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Verdade (s)em rede.

por naomedeemouvidos, em 20.09.19

Tenho este artigo guardado há vários dias. Uma espécie de (mais um) ponto de partida para outra reflexão, já não tanto sobre o que é ou não verdade, mas sobre a verdade que importa, ou, talvez mais urgente e aterrador, se realmente importa que não seja verdade.

No artigo, fala-se sobre a possibilidade de a linguagem constituir um meio válido, confiável, de identificar notícias falsas, e pensei imediatamente nos títulos medonhos de alguns sites de informação manipulada que o polígrafo costuma recolher para, professoralmente, classificar de verdadeiro; verdadeiro, mas…; impreciso; falso; pimenta na língua. Só faltam as percentagens, mas salvaguarda-se o enquadramento; porque, a “verdade não é branca ou negra”. Só pela megalomania dos títulos, raramente me engano no “isto não pode ser verdade!”, embora possa não ser capaz de chegar ao rigoroso “pimenta na língua”. A questão é que, por vezes, como é também e tão bem sabido, a realidade atropela a ficção, esmaga-a sem apelo nem agravo, e nem sempre o meu radar acerta, é um facto.

Trata, dizia eu, aquele artigo, de dar conta de trabalhos de pesquisa realizados nos últimos anos com o objectivo de tentar, primeiro, encontrar um padrão de linguagem passível de ser mais frequentemente associado a fontes de informação (em bom rigor, desinformação) intencionalmente enganosa, segundo, recorrer à tecnologia de inteligência artificial para caçar esse padrão numa informação manipulada, de modo a alertar-nos para o logro.

Entre outros exemplos, refere-se, na informação viciada, a linguagem tende a ser excessivamente emocional, abundam termos relacionados com morte, sexo e ansiedade, o recurso aos superlativos (o mais; o pior), adjectivos sonantes (terrível; brilhante) e o uso frequente da segunda pessoa do singular. Nada disto é, no entanto, vinculativo, evidentemente, e, em particular, no que diz respeito ao pronome “you” (“tu”, ou, talvez traduzindo melhor, neste contexto, por “você”), tentou chegar-se um pouco mais longe no estudo, comparando artigos retratados e não retratados do jornalista Jayson Blair. Ainda assim, não é possível precipitarmo-nos em conclusões, mas, talvez possamos estar mais atentos. Sempre e cada vez mais atentos.

 

Entretanto, acabei por ler um outro artigo ligado, mais ou menos, à mesma temática. A nova ameaça não é tanto uma questão de sermos capazes de identificar ou não a verdade, é termos consciência de que, afinal, somos cada vez menos capazes de concordar com aquilo que classificamos, ou encaramos, como verdade. Claro que não é bem, nada!, uma novidade;  mas, não se trata tanto do já esgotado e esgotante pensamento insalubre acerca da planura da Terra, da negação plácida das causas antropológicas para o aquecimento global, do autismo das vacinas-free ou dos milagres da homeopatia. É mais do que isso, mais perigoso e mais assustador, porque tem a ver, também, com o facto de grande parte da verdade subjacente à indignação que inunda os meios de comunicação social, vertendo, posteriormente, para as colunas de opinião, programas de entrevistas televisivas, grandes ou pequenas reportagens estar cada vez mais condicionado, não pelos acontecimentos em si mesmos (ou, pela sua gravidade) mas, pela forma como esses acontecimentos são relatados e enquadrados e, pior, manietados pelo poder das redes sociais.

O exemplo mais próximo de nós, aqui neste recanto que continua a encantar estrangeiros e a transtornar nacionais, é, talvez, o recente caso do assassinato e violação de Maria Antónia Guerra de Pinho (a ordem macabra dos acontecimentos parece ser exactamente esta), a irmã Tona, a que o Eduardo Louro fez pertinente referência neste texto, e cuja notícia passou despercebida porque parece que "não entrou nas redes"

 

Os especialistas não se cansam de nos dizer que nada disto é tão novo como parece e que já corremos os mesmos riscos no passado. É possível. Mas, como também parecemos empenhados em apagar esse passado e, não podendo, em embelezá-lo e corrigi-lo de todas as imperfeições que possam atrapalhar a escalada de sucesso viral das melhores instastories, é possível que não estejamos preparados para tamanho sucesso. 

publicado às 11:45


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