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(In)Continências.

por naomedeemouvidos, em 02.06.19

“Os polícias têm uma obrigação diferente: têm que tratar os cidadãos por igual e o preconceito vai redimensionar a nossa capacidade humana, acaba por nos condicionar. Tenho obrigação de ter um comportamento linear com todo o cidadão, o nosso juramento é nesse sentido. Se explicar isto a um polícia ele não entende”.

 

A sentença acima é de Manuel Morais, agente da polícia e, agora, ex-dirigente sindical por exigência dos alguns dos seus colegas de profissão que o acusam de uma espécie de traição à classe. “Não aceito ter na direcção do sindicato mais representativo da PSP nem aceito poder ser representado perante qualquer outra instituição por um elemento que revela total desconhecimento da honestidade humana e policial dos seus pares”, parece que é parte do texto que consta da petição que exigiu a sua saída da Associação Sindical de Profissionais de Polícia (ASPP).

 

Manuel Morais também é antropólogo e o seu nome não era totalmente desconhecido, pelo menos, para quem ainda lê jornais. A sua tese de mestrado sobre policiamento “em zonas urbanas sensíveis” já tinha sido notícia e já tinha causado desconforto entre os tais pares. Agora, com a condenação de alguns dos polícias envolvidos nas agressões daqueles jovens da Cova da Moura, houve quem não gostasse de ouvir, novamente, Manuel Morais falar de preconceito racial entre agentes da PSP.

 

Não sei se há ou não há um problema de preconceito racial entre elementos das nossas forças de segurança. O que não é o mesmo que dizer que não sei se há ou não polícias, ou outros agentes de autoridade, racistas. Há, seguramente, porque o preconceito, seja de que tipo for, não se pode abolir por decreto, nem entre os pares nem fora deles. A sociedade há-de ser sempre imperfeita. Podemos – devemos! – lutar contra todas as formas de abuso, mas não creio que a Humanidade consiga livrar-se do pecado de julgar o outro sumariamente com base na sua diferença aparente.

 

“Se explicar isto a um polícia ele não entende”, sendo isto a obrigação que a um polícia - e a outros agentes da autoridade - se exige, a de pautar a sua conduta por códigos mais elevados, irrepreensíveis, igual para qualquer cidadão. Parece que o próprio Manuel Morais tropeça nesse juízo generalizado e peçonhento que teima em pegar-se à pele até dos mais justos. Não serão todos, os polícias que não entendem a superioridade dos seus deveres. Mas, depois, vêmos um vídeo, publicado pelos próprios, em que dois militares da GNR gritam a uma mulher que lhes faça continência, prosseguindo em interlúdios jocosos, à sombrinha da cadeirinha, à-vontade, mas, não à-vontadinha, e sentimos uma onda de vergonha pelo indecoroso comportamento de, pelo menos, alguns daqueles que têm a tal obrigação de cumprir o seu dever com brio e dever de honra. Não são bem polícias, é verdade, mas, para a desfaçatez mariola, importa pouco, infelizmente. 

A mulher do vídeo é uma prostituta, pois claro, a piadinha é sempre mais fácil com quem parece mais humilde, mais pobre, mais desprotegido.

Os militares da GNR, esses, serão “transferidos preventivamente para o Comando da Unidade, em Faro, para o desempenho de funções que não implicam o contacto com o cidadão”. Nada de novo. A não ser, que não se ouviu falar de memoriais assinados pelos pares, dando conta do insuportável infortúnio que é deixar-se representar por militarzinhos brincalhões e muito pouco zelosos da farda que vestem.

 

Já por aqui disse que gosto de ver o "Governo Sombra". Prezo, especialmente, o humor inteligente de Ricardo Araújo Pereira e a lucidez de pensamento de Pedro Mexia, ainda que discorde dele muitas vezes. Foi pena que a crítica ao imbecil episódio da continência - acto, em si mesmo, quase menos grave do que o todo - se focasse mais na idiotice de serem os próprios agentes a filmar e a publicar o vídeo, do que na miserabilidade do acto. Se calhar, será suficiente apontar, apenas, a estupidez. E, claro, ensaiar mais umas quantas piadas.

Pelo menos, que não venham a repetir-se as graças por quem tem obrigação de ser sério.

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publicado às 20:42

Portugal não é racista, pois...é?

por naomedeemouvidos, em 29.01.19

   

"Nem sinais de negro,

nem vestígios de ódio.

Água (quase tudo)

e cloreto de sódio."

Em "Lágrima de Preta", António Gedeão

 

    Há uns tempos, acabava de fazer as compras da semana e encaminhava-me para o carro, empurrando o carrinho de compras, à conversa com o meu filho, como acontece frequentemente. Ambos falamos “pelos cotovelos”, como se diz. Como de tantas outras vezes, cruzámo-nos com os funcionários que se encarregam de recolher os carrinhos de compras para os recolocar nos devidos lugares, para serviço e conforto de quem os utiliza. Mas, ao contrário de outros dias, naquele, o meu filho sossegou a conversa que trazia e perguntou-me, “mamã, porque é que os senhores que arrumam os carrinhos são todos negros?”

    A pergunta sobre se Portugal é ou não é um país racista é recorrente, não está esgotada, muito menos, desactualizada, e não parece de fácil resposta. Basta ver os textos que já se escreveram sob esse título, desde os confrontos no bairro da Jamaica, que, suponho, a maioria dos portugueses nem sabia onde ficava, o que era e como era. Eu cresci num bairro social. Vivi lá mais de metade da minha vida. Comparado com o da Jamaica (parece que é ilegal e, esse, é outro problema) o meu bairro é um condomínio de luxo. Ao contrário do que pensam muitos dos que não conhecem a vida nos bairros sociais, a gente de bairro não é uma amálgama de ignorância, preguiçosa, contagiosa, mal-criadona, que vive à custa de rendimentos sociais e outros apêndices que tais. Também não vale a pena explicar muito o que é ser gente de bairro, pelo simples motivo que não merecem o tempo que se perde com isso aqueles que já formaram o seu juízo. O preconceito não se esgota no tom de pele.

    Mas, Portugal é ou não é um país racista? Não sei responder. Suponho que se olharmos para outros, a resposta será um rotundo e inquestionável não! Se olharmos para aqueles que arrumam carrinhos de compras, limpam escadas e apartamentos chiques, ou menos chiques, para a evidente ausência (porque o número é residual) de negros (porque, maioritariamente, desses se fala por estes dias) em tudo o que são profissões mais visíveis, como jornalistas, professores, funcionários bancários, médicos, políticos, etc, etc, etc, é possível que a resposta não possa deixar de ser sim, se calhar, somos um país racista.

    É importante, no entanto, não confundir o que é, ou devia ser, inconfundível. Não comparar o incomparável. Caiu-se no histerismo acéfalo habitual – a que não consigo habituar-me. Se gritássemos menos e falássemos mais, conversássemos mais, nos ouvíssemos mais, ganhávamos todos mais. Muito mais. Vamos classificar como racismo toda a acção que se tome contra um negro? Porque é negro? Um polícia que abusa da sua autoridade contra um branco é violento. Um polícia que abusa da sua autoridade contra um negro é violento e racista. É isso? E uma jornalista que pergunta a uma rapariga negra, com quem conversa em português fluente, numa manifestação em Portugal, onde a rapariga vive, “a menina é portuguesa”, é só estúpida? A mim, é capaz de me parecer mais racista do que o brutamontes do polícia.

    É verdade que muitos dos que se dizem vítimas de racismo não têm qualquer interesse em deixar cair o estatuto. A cretinice não tem cor ou credo, tem sentido de oportunidade. Veja-se o nosso oprimidíssimo primeiro-ministro.

    Não sou racista, mas…não sei se houve racismo no bairro da Jamaica. Estou convencida de que houve violência policial. É-me indiferente se os polícias foram recebidos à pedrada. Os agentes de segurança são treinados para suportar afrontas e tentativas de humilhação e confronto. Foi assim, aliás, que aguentaram a manifestação de 14 de Novembro de 2012: duas horas, mais coisa menos coisa, impávidos e mais ou menos serenos a serem agredidos com pedras arrancadas da calçada. Quando, finalmente, reagiram, também foram criticados, é verdade. O que só vem reforçar a necessidade de não tratar coisas sérias de forma leviana e estridente.

    Não sou racista, mas…sei que há racismo, do mais reles e sabujo, quando alguns – inclusive, polícias – enchem páginas desse maravilhoso mundo que dá pelo nome de redes sociais com insultos racistas, destilando ódio contra a diferença, muitas vezes, impunemente e sempre, mas sempre!, de forma cobarde e infame. E pobre. Daquela pobreza que enoja e que, quando existe, não é exclusiva nem da cor, nem dos bairros sociais.

 

    Entretanto, vou tentando explicar ao meu filho, a cada dia, o melhor que posso e que sei, por que é que são negros todos os que arrumam carrinhos de supermercado.

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publicado às 11:48

    A utilização de redes sociais deveria vir acompanhada de um aviso do género: o uso não ponderado pode provocar acessos de cretinice aguda, eventualmente, crónica. Por exemplo. E com bolinha vermelha, a piscar, frenética, num canto qualquer do écran. Podia ser que, assim, se evitasse que pessoas que ocupam cargos de responsabilidade se portassem como imbecis, para usar uma linguagem simpática.

    Os últimos dias foram férteis em imbecilidades. Mais do que o normal. Do tipo das que não ajudam nada à resolução dos problemas mais sérios e mais graves que as despoletam. Pelo contrário. Na sequência de um episódio dramático de confronto entre polícias e moradores – cujos contornos devem continuar a discutir-se – de um bairro social de condições tão miseráveis que nos envergonha a todos (ou deveria), alguns interventores da vida política não souberam estar à altura dos cargos que exercem (tem acontecido bastante). Preferiram o insulto, o abuso despudorado e hipócrita e a chalaça rasteira e brejeira.

    O primeiro foi Mamadou Ba. Num acesso de indignação, eventualmente, sentida e justa, o assessor do Bloco de Esquerda usou do insulto para se referir a agentes da polícia, a quem chamou bosta da bófia. Admite-se que não se referia a todos, à classe, o que seja. O direito à crítica, à indignação, à revolta, não é livre-trânsito para a prática da injúria que se não admite ao outro. Não se trata de dar a outra face, como um santo de pés de barro. Trata-se de não perder o poder, irrepreensível, de criticar e exigir.

    A seguir, agentes da PSP, daqueles que envergonham a farda, encheram páginas no Facebook com mensagens de ódio e ameaças, apostados em "meter na linha" esses "vermes" e "javardas", "porcos", que deviam era levar um "tiro no centro da testa".

    Depois, António Costa. É verdade, aqui não foi numa rede social. Foi na Assembleia da República, o que ainda é mais grave. O primeiro-ministro perdeu (mais uma vez) as estribeiras com Assunção Cristas, que tem o dom de retirar, àquele homem, qualquer réstia de ponderação e bom-senso. Resolveu, por isso, o primeiro-ministro, usar o truque da cor da pele, pasme-se!, para se insurgir contra a pergunta da sua interlocutora sobre se condenava ou não os incidentes no Bairro da Jamaica. Uma espécie de momento Serena Williams (como o classificou Ricardo Araújo Pereira no seu novo programa de televisão, embora eu própria já o tivesse pensado, até porque bastante fácil), completamente despropositado e bastante absurdo. Indecoroso.

    Finalmente, last but not least, de todo, tal é o despautério, João Moura, deputado do PSD, resolveu usar da graçola para criticar o pedido de protecção policial por parte de Mamadou Ba. Por considerar, provavelmente, incoerente que alguém que destratou a polícia venha, agora, solicitar-lhe abrigo, João Moura teve um momento de exaltação poética e resolveu dedicar a Mamadou Ba um post à altura da epifania: “Ó Mamadou e se fosses ba(rdamerda)!”. Que elegância, não haja dúvidas. Para não falar da inteligência que se impõe sempre, e expressivamente, nestas circunstâncias. Posteriormente, João Moura apagou a piada, como, também, é costume fazerem os castos.

 

    Uma última nota. Mamadou Ba foi imprudente, imbecil e até injusto, porque, acredito, a maioria dos nossos agentes de segurança são gente competente e justa. Nada justifica que dois energúmenos o tenham seguido, intimidado e filmado o acto idiota, para gáudio dos da sua laia.

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publicado às 07:30

Não sou racista, mas...

por naomedeemouvidos, em 13.07.17

Dezoito agentes da PSP foram formalmente acusados, pelo Ministério Público, de violência sobre alguns jovens negros.

Como habitualmente, a comunicação social não tem dado tréguas e, entre debates, opiniões públicas, entrevistas e análises, temos ouvido de tudo um pouco.

O cerne da questão, além da notícia em si (inédita), parece ter que ver com dois aspectos:

  1. estes (e sublinho “estes”) elementos da PSP excederam-se ou não na “reposição da ordem pública” e
  2. actuaram ou não com base em preconceitos racistas.

E isto admitindo que os jovens invadiram mesmo a esquadra, o que parece não ter sido o caso.

Vamos por partes.

Em Portugal não há racismo, mas… Quase todas as pessoas “não racistas” começam as intervenções com um efusivo “não sou racista, mas…”. Eu também não me considero uma pessoa racista e, no entanto, dei por mim, um dia, bastante desconfortável por seguir, quase sozinha, rodeada por quatro jovens negros numa carruagem de comboio. Quando entraram na carruagem em que eu já estava sentada, e se sentaram à minha volta, o meu primeiro impulso foi sair. A seguir, pensei: se o fizer, vão seguramente interpelar-me. Por isso, deixei-me ficar, enquanto ia espreitando, da forma mais discreta de que era capaz, as duas pessoas que seguiam nas filas bem lá da frente (escusado será dizer que mais ninguém se sentou por ali). A minha estratégia era sair quando elas saíssem. Fui racista? Sou racista? Se fossem jovens brancos, em vez de negros, eu teria a mesma reacção? Honestamente, creio que sim, mas a fronteira entre o que somos e o que achamos que somos, às vezes é um pouco “esborratada”… A viagem chegou ao fim e, apesar da atitude inicial um pouco intimidatória (ou seria só imaginação minha), os jovens olharem para mim, talvez, meia vez até ao fim da viagem.

Independentemente de se tratar de racismo ou não, como alguém dizia numa intervenção num espaço público, quando há “problemas destes”, quase sempre estão envolvidos “negros ou ciganos”. A mim, parece-me um argumento idêntico ao dos que “não são” machistas, afinal as mulheres são tão inteligentes-preparadas-capazes-competentes como os homens, mas… parece que não ganham campeonatos de xadrez. Acho que dá para perceber.

Por outro lado, quem é que nunca teve já vontade de esmurrar alguém? Pois. Mas a mim parece-me que é isso que nos distingue dos selvagens, dos anárquicos, dos ditadores e por aí fora. Devo dizer que me chocou particularmente ouvir o senhor António Ramos, em representação do Sindicato dos Profissionais da Polícia, em directo no programa “Opinião Pública”, defender que “quando é para repor a ordem pública, é para repor a ordem pública”. A qualquer que preço? Espancando, insultando e humilhando? É que o senhor nunca condenou actos menos próprios dos agentes. A dada altura, chegou mesmo a afirmar, sem qualquer pudor (não sei se sem corar, porque a cara do dito não aparecia) que se deixassem a polícia trabalhar como há uns anos atrás, “bastava oito dias” para pôr o país e os criminosos todos na linha. Se não é uma ameaça, parece. Mas eu até tendo a concordar. Há países em que se corta a mão ao ladrão, apedreja-se o/a adúltero/a e outras coisas que tais. Vejam lá, se por lá (passo a redundância) não anda tudo na linha. Ah, não anda?

É, pois, por isso importante e urgente perceber que tipo de relação autoridade – cidadãos é que queremos ter. Não podemos cair em extremos, como quando se condenou o agente que matou a criança de treze anos que se seguia num carro em fuga, mas não o assaltante e pai da criança, que a levava no carro.

Haja, por isso, respeito, seriedade e sobretudo, justiça. E esta não se consegue sem que cada um saiba respeitar o outro.

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publicado às 23:12



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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