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Privações

por naomedeemouvidos, em 20.05.19

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imagem aqui

 

"Jejuareis determinados dias; porém, quem de vós não cumprir jejum, por achar-se enfermo ou em viagem, jejuará, depois, o mesmo número de dias. Mas quem, só à custa de muito sacrifício consegue cumpri-lo, vier a quebrá-lo, redimir-se-á alimentando um necessitado;"

 

Era o fim do jejum. Naquele ano, o mês de Ramadão coincidira com o pico de Verão. Nos lugares públicos, sempre evitara desrespeitar o costume, embora tal costume nunca lhe tivesse sido imposto. Pelo contrário. Nas cidades, com raras excepções, os bares, padarias, restaurantes funcionavam no horário normal, e os estrangeiros, turistas ou não, não estavam obrigados a qualquer privação. Eventualmente, evitariam comer ou beber na rua. Um dia, ainda uma recém-chegada distraída e estouvada, cedeu à gula e comeu um pedaço de pão acabado de cozer, mesmo à saída da padaria habitual. Um homem repreendeu-a, fazendo-a sentir-se como uma miúda apanhada desprevenida a meio de uma travessura.

 

Mas, naquele ano, naquele dia, o calor era quase insuportável. Nunca soube como aguentavam. Não beber. Sobretudo, não beber, do nascer ao pôr-do-sol, no meio de um calor abrasador. Paciência e benevolência, diziam. E a consciência da superação. 

 

Encaminharam-se para o comboio que os levaria a Marraquexe. Havia passageiros a embarcar, guiando, pela trela (na verdade, pedaços de corda demasiado gastos, ameaçando romper-se à primeira cisma do bicho), gordos e imprudentes cordeiros que, daí a algumas horas, sacrificarão ao ritual do desjejum que marca o fim do Ramadão.

Tinham pedido dormitórios num dos vagões de primeira classe. Era a primeira viagem num transporte público local, imersos numa realidade estranha, dramaticamente alheia aos seus costumes. Estavam preparados, mais ou menos, mas, ainda assim, para um número limitado de experiências bizarras. 

Chegaram ao número que indicavam os bilhetes. Não havia qualquer dúvida, pernoitariam ali os quatro. Para lá da porta, dois beliches duplos, numa armação mal-amanhada de metal oxidado, mas, aparentemente, robusta. As camas estavam preparadas com lençóis que desejavam (e, na  verdade, pareciam) limpos, apesar do quadro um pouco ameaçador. Sobre cada uma delas, repousava um cobertor fino, demasiado curto e com aspecto bastante mais agreste do que tudo o resto. Foi então que se deram conta de que tudo estava perfeito.

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publicado às 08:30

M, de Marrocos!

por naomedeemouvidos, em 21.07.18

Sempre que me perguntam aonde ir ou o que visitar em Marrocos, nunca hesito. Fez, Fez, Fez!

Não que seja fácil escolher, para uma visita de poucos dias, o melhor postal ilustrado vivo que irá perdurar na nossa memória retratando aquela viagem que levámos, às vezes, anos a planear. Não sei se porque lá vivi mais de dois anos, porque lá tive a minha primeira casa recém-casada, porque Marrocos é um país de violentos contrastes e partilha histórica com Portugal, são várias as cidades encantadas onde nos podemos perder com enorme e avassaladora paixão. Da cisterna portuguesa em El Jadida à praça Djemaa el Fna, em Marraquexe (a praça dos mortos mais viva de que há memória, suponho!), do hipnotizante pôr-do-Sol em Ouarzazate às estonteantes Gorge du Dadès no Atlas, da graciosidade de Asilah à exuberância de Chefchaouen, da quase sobriedade de Rabat à vibrante Essauira, da mundana Casablanca à elegância de Ifrane (e mais, e mais, e mais!), Marrocos tem um sem número de recantos que exaltam os nossos sentidos. Mas, Fez tem qualquer coisa de mágico que se cola à nossa pele. Parece parada no tempo, ao contrário, por exemplo, de Tânger que, em pouco mais de 20 anos, tornou-se numa cidade verdadeiramente cosmopolita.

A primeira vez que visitei Fez foi em 1997. E quantas memórias guardo! Recém-casada, recém-chegada a Tânger, onde eu e o meu marido tivemos a primeira casa, nunca esqueceremos, eu e ele, a visita nocturna à Medina de Fez. A grande Medina. A de El-Bali, com as suas mais de 700 mesquitas. Se o lugar já parece mágico à luz do dia, torna-se irreal ao luar. As portadas das lojas exibindo toda a sua beleza, as ruas e ruelas sinuosas e estreitas por onde os burros, daí a algumas horas, hão-de passar transportando diferentes mercadorias, as sombras que ora se apressam ora se encolhem à nossa passagem, os assobios da brisa morna lambendo as lânguidas esquinas…e, depois, a visão daquele cavalo possante e belo, negro como a noite, que surgiu do nada num momento fugaz de magnífica graciosidade para logo ser levado pelo garboso cavaleiro, como numa tela de cinema.

Fez, com toda a certeza!

Voltámos a Fez em Março último. Já lá tínhamos estado outras vezes, mas ainda não tínhamos o nosso filhote e, eu especialmente, ansiava por levá-lo a Marrocos. Que conhecesse a rua onde morávamos, em Tânger, os amigos que ainda lá temos e, sobretudo, que visse por si próprio que nem todos os árabes e muçulmanos são criminosos e terroristas. Que percebesse que as crianças são crianças e as árabes e muçulmanas não são tão diferentes dele, a não ser por a maior parte ter menos privilégios. Também queria que o meu filho sentisse isso, para que pudesse perceber melhor, dentro da inocência dos seus 11 anos, porque é que tantos meninos como ele perdem a vida no Mediterrâneo. Como estancar essa sangria alienada, se não podemos acudir a todos nem, tão-pouco, entregá-los à morte, dando de ombros como se o drama não fosse, também, nosso?

Há cerca de 20 anos, era impossível mergulhar na Medina de Fez sem um guia. Agora não. Ou melhor. Não necessariamente. Existem percursos numerados e assinalados com cores diferentes que se podem seguir facilmente. Basta ir de nariz no ar, procurando as pequenas placas suspensas nas ruas da Medina. Desta vez, usámos essa opção, até porque o nosso filho se entusiasmou bastante com a hipótese de ser ele a guiar-nos e foi uma experiência bem divertida. No entanto, continuo a achar mais interessante a opção de contratar um guia local. Há cantinhos que só eles, de facto, conhecem e histórias que só eles sabem contar. Sem isso, a experiência fica incompleta, como fica incompleta sem provar a comida marroquina. No restaurante Clock, bem no coração da Medina de Fez, foi divertido ver como um casal jovem, na mesa ao lado, olhava genuinamente incrédulo para a gula do nosso pequenote que se deliciava com um belo prato de cuscuz de galinha e legumes, enquanto eles se contentavam com um vulgar hambúrguer com batatas fritas.

Com um guia físico ou não, há trilhos imperdíveis, como o bairro dos curtidores, que nos guia pelo cheiro, ou o bairro dos latoeiros que nos guia pelo som. Há, aliás, em Fez, experiências para todos os sentidos.

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publicado às 12:02



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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