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Há um porco à solta em Bruxelas.

por naomedeemouvidos, em 12.02.19

A capital.PNG

aqui

 

    “Um porco passeia por Bruxelas e é o fim da Europa como a conhecemos”.

    O porco, sim, percorre, sobressaltado, as ruas de Bruxelas, perante o ar de espanto dos transeuntes, e é o início do romance (mais ou menos) “A Capital”, de Robert Menasse. E o Eça é capaz de lhe perdoar.

    Comecei a ler o livro ontem e, por falta de tempo, ainda não passei da página 70. Mas, li a entrevista com o título que usurpei, descaradamente, para a primeira frase deste texto e uma ou outra crítica mais antiga, uma vez que o livro ganhou o Prémio Alemão do Livro de 2017. Claro que não vou fazer qualquer análise ou crítica à obra; nem agora, que o não li ainda, nem quando acabar, até porque não percebo da arte. Um livro é um livro, um autor é um autor e cada um é tocado de formas diferentes, indiferentes, subtis ou esmagadoras, perante as mesmas letras impressas, mesmo que as páginas pareçam imutáveis. Fiquei, apenas, curiosa pela inusitada abordagem do escritor na forma como se propõe olhar para o que, na sua opinião é um fracasso anunciado: “a UE não pode funcionar no seu objectivo de união”, pois “Uma união onde um país tem mais poder do que outro país não é uma união real, verdadeira”. Pelo menos, “da maneira como as instituições estão organizadas.”

    Parece que os porcos dão boas metáforas, embora, de momento, eu ainda saiba quase nada acerca do triunfo deste.

 

    A verdade é que a Europa parece ter perdido o rumo (será que o teve, alguma vez?). Um gigante navio em alto-mar que deixou de ter mão no leme. É a Jangada de Pedra de Saramago estilhaçada, multiplicada, uma Joana Carda a cada esquina, mais a sua vara de negrilho, o risco agoirento no chão, mas, desta vez, sem mancha de culpa. O sempre pode não durar para sempre, mas, o que tem de ser, tem de ser e, às vezes, os olhos de um pessimista, como o mundo, estão cheios de coincidências. Já não é só a ibérica península que se desagrega, é um continente inteiro à deriva e, nele, a desunião crescente que mina o entendimento entre os seus povos, um novelo de lã azul, medonho e ameaçador, que não termina de se desfazer.

 

    Aproximam-se as eleições europeias. Os cidadãos querem, exigem, ser ouvidos. Enquanto as elites foram ignorando, com odiosa soberba, esse povo que dizem representar, mas de quem têm algum incontido asco, outros aguardaram com paciência, dando colo aos infortúnios, acicatando o fastio, à espera do melhor momento para soltar os demónios e vergar as raivas à sua vontade e propósito. Brotaram os demagogos. Ergueram-se os nacionalistas. Acordaram os fascistas que, dizem, não se podem chamar assim, é preciso não abusar das palavras. É o que dizem. E, enquanto nos preocupamos em rebaptizar o que está à vista de todos, o descontentamento grassa, as exigências tornam-se cada vez mais audíveis e agressivas, o cansaço estraçalhou a boa vontade dos que ainda resistem e acreditam e, aproveitando as fraquezas – como o fazem sempre os cretinos – os ódios soltaram-se dos esquálidos e fedorentos armários, trazendo para as ruas o pior de que somos capazes quando nos sentimos ameaçados. Resta saber se a Europa vai resisitir.

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publicado às 10:19

Leio, logo, existo (e nunca estou sozinha).

por naomedeemouvidos, em 10.01.19

    Há cerca de um mês ou dois, fui buscar o meu filho à escola, numa rotina normal. Vinha de um teste de português e, assim que entrou no carro, disse-me “adivinha lá, se não estivesses sempre a dizer que, com livros, nunca estamos sozinhos, não tinha conseguido completar as cento e (qualquer coisa) palavras do texto de opinião”.

    Acho que já o escrevi por aqui. E também já escrevi que obrigo o miúdo a ler. Dizem que não é assim que se faz. As crianças não devem ser obrigadas a coisa nenhuma, muito menos, a ler. No meu tempo (valha-me Deus…), os meus pais não nos obrigavam a ler, a mim, ou à minha irmã. Enchiam-nos as estantes de livros, na sala e no quarto. Eles liam e nós também líamos. Mas, nesse tal tempo, as distracções não abundavam. Não havia telemóvel (qual telemóvel, até me lembro de não ter telefone, nem televisão…), nem ipad, nem PS-não-sei-quê, nem horas intermináveis de televisão com mais canais do que aqueles que temos paciência para ver. De modo que, líamos. E conversávamos.

    Em geral, o meu filho gosta de ler. Sempre gostou de livros, dos que serviam para ler no banho, em bebé, dos que emitiam sons, dos tridimensionais, dos que contavam histórias sozinhos, enfim, os livros sempre estiveram (e estão) presentes nas suas rotinas, mas, tendem a perder terreno para a concorrência, audaz, feroz e altamente competente; os jogos electrónicos são, quase diabolicamente, atractivos, e não só para os miúdos. Se o deixasse, acho que era capaz de jogar um dia inteiro. Mas, se o deixasse, raramente ajudaria a levantar a mesa ou a fazer a cama. Se o obrigo a lavar os dentes, a arrumar a secretária e a trocar a toalha de banho, que ele ainda julga que se muda sozinha, também o posso obrigar a ler. Faz parte do que se chama educar. Se tem tempo para poder jogar playstation, por maioria de razão e necessidade, há-de poder arranjar tempo para ler. Não há educação sem livros e a educação pelo exemplo já não é, temo, suficiente, num tempo em que os miúdos o passam mais longe de nós do que connosco, mesmo que façamos muito mais do que o possível para que a qualidade supere a quantidade.

    Vem isto a propósito de livros, mas não só. Porque ler, é mais do que nunca estar sozinho. E, mesmo que fosse só isso, acho que seria suficiente.

    Um estudo da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência veio, agora, divulgar que “os alunos que escolhem cursos do ensino superior da área da Educação e esperam, portanto, vir a ser professores, estão entre os que têm pior desempenho a Português”. É capaz de não ser preocupante. A não ser, quando nos apercebemos dos erros constantes e cada vez mais comuns entre aqueles que têm, por obrigação, pelo menos, profissional, escrever bem, comunicar bem. Já não é raro ver legendas de filmes com erros ortográficos de palmatória, ou rodapés de noticiários televisivos com hífens a apunhalar terminações verbais elevadas, contra vontade própria, à categoria de pronomes. Escreve-se de ouvido, mas de ouvidos moucos. Por que há-de um professor de matemática, ou de física e química, saber falar e escrever bom português, não é? Afinal, a matemática, por si só, já é complicada que chegue. A não ser que o problema da matemática, ou da física e química, (também) seja o português, aquele maldito diabo que se esconde nos mais inusitados detalhes.

    Se calhar, não nos faz falta ler “Os Maias”, mas, se, ao menos, nos obrigássemos a ler mais do que as mensagens do Whatsapp…

    Por imperativos programáticos, escolares, o meu filho acabou de ler a “A Odisseia de Homero, adaptada para jovens”, de Frederico Lourenço. Tomou-lhe parte do tempo de férias de Natal, tempo esse de que não pôde dispor para experimentar um novo jogo, com que andava a sonhar há vários meses. Achou uma seca. Pois. Como é que se diz? Temos pena…há males maiores. E adoro o meu filho.

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publicado às 12:37

"Adivinha lá...

por naomedeemouvidos, em 16.11.18

...se não me estivesses sempre a dizer que, com livros, nunca estamos sozinhos, não tinha conseguido completar as 180 palavras do texto de opinião!"

                                                      O meu filho, à saída do último teste de português. Moral da história: às vezes, ser chata compensa.

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publicado às 14:11



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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