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Turistas.

por naomedeemouvidos, em 10.10.19

O barco desliza tranquilo sobre o leito de água manso e morno de final de tarde. O Sol desmaia no horizonte, afagando o dorso púrpura do mar estreito, soprando reflexos metálicos, de ouro e prata, que devolvem um brilho leitoso, a contraluz, salpicado de borbotos salgados e crus onde as gaivotas mergulham em voos planados, à espreita, à espera, enquanto o céu se incendeia esgalhado em fúrias policromáticas, uma imensa tela impressionista, viva, volátil, que se tece e se desmancha como as malhas finas de um croché rico e inacabado. Ao fundo, nuvens coradas a vermelho-laranja, densas, insurretas como a lava dilacerante acabada cuspir do ventre caprichoso da terra, irrompem em estampidos mudos, preenchendo o céu na linha submissa do ocaso.

 

Para trás, ficou o esfrangalhado tumulto da outra parte da cidade. A que desagua, miserável, no outro continente, longe da ousadia cosmopolita e moderadamente europeia. E, enquanto regresso ao caos mais organizado e desesperadamente consentido, guardo a memória da beira-mar desordenada, prenhe de cadeiras de plástico, outrora branco, onde se amontoam vidas cheias e simples, num marasmo vulgar de fim-de-tarde. Há famílias inteiras que se passeiam em burburinhos compassados, enchendo o passeio e os bancos improvisados, os mais pequenos comendo gelados e algodão doce azul, os graúdos escorropichando, incautos, cascas de mexilhão recheadas de arroz pastoso servidas em doses manhosas que circulam de mesa em mesa, descontadas que são e foram as que serviram para saciar a fome ou, apenas, uma curiosidade afoita e descuidada.

 

As gaivotas prosseguem na sua escolta elegante e inusitada. Há uma mulher sozinha, decentemente tapada, como ditam os costumes locais. Entretém-se a ler um livro cujas margens vai adornando de rabiscos confusos, e faço um esforço descarado para tentar perceber se, o livro, também o dita os costumes, ou, pelo contrário, é um acto de rebeldia mais consciente e pleno do que a melena de cabelo preto que teima em escapar-se-lhe do aprumo decoroso do véu.

 

O barco acaba de recolher os passageiros da última paragem. Na minha frente, sentam-se um casal absurdamente jovem com uma bebé de colo e uma velha muito velha que não consegue desviar os olhos de mim, nada mais acomodar-se. Não percebo o que diz, mas, percebo que faz a viagem sozinha, provavelmente, de regresso a casa. Reparo que fala com casal, mas, tenho a certeza de que lhe são estranhos.

Há já algum tempo que se levantou uma aragem fria, e vejo como aconselha a mãe a tapar a cabeça da criança. Há hábitos maiores em si mesmos. Continua a olhar para mim, e começa a inquietar-me. Não percebo o que diz, e essa manifesta incapacidade irrita-me, incomoda-me. Segreda qualquer coisa à rapariga, sem despegar-me a vista de cima e percebo, abruptamente, a palavra turista, no meio da salgalhada àspera em que se distraem. Quando, subitamente, se decide a interpelar-me já sei o que me vai perguntar ainda antes de a ouvir, pela segunda vez. Aceno um sim desajeitado e, agora, tenho absoluta certeza de que a ouço dizer à rapariga: viu, eu disse; turistas!

publicado às 11:53


8 comentários

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De imsilva a 10.10.2019 às 12:57

Muito bom, partilhei a viagem contigo, quanto ao desmaio do sol, também assisti https://imsilva.blogs.sapo.pt/tintes-27935
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De naomedeemouvidos a 10.10.2019 às 14:31

Obrigada. Eu vi a tua fotografia :))
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De Luísa de Sousa a 10.10.2019 às 14:53

Oh ... gostei do passeio de barco ao entardecer (amo a hora do crepúsculo)!!!
Senti-me "turista".



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De naomedeemouvidos a 10.10.2019 às 15:13

É difícil não gostar daquele concerto de cores :))
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De cheia a 10.10.2019 às 22:14

Uma viagem, onde as palavras se devem ter sentido, também, turistas. Muito bom!
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De Maria Araújo a 12.10.2019 às 14:16

Um bom fim-de-semana.
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De naomedeemouvidos a 12.10.2019 às 14:42

Para si também, Maria. Obrigada.

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É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

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