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Não há tragédias (mais) dignas.

por naomedeemouvidos, em 18.04.19

Cheias no Irão.PNG

cheias no Irão, Abril, 2019

 

Afinal, o que tem mais valor: uma vida humana ou um monte de escombros? Hoje, acordei um pouco cínica, de modo que, diria que depende do tipo de vida e do tipo de pedra. E, a não ser que venha a ser confrontada com alguém que optou por livrar-se de qualquer réstia de vida dita civilizada em prol da vida de outros e da preservação mártir e abnegada da Natureza no seu estado mais puro, diria ainda que não sei se é legítima a comparação que alguns pretendem fazer (o que é completamente diferente de dizer que não há direito a fazê-la).

 

A vida está cheia de tragédias difíceis de suportar. Se é verdade que "todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos", não é menos verdade que nascer na Coreia do Norte não é o mesmo que nascer nos EUA ( apesar da amizade fofa e recente entre o Little Rocket Man e a sua nova alma gêmea); nascer em Portugal, não é o mesmo que nascer em Moçambique e nascer em Moçambique, não é o mesmo que nascer no Iémen. Posso continuar e dizer, até, que nascer rico não é o mesmo que nascer pobre e, mesmo para nascer pobre, há que ter sorte. Já disse que hoje acordei cínica. Não sei, por isso, como fazemos para sermos justos. E santos. Choramos com a fome das crianças dos outros, enquanto servimos um suculento bife do lombo aos nossos filhos? Criticamos quem doa milhões à recuperação de património, mas não – ou não no mesmo valor – às vítimas das tragédias naturais, enquanto praguejamos contra a falta de combustível para as mini-férias da Páscoa? Indignamo-nos com a importância dada ao património histórico enquanto nos afadigamos entre selfies memoráveis nas nossas viagens de férias?

 

Não há como não concordar com quem se enfurece com os milhões doados a Notre-Dame enquanto há tanta gente no mundo a passar fome. Como não há como não concordar com quem aponta a bondade pífia de quem disponibiliza parte do seu salário para restaurar escombros, mas não para ajudar as vítimas do implacável ciclone Idai. E, já agora, com todas as vítimas que, todos os dias, morrem estupidamente nos conflitos sangrentos que pululam na Síria, no Iémen, nos Territórios Palestinianos, e mais e mais, muitas delas crianças. O sofrimento das crianças é uma das tragédias que mais me afronta. Olho para uma criança devastada pela fome e pela guerra e penso no meu filho. O meu filho é uma criança privilegiada. Como é que faço? Torturo-o em nome de todos os outros que sofrem? Privo-o de qualquer futilidade indecorosa, quando comparada com o que outros meninos não têm? E, onde está o limite? Quantas são as extravagâncias que lhe posso permitir? E que extravagâncias podem ser essas, quando há crianças que não têm, sequer, o que comer? Chegará, sensibilizá-lo – e acompanhá-lo – a doar presentes no Natal, aos meninos que têm menos do que ele? Negar-lhe mais um brinquedo, em nome de todas as crianças que não podem, sequer, brincar? Fazê-lo perceber a importância da solidariedade com os mais favorecidos e incentivá-lo, pelo exemplo, a praticá-la? Será que é suficiente mostrar-lhe a realidade de outros meninos e meninas, enquanto conversamos sobre todas as injustiças da vida e agradecemos por nos termos uns aos outros; por termos tido a sorte de não nascer na maior das privações?

 

Tenho uma admiração imensa por todos aqueles que são capazes de abdicar do seu conforto para levar um pouco de esperança aos que sofrem mais do que aquilo que podemos imaginar do lado de cá do sofá. Não sei como o conseguem. E pasmo com a capacidade de sorrir daqueles, meninos e meninas, homens e mulheres, que não têm nada, enquanto me pergunto que nada é esse, afinal. Quanto aos puros, não sei se chegam a causar-me pena.

 

 

Entretanto, na Madeira, quase três dezenas de pessoas perderam a vida num trágico acidente. Apesar das emissões em directo, ad nauseam, e do pesar ensaiado dos vários relatos jornalísticos, não fui capaz de sentir a mesma comoção que me assaltou quando vi, há dois dias, as imagens da Nossa Senhora em chamas. Imagino que isso deve fazer de mim alguém bastante miserável. Resta saber se ainda me é permitido sentir empatia pelos que perderam os seus entes queridos; apesar de serem todos, creio, alemães. Hoje, acordei bastante cínica.

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publicado às 15:17

Símbolos e outras inSignificâncias.

por naomedeemouvidos, em 17.04.19

Cruz de Fogo.PNG

 

 

Sempre que se perde um símbolo, há parte de um nós que morre. Não importa se o símbolo arde, se desfalece, se se desmorona, se é esventrado e violentado por ignorância bruta, há uma parte da Humanidade que sucumbe. Seja Notre-Dame, os Budas de Bamiyan, a cidade de Palmira, o Museu Museu Nacional do Rio de Janeiro, ou o Museu de Mossul, há uma parte da nossa História que agoniza, que se perde irremediavelmente. Para o luto, pouco importa às mãos de quem, em nome de quê, acidentalmente, intencionalmente, por incúria, ou por alucinado radicalismo. Perdemos todos, choramos todos, morremos todos. Há pedras com alma, livros com vida, com os quais construímos a nossa identidade, para lá do nosso próprio eu. Quando aqueles sangram, perde-se mais do que o que ali se esvai em tormentos.  Se não soubermos de onde viemos, como saberemos quem somos e para onde vamos?

 

E há sempre os tontos que gostariam de apagar a memória, a deles, mas, sobretudo, a nossa, a que é de todos e de ninguém em particular. Adaptar os livros de História, borrar os parágrafos incómodos, embelezar as chagas, eliminar as tragédias, purificar o nosso passado comum. Edificar uma sociedade plástica, higienicazinha, artificial, igualitária à sua imagem e semelhança. Esses são os maiores dos hipócritas. E os mais perigosos. 

 

Palmira.PNG

Budas de Bamiyan.PNG

 

Museu Rio de Janeiro.PNG

 

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publicado às 10:51

Notre-Dame.

por naomedeemouvidos, em 15.04.19

Notrr-Dame.PNG

 

Hoje era o dia de Macron se dirigir ao país, numa tentativa - seria a segunda vez, creio - de esvaziar os protestos do movimento "gilets jaunes" que, há mais de vinte sábados consecutivos, mantém Paris a ferro e fogo; quase literalmente, em alguns deles. Numa coincidência dramática, algo macabra, quase de mau agoiro, Notre-Dame arde, e o pináculo da catedral acabou por ruir. É desolador, para mim, que conheço a cidade (que adoro) e aquele monumento em particular, “apenas” como turista. Não imagino como seja, este momento, para os franceses. Não. Na realidade, perdemos todos.

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publicado às 19:42



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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