Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Insuportável.

por naomedeemouvidos, em 22.07.19

Incêndios.PNG

Chega uma altura em que a incompetência deixa de ser tolerável, e os imponderáveis deixam de ter decoro. Se há incêndios aos quais nem os bombeiros podem valer, há infernos que não se podem repetir.

Ainda mal começou o calor implacável e já arde a vida e a alma de tanta gente como nós. Dizem que se repetem os erros de 2017 e que pouco ou nada se aprendeu com a hedionda tragédia, insuportável num país que se diz da moda, civilizado e de futuro.

Que não se repita o descalabro. Não podemos voltar a admiti-lo, ou seremos todos cúmplices.

publicado às 10:58

      Eu sei. Temos muito mais com que nos preocuparmos. O Orçamento de Estado foi aprovado por ministros que não sabiam estar de saída, Tancos ainda vai no adro (no limite, se calhar, até o primeiro-ministro e o presidente da república tinham conhecimento da marosca), as incompatibilidades de Siza Vieira são(?) fantasias de gente miúda, os esquemas de Pedrogão Grande deviam dar nojo a qualquer pessoa com o mínimo de vergonha e, escabroso, por escabroso, já temos o caso Sócrates em todas as suas variantes. Isto só para nos ficarmos por alguns exemplos da nossa própria miséria. Por que razão nos deveríamos preocupar com outras coisas menores e distantes, como a morte de um jornalista saudita?  Aliás, não anda, a Arábia Saudita, a exterminar, impunemente, civis no Iémen? Quem é que se preocupa com isso?  

      Mas, a Arábia Saudita admitiu, finalmente, que Jamal Khashoggi, morreu. Como? Depois de ter entrado no consulado do seu país, em Istambul, desentendeu-se com os oficiais sauditas de serviço, a discussão azedou, seguiu-se uma escalada de violência que culminou numa luta entre as partes envolvidas. Desse confronto físico resultou a morte do jornalista. É espantoso como algo tão simples de explicar e de entender demorou mais de duas semanas a comunicar pelo regime de Riade. Se calhar, entregar o corpo do jornalista ajudava a corroborar a tese, mas, talvez seja rude sugeri-lo.

      Donald Trump aceitou como credíveis as explicações sobre as circunstâncias da morte de Khashoggi, embora, o que que aconteceu seja, claro, inaceitável. Que alívio! O que seria, ter de punir severamente um aliado estratégico desta categoria! Se o jornalista morreu numa luta que, desafortunadamente, correu muito mal para o próprio, os milhares de milhões de dólares que EUA lucram com os negócios da coroa saudita estão a salvo. Trump é um empresário de mão-cheia.

      Nem sei por que motivo Donald Trump mantém os serviços de inteligência americanos. Afinal, quando lidamos com homens e mulheres de palavra não são necessárias outras formas de averiguação da verdade dos factos. Houve interferência russa nas últimas eleições americanas? Pergunta-se ao Putin. Ele diz que não houve, não houve. Brett Kavanaugh tem um passado de abuso sobre mulheres? Questiona-se o próprio. O homem diz que não, chorou e tudo, por isso, não; a Ford, no mínimo, está confusa, no máximo, é uma tresloucada mentirosa. O príncipe Mohammed bin Salman mandou torturar e eliminar um jornalista incómodo e desbocado? Pergunta-se a Riade. Eles dizem que não, o homem morreu num confronto violento com outros conterrâneos. Óptimo, era o que imaginávamos. Vamos ter que os punir na mesma, mas poucochinho; e sem prejuízos financeiros. Que mania, que toda a gente é culpada até prova em contrário! Se, afinal, nem sequer são precisas provas, basta a palavra dos presumíveis prevaricadores.

      Donald Trump vende-se, como uma prostituta de luxo, às mentiras de Riade para poder usufruir, pelo menos, dos negócios chorudos. Vejamos se o que resta da América vai consentir continuar a prostitui-se também. As expectativas não são animadoras. Há muito que a hipocrisia e os interesses económicos dominam as relações entre os estados ditadores e os seus benevolente aliados. Se a Arábia Saudita e a sua coroa se saírem bem com mais este assassinato está aberta a porta para um período da nossa História que se avizinha bastante negro. Outra vez.

publicado às 13:53

O Circo dos Beras

por naomedeemouvidos, em 19.07.18

As discussões públicas, nomeadamente sobre política e futebol, tornaram-se obscenos circos mediáticos com palco nas principais estações televisivas, mesmo nas ditas de referência. Não faltam, sequer, palhaços de estilos vários, em solo nacional e internacional.

Apresentadores e pivôs de telejornal fazem as honras da casa, com enorme entusiasmo e alarido, estendendo generosamente o tapete vermelho a toda a espécie de demagogos, populistas, mentirosos, corruptos e candidatos a corruptos, chico-espertos e mais outro tanto de artistas que usurparam o país como cadafalso privativo, fazendo dos restantes cidadãos os condenados. Hoje, os corninhos de Manuel Pinho seriam encarados com brandura, quiçá, com humor ou até com bravura.

Inaugurou-se uma forma de estar na política e na vida em que apenas os tolos se podem dar ao luxo de ter rasgos de seriedade e lisura. As elites, essas comportam-se como bandos organizados de arruaceiros envernizados, do chico-esperto mais básico ao finório mais ardiloso e matreiro. De dirigentes políticos a dirigentes desportivos, de ministros e ex-ministros a assessores, da cigarra à formiga, se não todos assim parece, procuram proveitosos fins quaisquer que sejam os meios.

O povo, mercê da voragem vertiginosa das redes sociais, entretém-se em intensas orgias de ódios instantâneos e fugazes repulsas, trocando de alvo como quem troca de par em bailes de swing. Um caderno para menina não pode ser cor-de-rosa sem que isso levante um coro de gritos furiosos, mas um ministro em funções pode acumular ordenados com milhares de euros mensais provenientes de recheados e famosos sacos azuis sem que os Facebooks e os Twitteres se incendeiem. Os que consideram uma aberração que uma avó possa parir um neto são intelectualmente atrasados, egoístas e inclementes com a dor dos que não podem ser pais de outra forma, mas um pedófilo pode continuar em liberdade e a conviver com crianças até serem esgotados todos os recursos, da primeira à última instância, pois é prova de elevado intelecto respeitar a lei até às últimas consequências. Apontar o dedo e duvidar, à margem de decisões judiciais, da idoneidade e honestidade de quem ostensivamente se comporta como embusteiro e larápio revolta as entranhas dos acérrimos defensores do estado de direito e das minudências da lei, mas a raposa, depois de condenada, pode voltar a assenhorar-se do galinheiro que já pilhou sem que, por isso, tremam as redes sociais.

Hoje, é possível mentir, ludibriar, roubar (muito, claro!) sem que isso cause grande alarme social, mas limitar os géneros ao masculino e feminino é motivo de perseguição cerrada pelas brigadas pró-tolerância. As plataformas virtuais censuram e eliminam, implacavelmente, imagens de nus sejam eles a origem da vida ou o terror da guerra, mas, negar o holocausto deve, delicada e elevadamente, enquadrar-se no direito à nossa(?) liberdade de expressão.

Somos implacáveis, mas, apenas quando isso dá likes. De outro modo, a ira esvazia-se. Cada um segue o seu caminho por entre os pingos da chuva. Tomadas de posição, só em massa, a reboque do rebanho e, claro, desde que esteja na moda.

Para não fugir à regra, parece que o último golpe de génio é o aproveitamento da tragédia de Pedrogão Grande. Como não? Segundo a revista Visão, o esquema consiste na alteração das moradas fiscais, já depois da data dos incêndios, para que habitações não permanentes fossem tratadas como primeiras casas - mesmo aquelas onde ninguém vivia há anos. Que valores queremos deixar às nossas crianças e jovens? Dá nojo.

publicado às 21:23

Por que não se calam?!

por naomedeemouvidos, em 17.10.17

As férias que a Constança não teve, a varinha mágica que o António não tem e a resiliência que as populações devem passar a ter, que isto de estar à espera que seja a Estado, na forma da sua (Des!)Protecção Civil a cuidar do povo, é coisa que já não se usa: o que se impõe é ser proactivo!

Há acontecimentos que envergonham uma nação dita civilizada, como há posições e posturas que muito dizem sobre a capacidade e a preparação das pessoas para ocuparem cargos de responsabilidade. A incompetência, frequentemente, tem custos. E, quando esses custos são vidas humanas, enoja ouvir falar certas pessoas. Quando essas pessoas são directamente responsáveis, senão pelas mortes, pela total falta de competência para evitá-las ou minimizá-las, devemos ter medo. Quando, para lá da incompetência, se entretêm com discursos da treta, como se fossemos todos uma plateia de idiotas acéfalos, devemos ter vegonha! Todos!

Na Galiza, milhares de pessoas saíram às ruas, manifestando-se contra a vaga de incêndios que, ontem, matou 4 pessoas. Em Portugal, morrerem mais de 100, ao que tudo indica, por sórdida incúria, e ninguém assume qualquer responsabilidade porque o governo não tem uma “solução mágica” para o problema dos fogos! Terá alguma, ainda que não mágica?

Entretanto, Constança Urbano de Sousa, que tem o poder de retórica de uma criança chorona em sendo contrariada, mantém-se de pedra a cal a fazer nada, a não ser lamuriar-se. Quatro meses depois de 65 pessoas terem perdido a vida de forma terrível, estúpida, num cenário dantesco e inimaginável num país europeu, o que fez a senhora ministra, além de não ir de férias? Que medidas tomou, tão ocupada andava, para evitar que o fogo, esse demónio voraz e inclemente, voltasse a matar?

António Costa, com muito mais eloquência e manha e, portanto, com muito menos vergonha, veio falar ao país. Para repetir ad nauseam que a tragédia vai continuar, habituem-se!, que isto demora décadas a resolver. Pelo caminho, deixemos de pedir, infantilmente, a cabeça da senhora ministra, coitada, que não é altura de demissões! Acabemos com a “obsessão” de que falhou alguma coisa! Não falhou coisa nenhuma! Ou talvez tenham falhado as “próprias comunidades” que têm que ser mais “proactivas” e “resilientes”…

Até quando vamos continuar a permitir a ignomínia? Se é para nos continuarem a enxovalhar e a desonrar as nossas vítimas e os nossos mortos, por que não se calam?

publicado às 09:57

(Ir)Responsabilidades...

por naomedeemouvidos, em 25.07.17

Há dias em que se torna particularmente penoso (ainda que só) passar os olhos pelas notícias. Parece que, momentaneamente (para alguns, o momento prolonga-se indefinidamente…), a razão, o sentido crítico (ou outro qualquer), a lucidez, a inteligência ou, tão somente, a competência, deixam de pairar sobre aqueles que têm a obrigação de, uns, governar, outros, informar.

O país continua suspenso das explicações (ir)responsáveis e mais ou menos manhosas acerca de dois acontecimentos recentes e difíceis de tolerar em democracia ou nos ditos países civilizados (parece a mesma coisa, mas não é bem): Pedrógão Grande e os seus mortos, que a todos deve envergonhar, e o assalto a Tancos.

Uma tragédia como a de Pedrogão Grande nunca deveria acontecer em país nenhum; mas nunca poderia ter acontecido num país como Portugal. Ainda sinto uma náusea profunda quando penso que alguém, no nosso país, pôde (pode?) perder a vida estupidamente encurralado numa estrada nacional, sob um calor infernal, pois de inferno se tratou em mais do que um sentido. A somar-se à tragédia, à morte gratuita - e, por isso, insuportável - e à dor daquelas famílias, junta-se a despudorada inabilidade do governo para encontrar respostas e soluções que sosseguem, que nos sosseguem, e que honrem a memória dos que perderam a vida de forma tão insana.

António Costa começou por achar por bem não adiar o seu mais que merecido descanso. Afinal, as férias já estavam marcadas e o primeiro-ministro esteve sempre contactado e contactável e, portanto, sempre a par dos acontecimentos. O problema é aquela velha máxima: em política, o que parece é e o que pareceu é que o primeiro-ministro não considerou que a dimensão e a gravidade da tragédia de Pedrogão fossem suficientes para não ir de férias.

Passados os banhos, agora não nos entendemos quanto ao número de mortos. Como se o facto de um só morto que fosse como resultado do completo desnorte que se viveu naquele fatídico fim de semana não fosse suficiente para inibir António Costa de afirmar que o governo não contabiliza os mortos. “A dimensão desta tragédia não se mede pela dimensão dos números.” Pois não. Mas a dimensão dos políticos, a dimensão dos Homens, mede-se pela capacidade de lidar com as tragédias, principalmente, com as de colossal e dolorosa dimensão. Bem sei que a ligeireza ou a (muito útil) descontextualização das palavras e afirmações encobrem, muitas vezes, a profundidade dos sentimentos e dos pesares, mas, lá está, em política…

Os dramáticos e irremediáveis fogos de verão têm destas coisas. Deixam-nos um pouco alienados. Hoje, na sic notícias, vejo um jornalista mostrar a gula impiedosa das chamas descontroladas junto a uma casa, em Mação; está tão próximo que diz sentir o fogo queimar-lhe as costas, fala de uma “segurança relativa nos próximos segundos” e reclama com o bombeiro que tenta afastar a equipa da sic do local: “estou em directo, não pode fazer isso, desculpe lá”. Antes, ainda tinha pedido ao operador de câmara para “entrar” e mostrar os bombeiros… Ensandecemos? Bem sei que, em circunstâncias extremas e por dever de profissão, há jornalistas que fintam a sorte e pisam o risco chegando mesmo a colocar em jogo as suas próprias vidas, mas será esta uma dessas situações?

Entretanto, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, o general Pina Monteiro foi ao Parlamento esclarecer qual do material roubado em Tancos é que, efectivamente, estaria seleccionado para ser abatido. Não era “todo” o material. Eram só os “lança-granadas foguetes” que “provavelmente não terão probabilidade de funcionar com eficácia.” Estamos todos muito mais descansados. Se não fosse tão grave, podíamos brincar às guerras, como o saudoso Raúl Solnado: "eles bombardeavam às segundas, quartas e sextas, e a gente bombardeava às terças, quintas e sábados". E lá vamos vivendo…

publicado às 15:53



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


Layout

Gaffe


Arquivo



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.