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Imparcialidades e Imbecilidades.

por naomedeemouvidos, em 12.04.19

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“Antes de ser magistrada judicial, a Veneranda Juíza Desembargadora é mulher e certamente mãe, o que leva a que o horror e a aversão inata ao ato de incesto confessado pelo arguido (…) e o facto de acusar a sua filha de o ter seduzido, provoquem no seu espírito, incontestavelmente, uma especial e mais gravosa oscilação na neutralidade exigida perante o mesmo. (…) Os autos incluem-se na percentagem muitíssimo marginal e excecional dos processos em que é humanamente impossível a uma juíza mulher e mãe ser tão imparcial quanto um juiz homem”.

 

Não li o original, mas, de acordo com várias fontes, o texto acima consta de um requerimento redigido pelo advogado Pedro Proença e remetido para o Tribunal da Relação de Lisboa, na sequência do recurso interposto pelo seu cliente condenado em primeira instância pelo crime de violação agravada e posse de arma proibida. A vítima é a própria filha do cliente do dr. Proença. Em tribunal, o homem já confessou ter tido relações sexuais com a filha, mas acusa-a de o ter seduzido e afirma que houve consentimento. O seu advogado considera que a especificidade do crime e o facto de a juíza, venerandíssima, ser mulher e certamente mãe, pode tolher o discernimento da senhora, que não poderá, seguramente, humanamente, ser tão imparcial quanto um homem, por acaso, juiz, tal como a visada.

 

Só para ter a certeza de que percebi tudo muito bem, o dr. Proença manifesta preocupação – vamos dizer assim – pelo facto de uma profissional com mais de 30 anos de carreira poder ser incapaz para julgar o que está dentro das suas competências pelo facto de ser mulher, eventualmente mãe, presume o senhor doutor. O mesmo que, no entanto, se insurge contra a decisão – e fundamentação – editorial da TVI que dita o seu afastamento do cobiçado e sacrossanto cargo de comentador daquela estação. Porquê? Ora, antes de mais, porque o competentíssimo advogado repudia que se trate como criminoso “o arguido que ainda beneficia da presunção da inocência porque não houve ainda trânsito da decisão em julgado”. Já o senhor doutor pode presumir – e com grande à-vontade – que as juízas mulheres que se calhar também são mães, reunidas ambas condições, assim mesmo, as duas juntinhas, não sejam, dizia eu, capazes de julgar imparcialmente actos de violação de um pai contra uma filha. O resto do povo tem, por maioria de razão e serenidade, obrigação de não considerar culpado um homem que, para efeitos de presunção de inocência, já foi condenado em tribunal. Sim, acho que percebi bem.

 

Por outro lado, o senhor advogado afirma que “o respeito incondicional pela igualdade de género em qualquer contexto e profissão” faz “parte integrante” dos seus valores e que o que consta do requerimento nada tem a ver com questões de “discriminação em função do género”. Sou capaz de acreditar. Talvez tenha só a ver com aquele leque (por vezes, obsceno) de ardilosos embustes com que conspurcam e mutilam a aplicação da lei os mesmos que juraram defendê-la. Pois, olhe que não, sôtor, certamente que não…

publicado às 18:33

As novas Carochinhas.

por naomedeemouvidos, em 12.03.19

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A guerra de audiências faz-se (também) de amor. Um amor modernaço, ensaiado por psicólogos e outros especialistas, em casa ou no carro, por mães ufanas à procura de noras roliças e boas em casa, ou, por homens do campo, honestos e trabalhadores, sem tempo e demais virtudes para procurar a esposa ideal, eles e elas ansiando por um final mais feliz do que morrer cozido e assado no caldeirão e moedas de ouro suficientes para sobreviver aos cinco minutos da fama que importa aguentar a troco do disputado share.

 

Nada me move contra estes programas, simplesmente, não aprecio o género. Devo ter visto um programa e meio do revolucionário, à época, Big Brother e chegou para perceber que me falta a inteligência necessária para alcançar a profundidade da dimensão humana que alguns atribuem a este formato televisivo que, na minha limitada opinião, seguramente ignorante, não passa, efectivamente, de lixo servido em horário dito nobre. Mas, só vê quem quer. E, claro que admito que possa estar enganada, uma vez que não vi um único programa dos mais recentes (nem dos outros) e amorosos reality shows, de que só conheço os nomes e as polémicas que, como se pretende, suportam a necessária e desejada publicidade. E, por aqui ficaria. Cada um tem o absoluto direito de ver o que mais lhe agrada, e os programas de televisão não devem constituir excepção.

 

Acontece, porém, que, aparentemente, os dois recém-estreados programas, em que moços casadoiros procuram menina-e-moça na mesma condição e melhor estado, motivaram queixas junto da Entidade Reguladora para a Comunicação Social. Os críticos apontam peçonhentos vícios aos dois formatos: ora são degradantes para as mulheres, ora diminuem determinadas classes sociais. Seja, não faço ideia. Mas, parece-me, ninguém – mulheres, eventualmente mães, e agricultores incluídos – foi obrigado a participar no concurso, ou o que lá o que seja. Tratar-se-á de gente adulta, pessoas capazes e conscientes dos seus actos e da exposição pública a que escolheram sujeitar-se. Daí à indignação contra a  suposta promoção de estereótipos de género, de classe e de mais um ror de coisas, em defesa de alegadas vítimas vai um campo de milho. Ou mais, se o agricultor for mesmo bom. O que realmente me indigna é comparar as vítimas destes programas com as vítimas reais, aquelas que são violentadas e agredidas, diariamente, humilhadas contra a sua vontade e, às vezes, demasiadas vezes, mortas.

 

A TVI e a SIC querem promover programas onde algumas mulheres e homens aceitam ser avaliados  - como gado, jarra decorativa, robot de cozinha, seja o que for, não interessa - a troco de dinheiro ou, quem sabe, de um final (que tem tudo para não ser) feliz. Há protagonistas e há audiências, a rodos, pelos vistos. Não sei como é que proibições, imposições e outras limitações arremessadas - mesmo que com esmerado zelo e excelentes intenções - a canais de televisão, mais ainda, privados, podem educar, se é isso que se pretende. O caminho é árduo, mas não se fará por aí.

publicado às 12:35

Um país à mercê de entertainers e de futebol...

por naomedeemouvidos, em 05.01.19

    Ontem, comentadores, cronistas e telejornais comentaram, escreveram e noticiaram a presença de um criminoso, racista, adepto de Salazar – de Hitler, também – num programa da TVI. Entre indignações, labaredas, incêndios e guerras de audiências, houve esmolas para todos os santos. Ainda assim, houve tempo para repartir – pelo menos, na televisão – com outro acontecimento da maior importância para o país: a saída de Rui Vitória do Benfica, uma espécie de já morreu, mas ainda não sabe. Pois lá soube, finalmente, e, desde anteontem, tal como há um mês, altura em que falecera, foram horas e horas e horas de análise e opinião requentadas e servidas, em horário nobre, semi-nobre e assim-assim.

    Deixo o futebol para quem dele gosta e dele percebe. Neste momento, preocupa-me um pouco mais a guerra de audiências, o jornalismo e essa entidade abstracta a que chamamos liberdade de expressão, e a coberto da qual é possível transformar convictos promotores do ódio em fazedores de opiniões polémicas.

    Dizem as más línguas que o motivo por que Manuel Luís Goucha convidou (ele diz que não foi ele, o que, para o caso, é de somenos) para o seu programa um adepto da caça ao preto e, já agora, aos gays – é bom chamarmos os bois pelos nomes, pois, pese embora as inquietações da PETA e do PAN, Goucha já deixou claro que o politicamente correcto é perigoso – dizem as más línguas, dizia eu, que o motivo é a aquela rica menina da Malveira, que se mudou para a SIC, desferindo um rude golpe nas audiências da TVI. Como em tempo de guerra, mesmo de audiências, não se limpam armas, cada um usa os truques mais rentáveis e eficazes para abater o inimigo. Dizem que foi qualquer coisa assim.

    O ilustre convidado do senhor Goucha cumpriu pena de prisão efectiva, entre outros crimes, por envolvimento na morte de Alcindo Monteiro, um cabo-verdiano de 27 anos. Alcindo Monteiro, é bom lembrar, foi morto por ser preto e porque Machado e os seus comparsas não gostam de pretos. Alcindo foi pontapeado na cabeça, estômago, peito e testículos, com botas de biqueira de aço. Tufos do seu cabelo ficaram presos na sola de uma das botas. Os valentes, brancos e hetero skins só pararam quando lhes apeteceu, saciados. Talvez o Goucha não se tenha lembrado que, aquele bando, liderado pelo não seu convidado, também não gosta de gays. Mas, é importante não branquear conversas, e o politicamente correcto é muito perigoso. Não posso estar mais de acordo. Como estamos todos em sintonia, a TVI emitiu um educado, delicado e democrático comunicado onde, entre outras coisas, fala “das opiniões e visão histórica de Mário Machado” e assegura que “o debate entre diferentes correntes de opinião, por mais criticáveis que as mesmas sejam, faz parte de uma sociedade democrática, plural e tolerante, comprometida com o respeito pelas liberdades individuais”, aproveitando “a oportunidade para reafirmar simultaneamente a importância da liberdade de expressão para o projeto editorial da TVI e o compromisso editorial desta com o respeito pela dignidade da pessoa humana e com a condenação do racismo e da xenofobia”. Muito bem dito. E, no entanto, é por aqui que me perco um pouco. Não percebo bem como é que dar palco a um criminoso, racista, cruz suástica ao peito (ou tatuada no braço), perseguindo negros, matando por ódio, se enquadra na liberdade de expressão e na pluralidade democrática e tolerante.

    Há quem defenda que Donald Trump e Jair Bolsonaro chegaram sem que déssemos por eles, precisamente, porque os subestimámos. Ignorámos o perigo que podiam representar, para a democracia, desprezámo-los como se isso bastasse para que caíssem por si, pelo seu ridículo absurdo. Não foi assim, pelo contrário. Talvez por isso andemos tão perdidos.

    É possível que, como escreve João Miguel Tavares, “aquilo que um dia pode empurrar Portugal para os braços de populistas da extrema-direita ou da extrema-esquerda” seja “os deputados que dizem que estão no Parlamento e não estão”; “as líderes de juventudes partidárias eleitas apesar das fraudes nos currículos; “as PGR competentes afastadas por serem incómodas para o poder político”; “os políticos condenados que demoram anos a ir para a prisão”; “os políticos corruptos protegidos pelos partidos”; “as leis que faltam para combater a corrupção”. Mas, para combater extremismos precisávamos de um jornalismo mais sério e de uma informação que fosse além dos sensacionalismos de ocasião e dos resultados da bola. E que se esteja nas tintas para as audiências.

publicado às 14:28



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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