Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Vão-se as comendas, fiquem-se as imoralidades?

por naomedeemouvidos, em 17.05.19

Reúne, hoje, o “Conselho das Ordens” para decidir se se desencomenda o senhor Berardo. Depois do show da outra sexta-feira, as medalhas começaram a pesar nos ombros e nos peitos de alguns ilustres, como aquelas nódoas de gordura que nos caem nos melhores trapos, nos piores momentos. Eu estou de acordo com retirarem-se louvores a quem se presta a deboches sobre aqueles – pessoas, instituições, nações – que, por particular e prestigiada insígnia, os distinguem e condecoram. Como também concordo em não distribuir comendas como quem distribui rebuçados. Deixemos as pérolas para os porcos no domínio das metáforas, se tal ainda nos for consentido.

 

Vários foram os que se indignaram – verbo da moda, maltratado – com a miserável desfaçatez do comendador. Pertenço a esse grupo. Olho para aquela imagem, naquela sala, na presença de representantes da Nação Portuguesa, e sinto uma vergonha imensa. Saber que aquele homem – como outros do género, que a lista é longa – merece uma distinção honorífica por “ter prestado serviços relevantes a Portugal, no País e no estrangeiro, assim como serviços na expansão da cultura portuguesa ou para conhecimento de Portugal, da sua História e dos seus valores”, deixa-me, no mínimo, à beira de um ataque de nervos. Os símbolos não são tudo, mas são muito. Deviam ser o suficiente para não nos sentirmos ultrajados.

 

Não comungo, não inteiramente, da opinião dos que, em Berardo, mais não vêem do que um peão boçal, simplório, ao serviço de um jogo maior, atirado – agora e convenientemente – às feras, para gáudio dos que pedem sangue, saciando, assim, a sede e a fome de um público atoleimado, ao mesmo tempo que os impostores se escondem atrás do lume à espera que a memória colectiva se desvaneça na borralha. É, no entanto, evidente que o senhor não está sozinho. Serviu e serviram-no. Ele e outros, a ele, como a outros, assim chafurdam as nossas elites, da banca à política, dos meios sociais aos empresariais. Todos diferentes, (quase) todos iguais.

 

Ontem, a SiC Notícias apresentava uma reportagem sobre um desses novos senhorios sem rosto e sem escrúpulos, que se dedicam à compra por atacado de imóveis de interesse, montando, em seguida, uma insolente, desprezível, manobra de intimidação sobre os inquilinos que ousem não ceder ao assédio. No caso em concreto, um negócio entre a Fidelidade e o fundo americano Apollo, e a estória de como a compra de uma pequena arrecadação - que ainda há-de vir a ser dividida em cinquenta partes - tem servido para produzir o milagre da subtracção de impostos, livrando o fundo americano de pagar IMT sobre a compra de 425 milhões de euros em prédios de habitação. De acordo com a nossa lei, são isentas de tal imposto as aquisições de prédio para revenda por “sujeito passivo” que “exerce normal e habitualmente a atividade quando comprove o seu exercício no ano anterior mediante certidão passada pelo Serviço de Finanças”. Nesse caso, desde que, no ano anterior, tenha sido adquirido (e devidamente registado) para revenda ou revendido algum prédio antes adquirido para esse fim, o sujeito livra-se da obrigação de pagar o tal Imposto Municipal sobre Transmissões Onerosas de Imóveis. Foi o que fizeram os sujeitos verbos e predicados das quatro sociedades que constituem o fundo Apollo: compraram uma humilde mas cumpridoira arrecadação, com cinco metros quadrados, situada na cave de um prédio de Vila Nova de Cerveira. A saga da compra e venda da generosa arrecadação é digna de ser conhecida, para se perceber bem como a lei serve apenas para ser cumprida pelos contribuintes incautos ou que não têm a sorte de poder pagar a bons advogados. Como se mostra na reportagem, no último dia utilíssimo do ano de 2017 (a data não é irrelevante), foram convenientemente vendidos nove de cinquenta avos da arrecadação pelo preço de cinquenta euros, numa oportuníssima e oportunista venda a retalho que poupou cerca de 28 milhões de euros em imposto aos compradores dos prédios vendidos pela Fidelidade. A um pedido de entrevista da SIC a Apollo respondeu apenas que na data da aquisição as 4 sociedades que constituem o fundo reuniam os requisitos previstos na lei para beneficiar da isenção de IMT e que o cumprimento desses requisitos foi atestado pela Autoridade Tributária.

 

Como é que o Estado, este Estado, se pode levar a sério?

publicado às 13:58

As novas Carochinhas.

por naomedeemouvidos, em 12.03.19

carochina.PNG

 

 

A guerra de audiências faz-se (também) de amor. Um amor modernaço, ensaiado por psicólogos e outros especialistas, em casa ou no carro, por mães ufanas à procura de noras roliças e boas em casa, ou, por homens do campo, honestos e trabalhadores, sem tempo e demais virtudes para procurar a esposa ideal, eles e elas ansiando por um final mais feliz do que morrer cozido e assado no caldeirão e moedas de ouro suficientes para sobreviver aos cinco minutos da fama que importa aguentar a troco do disputado share.

 

Nada me move contra estes programas, simplesmente, não aprecio o género. Devo ter visto um programa e meio do revolucionário, à época, Big Brother e chegou para perceber que me falta a inteligência necessária para alcançar a profundidade da dimensão humana que alguns atribuem a este formato televisivo que, na minha limitada opinião, seguramente ignorante, não passa, efectivamente, de lixo servido em horário dito nobre. Mas, só vê quem quer. E, claro que admito que possa estar enganada, uma vez que não vi um único programa dos mais recentes (nem dos outros) e amorosos reality shows, de que só conheço os nomes e as polémicas que, como se pretende, suportam a necessária e desejada publicidade. E, por aqui ficaria. Cada um tem o absoluto direito de ver o que mais lhe agrada, e os programas de televisão não devem constituir excepção.

 

Acontece, porém, que, aparentemente, os dois recém-estreados programas, em que moços casadoiros procuram menina-e-moça na mesma condição e melhor estado, motivaram queixas junto da Entidade Reguladora para a Comunicação Social. Os críticos apontam peçonhentos vícios aos dois formatos: ora são degradantes para as mulheres, ora diminuem determinadas classes sociais. Seja, não faço ideia. Mas, parece-me, ninguém – mulheres, eventualmente mães, e agricultores incluídos – foi obrigado a participar no concurso, ou o que lá o que seja. Tratar-se-á de gente adulta, pessoas capazes e conscientes dos seus actos e da exposição pública a que escolheram sujeitar-se. Daí à indignação contra a  suposta promoção de estereótipos de género, de classe e de mais um ror de coisas, em defesa de alegadas vítimas vai um campo de milho. Ou mais, se o agricultor for mesmo bom. O que realmente me indigna é comparar as vítimas destes programas com as vítimas reais, aquelas que são violentadas e agredidas, diariamente, humilhadas contra a sua vontade e, às vezes, demasiadas vezes, mortas.

 

A TVI e a SIC querem promover programas onde algumas mulheres e homens aceitam ser avaliados  - como gado, jarra decorativa, robot de cozinha, seja o que for, não interessa - a troco de dinheiro ou, quem sabe, de um final (que tem tudo para não ser) feliz. Há protagonistas e há audiências, a rodos, pelos vistos. Não sei como é que proibições, imposições e outras limitações arremessadas - mesmo que com esmerado zelo e excelentes intenções - a canais de televisão, mais ainda, privados, podem educar, se é isso que se pretende. O caminho é árduo, mas não se fará por aí.

publicado às 12:35

006, Licença para Gastar!

por naomedeemouvidos, em 18.04.18

Todos gostávamos de ter um amigo como Santos Silva! Esse fantástico e altruísta empresário bem-sucedido, homem “de posses”, pronto a abrir os cordões à bolsa ainda o amigo vai no primeiro “olha…ah…”!

Acompanhar as reportagens da SIC acerca da Operação Marquês tem sido uma espécie de tragicomédia, cá em casa. Alterou-nos a rotina dos últimos dois dias, coagindo-nos, inclusive, a descurar a sagrada hora de dormir do nosso filho. Mea culpa! Mas, até a ele, as justificações tresloucadas de Sócrates para a desmesurada e despropositada ajuda financeira do amigo Silva têm arrancado gargalhadas! É que não é preciso mais, de facto, do que a inteligência e perspicácia médias de uma criança de 11 anos, para perceber que, na vida real, não há amigos assim. Na vida real, não há “amigos” a quem possamos pedir para nos pagarem luxuosas contas correntes ao ritmo de um não-queres-passar-cá-um-bocadinho-e-trazer-aquilo-que-sabes-que-eu-gosto. Para um homem com “dificuldades económicas”, Sócrates tem, ou teve, um nível de vida de fazer inveja a muita classe média-alta por esse país fora.     

As explicações, ora embrulhadas, ora exaltadas, do ex-primeiro-ministro são de um descaramento formidável. O “Zezito” quer convencer-nos a todos que o Silva, simplesmente por desinteressada amizade e pura preocupação com o bem-estar alheio, não só estava sempre disponível para lhe emprestar qualquer quantia de dinheiro, como ainda se dispunha a acatar sugestões sobre investimentos vários, desde a compra de propriedades a obras de remodelação de exclusivos apartamentos parisienses! Mais ainda, a excelsa amizade permitia que essas sugestões chegassem via uma irritada ex-mulher do primeiro, sem que a esposa do segundo tivesse qualquer opinião sobre o assunto; eram “investimentos” do marido.

O mais assustador é que Sócrates e os seus dois magníficos advogados aparentam ter razão num ponto: não há provas-provas- dessas para lá da convicção sensata- que sustentem que, efectivamente, a famosa conta 006 seja dele e não do abnegado Carlos Santos Silva. O desassombrado trio Sócrates-Delille-Araújo socorre-se da falta de “fundamento em factos e em provas” para acusar todos os que não estão com o nosso ex-primeiro de estarem contra ele. Enquanto isso, num genial e irónico golpe de mestre, José Sócrates lá vai acusando de “manha” (diz o roto ao nú!) os procuradores, com muitos e eloquentes “oh, pá” à mistura em discursos mirabolantes que são um verdadeiro insulto à inteligência e paciência dos demais. Mas, não se enganem!, não há nada de mais perigoso e temível do que um  animal feroz ferido…

publicado às 10:48

(Ir)Responsabilidades...

por naomedeemouvidos, em 25.07.17

Há dias em que se torna particularmente penoso (ainda que só) passar os olhos pelas notícias. Parece que, momentaneamente (para alguns, o momento prolonga-se indefinidamente…), a razão, o sentido crítico (ou outro qualquer), a lucidez, a inteligência ou, tão somente, a competência, deixam de pairar sobre aqueles que têm a obrigação de, uns, governar, outros, informar.

O país continua suspenso das explicações (ir)responsáveis e mais ou menos manhosas acerca de dois acontecimentos recentes e difíceis de tolerar em democracia ou nos ditos países civilizados (parece a mesma coisa, mas não é bem): Pedrógão Grande e os seus mortos, que a todos deve envergonhar, e o assalto a Tancos.

Uma tragédia como a de Pedrogão Grande nunca deveria acontecer em país nenhum; mas nunca poderia ter acontecido num país como Portugal. Ainda sinto uma náusea profunda quando penso que alguém, no nosso país, pôde (pode?) perder a vida estupidamente encurralado numa estrada nacional, sob um calor infernal, pois de inferno se tratou em mais do que um sentido. A somar-se à tragédia, à morte gratuita - e, por isso, insuportável - e à dor daquelas famílias, junta-se a despudorada inabilidade do governo para encontrar respostas e soluções que sosseguem, que nos sosseguem, e que honrem a memória dos que perderam a vida de forma tão insana.

António Costa começou por achar por bem não adiar o seu mais que merecido descanso. Afinal, as férias já estavam marcadas e o primeiro-ministro esteve sempre contactado e contactável e, portanto, sempre a par dos acontecimentos. O problema é aquela velha máxima: em política, o que parece é e o que pareceu é que o primeiro-ministro não considerou que a dimensão e a gravidade da tragédia de Pedrogão fossem suficientes para não ir de férias.

Passados os banhos, agora não nos entendemos quanto ao número de mortos. Como se o facto de um só morto que fosse como resultado do completo desnorte que se viveu naquele fatídico fim de semana não fosse suficiente para inibir António Costa de afirmar que o governo não contabiliza os mortos. “A dimensão desta tragédia não se mede pela dimensão dos números.” Pois não. Mas a dimensão dos políticos, a dimensão dos Homens, mede-se pela capacidade de lidar com as tragédias, principalmente, com as de colossal e dolorosa dimensão. Bem sei que a ligeireza ou a (muito útil) descontextualização das palavras e afirmações encobrem, muitas vezes, a profundidade dos sentimentos e dos pesares, mas, lá está, em política…

Os dramáticos e irremediáveis fogos de verão têm destas coisas. Deixam-nos um pouco alienados. Hoje, na sic notícias, vejo um jornalista mostrar a gula impiedosa das chamas descontroladas junto a uma casa, em Mação; está tão próximo que diz sentir o fogo queimar-lhe as costas, fala de uma “segurança relativa nos próximos segundos” e reclama com o bombeiro que tenta afastar a equipa da sic do local: “estou em directo, não pode fazer isso, desculpe lá”. Antes, ainda tinha pedido ao operador de câmara para “entrar” e mostrar os bombeiros… Ensandecemos? Bem sei que, em circunstâncias extremas e por dever de profissão, há jornalistas que fintam a sorte e pisam o risco chegando mesmo a colocar em jogo as suas próprias vidas, mas será esta uma dessas situações?

Entretanto, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, o general Pina Monteiro foi ao Parlamento esclarecer qual do material roubado em Tancos é que, efectivamente, estaria seleccionado para ser abatido. Não era “todo” o material. Eram só os “lança-granadas foguetes” que “provavelmente não terão probabilidade de funcionar com eficácia.” Estamos todos muito mais descansados. Se não fosse tão grave, podíamos brincar às guerras, como o saudoso Raúl Solnado: "eles bombardeavam às segundas, quartas e sextas, e a gente bombardeava às terças, quintas e sábados". E lá vamos vivendo…

publicado às 15:53

"Crianças no Daesh"

por naomedeemouvidos, em 19.07.17

A SIC emitiu uma reportagem centrada na violência extrema a que são sujeitas as crianças raptadas pelo Daesh. A reportagem, da autoria do jornalista Henrique Cymerman, dá voz às atrocidades a que estas crianças são submetidas, desde tenra idade, e é preciso “ter estômago” para ver este trabalho até ao fim.

Ouvir crianças descrever como foram ensinadas a matar, a decapitar, primeiro com “bonecos e, depois, com gatos”, é de uma brutalidade atroz. Ver o corpo de uma criança de dez anos deformado pelas cicatrizes que ficaram depois de ter sido atingida a tiro por militantes do Daesh provoca-nos uma náusea incontrolável. Como é possível? Que gente é esta que não hesita em arrastar crianças (meu Deus, crianças!) para uma guerra em nome de uma religião? Que religião é esta que exige que os seus devotos ensinem crianças, algumas, de quatro(!) anos, a pegar numa arma para matar “infiéis”?

Na reportagem, um menino de três anos não consegue controlar as lágrimas quando ouve a referência ao Daesh. E eu não consigo continuar a ver. Levanto-me e vou beber um copo de água. Um copo de água...a banalidade do acto é, ela própria, uma crueldade que me devolve, violentamente, a lembrança da perversa privação a que estes meninos e meninas foram, são ainda, obrigados.

Quando volto, um outro menino (este de dez anos) relata, com uma assustadora lucidez e crueza, como viu crianças a decapitar outras crianças, como lhe diziam para “cortar cabeças” e deixá-las junto aos corpos, visíveis, para os cães comerem…

Os elementos da equipa de resgate pagam dez mil, vinte mil dólares para salvar mulheres e crianças das mãos desta gente insana.

As crianças resgatadas chegam aos campos de refugiados profundamente traumatizadas, de uma forma que, nós, ocidentais, no conforto das nossas casas, dificilmente poderemos imaginar.

Às vezes, ocorrem pequenos milagres e alguns elementos de uma mesma família reencontram-se, quando já se julgavam sozinhos. E, mesmo assim, é assustador ver como uma das crianças, uma menina, chega ao campo e parece não estar lá… está apática, perdida, talvez ainda não acredite que foi salva. Imagine-se o que terá passado, no seu cativeiro.

Mas, para mim, o maior milagre é ver como as crianças ainda mantêm a capacidade de brincar e de sorrir…

 

publicado às 20:26



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


Layout

Gaffe


Arquivo



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.