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Somos o que pensamos?

por naomedeemouvidos, em 27.11.18

    Este sábado, o jornal Expresso dava conta das conclusões de um estudo da Universidade de Cambridge realizado em oito países europeus e nos EUA, acerca da confiança que as populações têm (ou não) nas instituições.

    Os resultados do estudo no que toca a Portugal revelaram que não confiamos nos governos, nem nos militares, jornalistas, sindicalistas ou líderes religiosos. Mas confiamos na ciência, ou, pelo menos, nos cientistas. E, apesar de não darmos demasiado crédito às mentiras veiculadas como falsas notícias, somos, curiosamente, o país onde mais se acredita que existe um grupo que, secretamente, governa o mundo. Tudo segundo a mesma fonte.

    Numa altura em que a mentira domina grande parte – para não dizer todos – dos aspectos mais relevantes da nossa vida em sociedade, saber que não estamos (ainda, e que se mantenha a tendência) prontos a aceitar qualquer coisa que nos impinjam sem alguma dose de desconfiança é animador. Pelo menos, maioritariamente, vamo-nos mantendo a salvo de modas conspirativas anti-ciência; ainda acreditamos nos planos de vacinação, nos perigos das alterações climáticas, que a Terra não é plana, que o Homem chegou à Lua e que a Insight acaba de chegar a Marte. A manifesta descrença que revelámos ter nos políticos e nos jornalistas, por exemplo, ainda não é, aparentemente, suficiente para nos atirar para os braços de um qualquer aspirante a nacionalista-salvador-da-pátria, o que contraria um pouco a tal ideia de um grupo que, secretamente, governa o mundo.

    Se há, actualmente, um enorme desprezo pela verdade – e eu acho que há – o que fazer para que essa verdade se imponha, legitimada que está a mentira, mesmo a mais escabrosa? Mesmo o chamado jornalismo de referência se deixa, muitas vezes, assediar pela conquista fácil de audiências, porque é difícil o equilíbrio entre a notícia do momento e a verificação do seu real estatuto. Entre uma coisa e outra, perderam-se milhares de visualizações e de publicidade fácil. Há que insistir, investigar, escutar, duvidar. Informar. E, apesar de o jornalismo não cumprir, muitas vezes o seu papel como devia, hoje, mais do que nunca, é urgente, é imprescindível, promover o bom jornalismo.

    Não será, nunca, possível acabar com a desinformação, com a calúnia que prolifera como vermes nojentos no lixo servido nas plataformas digitais, onde uma mulher não pode mostrar um mamilo, mas onde há muitos constrangimentos em apagar uma página de incentivo à violência (por exemplo) sempre que aquela tenha muitos milhares de seguidores. Grande audiência igual a muito dinheiro e, para demasiada gente, é o dinheiro e não o sonho que comanda a vida. Quem discorda, faz o que pode para se manter sóbrio. Cá em casa, como só há um aparelho de televisão e está na sala, fazemos os possíveis por chamar a atenção do nosso filho para a importância da informação e, sobretudo, para a sua verdade. Assim, compensamos o sofrimento de ver um episódio do miúdo-maravilha (por acaso, nem é o pior, mas, de momento, não me ocorre outro…) com a “discussão” sobre o telejornal. Lamento, mas o miúdo vê notícias. Mesmo que sejam chocantes, porque, por muito que gostássemos, não controlamos tudo o que os nossos filhos vêem nos telemóveis e nos tablets (sim, temos “controlo-parental”, e…?). Ao vermos juntos, ao conversarmos, ao discutirmos, vamos alertando, instruindo, ensinando a duvidar e, sobretudo, a pensar pela própria cabeça. E, quando ele me pergunta, “mamã, tu não gostas daquele/a senhor/a?”, porque me apanhou a meio de uma crítica furiosa, posso sempre explicar-lhe que, por muito que tentem convencer-nos do contrário, não concordar não é igual a não gostar.

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publicado às 12:31

Não acredito, porque posso!

por naomedeemouvidos, em 13.11.18

  “Funcionário do PNR que publicou imagem falsa de Catarina Martins no Facebook foi afastado”.

    A imagem em causa (vale a pena ler o Polígrafo) dava conta de que Catarina Martins teria afirmado que a cultura islâmica é “superior á nossa”, e nem o erro básico de ortografia foi suficiente para agitar a desconfiança do excelso membro do PAN, Partido Nacional Renovador. O secretário-geral do PAN acha que o colega se excedeu, o PAN não tem por hábito veicular fake news sobre quem quer que seja, mas, a autenticidade da imagem não foi confirmada porque, ao “colega”, “ela fazia sentido”. E é este “ela fazia sentido” que é um diabo de detalhe. Fazia sentido porque é mais fácil acreditar nas pessoas de quem gostamos e acusar aqueles de quem não gostamos. Para alguns, o gostar e não gostar é levado ao extremo. Mesmo que não sejam eles os autores do boato, não se importam de o espalhar, levianamente, porque o único critério é acreditar no que mais lhes convier.

    Os que hoje se informam pelas redes sociais, em detrimento do jornalismo de referência (aproveito para subscrever tudo o que li neste texto), acreditando cegamente (muitas vezes, acefalamente) em tudo o que é veiculado pelo grupo a que pertencem, fazem-no porque podem, porque querem ou porque não se interessam, desde que isso garanta muita aceitação social, muitos gostos e muitos seguidores? O fenómeno da propagação da mentira como forma de alcançar um determinado objectivo não é novo. O perigo actual talvez não esteja tanto na facilidade-barra-rapidez com que essa mentira se espalha, mas na indiferença com que consumimos essa mentira. E consumimo-la tanto melhor quanto mais predispostos estivermos a aceitá-la.  A normalização de comportamentos que, não há muito tempo, escandalizariam mais de meia nação é só mais um degrau na alienação dos novos tempos. A indignação passou a ser medida, não pela indignidade do acto, mas pela importância de quem o pratica. E a importância também depende do grupo a que se pertence, das mulheres que se põem a jeito, aos deputados que pintam as unhas ou são contra touradas e que, entretanto, viajam - de avião ou não - entre moradas reais e moradas relevantes para os devidos efeitos.

    A evolução tecnológica é uma das grandes conquistas da Humanidade. Não há qualquer dúvida e nem volta-atrás. Mesmo para os mais conservadores e inábeis (onde me incluo) são evidentes as suas vantagens. Mas – como dizia um professor meu – por cada patamar que subimos, pagamos um preço. A evolução também não é grátis, e há sempre alguém inteligente e competente o suficiente para se aproveitar da incapacidade dos outros, da sua ignorância ou, pior, da sua indiferença.

    Há umas semanas, um quadro produzido por inteligência artificial foi a leilão na conhecida e reputada Christie's, acabando a ser vendido por mais de 400 mil dólares. A tecnologia GAN tanto permite pintar ou desenhar, como manipular imagens para colocar alguém a dizer ou a fazer algo que nunca fez ou disse. E, não, não estamos a falar da manipulação caseira do vídeo que a Casa Branca divulgou para justificar o afastamento de um incómodo Jim Acosta. É mais do género se o George Clooney (ou a Jennifer Lopez, ou o que a sua imaginação ditar) lhe oferecer flores e você não for a Amal Alamuddin, isso é capaz de ser o GAN.

    Passaremos de acreditar em fake news para viver fake lives.  A não ser que passemos a ser mais exigentes com quem tem a responsabilidade de nos informar.

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publicado às 11:39

    Normalizados que parecem estar todos os comportamentos que a civilidade nos habituou a considerar abjectos, haveremos de passar à actualização das gramáticas, com a mesma agilidade moderna e elevada com que já nos mandaram reescrever a História.

    Os novos homens fortes da política, os machos alfa salvadores da pátria, os que falam, curto e grosso, a língua do povo, são, actualmente, os únicos detentores da verdade. Se eles afirmam, é exacto. Se proclamam, é lei. Se exaltam, é culto. Todos os outros mentem. Costumava dizer-se que contra factos não há argumentos, mas, até os factos se tornaram alternativos ou descartáveis. Bolsonaro não tem nada de eticamente reprovável, como as demissões irrevogáveis não têm nada de irremediável. Haja vontade e gente para acreditar. Tal como uma mentira repetida muitas vezes arrisca converter-se em verdade absoluta, inquestionável, qualquer verdade renegada pela voz dos escolhidos esfumar-se-á das memórias dos cordeiros imberbes e adormecidos.

    Propaga-se a verdade e a liberdade – da de expressão à da imprensa – para, logo a seguir, ameaçar e amordaçar quem se atreve a duvidar e a discordar. Faz-se companha sobre os mortos – sumariamente eliminados pelo ódio – sem remorso e sem pudor, porque o espectáculo must go on e alterações de planos são uma maçada desnecessária porque incoerente.

    O povo anseia por sangue e força bruta. Cansou-se de esperar pela justiça, quer tomá-la nas mãos, domá-la e aplicá-la. Implacavelmente, sem hesitações e sem culpa. Apoiada na inocência, asseguram-nos, da retórica primária, inflamada e apaixonada, a turba caminha segura e decidida, mas, pouco formosa, pois não há réstia de graça na barbárie.

    Na cegueira da razão e da verdade de cada um, acabaremos miseravelmente sós, empunhando armas contra os fantasmas que criámos com a ajuda de heróis cobardes, sem capa e sem escrúpulos, mas orgulhosamente prenhos de ódios e escárnios. Infelizmente, não estão sós.

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publicado às 12:39

No Brasil, ganhou um mito.

por naomedeemouvidos, em 29.10.18

    Primeiro a Bíblia, depois a Constituição. Dos quatro livros que Bolsonaro tinha em cima da sua mesa, no seu primeiro discurso de vitória, a partir de sua casa e através das redes sociais, a Bíblia mereceu o primeiro lugar. “O Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, haveria de repetir e reforçar.

    Bolsonaro presidente falou de respeito pela Constituição brasileira, pela democracia e pela liberdade. Bolsonaro candidato tinha falado, com saudade, da ditadura militar, das virtudes da tortura e da obediência que as minorias devem às maiorias, entre outras coisas.  Entre os que apoiaram o capitão e que rejubilam, agora, com a eleição do mito, há, creio, dois tipos de gente: os que querem, realmente, sangue, e anseiam pela exterminação implacável de todos os vícios e os que, a coberto de um enorme desespero e impotência, viram no Messias o único caminho para reverter a situação dramática em que o Brasil mergulhou. Para estes, do que Bolsonaro diz, nem tudo se escreve e, por isso, desvalorizam o discurso mais extremo de hostilização dos negros, dos homossexuais, dos pobres e das mulheres.

    Bolsonaro saiu à rua, mais ou menos, para agradecer a Deus e aos brasileiros a sua eleição. Deram-se as mãos e rezaram. Afinal, “essa é uma missão de Deus”. Bolsonaro lê o discurso de vitória.  “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. E a exultação da verdade arranca um ámen da boca da recém primeira dama, mesmo ali ao lado, com os olhos postos no marido e no céu. Deus é mesmo brasileiro e voltou a descer à Terra pela mão de Jair Messias Bolsonaro.

    O novo presidente do Brasil foi eleito pelos seus pares. Apesar de tudo, não me parece que seja uma vitória baseada, apenas, em notícias falsas. É preciso fazer uma reflexão mais profunda. A confiança das pessoas nas instituições democráticas está profundamente abalada e é impossível continuar a olhar para o lado, chamando de ignorantes, ditadores e fascistas todos os que procuram alternativas radicais.

    O Brasil elegeu um mito. E, agora? Agora, esperemos pelo melhor e façamos todos um exame de consciência.

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publicado às 09:55

Verdade sem consequência.

por naomedeemouvidos, em 12.10.18

            “Torne a mentira grande, simplifique-a, continue a repeti-la e, eventualmente, todos acreditarão nela.”

          Assim construiu Adolf Hitler uma demente ideologia para tornar a Alemanha grande outra vez; assim se começa, hoje, a fazer política para ser levada a sério, quase oitenta anos depois do sanguinário e tresloucado genocídio de (maioritariamente) judeus sob o regime nazi.

          Podia ser exagero, estabelecer comparações radicais entre a Alemanha de Hitler e a América de Trump, ou o Brasil que há-de ser de Bolsonaro; ou a Hungria de Viktor Orbán; ou a Venezuela de Maduro; ou os apelos nacionalistas de Le Pen e Salvini, o Brexit do Reino Unido, a subida da extrema direita na Suécia e na Europa, em geral. Podia ser exagero, não fosse dar-se o caso de – cada vez mais – a verdade ser descartável. Já ninguém se interessa pela verdade, até porque a verdade muda ao sabor do momento e o momento tornou-se instantâneo, fugaz como a chama de um fósforo, exuberante e fogosa, a princípio, para depressa definhar, enegrecida e em agonia. A verdade passou a medir-se pela ousadia do insulto fácil e popular; pela capacidade de vitimização dos tiranos, pela dimensão da fama e poder dos abusadores, pela falta de recato das vítimas, pelo oportunismo de ambos, pela assertividade e elegância da retórica cheia de nada, mas que enche almas desesperadas e exalta multidões cegas e esvaziadas de qualquer capacidade de pensar e reflectir.

            Nos dias de hoje, a política do pão e circo já não precisa da imponência do Coliseu, do desassombro e da perícia dos gladiadores ou do confronto violento entre animais selvagens. Basta um “estadista” imberbe com o despudor suficiente para ridicularizar o outro, seja uma pessoa com deficiência, um militar morto em combate, um apresentador de televisão ou uma mulher abusada. O povo aplaude, goza e rejubila. Já não faz falta debater ideias. Chamar um opositor político de “marmita de corrupto preso” faz mais pelo divertimento das massas do que discutir problemas reais, discordar e tentar encontrar soluções. A urgência dos tempos e das modas choca de frente e violentamente com a lentidão do apuramento da verdade, porque, essa, demora, não é efémera. E a negação da verdade mutila a justiça, que, se já não era completamente cega, foi impiedosamente esmagada pelas circunstâncias do acusado e do acusador, independentemente do crime. As provas deixaram de ser necessárias, foram substituídas por autos de fé. Há quem minta descaradamente no conforto da não existência de qualquer “prova”, mesmo que a história que conta seja absurda e há quem esteja absolutamente certo, quer da inocência, quer da culpabilidade de alguém apenas pela conjuntura do momento, pelo que fez ou deixou de fazer, pelos méritos ou deméritos alcançados até à data. Amar ou odiar, sem apelo nem agravo ou espaço para indagar.

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publicado às 12:10



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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