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Os homens não têm filhos?

por naomedeemouvidos, em 28.02.19

Na sequência de uma série de opiniões radicalmente diferentes, emocionais, emocionadas, ou, tão somente, dignas das tais sociedades estimadas por nada respeitáveis juízes e seus (im)prestáveis coadjudantes, sobre qual deverá ser o papel da mulher  - na sociedade e na família - li um comentário admirável: os "homens" (ainda bem que os homens não são todos iguais) têm mais sucesso profissional porque, entre outros enormes atributos (que também se enalteciam na prosa), "não têm filhos"

 

Cri, na altura, ter percebido a ideia, embora, expressa de forma algo retorcida. Os homens não têm a capacidade de carregar um filho no ventre e, a seguir, pari-lo. Supus que era esta a intenção que se pretendia reforçar; não o facto de haver alguns homens que, mesmo sendo pais, não têm, efectivamente filhos, porque deixam esse transtorno a cargo das mulheres, para que estas possam atingir, com zelo e sucesso, o seu potencial maternal, ou lá o que era.

 

Talvez tenha percebido mal, no entanto. Hoje, entre as 14.00 h e 15.00 h recebi cinco chamadas de um mesmo número desconhecido, que só pude atender (tinha o telemóvel em modo silencioso) à sexta tentativa desse contacto. Era de um centro de saúde. Para falar com urgência, com a mãe da bebé fofura-de-tal, de um mês, por causa de uma consulta também ela urgente. Lamentei, não era eu, seria um engano. De modo que, depois de uma hora e qualquer coisa a tentar falar com a mãe da criança - que não eu - , acerca de uma situação da maior urgência, o homem (chega a diabolicamente irónico) ao telefone desculpa-se e refere que, nesse caso, vai ligar para o outro número alternativo: o do pai da menina...

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publicado às 17:45

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“A mulher dita feminista – a que integra as “tribos”, a que se deslumbra com as capas de revistas, a que se diz emancipada, a que não precisa de relações estáveis, a que não quer engravidar para não deformar o corpo nem perder oportunidades profissionais, a que frequentemente foge da elegância no vestir e no estar – optou por se objectificar, pretendendo ser apenas fonte de desejo em relações casuais, rejeitando todo o seu potencial feminino, matrimonial e maternal”.

 

    Assim começa um artigo de opinião escrito por uma mulher, médica, anti-feminista, e publicado no passado dia 24 de Fevereiro, no jornal online Observador. Juro. É só ir lá ler.

    Se fosse dia 1 de Abril, o dito artigo de opinião poderia ser encarado como a mentira da praxe com que os chamados meios de comunicação também gostam de nos entreter nessa apreciada (por muitos) data. Não é. Mas, por outro lado, estamos perto do Carnaval e a época também se presta a piadas, palhaçadas e outro tanto de coisas que temos tendência a desprezar durante o resto do ano.

    A doutora Joana Bento Rodrigues é de opinião que as três características mais belas da mulher são, precisamente, o seu potencial feminino, matrimonial e maternal. Nas suas eruditas palavras, a mulher gosta de se arranjar, de se sentir bonita, de ter a casa arranjada e bem decorada, de bem receber, de assumir com alma as tarefas domésticas, de se sentir útil e ser a retaguarda familiar de que o marido precisa para ser profissionalmente bem sucedido e, por norma, não se incomoda em ter menos rendimentos do que o marido, pelo contrário!, até porque aprecia – essa mulher que a doutora Joana Bento Rodrigues conhece – a ideia de ter casado bem.

    Por outro lado, a doutora Joana Bento Rodrigues, considera que apenas na maternidade a mulher encontra a verdadeira realização. E, mesmo quando não é mãe, essa tal mulher é a melhor tia do mundo, a melhor madrinha do mundo. Ámen.

    Eu não sei bem com que tipo de mulheres é que a cândida senhora anda a tomar chá. É, contudo, importante referir que a doutora Joana Bento Rodrigues julga que as mulheres são possuidoras de enorme inteligência social e emocional, coisa que, ao lê-la, poderá ficar em dúvida. Não. As mulheres são inteligentíssimas. Tanto que, no nosso País, a representatividade feminina na medicina e na advocacia já ultrapassa a masculina. E isso, na opinião da douta senhora, é preocupante! Eu acrescentaria aviltante! Tanto que defendo que a doutora deveria reconsiderar e dar o seu lugar a um homem, para minimizar essa tremenda preocupação, quiça, essa abominável injustiça. Imagine-se! Anda por aí, quem sabe, uma ou outra rapariga que queira casar bem - coisa que nem as minhas avós (as duas, malvadas) foram capazes de me ensinar o que seria - e o desgraçado do noivo não arranja emprego, porque os postos de trabalho estão apinhados de mulheres preocupadas em esbanjar, sem pudor, todo seu enorme potencial feminino.  

   

    No fim de tudo, ocorre-me que, talvez, a doutora Joana Bento Rodrigues, seja do tempo daquele outro senhor, o Neto de Moura. Devem ter estudado os dois pelo Código Penal de 1886. Eu sei que a senhora é médica, não é advogada, mas, a comunhão de ideias é bastante parecida e não deve ser dada a detalhes de importância menor. Aliás, acho, até, que podiam juntar-se a essa outra sumidade social e intelectual, a psicóloga Maria José Vilaça, e, de uma penada, arrumava-se com uma data de problemas sociais…Isso, ou obrigar as meninas a vestir rosa.

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publicado às 11:40

Quando a morte se torna obscena.

por naomedeemouvidos, em 05.02.19

   

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    Nunca é fácil lidar com a morte. Pelo menos, nas nossas sociedades, europeias, ocidentais, cosmopolitas. Outras sociedades há em que a morte é celebrada, pois é vista como uma passagem ou como uma etapa do percurso da vida, que se repete, de libertação em libertação, até à purificação total e suprema. Os próprios católicos encontram um certo conforto, se assim se pode chamar, na fé que professam por acreditarem na ressurreição dos seus mortos. E, ainda assim, essa fé pode ser brutalmente esmagada pela violenta circunstância da vida. Ironicamente, de uma forma quase macabra, face a episódios recentes, conheço bem de perto um casal que perdeu os dois únicos filhos, ambos por doenças terminais e fulminantes, com um intervalo de poucos, pouquíssimos, anos. Eram profundamente católicos até à morte do segundo filho. O que pode restar de fé, depois disso? Eu, sendo não crente, não me espanta que pouco ou nada reste. E, no entanto, deixei, juntamente com o meu marido, que o nosso único filho fosse baptizado na Igreja Católica, já com 10 anos e a seu expresso pedido. Consentimos, como pais, porque a fé, ou a sua ausência, são assuntos de cada um.

    Mas, imagino que, mesmo para quem olhe a morte como uma passagem, não como um fim absoluto, seja difícil ver partir aqueles que ama, de quem cuida, a quem se afeiçoou pelo caminho. E, se há mortes esperadas como naturais e inevitáveis – dolorosas, mesmo assim –, outras há quase obscenas. Como a do pequeno Julen; a dos dois irmãos amigos de infância do meu marido; a da pequenina de 2 anos que o pai levou ontem, à força, depois de ter esfaqueado a avó, que pereceu também. É tanta a maldade e a loucura que, por vezes, se torna difícil racionalizar sobre a inevitabilidade da morte.

    Sendo inevitável, uma consequência natural da vida em si mesma, a morte não devia ser leviana. Ninguém devia morrer pela sua própria condição. Pela sua fé. Pelo seu género. Por ser homem. Por ser negro. Por ser pobre. Por ser criança. Por ser mulher.

 

    Mais uma mulher morreu, no Nepal, exilada numa cabana sem janelas, onde acendeu uma fogueira para se aquecer. O seu crime? Estava menstruada, logo, impura, portadora de má sorte. Podia ter acabado de parir e o seu castigo seria o mesmo. Parece que assim o dita a prática do país. Prática essa que, aparentemente, foi banida do país já em 2005, mas, a quem é que isso interessa? É difícil reeducar uma comunidade inteira, um país. E, apesar de haver, desde 2017, uma lei que pune quem forçar as mulheres nepalesas a este isolamento forçado e absurdamente trágico, não há qualquer denúncia, ou qualquer queixa. No início do ano, outra mulher tinha morrido, juntamente com os dois filhos, nas mesmas condições. Chama-se "Chhaupadi". A prática.

 

    Em Portugal, desde o início do ano, já nove mulheres foram mortas em contexto de violência doméstica. Nove. Por cá, como por outros países civilizados, a tradição é outra. Terá outro nome.

   

    Há mortes que chegam a ser obscenas.

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publicado às 12:23

E o que é que vestia?

por naomedeemouvidos, em 15.11.18

    Há mulheres que não aprendem. Ou se põem a jeito ou põem cuecas de renda. Ou usam fio dental ou não apertam as pernas com firmeza. Ou dançam de forma sensual ou saem sozinhas à noite. Ignoram que os homens são predadores implacáveis, cheios do recato que lhes falta a elas, lobos com peles de cordeiro, sempre à espreita, à espera do convite fortuito, mas eloquente e irrecusável. O que elas querem, sabem eles. E sabem todos, sem excepção. Os que não sabem, não são bem homens. A ocasião faz o ladrão e as mulheres impudicas fazem os violadores.

    “Têm de olhar para a maneira como ela estava vestida. Usava um fio dental com a frente em renda”, advertiu a competente advogada, no tribunal, numa tanga sem renda. Que tamanho ultraje! Como é possível, tanta pouca vergonha? Há mulheres que são umas galdérias, de facto. Galdérias e ignorantes, pois, desconhecem que há homens, parece que todos, que não resistem a uma provocadora cueca de renda e fio dental. Que extraordinário descanso saber que há outras mulheres que nos alertam para o perigo que o nosso traje, o interior também, representa para os incautos. Só as mulheres recatadas – e parece que também as feias – nunca são assediadas ou violadas. Mas, as feias não contam, porque não merecem. Basta ler jornais. Ou perguntem aos homens, esses seres acéfalos, que não podem ver uma mulher de saias ou de rendas, porque a irracionalidade primária nunca os abandonou, coitados, apesar de séculos de evolução. As mulheres sérias e compostas não provocam sensações pecaminosas. Já as do tipo leviano e atiradiço são verdadeiros shots de excitação e adrenalina; um perigo para o fraco homem comum. As desse tipo deviam ficar em casa, trancadas nas torres mais altas e inacessíveis, com um espelho mágico a quem, por descanso, perguntar, espelho meu espelho meu, já estou em modo camafeu?, e, então, gozar da segurança e condições necessárias para preservar a honra.

    Vítima que é vítima não provoca, não instiga, não socializa indecentemente. Vítima que é vítima chora e grita, arranha e defende-se. Vítima que é vítima comporta-se da forma correcta e, sobretudo, não vai em tangas – e, logo, de renda – a lado nenhum.

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publicado às 08:32



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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