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O oportunismo é uma arte.

por naomedeemouvidos, em 06.03.19

Tomás Correia foi condenado pelo Banco de Portugal a pagar uma multa de 1,25 milhões de euros, por práticas irregulares no exercício do cargo de presidente da Caixa Económica Montepio Geral, actual Banco Montepio. É bom lembrar que Tomás Correia foi reconduzido, numa eleição que se imagina livre, à liderança da Associação Mutualista Montepio Geral já quando sobre ele pesavam suspeitas graves, gozando até do estatuto de arguido em alguns casos. Candidatou-se a essa renovação no cargo suportado por uma lista de individualidades de conhecido nome e suposta honra e ganhou, apesar da também conhecida possibilidade de vir a ficar impedido de exercer esse cargo caso resultasse, das investigações de que era (e é) alvo, alguma acusação.

 

Ora, Tomás Correia mostrou, como outros, que conhece bem as linhas com que se cose e a instituição a que preside. Homem prevenido vale por dois, ou mais, e parece que o senhor fez aprovar em Assembleia Geral e registar em acta uma espécie de seguro à prova de multas. Assim, numa AG que teve lugar em Março do ano passado, o expedito Tomás Correia apresentou uma proposta que parece obrigar o Banco Montepio a assumir os “custos em que possam incorrer os actuais ou antigos administradores e membros de outros órgãos sociais da Sociedade, relacionados com quaisquer processos ou procedimentos que sejam directa ou indirectamente relacionados ou resultantes da sua actividade na Sociedade e que resultem de contas de honorários passadas na devida forma ou de documentos emitidos por entidades oficiais”. Ou seja, por exemplo, aquele milhãozito e tal de euros de multa em que incorre o senhor Correia, como noticia o jornal Público, que também afirma estar na posse da acta dessa AG e que o documento nunca chegou a constar, como seria prática comum, no site oficial do banco.

 

As gentes da nossa terra têm fama de desenrascadas. Aquele jogo de cintura que falta a outras sociedades mais disciplinadas e organizadas, onde, quando ocorre um imprevisto não documentado que pára a linha de produção, ninguém sabe bem o que fazer, até chegar um português. É uma característica que dizem única. Será um exagero, enfim. Mas, é indiscutivelmente útil em muitos casos. Só se torna algo obscena quando dela se faz aquele hábito oportunista que fica no limiar da fronteira propositadamente dúbia entre o ilegal e o imoral. Tomás Correia será só um exemplo. Outro, é o médico oftalmologista Henrique Fernandes.

 

O doutor Henrique Fernandes foi despedido do Hospital Sousa Martins, na Guarda por exercer actividade clínica privada enquanto estava de baixa. Baixa falsa, portanto, ou, pelo menos, selectiva e atestada por um colega idóneo, talvez. Inicialmente, foi proposto o arquivamento do processo, mas o hospital recusou e acabou por demitir o médico. Este recorreu. O que motivou, no entanto, o recurso não foi a eventual injustiça ou erro na decisão de o demitir, como se poderia ingenuamente pensar. Foi um pormenor que resulta muito mais eficaz para quem percebe da tal arte do desenrasque: o processo disciplinar de que foi alvo e que levou ao seu despedimento foi promovido fora dos prazos legais previstos. Quando o doutor Henrique Fernandes foi notificado da sua demissão, tinham passado os trinta dias de que, legalmente, o Hospital dispunha para fazer essa comunicação ao senhor. Finalmente, que é como quem diz, oito anos depois, o Hospital foi obrigado a reintegrar o médico que pede, agora, uma indeminização de três milhões de euros, a pagar pelos do costume.

 

De modo que, cada um desenrasca-se com a arte que quer, pode e conhece. Deve ser por isso que o nosso mais famoso hacker tem algum receio de ser extraditado para Portugal. Talvez não seja um caso de vida ou de morte, que exagero. Mas é capaz de ser só um caso de justiça ou falta dela.

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publicado às 13:09



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