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Inimigos Bestiais.

por naomedeemouvidos, em 28.08.19

“Tact is the art of making a point without making an enemy.”

Como acontece frequentemente com diversas citações, a frase vastamente atribuída a Isaac Newton é capaz de não ser dele. Será um outro Newton, eventualmente, uma outra frase com sentido idêntico. Para o caso, não interessa nada. O tacto, a diplomacia tornaram-se conceitos obsoletos. O que se espera, agora, de gente com capacidade de liderança e competências políticas em geral e presidenciais em particular é que seja capaz de dizer o que pensa, sem rodeios, sem hipocrisias travestidas de tactos chatos e falinhas mansas. Deixem Trump ser Trump, Bolsonaro ser Bolsonaro, e por aí afora. Foram escolhidos democraticamente e a democracia ainda é o melhor regime do mundo, não é? Não se pode suspender a democracia, mas poder-se-á suspender um parlamento. É capaz de não ser grave.

Há tanta coisa a acontecer que me falta a racionalidade necessária para acompanhar. Acabei de chegar de férias e já não tenho idade para mudanças de ares súbitas. Vinha falar da Amazónia, da sensibilidade de Bolsonaro e do seu enorme sentido de estado, de insultos escabrosos e pedidos de desculpa, mas, pensando melhor, vou repousar mais um pouco…porque, apesar de tudo, eu mereço.

publicado às 10:54

Baratas e outras pragas. Pô!

por naomedeemouvidos, em 07.08.19

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Olho com espanto e nojo para a figura do actual presidente dos EUA fingindo sentir compaixão pelas vítimas e familiares das vítimas da mais recente carnificina que atingiu o país. Bobo ridículo conseguiu – como não? – enganar-se no nome de uma das cidades atingidas pela tragédia que o próprio atiça com a leviandade burlesca e própria dos imbecis. Parece que é preciso habituarmo-nos. Os defensores e apoiantes acérrimos de Donald Trump riem, aplaudem, a economia americana cresce e diz-se que o homem tem carisma...pegajoso, mas há quem aprecie. Os outros, afinal, eram, são, um bando de corruptos, hipócritas, malfeitores, abusadores e restantes eteceteras de que Trump também goza, mas, a esse, permite-se.

Entretanto, nesse mesmo Texas atingido a tiro em nome da luta contra a invasão mexicana a que Trump já dedicou 2000 anúncios, dois agentes da polícia a cavalo levaram um prisioneiro negro puxado por uma corda até à esquadra, num “embaraço desnecessário”, mas, “sem qualquer má intenção”. Que alívio.

 

Animado pelo sucesso e glamour do sofisticado andar de cima das américas, o vizinho Bolsonaro, esse Messias desejado, adorado, adulterado, anseia por passar da mímica aos actos de morte encomendada, consentida e perdoada. Os dedinhos em riste – que já deram origem a outro fantoche idêntico, mas devidamente armado – passarão a fazer mira real aos criminosos escolhidos no acaso do momento, pois, como é sabido, todos os polícias são puros, todos os criminosos são abjectos e a gente de bem distingue-se a olho nu, despidos que somos, brancos, santos e bons, de preconceitos de qualquer tipo. Parece que tem que ser assim.

Entre os poucos brasileiros que conheço, não há nenhum que não apoie Bolsonaro. Alguns descaradamente, outros com alguma vergonhada escudada no indiscutível flagelo da criminalidade violenta, no medo de que os filhos morram no caminho que separa a casa e a escola.

Não vou fingir que sou completamente surda a esses argumentos. Na única vez que visitei o Brasil, ouvi - na companhia do meu marido e de uns amigos nossos espanhóis que aí viviam, na altura - um tiroteio a alguns metros do bar em que passávamos um bom serão. Os filhos desses amigos já tinham sido assaltados mais do que uma vez, nesse tal trajecto inocente. Mas, acredito profundamente que há, tem de haver, uma diferença entre o Homem e a Besta, entre a civilização e a barbárie. Não achamos assustadoramente primitivo amputar a mão ao ladrão, condenar o infractor a um castigo igual na forma à do crime cometido, como se pratica em muitos dos países “de cultura inferior”?

 

Por falar em culturas superiores, em Itália, Matteo Salvini agradeceu à Virgem Maria a aprovação do decreto que regulamenta o encerramento dos portos italianos para navios de ONG que socorrem imigrantes no mar e estabelece multas que poderão atingir um milhão de euros no caso de violação desta norma. Salvar vidas é ilegal, graças a deus.

 

Por cá, está tudo muito mais tranquilo. Continuamos reféns das ameaças dos motoristas e do ilustre ex-desconhecido Pardal Henriques, do familygate socialista e do absurdo de interpretar leis literalmente. Toda a gente sabe que as leis devem ser interpretadas alternadamente, consoante quem ocupa os lugares do poder.

publicado às 12:13

O sermão de São Trump aos escolhidos.

por naomedeemouvidos, em 12.07.19

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Foi em "Junho de 1775...

...o Congresso Continental criou um exército unificado das forças revolucionárias acampadas perto de Boston e Nova York, sob o nome do grande George Washington, Comandante Supremo. O Exército Continental sofreu o amargo inverno de Valley Forge, encontrou a glória nas águas do Delaware e conquistou a vitória de Cornwallis de Yorktown. O nosso exército dominou o ar" - deus abençoe a América -, "derrubou as muralhas, assumiu o controlo dos aeroportos, fez tudo o que tinha que fazer e, em Fort McHenry, sob o clarão vermelho dos rockets" (não sei se traduza...), alcançou nada menos que a vitória."

 

What a great country...

publicado às 19:38

Contos Infames.

por naomedeemouvidos, em 09.07.19

Era uma vez na América de Trump.

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publicado às 22:10

Ahmad Rahman

por naomedeemouvidos, em 09.05.19

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Aos oito meses, Ahmad foi atingido a tiro numa perna, na sequência de um conflito entre forças governamentais afegãs e elementos dos Taliban. A perna ferida do menino viria a ser amputada. 

Este é o vídeo em que Ahmad celebra a possibilidade de voltar a andar, a dançar, utilizando uma prótese.

 

Entretanto, no Brasil, crianças e adolescentes vão poder praticar tiro sem (até agora necessária) autorização judicial: passará a bastar o aval dos pais, ou de um responsável legal. O porte de arma passa, também, a ser mais fácil para "políticos eleitos, servidores públicos que trabalham na área de segurança pública, advogados em atuação pública, caminhoneiros, oficiais de Justiça, profissionais de imprensa que atuam em coberturas policiais, agentes de trânsito, entre outras categorias".

 

Como prometido, Bolsonaro junta-se, assim, ao amigo Trump nessa cruzada pela erradicação da violência armada, armando as potenciais vítimas. Dos alunos aos professores, dos políticos eleitos a outras categorias. Finalmente, alguém com ideias sobre como acabar com os tiroteios nas escolas, ou a violência nas ruas. É mais do que uma vergonha, embora, num caso e no outro, possam ser coisas diferentes.

 

 

 

publicado às 08:41

Resmungos.

por naomedeemouvidos, em 24.04.19

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Benjamin Netanyahu vai nomear uma nova cidade nos Montes Golã after Trump. Os dois devem estar radiantes. O primeiro, porque ninguém, talvez, tenha feito tanto – na História recente – por minar, mais ou menos intencionalmente, qualquer tentativa ou desejo de estabelecer os tais dois Estados que teimam em não lograr uma coexistência pacífica. O segundo, porque, sendo um narcisista incorrigível e peçonhento, vai poder, enfim, pavonear-se por algo um pouco mais palpável (e se o homem gosta…) que o crescimento da economia americana. Talvez não ganhe um muro, mas ganha um monte, uma cidade, pelo menos; poderá visitá-la, em deliciado e delicioso êxtase, rebolar de júbilo e adorar-se. Só lhe falta a derradeira união pacífica q.b. com o talentoso Kim, outrora visceral inimigo, mas, isso não interessa nada, que o tempo é de paz. E, a propósito, sem esquecer o Nobel, que o Donald quer muito. Ah, que relação fantásticamelhor que um filme de ficção científica. Podem arrumar-se os foguetes e, ainda assim, o tempo continuar de festa. Escrevem-se novos capítulos da História que os mais incautos – incrédulos copiosos, pavorosos – não viram chegar. Quem disse que a democracia não pode ser suspensa por seis meses, ou mais, a bem de reformas necessárias, ou de uma ordem qualquer que importe repor? Impor. Eles andavam aí, e a Manuela, calhando, nem desconfiava…

 

A vizinha Espanha vai a votos no próximo Domingo. “Não minta”, “a política espanhola a trumpificar-se”, “você é um fake”, e outros mimos, uns mais normais que outros em debates políticos televisivos. Talvez não importe tanto quem ganhou ou perdeu cada um dos debates, mas, sim, que solução governativa se apresentará depois de Domingo, se o PSOE de Pedro Sánchez ganhar sem maioria, como indicam as sondagens. Depois de Andaluzia, chegou a hora de ter Vox no Parlamento Espanhol? Apesar do que eles dizem, ou, pelo contrário, em favor do que defendem? E o que defendem, exactamente? Entre a América Great Again, o Brasil acima de tudo e a Espanha Viva, haverá lugar a comparações legítimas e úteis?

 

Já que os programas não são para cumprir, chegou a vez da política feita exclusivamente de slogans. Dizem que Steve Bannon lançou a semente e Trump inaugurou a moda no mundo dito civilizado. Talvez Matteo Salvini venha a seguir o conselho e faça do Papa Francisco um inimigo a combater, a bem da Itália. Não sei se já escolheram o slogan.

 

Entretanto, Sérgio Moro pegou-se com o nosso ex-primeiro ministro. Diz que não debate com criminosos. Pela televisão, pelo menos. Um pulinho da magistratura para funções governativas, há pouco mais que quatro meses, e Moro já esqueceu o princípio da presunção de inocência. Há quem diga que não é de agora. Como há quem, há muito, não veja em José Sócrates nada de inocente; nem na forma presumida. Eu, por acaso, pertenço a este último e infame grupo...

publicado às 12:45

Cobaias, paparicos e provérbios.

por naomedeemouvidos, em 08.12.18

    Augusto Santos Silva fez saber, aos socialistas europeus, e não só, que “não podemos ser ambíguos para com regimes autoritários, venham da direita ou esquerda, sejam da Europa, América Latina, África ou asiáticos”. Isto, depois de quase termos prestado vassalagem a Xi Jinping, incluindo na nova e útil modalidade de cobaias entusiasticamente oferecidas numa espécie de dote.

    Fiquei um pouco confusa. Ou o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros não sabe bem onde fica a China, ou desconhece os meandros do tipo de regime que por lá se pratica. Possivelmente, andou à conversa com Bernardino Soares, que percebe imenso de regimes políticos, principalmente, asiáticos. Parece que, por lá, as democracias possuem algumas peculiaridades que escapam aos mais incautos.

 

    Donald Trump voltou a exibir o seu delicado encanto e apelidou de “dumb as a rock”, em português erudito, burro como um calhau, o seu ex-secretário de Estado. Parece que o senhor, que não Trump, claro, afirmou, numa entrevista, que o Presidente lhe terá pedido para fazer umas coisas que violavam a lei. Ninguém diria. Trump não gostou e, como é hábito quando algo não lhe corre de feição, partiu para o insulto pessoal. Via tuites, que, tal como no futebol, em equipa que ganha não se mexe. Além de burro,  Rex Tillerson também seria um preguiçoso dos diabos, pelo que, Trump deixou claro que Mike Pompeo está a fazer um great job e, além disso, é bastante mais prestável e inteligente que o seu predecessor. Será, pelo menos, pelo tempo que Pompeo se mantiver útil e obediente no cargo; se vier a incompatibilizar-se com o endiabrado Donald, terá direito aos mesmíssimos nada alternativos mimos com que o Presidente agracia todos os seus ex-colaboradores, salvo aqueles que mantêm, mesmo à posteriori, o ritual do beija-mão. Quem não está com Trump, está contra Trump. E Trump não perdoa, não esquece e não conhece misericórdia.

           

    Depois das linguagens inclusivas nas suas variantes mais bizarras, de que, por cá, o “camaradas e camarados” de um desastrado Pedro Filipe Soares foi o último golpe, eis que pretendem agora corromper-nos os sábios provérbios dos nossos antepassados. Já não vamos poder matar dois coelhos de uma cajadada, nem pegar o touro pelos cornos, porque, para um punhado de iluminados, há um risco pronunciado e não absurdo de podermos vir a confundir a linguagem metafórica com malévolas acções reais, levadas à prática num acto de demência anunciada e colectiva. Sair pela calada da noite, atirando paus aos  indefesos gatos, embalados pela melodia que teima em não sair do ouvido; esmagar, sadicamente, um pássaro na mão, livrando-nos da tentação de arrojados actos. Se não por isso, por respeito aos bichos...e os loucos somos nós.

    Por higiénica e escorreita prudência, nem beijinhos aos avós, nem princesas a arfar diante de sapos, não vão virar príncipes, nem géneros atirados biologicamente, nem músicas infantis mal-intencionadas, nem ditos populares animalescos. Tudo a bem da harmonia dos povos que brilha em amarelo vivo nas imagens que, há quatro semanas, nos enchem os écrans de televisão, enquanto as gentes, fartas de desgovernos, se agitam contra estorvos um tudo ou nada mais comezinhos.

publicado às 22:44

“The world is a very dangerous place!”

por naomedeemouvidos, em 21.11.18

    Deve ser difícil manter uma conversa séria com Donald Trump. Pelo menos, no que diz respeito a garantir uma presidência funcional de um país que se quer grande. Excepto no que toca a conversas de balneário ou negócios mais ou menos obscuros (aí, o homem agarra quem quer que seja, por onde quer que seja, ao estilo do que por cá chamaríamos um pato-bravo), o vocabulário do presidente dos EUA está ao nível de uma criança que ainda não completou o primeiro ciclo escolar. Tem uma mão cheia de adjectivos que oscilam entre o bom, óptimo, mau, de vez em quando, um erudito perverso, eventualmente, apimentados com um eloquente muito e que servem para tudo, do clima às pessoas, dos ataques terroristas aos dantescos incêndios na Califórnia. As pessoas são boas, às vezes são mesmo great, ou, quando más, podem chegar a bad, bad people, a repetição elevando e enfatizando o grau de maldade do indivíduo.

    O senhor presidente tem uma opinião forte acerca das alterações climáticas. Graças a um tio que, no caso, era mais do que great, era mesmo um brilliant genius – que a família tem bons genes, basta olhar para a Ivanka – e com quem também discutia questões nucleares all the time. Pela força, da opinião, o presidente quer e terá um evidentemente great clima para os EUA. Enquanto o bom clima não chega, os americanos vão aprender a prevenir incêndios com os finlandeses, que sabem o que fazem e têm bons solos. Também se requer bons solos. E ancinhos. Mas Trump está habituado a ter o que quer e, além disso, já falou com o presidente da Finlândia, alternativamente sobre este ou outros temas, é indiferente; o que conta é a intenção.

    Noutro (perigoso) desvario caseiro, o presidente norte-americano recusou ouvir a gravação áudio do assassinato de Jamal Khashoggi. Já classificou o acto como perverso e como muito más as pessoas que o cometeram. Não quer ouvi-la e acha que não há razão nenhuma para que a ouça. Eu acho que é capaz de haver para cima de 100 mil milhões de razões para não alarmar o excelentíssimo príncipe da Arábia Saudita e Trump, ao contrário de uns quantos hipócritas, não tem pudor em lembrá-lo repetidamente. Afinal, a venda de armas é um excelente negócio, gera muitos, muitos empregos; a lot. Além disso, as pessoas têm direito a defender-se de ameaças, como se vê, semana sim, semana não, nos EUA. Esta semana foi em Chicago. Quando os professores americanos andarem armados, acabam-se os massacres. Como é que ninguém se tinha lembrado disso antes? E quando for o Jair a mandar, pode ser que todos os problemas da humanidade desapareçam por artes bélicas, pois teremos conseguido exterminar todos os maus da face da Terra; jamais os franceses voltarão a correr o risco de aprender alemão.

    Entretanto, há milhares de refugiados às portas do EUA na fronteira com o México. Uma caravana, várias caravanas, amálgamas de sonhos desesperados, de esperanças indomáveis, voluntariosas, fazendo das fraquezas individuais uma força resistente que renasce, como uma fénix, das cinzas que tentam e teimam em deixar para trás. Trump não os quer há muito, o México não tem como continuar a querê-los e nós vamos suspirando com envergonhado e cobarde alívio, porque não chegou à nossa porta. Ainda. Como será, quando chegar? O que fazer entre a obrigação moral de ajudar quem precisa e a frustrante incapacidade de chegar a todos? E se, por um acaso do destino, a caravana nos transportasse a nós?

publicado às 09:17

A inevitabilidade do ódio?

por naomedeemouvidos, em 26.10.18

    Em tronco nu, numa (outra) manhã qualquer, Amon Leopold Göth assoma à varanda da sua casa, com vista privilegiada para o campo de concentração nazi de Plaszow. Agarra na espingarda, observa a azáfama dos condenados, ajusta a mira da arma e escolhe a primeira vítima. Pousa o cigarro e aponta certeiro à mulher agachada no chão. Assim que ela se ergue, dispara a matar. Recolhe, indolente, o cigarro pousado no muro e, entre duas passas, escolhe uma segunda vítima. Aleatoriamente, sem qualquer critério especial. Apenas porque pode e porque isso lhe dá gozo.

    A violenta cena que retrata a barbárie sangrenta e insana da época nazi é imortalizada por Ralph Fiennes em A Lista de Schindler, e dispensará mais apresentações. Quem a viu, gravou-a para sempre na memória; cada um pelas suas razões, porque há filmes, ou partes deles, que teimosamente se materializam nos nossos pesadelos e nas nossas consciências quando menos esperamos. Lembrei-me dela pela alienação dos dias que correm. Já não fazem falta varandas com vista nem espingardas em riste. Substituímos as primeiras pelas páginas virtuais e as segundas pelos insultos gratuitos e carregados de ódio. Cada um escolhe o seu palanque, a sua arma, a sua vítima. Os métodos serão diferentes; os ódios serão diferentes; talvez, até os objectivos sejam diferentes. Mas deixam o mesmo rasto de aniquilação, de devastação nojenta na eliminação de adversários, políticos e não só. Só porque sim, só porque se pode. Como uns podem mais do que outros, os ódios destilam-se em diferentes graus, com diferentes requintes de malvadez e de eficácia e atingem mais ou menos alvos, de acordo com a circunstância de cada um. Das caixas de comentários aos assassínios por encomenda, da propagação de mentiras à distribuição de bombas como quem distribui rebuçados, dos comícios políticos convertidos em arenas de imberbes sedentos de vinganças, urgentes de sangue, como nos tempos dos enforcamentos sumários nas praças públicas, à apologia dos regimes ditatoriais e fascistas como solução para todos os males.

    Cada vez é mais difícil manter uma discussão séria sobre os diferentes problemas que se abatem sobre as sociedades democráticas. As pessoas não ouvem. Confundem, como diz o povo, alhos com bugalhos. Um homem insulta pública e violentamente uma mulher negra, chama-lhe feia, vaca, preta, bastarda e ouvimos dizer, e “se fosse ao contrário, também era notícia”; “porque é que não deixam o homem defender-se, primeiro”? Mas, são surdos? Os americanos tinham um nome para este tipo de gente, mas não me lembro agora. Os que, numa discussão, recorrem sistematicamente à evocação de argumentos que, só na aparência, se relacionam. Uma espécie de desconversadores selectivos cujo objectivo nunca é discutir com seriedade nem, muito menos, encontrar soluções, mas baralhar, partir e dar, como num jogo de pocker.

    Nos dias de hoje, voltamos a desdenhar dos pobres, a rir dos aleijados, a humilhar os ofendidos e a insultar os inimigos. A turba pede sangue como quem pede água sob o sol abrasador do deserto. Sucumbimos ao medo, e o ódio, afoito e arguto, tomou-nos nos braços.

    Nos EUA, Donald Trump condena, para as câmaras, a mesma violência que exacerba, horas depois, no Twitter. Apela a uma América unida e tudo faz para rasgar as feridas. Hostiliza a imprensa livre porque são fakes todas as notícias que não se dediquem à promoção acérrima e acrítica da sua fantástica presidência. A melhor de todos os tempos. Apela ao respeito que não tem pelos adversários, nomeadamente, políticos. O mesmo homem que exaltou o Lock her up! de Hillary Clinton e afirmou que Obama – que nem americano era! – fundou o estado islâmico, chama, hipocritamente, à união os americanos para repudiar actos de ameaças e violência política. Já sabemos da sua coerência discursiva e não só; depende da ocasião e do interlocutor.

    No Brasil, parece que Bolsonaro tem vindo a perder pontos para Haddad, nos últimos dias. O Messias (haja ironia!) já veio dizer que só perde se houver uma fraude eleitoral, como já antes tinha dito que só aceitaria os resultados das eleições se ganhasse. Gritar ameaças, espalhar a confusão, semear a discórdia e instigar à agitação social. Sempre de forma cobarde, sem sair do conforto do sofá, porque, como se sabe, o homem convalesce de uma facada, que deve agradecer todos os dias, pela facilidade divina com que conseguiu escapar de qualquer debate político sério, mostrando tudo o que não tem para apresentar aos brasileiros.

    É o mesmo princípio. Se me convém, está tudo bem. Se não, é uma fraude. A Folha de São Paulo sucks too. Como fede tudo o que se meter no caminho destes tresloucados salvadores da pátria. Se for possível tirar alguma coisa boa desta indecente demência que atormenta os nossos dias, que seja não deixarmos Portugal refém do medo nem cair nas garras do ódio.

 

P.S. Já depois de ter publicado este post, li isto.

publicado às 11:18

A ilegalidade de ser humano.

por naomedeemouvidos, em 16.10.18

       Na Hungria de Vickor Orbán, ser sem-abrigo é ilegal (não é só, eu sei). Assim, e no “interesse da sociedade”, a polícia húngara está, desde esta segunda-feira, autorizada a retirar dos espaços públicos quem não tem onde dormir. Teoricamente, estes seres ilegais devem ser encaminhados para abrigos. Se se recusarem a fazê-lo, três vezes em 90 dias, a polícia pode detê-los e destruir os seus pertences. Os cidadãos, os legais, obviamente, devem ter o direito de usufruir dos espaços públicos sem constrangimentos.

      Na América de Trump, (pelo menos) uma menina, hondurenha, de dois anos testemunhou sozinha, no “Tribunal Federal de Imigração nº 14” dos EUA. Na fronteira, foi separada da avó que tentava entrar ilegalmente nesse país tão grande outra vez. Na esclarecidíssima e iluminada opinião de Trump e de muitos dos seus apoiantes, se as famílias tiverem medo de serem separadas das suas crianças, não se atreverão, sequer, a tentar entrar. De resto, na América, por exemplo, está tudo a correr muito bem. A economia está a crescer a um bom ritmo e a administração Trump fez mais pelo país, nos últimos dois anos, do que praticamente todas as outras administrações anteriores, pese embora o facto de Melania ainda ser a maior vítima de bullying do mundo, e não sei qual das duas “constatações” tem mais piada, porque, convenhamos, o humor também faz falta, embora, parece que em alguns países é tão ilegal como algumas pessoas, mas adiante.

        Os brasileiros vão eleger Bolsonaro porque já não suportam o PT e a sua corrupção. Afinal, sempre é melhor um F-A-S-C-I-S-T-A para arrumar a casa e eliminar os corruptos, do que outro democrata possivelmente viciado. Nem sequer faz falta vir o diabo escolher. Até porque os moderados e democratabilíssimos checs-and-balances que o Brasil não tem irão acabar por refrear os piores instintos do capitão Jair, tal como os que, sim, existem (ou existiam) nos EUA (não!) serão suficientes para impedir nova eleição de Trump, em 2020; não esquecer que, com jeitinho, o homem ainda acaba prémio Nobel da Paz.

          Enfim, os problemas são o que são e, pelos vistos, a democracia deixou de servir como solução. Churchill estaria certo se não tivesse (ab)usado da chalaça: na actualidade, parece não haver pior forma de governo.

        Eu, como cidadã do mais impoluto e legal que há, penso até se não seria melhor voltarmos todos ao olho-por-olho-dente-por-dente: cortar a mão ao ladrão, apedrejar os adúlteros, castrar os violadores, enfim, garantir o descanso imaculado e sem sobressaltos das sociedades limpas e pagadoras de impostos…isso é que era!

publicado às 11:08



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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