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Verdade? Qual verdade?

por naomedeemouvidos, em 28.10.19

Bons jantares e bons amigos resultam, normalmente, em boas conversas. É assim que se passa de um “que bom que está isto tudo!” para um “afinal, porque é que tu achas que Bolsonaro não é um democrata?”, porque as boas conversas também resultam de momentos de desacordo sem que, por isso, seja necessário partir a louça. De inconformidades alinhadas em torno de preocupações comuns também se faz (lá diz um ditado) a luz que falta para aferir a desordem truculenta dos novos dias.

 

Inevitavelmente, a discussão gravita em torno da importância da educação, essa tal “arma mais poderosa para mudar mundo”. Para livrá-lo dos piores vícios da humanidade. Da corrupção à outrofobia histérica e animalesca, a educação surge, para muitos, como a única forma de travar a deriva de tormentos infligidos pelos mais fortes sobre os mais fracos: se formos mais educados seremos menos corruptos, mais justos, menos abusadores, mais tolerantes, menos manipuláveis, mais avisados, menos assustadiços, mais ousados na busca incansável, indeclinável, da verdade e da justiça. Mas, será que a educação se basta, nos basta, nos seus intentos? Como podemos educar uma sociedade que, todos os dias, compactua com as mais diversas formas de rasurar, com vontade e à-vontade, esses tratados fundamentais para a “igualdade em dignidade e em direitos”, “sem distinção de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação”?

 

É, sem dúvida, verdade que não são novos os desafios que enfrentamos actualmente e que vemos personificados em notáveis líderes nacionalistas impecavelmente, implacavelmente, empenhados em manter as (in)devidas distâncias entre o nós e os eles. A diferença talvez esteja na facilidade com que aceitamos agora o que, não há muito tempo, tínhamos como intolerável. A ignorância assumiu outras formas. Metamorfoseou-se em falsete, como um Gregor de Kafka, e o inusitado parece impor-se, tão absurdo quanto banal, suspenso num tempo apressado, urgentíssimo, encerrado em si mesmo, sem espaço para razões contra-corrente. Já não é uma questão de procurar a verdade, de querer saber, de estar informado, mas, antes, de procurar a verdade que sirva a cada um, abençoada por medida como um cobiçado traje de baile. Ainda haverá educação que nos redima?

publicado às 23:06


9 comentários

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De Sarin a 28.10.2019 às 23:58

A nós? Duvido. A Educação não se adquire no Juá - ou na raspadinha, vá.
Mas poderá salvar os vindouros, sim.

No entanto, não acredite que a Educação alguma vez se baste porque a Educação precisa de Valores, de Princípios, e precisa de Conhecimentos, de Competências, de Aptidões. Para desenvolver nos mais novos e devolver aos mais velhos novos Conhecimentos, Competências e Aptidões - quiçá, até, novos Valores.
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De naomedeemouvidos a 29.10.2019 às 11:59

A nós não, provavelmente. Temos perdido muito tempo. Aos vindouros, gostaria muito, porque tenho um filho pequeno. No entanto, as opiniões continuam a divergir: tanto ouvimos dizer que, se é pela educação, então, há esperança, como, se é pela educação, então, estamos mal, porque esta parece cada vez pior. Suponho que também foi sempre assim. E daí, não estou tão segura...
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De júlio farinha a 29.10.2019 às 23:07

Não precisamos só de uma boa, coerente e valorativa educação. Precisamos sobretudo de um ensino eficiente e eficaz. Os nossos vindouros serão, talvez, todos mestres e essa perspectiva alicia-me. Já não será no nosso tempo. Não faz mal. Eles saberão entender as sábias palavras de Héraclito: "os burros preferem a palha ao ouro", e agirão em conformidade.
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De naomedeemouvidos a 30.10.2019 às 00:06

Temos obrigação de acreditar nisso. E eu acredito, mas, por vezes, desespero.
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De Sarin a 30.10.2019 às 00:43

"Os nossos vindouros serão todos mestres"... só de pensar que alguém pode ser mestre de alguma coisa com 25 anos de idade, fico doente pelos nossos vindouros pois ou serão escassos como escassos são os génios ou serão muito baixos para que tal fasquia lhes seja alta :(
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De Maria Araújo a 29.10.2019 às 14:39

Educar custa muito, e nos dias que correm ninguém tem paciência para ninguém.
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De naomedeemouvidos a 29.10.2019 às 21:55

Paciência é outra virtude em agonia, de facto, Maria :)

Uma boa noite.
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De cheia a 29.10.2019 às 23:28

Sem dúvida que a educação é muito importante! É, por isso, que os ditadores não querem, que o povo tenha acesso à educação.
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De naomedeemouvidos a 30.10.2019 às 00:04

É um pilar fundamental. Mas precisa de companhia.

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