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Portugal numa conta de Instagram.

por naomedeemouvidos, em 07.11.19

Acontece-me frequentemente. Os mais incautos – impressionados pelo aparato da minha máquina fotográfica, mais as objectivas que mudo mais a torto do que a eito, mais os sacos, mais as bolsinhas para os cartões, mais os velhinhos rolos em que, por vezes, ainda me atrevo, e sabe-se lá mais o quê, que é como quem diz, tudo e mais algumas das coisas com que finjo que sou uma fotógrafa de mão cheia – lá se decidem, dizia, a pedir-me que lhes faça a fotografia da praxe, sem desconfiarem que, não raramente, quase nem sei mexer noutra máquina que não a minha. Quando não consigo esquivar-me, pois com certeza, lá tiro a bendita, o melhor que posso; mas, sempre que posso mais do que isso, passo a tarefa ao meu marido.

Não gosto de tirar fotografias por cortesia. Não por falta dela, mas porque, na maioria das vezes, não vejo o mesmo que os outros vêem. Nem sequer vejo o mesmo em dois momentos diferentes embasbacada ante o mesmíssimo cenário, e isso aflige-me quando a fotografia há-de pertencer a outros. Talvez por isso também, raramente me fotografo e raramente me fotografam (que eu me dê conta, pelo menos). Os instantes urgentes que preciso de resgatar são, essencialmente, paisagens, cenários, sejam eles a volúpia omnipresente da Natureza – na sua magnificente beleza ou avassaladora desgraça –, a fachada de um prédio, os detalhes de um museu ou de uma igreja, o leito prateado de um  rio, ou a exuberância do céu, azul de luz quieta ou estrelado, que se ergue sobre mim. Raramente, muito raramente, edito as minhas fotografias e, quando o faço, é, quase sempre para aligeirar um ângulo que, no momento do disparo, salvo-seja, não pôde ser corrigido. Não altero cores, nem definição, nem sabe-se lá mais o tanto que se pode fazer, aparentemente, com o mínimo de competência em Photoshop e outras aplicações do género, e não disponho de nenhuma das coisas. Preciso que o meu registo seja o mais fiel possível ao que vejo. Ao que vi. Sem adulteração dos meus sentidos.

 

Vem isto a propósito de várias notícias que tenho lido sobre guerras de Instagram. Fotografias magníficas que não passam, afinal, de fraudes embelezadas, conspurcadas, por uma necessidade estapafúrdia de fingir uma beleza perfeita e inquinada que não existe para além daquela indigente mentira, a troco de mais uma ronda de seguidores, laiques e chiliques em delírios assolapados e, nalguns casos, dinheiro em caixa, em conta, nas contas que engordam à conta das coisas que não deveriam contar para nada e contam para quase tudo. Como a camisola de 700 euros PaddyCosgrave-like que esgotou como pão para famintos, ou os bilhetes a 1500 euros cujo exemplo o advogado de Julian Assange usou para esbofetear o brilho tosco da feira anfitriã mais a sua ampla plebeia. Ou plateia, ou lá o que é. Era. E tudo isto, por sua vez, vem a propósito da outra coisa que aqui me traz.

A Web Summit está para Portugal como o pedaço de vidro sob o iphone está para o lago no Templo Lempuyang: não existe. São dois truques. Não direi baratos porque, pelo menos, num caso, não é o caso, de todo. Como os influencers fingem o espelho de água junto aos Portões do Céu em Bali, o ávido deleite do pequeno-almoço que ninguém prova ou a exuberância do céu repleto de balões na Cappadocia, a nossa pequena República finge-se sofisticada, próspera, eventualmente, tecnológica. Serve apenas aquela janela minúscula de oportunidade com que muitos sonham e outros fingem (e os restantes, dizem, invejam com indisfarçável desdém). Quando desviamos os olhos, quando afastamos a câmara, quando a feira acaba, a pobreza descarada continua. Nos milhares de pobres que ainda temos, nos hospitais  obrigados a encerrar por turnos, nos números vergonhosos das mortes por violência doméstica, nos bebés abandonados em caixotes do lixo. De desventura em desventura, escondida e, no entanto, ali mesmo à vista, cultivada e consentida, até ao limite da indignidade.

publicado às 18:47

Portugal não é racista, pois...é?

por naomedeemouvidos, em 29.01.19

   

"Nem sinais de negro,

nem vestígios de ódio.

Água (quase tudo)

e cloreto de sódio."

Em "Lágrima de Preta", António Gedeão

 

    Há uns tempos, acabava de fazer as compras da semana e encaminhava-me para o carro, empurrando o carrinho de compras, à conversa com o meu filho, como acontece frequentemente. Ambos falamos “pelos cotovelos”, como se diz. Como de tantas outras vezes, cruzámo-nos com os funcionários que se encarregam de recolher os carrinhos de compras para os recolocar nos devidos lugares, para serviço e conforto de quem os utiliza. Mas, ao contrário de outros dias, naquele, o meu filho sossegou a conversa que trazia e perguntou-me, “mamã, porque é que os senhores que arrumam os carrinhos são todos negros?”

    A pergunta sobre se Portugal é ou não é um país racista é recorrente, não está esgotada, muito menos, desactualizada, e não parece de fácil resposta. Basta ver os textos que já se escreveram sob esse título, desde os confrontos no bairro da Jamaica, que, suponho, a maioria dos portugueses nem sabia onde ficava, o que era e como era. Eu cresci num bairro social. Vivi lá mais de metade da minha vida. Comparado com o da Jamaica (parece que é ilegal e, esse, é outro problema) o meu bairro é um condomínio de luxo. Ao contrário do que pensam muitos dos que não conhecem a vida nos bairros sociais, a gente de bairro não é uma amálgama de ignorância, preguiçosa, contagiosa, mal-criadona, que vive à custa de rendimentos sociais e outros apêndices que tais. Também não vale a pena explicar muito o que é ser gente de bairro, pelo simples motivo que não merecem o tempo que se perde com isso aqueles que já formaram o seu juízo. O preconceito não se esgota no tom de pele.

    Mas, Portugal é ou não é um país racista? Não sei responder. Suponho que se olharmos para outros, a resposta será um rotundo e inquestionável não! Se olharmos para aqueles que arrumam carrinhos de compras, limpam escadas e apartamentos chiques, ou menos chiques, para a evidente ausência (porque o número é residual) de negros (porque, maioritariamente, desses se fala por estes dias) em tudo o que são profissões mais visíveis, como jornalistas, professores, funcionários bancários, médicos, políticos, etc, etc, etc, é possível que a resposta não possa deixar de ser sim, se calhar, somos um país racista.

    É importante, no entanto, não confundir o que é, ou devia ser, inconfundível. Não comparar o incomparável. Caiu-se no histerismo acéfalo habitual – a que não consigo habituar-me. Se gritássemos menos e falássemos mais, conversássemos mais, nos ouvíssemos mais, ganhávamos todos mais. Muito mais. Vamos classificar como racismo toda a acção que se tome contra um negro? Porque é negro? Um polícia que abusa da sua autoridade contra um branco é violento. Um polícia que abusa da sua autoridade contra um negro é violento e racista. É isso? E uma jornalista que pergunta a uma rapariga negra, com quem conversa em português fluente, numa manifestação em Portugal, onde a rapariga vive, “a menina é portuguesa”, é só estúpida? A mim, é capaz de me parecer mais racista do que o brutamontes do polícia.

    É verdade que muitos dos que se dizem vítimas de racismo não têm qualquer interesse em deixar cair o estatuto. A cretinice não tem cor ou credo, tem sentido de oportunidade. Veja-se o nosso oprimidíssimo primeiro-ministro.

    Não sou racista, mas…não sei se houve racismo no bairro da Jamaica. Estou convencida de que houve violência policial. É-me indiferente se os polícias foram recebidos à pedrada. Os agentes de segurança são treinados para suportar afrontas e tentativas de humilhação e confronto. Foi assim, aliás, que aguentaram a manifestação de 14 de Novembro de 2012: duas horas, mais coisa menos coisa, impávidos e mais ou menos serenos a serem agredidos com pedras arrancadas da calçada. Quando, finalmente, reagiram, também foram criticados, é verdade. O que só vem reforçar a necessidade de não tratar coisas sérias de forma leviana e estridente.

    Não sou racista, mas…sei que há racismo, do mais reles e sabujo, quando alguns – inclusive, polícias – enchem páginas desse maravilhoso mundo que dá pelo nome de redes sociais com insultos racistas, destilando ódio contra a diferença, muitas vezes, impunemente e sempre, mas sempre!, de forma cobarde e infame. E pobre. Daquela pobreza que enoja e que, quando existe, não é exclusiva nem da cor, nem dos bairros sociais.

 

    Entretanto, vou tentando explicar ao meu filho, a cada dia, o melhor que posso e que sei, por que é que são negros todos os que arrumam carrinhos de supermercado.

publicado às 11:48

Desacordos Ortográficos, the never ending story

por naomedeemouvidos, em 27.07.17

Sou assumidamente, e apesar da minha profissão (felizmente, não sou professora de português…) contra este “acordo ortográfico”, que de acordo tem muito pouco, como é gritantemente evidente. Já vi e revi todos os argumentos a favor da “evolução” da língua, porque, antigamente, “farmácia” também se escrevia com “ph”, blá, blá, blá. Até já vi (ou melhor, li) alguém defender que agora temos, finalmente e como consequência do dito acordo, dois vocabulários actualizados que “não nos envergonham” na “comparação com o Brasil”! Confesso que fiquei pasmada com este, mas deve ser ignorância minha, com certeza, já que a minha falta de vergonha, pelos vistos, nunca me fez sentir complexada em relação ao Brasil, muito menos no que se refere à língua portuguesa. Sou mesmo parva!

Nem de propósito, acabo de ler, no jornal Público, um artigo interessantíssimo de Nuno Pacheco. O jornalista reuniu algumas palavras (daqueles conjuntos mais problemáticos, das chamadas consoantes mudas mas, pelos vistos, nem tanto…) e fez o seguinte (e imagino até que penoso) exercício: comparou a escrita daquelas palavras no Brasil e em Portugal, após a aplicação do AO. Resultado? Os brasileiros continuam a ter um serviço de recepção, mas nós passámos a rececionar. Os brasileiros ainda se deleitam a conceptualizar, mas nós optámos por uma insípida conceção, apesar de permanecermos unidos pela conceptibilidade. No Brasil, ainda se fazem estrondosas rupturas, mas em Portugal a mesma ruptilidade, empurrou-nos para uma mais suave e menos(?) conflituosa rutura. Em Portugal e no Brasil, a facticidade do acordo não deixou que os brasileiros dispensassem o fato, mas deixou aos portugueses, ainda assim, a possibilidade de escolher o facto…  

Como se vê, agora que escrevemos todos da mesma maneira, já não precisamos de nos sentir envergonhados...

No seu artigo, Nuno Pacheco incita-nos ainda a procurar mais exemplos, que diz poderem multiplicar-se à exaustão. Ainda não o fiz, com receio de que este tema me deprima ainda mais.

Vergonha, vergonha, tenho eu actualmente pelo que fizemos à nossa língua. Ninguém parece entender-se bem quanto às novas grafias e basta prestar atenção aos rodapés das notícias ou às legendas dos filmes que passam na televisão para sermos acometidos de um ataque de nervos…

PS: link do artigo do Nuno Pacheco

https://www.publico.pt/2017/07/27/culturaipsilon/noticia/danca-com-letras-nas-modas-de-ca-e-la-1780259

publicado às 13:21



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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