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Bem-nascido, mal-nascido.

por naomedeemouvidos, em 28.06.19

Das varandas brancas, em cascata, empoleiradas sobre o imenso penhasco que se ergue da Kasbah numa vertigem insolente costumava avistar Espanha, nos fins-de-tarde quentes de Verão. As árvores generosas emprestavam a sombra que corria zelosa, à cabra-cega, ao sabor do vento num sussurro esgalhado, afastando o calor com aprumo, enquanto se serviam chãs de hortelã e menta borrifando espessos perfumes fumegantes, como padres aspergindo incensos em missas de semana santa, os toscos copos de vidro já baço fazendo as vezes dos sagrados turíbulos.

 

Cada mesa conta uma história diferente, sonha um sonho diferente. Eu pasmo com a imensidão do mar que se me oferece, ali mesmo, onde o Mediterrâneo se funde, rosnando, com o Oceano Atlântico, um hálito bruto a maresia, confundindo com implacável astúcia os sentidos mais incautos. Se os mares se amansam em carícias consentidas como dois amantes saciados, a vista alcança a costa de Tarifa, para onde rumam, todos os dias, as ilusões daqueles a quem a sorte não autorizou a travessia do estreito à boleia dos ferries de pontualidade duvidosa, mas velozes e livres como o ar que se respira.

Os rapazes, desocupados, fumam cigarros comprados avulso, um por cada duas bocas ávidas de vícios urgentes, de consolação miserável, os olhos repousando, por momentos, das esperanças sôfregas e desdenhosas de resignações acertadas. Alguns, nessa mesma noite, hão-de atrever-se, enfim, a afrontar a sorte que os desprezou, a renegar o vazio que os consome como as larvas, outrora, os corpos mortos que, em tempos, habitaram as tumbas fenícias, agora vazias como eles, por que passaram no caminho até ali, poiso improvável de escritores, pintores e poetas, também eles enjeitados à sua maneira, reféns de infortúnios menos mundanos.

 

Há uma sala interior, alcatifada, que vislumbro de soslaio sempre que subo e desço os degraus escarpados, e onde, dizem, uma conhecida e ainda viva rock star tinha por hábito abandonar-se aos vapores caprichosos dos cachimbos de haxixe, enquanto admirava a costa, em frente, emoldurada em amplas janelas vivas, tentadora como uma Mona Lisa suspensa das paredes do Louvre.

Não se vê um móvel. Os únicos adereços são os soberbos cachimbos de água de cores berrantes e mangueiras desmaiadas em desalinho, aguardando a vez, e homens sem idade nem alento ruminando o estupor a fogo lento em baforadas longas e redentoras.

 

Cerca de quinze quilómetros em linha recta separam dois acasos, duas sortes, dois destinos. Atrás das janelas despidas de vidros, à mercê do ópio e do ócio, muitos blasfemam em surdina contra um deus que os largou, num embuste velhaco, do lado errado do mar.

 

Cafe Hafa.PNG

 

publicado às 23:15

M, de Marrocos!

por naomedeemouvidos, em 21.07.18

Sempre que me perguntam aonde ir ou o que visitar em Marrocos, nunca hesito. Fez, Fez, Fez!

Não que seja fácil escolher, para uma visita de poucos dias, o melhor postal ilustrado vivo que irá perdurar na nossa memória retratando aquela viagem que levámos, às vezes, anos a planear. Não sei se porque lá vivi mais de dois anos, porque lá tive a minha primeira casa recém-casada, porque Marrocos é um país de violentos contrastes e partilha histórica com Portugal, são várias as cidades encantadas onde nos podemos perder com enorme e avassaladora paixão. Da cisterna portuguesa em El Jadida à praça Djemaa el Fna, em Marraquexe (a praça dos mortos mais viva de que há memória, suponho!), do hipnotizante pôr-do-Sol em Ouarzazate às estonteantes Gorge du Dadès no Atlas, da graciosidade de Asilah à exuberância de Chefchaouen, da quase sobriedade de Rabat à vibrante Essauira, da mundana Casablanca à elegância de Ifrane (e mais, e mais, e mais!), Marrocos tem um sem número de recantos que exaltam os nossos sentidos. Mas, Fez tem qualquer coisa de mágico que se cola à nossa pele. Parece parada no tempo, ao contrário, por exemplo, de Tânger que, em pouco mais de 20 anos, tornou-se numa cidade verdadeiramente cosmopolita.

A primeira vez que visitei Fez foi em 1997. E quantas memórias guardo! Recém-casada, recém-chegada a Tânger, onde eu e o meu marido tivemos a primeira casa, nunca esqueceremos, eu e ele, a visita nocturna à Medina de Fez. A grande Medina. A de El-Bali, com as suas mais de 700 mesquitas. Se o lugar já parece mágico à luz do dia, torna-se irreal ao luar. As portadas das lojas exibindo toda a sua beleza, as ruas e ruelas sinuosas e estreitas por onde os burros, daí a algumas horas, hão-de passar transportando diferentes mercadorias, as sombras que ora se apressam ora se encolhem à nossa passagem, os assobios da brisa morna lambendo as lânguidas esquinas…e, depois, a visão daquele cavalo possante e belo, negro como a noite, que surgiu do nada num momento fugaz de magnífica graciosidade para logo ser levado pelo garboso cavaleiro, como numa tela de cinema.

Fez, com toda a certeza!

Voltámos a Fez em Março último. Já lá tínhamos estado outras vezes, mas ainda não tínhamos o nosso filhote e, eu especialmente, ansiava por levá-lo a Marrocos. Que conhecesse a rua onde morávamos, em Tânger, os amigos que ainda lá temos e, sobretudo, que visse por si próprio que nem todos os árabes e muçulmanos são criminosos e terroristas. Que percebesse que as crianças são crianças e as árabes e muçulmanas não são tão diferentes dele, a não ser por a maior parte ter menos privilégios. Também queria que o meu filho sentisse isso, para que pudesse perceber melhor, dentro da inocência dos seus 11 anos, porque é que tantos meninos como ele perdem a vida no Mediterrâneo. Como estancar essa sangria alienada, se não podemos acudir a todos nem, tão-pouco, entregá-los à morte, dando de ombros como se o drama não fosse, também, nosso?

Há cerca de 20 anos, era impossível mergulhar na Medina de Fez sem um guia. Agora não. Ou melhor. Não necessariamente. Existem percursos numerados e assinalados com cores diferentes que se podem seguir facilmente. Basta ir de nariz no ar, procurando as pequenas placas suspensas nas ruas da Medina. Desta vez, usámos essa opção, até porque o nosso filho se entusiasmou bastante com a hipótese de ser ele a guiar-nos e foi uma experiência bem divertida. No entanto, continuo a achar mais interessante a opção de contratar um guia local. Há cantinhos que só eles, de facto, conhecem e histórias que só eles sabem contar. Sem isso, a experiência fica incompleta, como fica incompleta sem provar a comida marroquina. No restaurante Clock, bem no coração da Medina de Fez, foi divertido ver como um casal jovem, na mesa ao lado, olhava genuinamente incrédulo para a gula do nosso pequenote que se deliciava com um belo prato de cuscuz de galinha e legumes, enquanto eles se contentavam com um vulgar hambúrguer com batatas fritas.

Com um guia físico ou não, há trilhos imperdíveis, como o bairro dos curtidores, que nos guia pelo cheiro, ou o bairro dos latoeiros que nos guia pelo som. Há, aliás, em Fez, experiências para todos os sentidos.

publicado às 12:02



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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