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Portugal é um encanto.

por naomedeemouvidos, em 10.05.19

Às vezes, seguir a actualidade deste pequeno país é impróprio para manter alguma decência nas opiniões que formamos, ou tentamos formar. 

 

O dia mal tinha começado e já eu tinha ouvido a escabrosa notícia que a Sarin denunciava lá no seu burgo (como ela diz): SIRESP ameaça desligar satélites este verão. Em causa, uma dívida do Estado que dura há "quase um ano". Não consigo traduzir por palavras a indignação, a repulsa, que esta notícia me provoca. Ou melhor. Até conseguiria, mas a equipa da Sapo talvez me bloqueasse a página, por conteúdos obscenos.

 

Entretanto, Joe Berardo, esse senhor que fizeram comendador, a braços com dívidas milionárias à banca que resgatamos continuamente com os nossos impostos, veio dizer que, "pessoalmente", não tem "dívidas nenhumas", pelo contrário, até tentou "ajudar a situação dos bancos". Estamos todos tão gratos! Já o senhor Salgado se queixou, no outro dia, que "aplicam coimas de milhões como se fossem bagatelas". Imagine-se. Esses irresponsáveis... Talvez seja mais isto que impede o senhor de, dormir sim, mas não totalmente descansado. Para compensar, e sossegar os contribuintes, suponho, alguns banqueiros vieram defender que devíamos começar a pagar mais umas comissões, desta feita, pela utilização dos serviços Multibanco...faz-se (mais ou menos) assim no resto da Europa e, como se sabe, estamos sempre prontos a importar tudo de bom, principalmente do bom, que se faz no estrangeiro. Somos tão bons alunos!

 

E, por falar nisso. No Parlamento, diz António Costa que ganhou a "responsabilidade", na sequência do chumbo da proposta da reposição do tempo dos professores. O primeiro-ministro não se demite, o senhor Nogueira, afinal, nem se demite da FENPROF, nem abandona o PCP, mas promete luta até ao fim, de modo que, já se imagina como pode (não) acabar este ano lectivo. Mais um. Enquanto faltar a coragem para pensar a carreira profissional dos professores (eventualmente, outras da função pública), pelo menos, pais, alunos e professores vivem reféns do circo habitual.

 

Não sei em que ponto estão as restantes greves, ou ameaças. De momento, não me apetece ler mais nada.

publicado às 18:34

"Eu nem deputado sou."

por naomedeemouvidos, em 08.05.19

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O Dr. Rui Rio deve ter-se esquecido de que, além de ser um homem comum, rigoroso e sério (apesar de alguns percalços, acredito que sim), por acaso, economista, austero, que, de vez em quando, faz uma espécie de piadas em alemão, também é líder do PSD. Pode não ser deputado, pode não ter estado naquela comissão incómoda e fora de horas, pode não ter votado o documento que ele, e só ele, jura que não votou ninguém. Mas Rui Rio é L-Í-D-E-R do PSD. E, quando altos responsáveis do PSD (como noutro qualquer partido que quer ser levado a sério) falam, o povo, mesmo que aquietado pela brandura dos costumes, acredita que falam pelas posições defendidas pelo seu partido. Se o líder acha que houve uma decisão precipitada dos seus pares, corrija-a com rigor, decência e humildade, ou, demita-se, caso a afronta seja demasiado para o seu bom nome e reputação grave, impecável – que é exactamente o que dói a Rui Rio, em tudo isto. Mas, por favor, não nos faça de parvos; não pretenda continuar a fazer-nos a todos de parvos.

publicado às 12:23

Orgias existenciais.

por naomedeemouvidos, em 06.05.19

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Há momentos na política que dão dó. Assim, para usar uma linguagem suave, que os últimos dias foram fartos em obscenidades impróprias para gente que se quer séria. Ninguém sai bem na fotografia; todas as poses são miseráveis.

António Costa é o político que todos sabem, com excepção, pelos vistos, dos altos responsáveis do CDS e do PSD. Se o primeiro é uma raposa matreira, Assunção Cristas e Rui Rio foram de uma ingenuidade – vamos, também, chamar assim – deplorável.

Fazer a vontade a Mário Nogueira ia custar zero cêntimos aos cobres do Estado, de momento, mais à frente, logo se veria, à boa maneira portuguesa, com certeza. Como, afinal, não era bem o caso, Assunção Cristas engasgou-se e Rui Rio enfureceu-se. Cristas precisou de quatro ou cinco intervenções para explicar que a posição do CDS era clarinha como água e Rio, menos descabelado, veio dizer que o texto que não conhecia, afinal, também não tinha sido aprovado, ou, pelo menos, não por ele, apesar das declarações orgulhosas de Margarida Mano na passada quinta-feira. Viveram-se momentos irrevogáveis...

 

Entretanto, Mário Nogueira veio lembrar que “que os professores são um grupo extremamente importante neste país, sobretudo quando se trata de eleições”. O país sabe, Sr. Nogueira. Se dúvidas houvesse, ter-se-iam dissipado completamente nestes três últimos dias. 

 

No meio de tanta afronta despudorada e imbecil, não sei como será possível a estes protagonistas entenderem-se daqui para a frente. De forma a serem levados minimamente a sério, quero dizer.

publicado às 08:37

E é isto, basicamente. Desconfio que aconteceu aos (ir)responsáveis do PSD e  do CDS o mesmo que (dizem) aos britânicos que votaram a favor do Brexit: quando se aperceberam da cilada - dois ou três segundos depois - já era demasiado tarde.

 

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A esta hora (é preciso dar algum descanso à assimilação da loucura), não sei se os piquetes de serviço já se entenderam quanto ao texto que aprovaram, mas que, aparentemente, ainda era só um rascunho. É reconfortante perceber que o País está bem entregue. Dizem que temos os políticos que merecemos. Eu acho que, talvez, não merecêssemos tanto.

publicado às 13:51

Viver atropelando possibilidades.

por naomedeemouvidos, em 03.05.19

  

Possibilidades de encontrar a vontade e, sobretudo, a seriedade para construir o mais básico entendimento que leve a cabo as reformas tão necessárias, urgentíssimas!, para governar Portugal. Governar um país, um Povo, não governar-se a si mesmo, ludibriar, conspurcar, atropelar qualquer réstia de bom senso, ou, mesmo vergonha. Já não falo de sentido de Estado, que se perdeu algures, nos entreténs das acusações que oscilam entre o insulto pessoal e as metáforas ditadas pelo instantâneo mais viral do momento.

 

O último atropelo aconteceu ontem, na Assembleia da República. Gente que nunca consegue entender-se no fundamental para o país, uniu-se à causa dessa mascote que dá pelo nome de Mário Nogueira. Afinal, um roubo é sempre um roubo, como uma indecência é sempre uma indecência. Eu teria vergonha de me deixar representar por este senhor. Porque, como é evidente, ontem, o Parlamento não se uniu em torno dos professores; muito menos, em benefício da sua luta.

publicado às 12:20

Do direito à greve ao dever de decoro.

por naomedeemouvidos, em 14.02.19

     

greve 2.PNG

aqui

      Há greves indecorosas. A dos enfermeiros, com recurso a crowdfunding, e a que um leviano e desbocado Mário Nogueira ameaça fazer em nome dos professores (será de alguns) são dois exemplos desse tipo de greves que deveriam envergonhar os profissionais sérios que dizem representar.

    Já muito se disse sobre estas duas greves em particular. E, sim, já sabemos que, quando se faz greve, alguém deve sair prejudicado, pois, de outro modo, torna-se difícil fazer ceder a outra parte. O que repugna é o total desprezo pelas consequências perversas que algumas greves imprimem à vida das pessoas que dependem directamente desses serviços em greve. Os enfermeiros grevistas acham aceitável que como consequência da sua greve – que, com o engenhoso esquema que engendraram de angariação de dinheiro (por muito legal que seja), podem prolongar ad eternum – milhares de cirurgia (só para usar um exemplo) sejam adiadas. Culpa-se o Governo, por intransigente, e mantém-se a consciência tranquila, porque a culpa do outro é maior que a minha. Os professores representados por Mário Nogueira acham aceitável suspender as avaliações de um ano lectivo inteiro e deixar alunos de 12º ano sem aulas no terceiro período. Mais uma vez, a culpa é do Governo, portanto, também nada pesará na consciência dos grevistas: "Há uma forma de evitar um final dramático de ano letivo que é o de o Governo negociar esta matéria, como está obrigado por lei, ainda no 2.º período. Se o fizer penso que o ano pode estar salvo". E, a negociação de que fala Mário Nogueira é a recuperação, sem qualquer reserva, dos nove anos, quatro meses e dois dias de tempo de serviço. O custo dessa espécie de slogan, é indiferente e marginal.

    Vamos por partes. O argumento dos professores é, à partida, uma daquelas verdades evidentes: têm tanto direito como os outros trabalhadores da administração pública de ver contabilizado integralmente o seu tempo de serviço e de progredir por antiguidade, independentemente do mérito. Só isto, deveria chegar para mostrar algum pudor, senão no teor das reivindicações, pelo menos, na forma. Quantos dos funcionários não-públicos sobem na carreira por antiguidade? Quantos são promovidos automaticamente? Quantos têm garantia de emprego para a vida, mesmo que alguns se revelem os maiores incompetentes? Porque há funcionários públicos incompetentes, inclusive professores, como há profissionais incompetentes em qualquer área, não advém daí qualquer afronta à classe. Como há professores excelentes que nunca vêem o seu mérito reconhecido, no que à carreira diz respeito, sem ter que esperar, com sorte, por esse admirável estatuto que é a idade profissional (se o professor calha em ser vaidoso, nem isso lhe vale). Nenhum professor medíocre ou incompetente deixa de progredir na carreira, como nenhum professor contratado competente pode, só por isso – que deveria ser o factor diferenciador – ficar colocado à frente de outro completamente inepto, mas, claro, com mais tempo de serviço. Mas, isto não incomoda o senhor Mário Nogueira e seus discípulos, porque, como se sabe, todos os professores são “Bons”. Só não são todos “Muito Bons” e “Excelentes” porque há um problema qualquer com as quotas; parece que não chegam. A qualidade dos professores não é indiscutível, como aquele se esforça por garantir a gritos. Só o chegará a ser, verdadeiramente indiscutível, quando houver promoção e progressão de carreira por mérito. Até lá, os professores – como todos os funcionários públicos – são uma classe privilegiada. É um facto, não necessariamente um drama; isso vem depois, associado ao abuso.

    A questão que aqui me traz não tem a ver, no entanto, com os privilégios em si mesmos. Eu também já fui funcionária pública, também já fui professora e, os que me conhecem sabem que sempre pensei exactamente o mesmo, em relação à carreira e às greves; aliás, nunca participei em nenhuma. A questão é saber se é legítimo, para quem nunca sofre as consequências das crises da mesma maneira que o sector privado, se é legítimo, dizia, fazer greve a qualquer custo (há quem questione o fazer greve, sequer), ameaçar com medidas que comprometem brutalmente a vida académica dos alunos. Dos alunos do ensino público, claro, os do ensino privado continuam a poder usufruir da tranquilidade e do privilégio de um corpo docente estável e alheio a greves.

    Disse Mário Nogueira: "Porque o ano letivo termina e a legislatura acaba. Tudo está em cima da mesa. É o que for necessário porque este governo não se pode ir embora e deixar a casa desarrumada tal como a tem neste momento". Fica o recado.

publicado às 08:00

Excelência e autonomia.

por naomedeemouvidos, em 05.11.18

    Os professores continuam em greve pelos 9 anos, 4 meses e 2 dias que o governo lhes quer roubar. Quando a frustração cresce, o nível da linguagem baixa e esse facto parece ser independente do nível de escolaridade. Os professores, e a sua luta, seriam mais bem-vistos se trocassem o Mário Nogueira, seguramente.

   A greve é um direito que assiste a todos ou a quase todos. E eu já trabalhei como professora contratada em várias escolas públicas. Conheço bem as razões dos professores e, melhor ainda, a falta dela em muitos casos. Enquanto professora contratada, nunca fiz greve e, quando me cansei do que a escola (não) tinha para me oferecer, saí. Comecei a trabalhar por conta própria, dando aulas particulares nas três áreas em que os alunos são instruídos, desde cedo, para não perceberem nada: matemática, física e química. Qualquer um destes temas, aparentemente, só está ao alcance de génios e é este o espírito, mesmo entre grande parte da classe docente. Não se ensina a pensar, porque, isso dá muito trabalho e não dá para cumprir programas. O melhor é impingir fórmulas, desde pequeninos, de preferência em duas ou mais variantes, porque os miúdos, coitados, não têm capacidade para perceber como é que se passa de umas para as outras. Os professores (os bons; para os maus, é indiferente), esgotados e desanimados, fazem o que podem com entusiasmo nulo, porque é arrasador estar constantemente a lutar contra a maré, mesmo para os que estão cheios de boa-vontade.

    Eu optei por abdicar do ensino normal. Paguei o meu preço, ganhando em estabilidade e autonomia o que perdi com a partilha das dificuldades e com o estimulante desafio, renovado a cada ano, de conquistar a atenção de grupos de adolescentes rebeldes q.b. Encontro outros desafios, não seleccionando, por exemplo, os meus explicandos por notas, mas a escola, é a escola. Não me arrependo; fiz uma escolha.

    A minha irmã ainda não desistiu. Apesar de 14 anos, muitos meses e muitos dias de serviço, continua refém de um sistema que trata os excelentes e os medíocres da mesma forma. Por que não se faz greve pela promoção de um sistema que expulse, sem dó nem piedade, os maus professores? E há maus professores, como há maus médicos, como há maus engenheiros, como há maus carpinteiros, como há maus empregados de limpeza, etc, etc, etc. Mas, as escolas públicas não têm autonomia para escolher os melhores, porque isso implicaria contratar um excelente professor com 9 anos de serviço em detrimento de um professor medíocre com 9 anos, 4 meses e 2 dias de serviço, e isso é, obviamente, inadmissível, não é? A antiguidade sobrepõe-se à competência, independentemente do mérito de cada uma.

    Daqui por dois dias, a minha irmã acabará o (mais um) contrato temporário a que teve direito desde Setembro passado. Mais uma vez, vai ficar à espera que algum colega liberte um horário que ela possa aceitar.

   A minha irmã – e muitos outros professores que conheci! – faz parte dos bons professores. Digo-o sem falsas modéstias. Faz parte daqueles professores substitutos a quem, muitas vezes, os miúdos dedicam abaixo-assinados pela manutenção na escola. Comigo também chegou a acontecer, mas, no meu caso, tem algo de batota. Eu leccionava físico-química e é difícil ser um mau professor de físico-química: uma vez, numa turma complicada, fiz explodir (uma mini-explosão, entenda-se) um pequeno pedaço de sódio no laboratório e tive os miúdos entusiasmados o ano inteiro. Mas, a minha irmã lecciona filosofia. Filosofia! Quando já pouca gente entende a utilidade da filosofia, como é que se consegue manter o interesse de uma turma, a ponto de se fazerem abaixo-assinados? Deve ser porque se é bom professor. Os miúdos são os melhores avaliadores do trabalho dos professores, e não tem nada a ver com notas.

    As escolas estão cheias de bons professores que não podem fazer mais, nem dar mais. Não devia haver solidariedade para quem não tem o brio profissional, muitas vezes, nem a competência necessária, prejudicando a aprendizagem dos alunos e, assim, comprometendo o seu sucesso académico. E se os professores fizessem greves pela promoção do mérito e da autonomia das escolas?

publicado às 11:46


“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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