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Estórias de Natal.

por naomedeemouvidos, em 27.12.18

    Entre os vários livros que recebi como prendas de Natal consta a Biografia de José Saramago (Joaquim Vieira), oferecida pela minha irmã. Quem me conhece sabe como me fascina a sua obra, muito antes do prémio Nobel. Como aluna do ensino secundário, odiei ser obrigada a ler O Memorial do Convento, como odiei ser obrigada a ler Os Maias. Não sei bem porquê. Talvez por embirração. Mas, como ouvi alguém dizer, o bom da estupidez da juventude é que tende a passar com a idade. Alguma (felizmente, não toda) dessa, passou-me, efectivamente. Não que seja estúpido não gostar de Saramago ou de Eça – são gostos, e ainda(?) temos a liberdade de não gostarmos todos do mesmo –, mas é estúpido seguir a corrente sem questionar a sua (in)utilidade. De modo que, recorrentemente, retorno, de encantada vontade, ao “Ramalhete”, normalmente, nas férias de Verão, e nunca saberei expressar bem o que me maravilha em Saramago. Mas, vinha isto a propósito de uma curiosidade que desconhecia totalmente (que pequena vergonha!) e que descobri ao ler as primeiras páginas da biografia: que o apelido Saramago não era de família, foi acrescentado pelo funcionário do Registo Civil da Golegã (eventualmente, por despeito, por ser nome de erva daninha e a família, mal-amada), sem que ninguém se tivesse apercebido, no momento, da graçola. “Entrei na vida marcado com este apelido Saramago sem que a família o suspeitasse, e foi só aos 7 anos, quando, para me matricular na instrução primária, foi necessário apresentar certidão de nascimento, que a verdade saiu nua do poço burocrático (…)”. A peripécia tem outro detalhe engraçado, mas fica para depois…

    A maneira como nos entretemos na noite de Natal – findo o repasto que começa com o tradicional bacalhau cozido com batata e penca à moda do Porto, que a minha mãe prepara como ninguém e o meu pai tempera como o fazia o meu avô – foi variando ao longo dos anos, mantendo-se sempre, no entanto, a boa-disposição vertida no riso fácil e nas gargalhadas tolas que jorram, inconsequentes e alheias, pelo menos, nessas horas, às desgraças que nos atormentam noutros dias. No meio do disparate tão caótico quanto alegre e prazeroso, o meu filho corre em busca do livro das “piadas secas” e começa a ler, armado de tontos e deliciosos tiques, “um amigo pergunta ao outro, então, já te divorciaste; sim, e já chegámos a acordo quanto à casa, ela fica com um lado e eu com o outro; e com que lado ficaste tu; com o lado de fora”, e ainda rimos como parvos quando o meu sobrinho, 10 anos de traquinice pegada e arrojada, atira com um “olha, ficou com o lado maior!”, e a galhofa continua, que é tempo de tolice e ingénua aventurança, sem momentos correctos ou incorrectos, apenas genuínos.

    As horas escorrem vagarosas e férteis em afectos e empatias. Se o Natal deve ter algum significado, que seja o de sermos, realmente, plenamente, família. Há que passar o tempo para abrir os presentes que não trouxe o Pai Natal, que escândalo!, e que não chegará à meia-noite, mas quando quisermos, como quisermos, presos apenas à nossa identidade e à nossa circunstância.

    O meu filho arruma as piadas e traz o Dixit, um jogo que lhe foi apresentado por uma amiga que não tem televisão em casa. Porque pode. Tem amigos especialmente estranhos, o meu filho. Ou será estranhamente especiais? As cartas do Dixit têm ilustrações magníficas. Cada jogador analisa as suas, cada narrador apostado em dizer o suficiente, nunca em demasia, com a subtileza suficiente, a inteligência suficiente, para descrever algo sem dizer tudo, apostando nas meias-palavras, no que nos conhecemos, uns e outros, no que já vimos, no que já imaginámos, nas histórias que partilhamos no antes e no agora, um apelo à imaginação e à criatividade, ao pensamento dentro e fora da caixa, estas para descrever vias de comunicação

Vias de Comunicação.jpg

estas, para o principezinho

O principezinho.jpg

estas, para a sofrer de depressão

a sofrer de depressão.jpg

estas, para enigma

enigma.jpg

 

e, em cada conjunto, apenas uma é a acertada.

    É preciso experimentar. Pelo menos, uma vez. A magia da época. Amanhã, o meu filho faz 12 anos e é o meu milagre de Natal. Logo eu, que não acredito em milagres.

 

    Amanhã, passo por cá, e desvendo cada carta.

publicado às 16:22



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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