não é uma amálgama de ignorância, preguiçosa, contagiosa, mal-criadona, que vive à custa de rendimentos sociais e outros apêndices que tais. Também não vale a pena explicar muito o que é ser gente de bairro, pelo simples motivo que não merecem o tempo que se perde com isso aqueles que já formaram o seu juízo. O preconceito não se esgota no tom de pele.

    Mas, Portugal é ou não é um país racista? Não sei responder. Suponho que se olharmos para outros, a resposta será um rotundo e inquestionável não! Se olharmos para aqueles que arrumam carrinhos de compras, limpam escadas e apartamentos chiques, ou menos chiques, para a evidente ausência (porque o número é residual) de negros (porque, maioritariamente, desses se fala por estes dias) em tudo o que são profissões mais visíveis, como jornalistas, professores, funcionários bancários, médicos, políticos, etc, etc, etc, é possível que a resposta não possa deixar de ser sim, se calhar, somos um país racista.

    É importante, no entanto, não confundir o que é, ou devia ser, inconfundível. Não comparar o incomparável. Caiu-se no histerismo acéfalo habitual – a que não consigo habituar-me. Se gritássemos menos e falássemos mais, conversássemos mais, nos ouvíssemos mais, ganhávamos todos mais. Muito mais. Vamos classificar como racismo toda a acção que se tome contra um negro? Porque é negro? Um polícia que abusa da sua autoridade contra um branco é violento. Um polícia que abusa da sua autoridade contra um negro é violento e racista. É isso? E uma jornalista que pergunta a uma rapariga negra, com quem conversa em português fluente, numa manifestação em Portugal, onde a rapariga vive, “a menina é portuguesa”, é só estúpida? A mim, é capaz de me parecer mais racista do que o brutamontes do polícia.

    É verdade que muitos dos que se dizem vítimas de racismo não têm qualquer interesse em deixar cair o estatuto. A cretinice não tem cor ou credo, tem sentido de oportunidade. Veja-se o nosso oprimidíssimo primeiro-ministro.

    Não sou racista, mas…não sei se houve racismo no bairro da Jamaica. Estou convencida de que houve violência policial. É-me indiferente se os polícias foram recebidos à pedrada. Os agentes de segurança são treinados para suportar afrontas e tentativas de humilhação e confronto. Foi assim, aliás, que aguentaram a manifestação de 14 de Novembro de 2012: duas horas, mais coisa menos coisa, impávidos e mais ou menos serenos a serem agredidos com pedras arrancadas da calçada. Quando, finalmente, reagiram, também foram criticados, é verdade. O que só vem reforçar a necessidade de não tratar coisas sérias de forma leviana e estridente.

    Não sou racista, mas…sei que há racismo, do mais reles e sabujo, quando alguns – inclusive, polícias – enchem páginas desse maravilhoso mundo que dá pelo nome de redes sociais com insultos racistas, destilando ódio contra a diferença, muitas vezes, impunemente e sempre, mas sempre!, de forma cobarde e infame. E pobre. Daquela pobreza que enoja e que, quando existe, não é exclusiva nem da cor, nem dos bairros sociais.

 

    Entretanto, vou tentando explicar ao meu filho, a cada dia, o melhor que posso e que sei, por que é que são negros todos os que arrumam carrinhos de supermercado.

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publicado às 11:48

    A utilização de redes sociais deveria vir acompanhada de um aviso do género: o uso não ponderado pode provocar acessos de cretinice aguda, eventualmente, crónica. Por exemplo. E com bolinha vermelha, a piscar, frenética, num canto qualquer do écran. Podia ser que, assim, se evitasse que pessoas que ocupam cargos de responsabilidade se portassem como imbecis, para usar uma linguagem simpática.

    Os últimos dias foram férteis em imbecilidades. Mais do que o normal. Do tipo das que não ajudam nada à resolução dos problemas mais sérios e mais graves que as despoletam. Pelo contrário. Na sequência de um episódio dramático de confronto entre polícias e moradores – cujos contornos devem continuar a discutir-se – de um bairro social de condições tão miseráveis que nos envergonha a todos (ou deveria), alguns interventores da vida política não souberam estar à altura dos cargos que exercem (tem acontecido bastante). Preferiram o insulto, o abuso despudorado e hipócrita e a chalaça rasteira e brejeira.

    O primeiro foi Mamadou Ba. Num acesso de indignação, eventualmente, sentida e justa, o assessor do Bloco de Esquerda usou do insulto para se referir a agentes da polícia, a quem chamou bosta da bófia. Admite-se que não se referia a todos, à classe, o que seja. O direito à crítica, à indignação, à revolta, não é livre-trânsito para a prática da injúria que se não admite ao outro. Não se trata de dar a outra face, como um santo de pés de barro. Trata-se de não perder o poder, irrepreensível, de criticar e exigir.

    A seguir, agentes da PSP, daqueles que envergonham a farda, encheram páginas no Facebook com mensagens de ódio e ameaças, apostados em "meter na linha" esses "vermes" e "javardas", "porcos", que deviam era levar um "tiro no centro da testa".

    Depois, António Costa. É verdade, aqui não foi numa rede social. Foi na Assembleia da República, o que ainda é mais grave. O primeiro-ministro perdeu (mais uma vez) as estribeiras com Assunção Cristas, que tem o dom de retirar, àquele homem, qualquer réstia de ponderação e bom-senso. Resolveu, por isso, o primeiro-ministro, usar o truque da cor da pele, pasme-se!, para se insurgir contra a pergunta da sua interlocutora sobre se condenava ou não os incidentes no Bairro da Jamaica. Uma espécie de momento Serena Williams (como o classificou Ricardo Araújo Pereira no seu novo programa de televisão, embora eu própria já o tivesse pensado, até porque bastante fácil), completamente despropositado e bastante absurdo. Indecoroso.

    Finalmente, last but not least, de todo, tal é o despautério, João Moura, deputado do PSD, resolveu usar da graçola para criticar o pedido de protecção policial por parte de Mamadou Ba. Por considerar, provavelmente, incoerente que alguém que destratou a polícia venha, agora, solicitar-lhe abrigo, João Moura teve um momento de exaltação poética e resolveu dedicar a Mamadou Ba um post à altura da epifania: “Ó Mamadou e se fosses ba(rdamerda)!”. Que elegância, não haja dúvidas. Para não falar da inteligência que se impõe sempre, e expressivamente, nestas circunstâncias. Posteriormente, João Moura apagou a piada, como, também, é costume fazerem os castos.

 

    Uma última nota. Mamadou Ba foi imprudente, imbecil e até injusto, porque, acredito, a maioria dos nossos agentes de segurança são gente competente e justa. Nada justifica que dois energúmenos o tenham seguido, intimidado e filmado o acto idiota, para gáudio dos da sua laia.

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publicado às 07:30

O bairro da Jamaica.

por naomedeemouvidos, em 24.01.19

Jamaica.PNG

 

   

    Não foram os confrontos, a primeira coisa que me chamou a atenção nas imagens. Foi o retrato brutal da degradação do bairro e as condições miseráveis em que, às portas de Lisboa, vive gente. Lembrou-me algumas zonas do Marrocos mais pobre e mais sombrio que vi, pela primeira vez, há vinte anos. Os mesmos prédios inacabados, mortos-vivos, esventrados, as parabólicas moribundas e, ainda assim, em violento contraste com a indecorosa pobreza, a escorrerem pelas paredes, o lixo amontoado, o entulho, mobílias esventradas lado-a-lado com carrinhos de bebé, um emaranhado caótico de fios e tubos…como é possível?

    Não serei a única a não saber exactamente o que, por estes dias, aconteceu no bairro da Jamaica (quase podia ser nome para outra melodia). Mas, nem todos os negros são delinquentes, nem todos os polícias são bófias e, muito menos, de merda, para usar uma linguagem erudita e digna e não ficar atrás de alguns daqueles a quem se chama assessores parlamentares. Dito isto, há escumalha que tresanda em ambas as partes, de todas as cores.

    Para não fugir ao cliché, comportamento gera comportamento, violência, mais violência e há quem não olhe a palavras para engordar indignações; virulentas, também. O acesso às redes sociais, com direito a instantâneos e a achaques em directo, devia estar vedado àqueles que, sendo totalmente irresponsáveis, ocupam cargos que exigem, senão inteligência, pelo menos, alguma ponderação e bom senso.

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publicado às 08:30



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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