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Sobre almas, mortos e, porque não, borboletas.

por naomedeemouvidos, em 29.10.19

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As borboletas-monarca não gostam do Inverno. No início do Outono, migram para o México e, aparentemente, a sua chegada coincide com o período de celebração do Dia dos Mortos há tempo suficiente para que as magníficas borboletas mereçam fazer parte da cultura local. São recebidas em festa. Pelo menos para as crianças, as exuberantes borboletas-monarca representam as almas dos mortos que os vivos atraem com as flores perfumadas que depositam nas campas dos seus, dos que já partiram. Fiquei a sabê-lo por acaso, entre alguns afazeres e inúmeros zappings, até tropeçar num dos episódios do programa "One Strange Rock", do National Geographic.

Lembrei-me de que o meu filho - a quem a morte sempre suscitou uma curiosidade imensa, com que eu nem sempre soube como lidar sem aflição - tem uma espécie de teoria sobre essa coisa da reencarnação de que ouviu falar mas não sabe, ainda, se acredita. Mas acredita em almas. Em alma. 

Hei-de falar-lhe das borboletas-monarca. Talvez comece por lhe mostrar aquela fotografia, lá em cima, que tirei da galeria do "The Guardian". Ou, então, o tal episódio de “One Strange Rock”. Encontrei parte dele aqui. Não está legendado em português, mas é possível que não seja necessário. 

 

publicado às 22:08

Inquietações.

por naomedeemouvidos, em 03.06.19

A morte nunca chegou a ser um tabu. Não houve tempo. Desde muito cedo, sobressalta-o uma curiosidade imensa de descobrir o que fica, afinal, para lá da vida; para lá da morte. Insiste em dizer "quando eu ainda não era vivo", em vez de "antes de eu ter nascido", como se nessa ardilosa divergência pudessem caber inúmeras existências diferentes, únicas, insubstituíveis.

No início, a insistência incomodava-me. Ensaiei - tantas vezes! - sossegá-lo com artimanhas miúdas, fastidiosas, como se fosse possível aquietar, com a ligeireza de um devaneio inconsequente, a sagacidade voraz de uma criança arguta e desassombrada. “Não fales para trás, fala para a frente!”, exigia, impaciente, quando percebia o logro. E o para a frente levava-nos sempre mais longe do que eu poderia esperar.

Pacientemente, apaziguada, fui aprendendo a não deixar que os meus medos, a minha insipiência, lhe ensobrassem os caminhos.

Há poucos - pouquíssimos - dias, a dúvida subiu de tom. Afinal, qual é o propósito disto? Sendo isto, aquilo a que chamamos vida. Desde a existência ou não de uma alma, ao que - existindo realmente - lhe sucede quando o corpo cede e sucumbe, finalmente. Inquieto-me. Não sei se quero falar sobre isso. Não sei se sei. Por vezes, ainda me enfureço. Não por ele; não com ele, exactamente. Comigo, por não conhecer tudo, por me faltarem respostas tão evidentes, tão urgentes.

Talvez a vida encerre um mistério maior ainda do que a morte. Há gente que morre sem nunca ter vivido. E há quem permaneça eternamente vivo, muito para além da morte. Talvez haja, nisto, algum propósito.

publicado às 22:22

O pôr-se a jeito.

por naomedeemouvidos, em 07.02.19

   

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aqui

 

 

    É um clássico. Mulher que é mulher nunca se põe a jeito porque, como muitos dizem saber, homem que é homem está sempre à altura de lhe agarrar o jeito. E, assim, sempre se vão desvalorizando os hediondos crimes que alguns – alguns!, é preciso que fique bem claro – homens cometem sobre as mulheres, com a complacência de todos.

    No caso concreto da violência doméstica, sempre que alguma mulher morre às mãos de um desses assassinos, enchem-se páginas e páginas de jornais, sempre com as mesmas queixas, as mesmas incompetências, os mesmos lamentos, as mesmas lágrimas. Apenas durante um breve período de tempo. Menos do que aquele que se gasta a discutir um fora-de-jogo, tema que dá aí para, no mínimo, duas semanas de programas, comentários, debates, análises e mais um ror de coisas úteis. A notícia, a que à violência doméstica diz respeito, volta na próxima morte, com cenas dos capítulos anteriores, que serão, também, as dos próximos. Lamentável e vergonhosamente. Já são duas mãos cheias - e mais uma pequenina e insuportável -, ainda o ano está a começar. Mas, não aprendemos nada?

    O último crime odioso de que se fala (também) levou a pequena Lara, de apenas dois anos. Na versão mais absurda que ouvi acerca desse infame estatuto que é o pôr-se a jeito, alguém dizia qualquer coisa do género, pobre menina, mas quem mandou à mãe ter um filho com um tipo daqueles. As palavras não eram exactamente estas, mas o sentido era este. Inacreditável, não é?

    O tipo, tal como o pôr-se a jeito, serve para tudo catalogar. É a tipa que não é séria, ou o tipo que a ama muito, é tipo de roupa, o tipo de rendas, o tipo de tanga. O tipo de hora, o tipo de quarto, o tipo de amor. Esse amor tão grande que não aguenta ver o outro feliz e completo; não, tem que humilhar, maltratar, agredir e, quando nada mais sobrar, tem que matar.

 

    Há dois dias, o senhor juiz desembargador Neto Moura recebeu, do Conselho Superior da Magistratura, uma advertência escrita, na sequência daquele acórdão de Outubro de 2017 que se tornou famoso pelas piores razões. O senhor vai recorrer. Muitos se indignaram. Muitos dos colegas do senhor doutor juiz. Afinal, é um atentado ao princípio da independência dos tribunais e à indispensável liberdade de julgamento, segundo li algures. Transcrevo parte do texto que constitui, por sua vez, parte do exercício dessa liberdade e independência de que devem gozar os juízes:

 

    “Ora, o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem. Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte. Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte. Ainda não foi há muito tempo que a lei penal (Código Penal de 1886, artigo 372º ) punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando sua mulher em adultério, nesse acto a matasse. Com estas referências pretende-se, apenas, acentuar que o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) e por isso vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher”.

 

    Eu sei que que deve haver pouca gente que ainda não tenha lido, mas, há coisas que nunca é demais lembrar. Aqui fica.

    Só é pena que o senhor juiz possa ter razão num pequeno, grande, imenso, pormenor: “e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras.”

 

    Há mulheres que não aprendem…

publicado às 16:12

Quando a morte se torna obscena.

por naomedeemouvidos, em 05.02.19

   

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    Nunca é fácil lidar com a morte. Pelo menos, nas nossas sociedades, europeias, ocidentais, cosmopolitas. Outras sociedades há em que a morte é celebrada, pois é vista como uma passagem ou como uma etapa do percurso da vida, que se repete, de libertação em libertação, até à purificação total e suprema. Os próprios católicos encontram um certo conforto, se assim se pode chamar, na fé que professam por acreditarem na ressurreição dos seus mortos. E, ainda assim, essa fé pode ser brutalmente esmagada pela violenta circunstância da vida. Ironicamente, de uma forma quase macabra, face a episódios recentes, conheço bem de perto um casal que perdeu os dois únicos filhos, ambos por doenças terminais e fulminantes, com um intervalo de poucos, pouquíssimos, anos. Eram profundamente católicos até à morte do segundo filho. O que pode restar de fé, depois disso? Eu, sendo não crente, não me espanta que pouco ou nada reste. E, no entanto, deixei, juntamente com o meu marido, que o nosso único filho fosse baptizado na Igreja Católica, já com 10 anos e a seu expresso pedido. Consentimos, como pais, porque a fé, ou a sua ausência, são assuntos de cada um.

    Mas, imagino que, mesmo para quem olhe a morte como uma passagem, não como um fim absoluto, seja difícil ver partir aqueles que ama, de quem cuida, a quem se afeiçoou pelo caminho. E, se há mortes esperadas como naturais e inevitáveis – dolorosas, mesmo assim –, outras há quase obscenas. Como a do pequeno Julen; a dos dois irmãos amigos de infância do meu marido; a da pequenina de 2 anos que o pai levou ontem, à força, depois de ter esfaqueado a avó, que pereceu também. É tanta a maldade e a loucura que, por vezes, se torna difícil racionalizar sobre a inevitabilidade da morte.

    Sendo inevitável, uma consequência natural da vida em si mesma, a morte não devia ser leviana. Ninguém devia morrer pela sua própria condição. Pela sua fé. Pelo seu género. Por ser homem. Por ser negro. Por ser pobre. Por ser criança. Por ser mulher.

 

    Mais uma mulher morreu, no Nepal, exilada numa cabana sem janelas, onde acendeu uma fogueira para se aquecer. O seu crime? Estava menstruada, logo, impura, portadora de má sorte. Podia ter acabado de parir e o seu castigo seria o mesmo. Parece que assim o dita a prática do país. Prática essa que, aparentemente, foi banida do país já em 2005, mas, a quem é que isso interessa? É difícil reeducar uma comunidade inteira, um país. E, apesar de haver, desde 2017, uma lei que pune quem forçar as mulheres nepalesas a este isolamento forçado e absurdamente trágico, não há qualquer denúncia, ou qualquer queixa. No início do ano, outra mulher tinha morrido, juntamente com os dois filhos, nas mesmas condições. Chama-se "Chhaupadi". A prática.

 

    Em Portugal, desde o início do ano, já nove mulheres foram mortas em contexto de violência doméstica. Nove. Por cá, como por outros países civilizados, a tradição é outra. Terá outro nome.

   

    Há mortes que chegam a ser obscenas.

publicado às 12:23

Discutir a eutanásia, mas a sério!

por naomedeemouvidos, em 20.04.18

Eu thanatos, a morte sem sofrimento. Aparentemente, a expressão grega não teria nada que ver com a ideia que temos, actualmente, da palavra eutanásia e, menos ainda, com a discussão (às vezes, irracional) que opõe os “defensores da vida” aos “defendores da morte”. A primeira, à data, referir-se-ia a uma morte tranquila, sem sofrimento, de facto, mas natural. A segunda, nos dias de hoje, está praticamente reduzida à acção de ajudar a alguém a morrer, igualmente sem sofrimento, mas de forma não natural.

O tema, como qualquer tema importante, é legitimamente controverso, consensualmente discutível e, infelizmente, muitas vezes, levianamente debatido.

No último (e recente) Prós e Contras que a RTP promoveu sobre a eutanásia, um enfermeiro presente na plateia usou como termo de comparação para o diferente entendimento que (felizmente) todos temos acerca do sofrimento aquele de que podemos padecer porque o nosso "clube perdeu". Por aqui se vê onde pode chegar o absurdo da argumentação para a defesa incondicional da “vida”. É possível que o senhor se tenha arrependido do que disse assim que terminou a frase, mas, vamos ser sérios?

É absolutamente inquestionável o direito que outro tem de acreditar que, em momento nenhum, se justifica provocar, intencionalmente, a morte a alguém. Haverá sempre quem defenda o não auxílio à morte induzida de outro ser humano, seja qual for a circunstância. Tenho o maior respeito pelos médicos e outros profissionais de saúde que se recusam a facilitar a morte extemporânea de um doente. É, para esses, um dever, deontológico ou de consciência, tanto faz, do qual não querem abdicar. Ainda bem. Nada pior do que sermos obrigados a pensar por cabeça alheia.

A discussão parece, no entanto, resvalar demasiadas vezes para o absurdo.

Vamos chamar as coisas pelos nomes. Estamos a falar de morte, sim. Mas estamos, também, a falar de mais do que matar alguém; porque esse alguém já não vive. Nem sequer sobrevive.

Vamos deixar de discutir o direito de uns e começar a defender o direito de todos? Não estamos a falar de um extermínio em massa de todos os “inadaptados” da sociedade, como muitos querem fazer crer. Não se trata de eliminar os nossos velhos ou os nossos doentes, como se fossem material descartável. Tão-pouco, de erradicar vidas “inconvenientes” com a facilidade com que nos livramos de um vendedor porta-a-porta. Estamos a falar de terminar, sim, com o sofrimento atroz, desnecessário, que diminui o ser humano na sua dimensão de vida, precisamente. Privando-o de dignidade, sim! Que dignidade pode ter alguém que tem que passar a usar uma fralda? Onde está a dignidade de alguém que já só pode ser alimentado por uma sonda? Que dignidade nos resta quando dependemos de outrem para satisfazer as nossas necessidades mais básicas?

Há doenças que há muito mataram o corpo que habitam, mesmo que esse corpo ainda “viva”. Não se diga que cuidar, com toda a dedicação, amor e carinho, de um doente terminal é suficiente para que ele não sofra. Não é! Todos os que já assistimos, imponentes e horrorizados, ao definhar de um ente querido, sabemos como o sofrimento é avassalador. Para o doente, em primeiro lugar, obviamente. E para os seus, evidentemente. E, não, não é por comodismo, porque é uma “maçada” não poder sair para jantar, quanto mais ir de férias. É porque sofremos com ele. Porque o vemos em permanente agonia, que se agrava de dia para dia, hoje menos capaz do que ontem, uma degradação acelerada, alucinante, estúpida e sem marcha-atrás.

A eutanásia é mais do que matar alguém. É respeitar a vida na sua plenitude. Que não se obrigue médico algum a facilitar a morte de alguém. Mas que não se condene nem julgue os que estão dispostos a ajudar um doente terminal a “morrer bem”.

 

publicado às 14:03

A vida é para ser vivida. É, não é?

por naomedeemouvidos, em 19.04.18

A princípio, eram coisas menores. Uma pequena tarefa, sem importância, que ficava a meio, o escritório numa desarrumação pouco habitual para uma mente metódica, um colarinho desalinhado para um homem que sempre cultivara uma imagem impecável, um desconcertante desvio na estrada num caminho que se conheceu e se percorreu toda a vida.

As irritações passaram de pontuais a permanentes, os conflitos intensificaram-se. Já não era apenas uma maçã oxidada, em agonia, esquecida na beira do prato; uma luz que permanecia acesa, viva, fora de horas, um cordão de sapato desapertado em contraste com o elegante chinelo de quarto, prontos, ambos, a passar a porta; agora, era um carro capotado na estrada, um milagre de vidas salvas e o silêncio ensurdecedor, perturbado, para dar lugar ao choro da criança, denunciador, como um murro no estômago, a suspeita violentamente escancarada.

Da inquietante presunção ao diagnóstico, foi pouco mais que um gemido. Um gemido que, com o passar dos dias, ganhou forma, agigantou-se, varreu todos os sonhos com a violência de uma onda furiosa e inclemente. Ainda assim, a esperança irrompia como um acto de rebeldia. Talvez os tratamentos funcionassem, talvez um medicamento chegasse a tempo, talvez houvesse um milagre. Mas o monstro voraz, o pior e mais agressivo, de todos o mais implacável, depressa se encarregou de dissipar as dúvidas e enterrar todas as ilusões. Operar, impossível. Da descoordenação à mobilidade assistida e dependente, do aprumo ao descontrolo, da contemplação à escuridão mais sombria, uma debandada estridente de sentidos a anunciar o mais temível e degradante dos fins. Apenas aquela lágrima, teimosa, como um derradeiro grito de resistência, um clarão fugaz de clarividência em horrendo contraste com aquele amontoado de pele e osso, outrora transbordante de vida e alegria.

Vendo bem, a esta distância, a morte não se fez esperar muito. E, mesmo assim, foi demasiado. Porque se fez suplicada, a ferro e fogo, num sofrimento diário, constante e atroz. Apesar de todo o carinho, cuidado e amor. Todo o dia. Todos os dias.

A vida é para ser vivida, gritam muitos. Não posso estar mais de acordo. E o que é uma “vida” a “ser vivida”, exactamente?

publicado às 17:00

José Saramago

por naomedeemouvidos, em 16.07.17

Leio (ou li, melhor dizendo) tudo, praticamente, de José Saramago. Desde os tempos do “Memorial Convento”, que não me custou assim tanto. Sempre achei fascinante como José Saramago consegue, conseguia, do aparente "nada" construir narrativas arrebatadoras.

O meu livro preferido é o “Ensaio Sobre a Cegueira”. E a “Caverna”. E “As Intermitências da Morte”. E “Caim”. E “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, cuja leitura tive que reiniciar umas quantas vezes até me entender com as “Marias”. E “A Jangada de Pedra”. E "Todos os Nomes". E…esses todos também!

publicado às 23:43



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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