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Da lei e da (in)justiça.

por naomedeemouvidos, em 29.06.19

“É a coisa mais simples do mundo: a pessoa está a afogar-se e salvamos”.

Imagino que seja a mesma clareza de pensamento, a de Carola Rackete, a jovem capitã do navio de resgate da Sea Watch, que foi detida por ter entrado águas territoriais italianas sem autorização. Pelas “40 pessoas exaustas e que não aguentavam mais”.

O drama que vivem resgatadores (não sei se se diz) – eles dizem que é simples, mas desconfio que não – e resgatados não é, evidentemente, de fácil resolução. Fácil é ser “branca, nascer num país rico e com o passaporte certo”. E há quem não se conforme com tal acaso; são esses os criminosos do mesmo calibre da Carola e do Miguel.

Vejamos, nenhum país, por muito rico, tolerante e outro tanto de adjectivos fofos e humanitários que seja, possuirá uma capacidade ilimitada de acudir à massa de gente desesperada que foge daquilo que os brancos, ricos e bem-nascidos não podem sequer imaginar. Por cretino cinismo dir-se-á é a sorte ou o azar, é a vida, que está longe de ser perfeita, nem sequer justa. Para a justiça, aliás, fazem falta outros atributos. E é quando a justiça falha, ou a legalidade se torna obscena, que surgem – bem-hajam! – aqueles que não suportam continuar sentados, soltando impropérios de indignação pop sem nunca levantar mais do que as sobrancelhas ante a mais vil das ruínas, porque, da humanidade, da falta dela, da total ausência de compaixão pelo outro que, apenas, por absurdo e elementar acaso não sou eu.

É preciso orquestrar, com urgência, uma tentativa de unir esforços para ajudar, de forma eficaz, os países de origem destes homens, mulheres e crianças, destes corpos de trapos, de farrapos exaustos, mal-tratados, esgotados em mais do que uma forma.

Os países pobres, em guerra, subdesenvolvidos, o que seja, não podem servir para que lhes enviemos o lixo que (não) nos convém, lhes exploremos o trabalho que nos permite comprar pechinchas ou luxos consoante a nossa própria insignificância, da roupa à tecnologia mais ou menos sofisticada, e, ao mesmo tempo, enxotá-los como moscas quando a sua pobreza nos bate à porta cobrando muito menos do que lhes usurpamos para viver a nossa vida educada, culta, oriental ou ocidental.

Se não podemos fazer tudo, se nem todos temos o descaramento da Carola e do Miguel, podemos, ao menos, apontar o dedo a políticas de tolerância zero que separam, ou separaram, crianças pequenas dos seus pais, que negam cuidados básicos de higiene e dignidade humana aos mais desprotegidos, gritar “em meu nome não”, como dizia, há dias, uma mulher, creio que americana, à porta de um desses centros de acolhimento.

Não podemos acabar com todas as injustiças do mundo, nem com os acasos que nos colocam do lado certo ou errado da fronteira. Mas, ao menos, não transformemos em criminosos quem não aguenta baixar os braços e os olhos perante o sofrimento de quem é igual a nós. De outra forma, receio que possamos correr o risco de achar aceitável que, a bem de fazer cumprir a lei, se possa coagir pelo medo, pela ameaça criminosa, ou pela brutalidade leviana. Nos Estados de Direito, tem que existir outra forma.

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publicado às 18:15

O que fazer com os migrantes?

por naomedeemouvidos, em 09.01.19

    Acreditar que Donald Trump está preocupado com uma crise humanitária, é o mesmo que acreditar no Pai Natal, e eu já tenho mais de 7 anos. Apesar do tom quase cordato com que manifestou a sua inquietação, o que Trump quer, já toda a gente sabe, como diria alguém, era escusado a Sala Oval, o outfit e as fotos de família.

   O que fazer, realmente, com os milhares de pessoas, entre elas, crianças, que fogem dos seus países em busca de algo mais do que sobreviver? Não podemos acudir a todos, socorrer todos, ajudar a todos. Mas, são pessoas. Como nós. Era tão simples, se fossem diferentes de nós. Piores do que nós. Bastava construir um muro, escorraçá-los como aos cães vadios, devolvê-los à sua pátria, reduzi-los à sua miséria, como bem mereciam. Se não fossem como nós. E, aí, acabava-se com a delinquência, com o crime, com o tráfico de drogas, com as doenças, enfim, com todos os males que trazem os que não são iguais a nós. Seríamos, finalmente, felizes para sempre. Grandes, outra vez. Basta acreditar...

 

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aqui

 

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publicado às 11:41

Vou continuar a indignar-me, posso?

por naomedeemouvidos, em 04.11.18

    Se me é permitido, vou continuar a indignar-me. Violentamente e todos os dias, se for preciso. Recuso associar-me à normalização do mal e à banalização do absurdo. Um fascista é um fascista, é um fascista. Quem partilha dos valores do fascismo, não se esconda em subterfúgios. Quem não quer viver a democracia em pleno, não pretenda instigar a sua intermitência, descontinuando-a quando convém. Porque, talvez, nunca convenha a todos concomitantemente.

    Os EUA estão em campanha. Na próxima terça-feira há eleições intercalares. Ao seu estilo, Donald Trump continua a agitar as massas mentindo, mentindo e mentindo e alternando discursos consoante os ventos, naquela linguagem básica e paternalista que continua a colher: vem aí uma caravana cheia de malfeitores, criminosos em série, apostados em tomar a América de assalto. Se nos atirarem pedras, lembremo-nos que os nossos soldados têm espingardas, portanto, que considerem usá-las. Não nos esqueçamos que à frente da caravana vêm homens fortes e maus, muito maus. Não interessa que tragam milhares de quilómetros nos pés e venham esmagados pelo cansaço, porque trazem um ror de más intenções na alma. Querem os nossos empregos, na melhor das hipóteses. Na pior, vêm violar as nossas mulheres e matar os nossos filhos. Matar só está permitido aos bons. E, não nos esqueçamos, “grab them by the pussy” também não está al alcance de qualquer um; só dos que têm dinheiro e poder. Pior do que um criminoso rico, só um criminoso pobre, fedorento e estrangeiro.

    Como habitualmente, Donald Trump já veio desmentir-se a si próprio. Afinal, não vamos disparar sobre os migrantes. Vamos só prendê-los pelo tempo que for preciso. A mentira, num democrata, é inadmissível. Num populista, num nacionalista ou num fascista é um meio válido para atingir um fim. A corrupção, num democrata, é vício nojento que urge exterminar, qualquer que seja o meio. Num populista, é expedito; é competência e desembaraço.

    As migrações em massa e descontroladas são um problema sério, efectivamente. Nenhum país tem capacidade de acolher todos, socorrer todos, atender a todos. Mas, acredito que os mecanismos para fazer face a este e outros problemas devem ser encontrados dentro das normas democráticas. Há quem ache que não. Há quem acredite que, o que importa, é ter a economia a crescer e viver sem incómodos e sem sobressaltos. Se, para isso, for necessário suspender ou, mesmo, eliminar a democracia, seja. Tudo em nome da segurança. Ou será só em nome do conforto pessoal? E, é mau, querermos paz para os justos e justiça para os criminosos? É mau ansiar por bons empregos, bons ordenados e uma vida confortável e próspera, principalmente, quando pagamos os nossos impostos? Claro que não! Como é evidente, essa não é a questão. Mas, o mundo não é perfeito e não é o nosso quintal. A não ser que passemos todos a defensores da justiça por mãos próprias e pela supressão, quem sabe, pelas armas, de todos os que perturbam o nosso sossego como mosquitos, viver em sociedade dá trabalho e, muitas, muitas vezes, traz chatices.

    Voltemos ao Brasil e a Bolsonaro (sim, também há Maduro e outros que tais; infelizmente, o mundo está cheio de gente que só olha para o seu umbigo e que só quer o poder a qualquer preço, subjugando tudo e todos à sua tirania). Fiquemos só pelos bens intencionados; pelos que acreditam que ele não é tão mau como parece e que Sérgio Moro – o mesmo que jurava a pés juntos que jamais entraria para a política – está apenas interessado em ajudar o Brasil a preservar a democracia. O que vai acontecer quando, cada brasileiro de bem se sentir legitimado para matar um ladrão, um violador, um assassino? O que vai acontecer quando um polícia brasileiro se sentir impune, democraticamente, para matar um (mesmo não alegadamente) criminoso? Quanto tempo precisaremos de esperar para assistir à instituição da vingança em vez da aplicação da justiça? E, quanto tempo até passarmos, cada um de nós, a ser o alvo?

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publicado às 13:31



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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