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Retratos Sociais.

por naomedeemouvidos, em 31.05.19

Uma viagem tão trivial quanto necessária. Por exemplo, de avião. De regresso a casa, com muitas horas de sono perdidas a troco de trabalho ou lazer, entre escalas apertadas, algo atordoados entre diferentes fusos horários e o cansaço acumulado de vários dias fora da rotina normal. Que bom, sentarmo-nos, por fim, numa cadeira, mesmo de um lugar de avião, e relaxar um pouco. Quem sabe, dormitar, para quem tem a sorte de se deixar sossegar, ainda que viajando em classe turística.

Subitamente, entre um abrir e fechar de olhos mal amestrado, enquanto nos ajustamos na cadeira com impaciente esforço, procurando a dignidade escusada da posição menos desconfortável, esbarramos, atabalhoadamente, com a nossa imagem sequestrada no pequeno écran do telemóvel do miúdo de 11 ou 12 anos sentado no lugar ao lado do nosso.

 

Foi mais ou menos isto que aconteceu, recentemente, a uma amiga minha. No regresso a casa, durante uma viagem de avião reparou, por acaso, que o menino que viajava no lugar ao lado a fotografara – sem o seu consentimento, evidentemente – enquanto ela dormitava um pouco. Pediu-lhe que apagasse a imagem. Depois, foi falar com a mãe da criança, que, naquele dia, num vôo lotado, não viajava perto do filho.

 

Num mundo cada vez mais dominado pela imagem – e pela exploração dessa imagem nas redes sociais para fins vários, nem sempre, inocentes – é difícil encontrar o equilíbrio entre o direito a captar momentos únicos, eventualmente, irrepetíveis, que queremos preservar para além da nossa memória, e o direito que temos a não nos vermos expostos numa qualquer conta de Instagram, de alguém que não conhecemos, sabe-se lá com que intenção. O recíproco também se aplica. E, na verdade, é difícil fazermos fotografias sem captar, ainda que acidentalmente, a imagem de um qualquer desconhecido que não nos autorizou a fazê-lo. Os mais conscientes dessa pequena(?) violação de privacidade limitam, com algum decoro, a exibição desses retratos pessoais. Outros, acabam por promover a partilha mais ou menos exaustiva desses adorados (não necessariamente adoráveis) instantes, sem pensar demasiado nas consequências – por descuido, por piada mal ou bem-intencionada, por desconhecimento – ou, pelo contrário, com base num objectivo bem definido, por vezes, escandalosamente pérfido e com resultados tenebrosos. Foi assim, por (desgraçado) exemplo, que, em Novembro do ano passado, dois homens inocentes foram linchados por populares, no México. Alguém decidiu que eram eles os responsáveis pelo desaparecimento (que nem chegou a ser confirmado) de várias crianças e a notícia da sua “captura” rapidamente se espalhou pelas redes sociais, com apelos à justiça célere e por vontades próprias. Nem os comunicados da polícia isentando os homens, tio e sobrinho, da suspeita de que eram alvo foi suficiente para serenar a fúria justiceira da matilha de influencers. Foram queimados vivos por uma turba ululante e paranóica, entre aplausos, likes e emojis.

 

No último sábado, uma mulher espanhola suicidou-se. Aparentemente, não foi capaz de suportar ver-se exibida, entre os seus colegas de trabalho, num vídeo de teor sexual gravado há cerca de cinco anos (anterior ao casamento actual) e de que o marido também acabou por tomar conhecimento. Não é claro se foi a própria quem divulgou o vídeo, ou alguém por ela; nomeadamente, um ex-companheiro. Não será relevante, para o que veio a seguir-se.

O dramático é a facilidade com que a nossa intimidade se nos escapa, com ou sem culpa, com ou sem pesar de consciências e consequências, a troco não se sabe bem de quê. Imagina-se. E, no entanto, cada caso é um caso. Ser insipidamente normal, deixou de ser suficiente. A anormalidade trapaceira de Anna Sorokin valer-lhe-á uma séria da Netflix e outra da HBO. Talvez venha a ser, enfim, a milionária que encarnou durante os meses que viveu de crédulos e créditos alheios que atraiu e alimentou com a aura de glamour derramada pelas redes sociais. Ninguém gosta de ser defraudado por um – uma, no caso – pelintra andrajoso e pestilento, tresandando a miséria à distância. Mas, um (uma) vigarista é um vigarista apenas se não souber vestir-se com irrepreensível estampa, de Saint Laurent para cima; ou por qualquer lado, incluindo, lá pelos do tribunal, por onde Anna não gosta de aparecer com qualquer trapo. Há uma reputação fingida que é preciso manter a qualquer custo, que alguém não se importará de suportar pela própria.

 

Os exemplos multiplicam-se. Banalizam-se.

A mãe do menino pediu desculpa. E o menino, provavelmente, nem percebeu bem porquê. Afinal, era só uma fotografia. Pelo menos, que se tenha dado conta...

 

Quando mando o meu filho desligar os "entreténs tecnológicos" - porque está na hora, ou porque não é a hora -, às vezes, ele resmunga um "mamã, se tivesses nascido neste tempo, ias perceber...". Imagino que seja o equivalente  moderno ao "no meu tempo..." e perdoo-lhe a impertinência. E, então, peço-lhe que me explique. Ouço o que me diz; ouço o que não me diz, atenta ao mais pequeno sinal de alarme, enquanto me esforço por tentar perceber se a mensagem passa em ambos os sentidos. Mas, esforço-me, sobretudo, por lhe mostrar o lado bom e o lado mau das redes sociais e por deixar claro que, online, um pequeno erro, uma brincadeira parva, pode assumir proporções inimagináveis e engolir-nos com implacável indiferença. Espero que ele me dê ouvidos.

 

 

publicado às 11:00

“The world is a very dangerous place!”

por naomedeemouvidos, em 21.11.18

    Deve ser difícil manter uma conversa séria com Donald Trump. Pelo menos, no que diz respeito a garantir uma presidência funcional de um país que se quer grande. Excepto no que toca a conversas de balneário ou negócios mais ou menos obscuros (aí, o homem agarra quem quer que seja, por onde quer que seja, ao estilo do que por cá chamaríamos um pato-bravo), o vocabulário do presidente dos EUA está ao nível de uma criança que ainda não completou o primeiro ciclo escolar. Tem uma mão cheia de adjectivos que oscilam entre o bom, óptimo, mau, de vez em quando, um erudito perverso, eventualmente, apimentados com um eloquente muito e que servem para tudo, do clima às pessoas, dos ataques terroristas aos dantescos incêndios na Califórnia. As pessoas são boas, às vezes são mesmo great, ou, quando más, podem chegar a bad, bad people, a repetição elevando e enfatizando o grau de maldade do indivíduo.

    O senhor presidente tem uma opinião forte acerca das alterações climáticas. Graças a um tio que, no caso, era mais do que great, era mesmo um brilliant genius – que a família tem bons genes, basta olhar para a Ivanka – e com quem também discutia questões nucleares all the time. Pela força, da opinião, o presidente quer e terá um evidentemente great clima para os EUA. Enquanto o bom clima não chega, os americanos vão aprender a prevenir incêndios com os finlandeses, que sabem o que fazem e têm bons solos. Também se requer bons solos. E ancinhos. Mas Trump está habituado a ter o que quer e, além disso, já falou com o presidente da Finlândia, alternativamente sobre este ou outros temas, é indiferente; o que conta é a intenção.

    Noutro (perigoso) desvario caseiro, o presidente norte-americano recusou ouvir a gravação áudio do assassinato de Jamal Khashoggi. Já classificou o acto como perverso e como muito más as pessoas que o cometeram. Não quer ouvi-la e acha que não há razão nenhuma para que a ouça. Eu acho que é capaz de haver para cima de 100 mil milhões de razões para não alarmar o excelentíssimo príncipe da Arábia Saudita e Trump, ao contrário de uns quantos hipócritas, não tem pudor em lembrá-lo repetidamente. Afinal, a venda de armas é um excelente negócio, gera muitos, muitos empregos; a lot. Além disso, as pessoas têm direito a defender-se de ameaças, como se vê, semana sim, semana não, nos EUA. Esta semana foi em Chicago. Quando os professores americanos andarem armados, acabam-se os massacres. Como é que ninguém se tinha lembrado disso antes? E quando for o Jair a mandar, pode ser que todos os problemas da humanidade desapareçam por artes bélicas, pois teremos conseguido exterminar todos os maus da face da Terra; jamais os franceses voltarão a correr o risco de aprender alemão.

    Entretanto, há milhares de refugiados às portas do EUA na fronteira com o México. Uma caravana, várias caravanas, amálgamas de sonhos desesperados, de esperanças indomáveis, voluntariosas, fazendo das fraquezas individuais uma força resistente que renasce, como uma fénix, das cinzas que tentam e teimam em deixar para trás. Trump não os quer há muito, o México não tem como continuar a querê-los e nós vamos suspirando com envergonhado e cobarde alívio, porque não chegou à nossa porta. Ainda. Como será, quando chegar? O que fazer entre a obrigação moral de ajudar quem precisa e a frustrante incapacidade de chegar a todos? E se, por um acaso do destino, a caravana nos transportasse a nós?

publicado às 09:17



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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