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"We're really gonna miss you."

por naomedeemouvidos, em 22.09.19

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Lembrava-me bem da reportagem que Steve Kroft escolheu para fim do programa “60 Minutos” que lhe foi dedicado em especial homenagem: a Ilha de Eigg, na Escócia.

Eigg já fora propriedade de um inglês abastado com tiques de aristocrata caído em desgraça e, depois, de um alemão louco com manias de conceituado artista e professor até se revelar um impostor falido. Fartos de senhores incompetentes, os habitantes decidiram organizar-se em torno de um objectivo comum e assumir as rédeas do controlo e gestão da ilha. Cada um deles é uma figura única. Maggi Fyffe é a secretária da ilha; fecha os olhos azuis quando ri, um riso rouco e malandro que lhe ilumina o rosto e a faz parecer uma miúda traquina apanhada em flagrante. Charlie Galli é o taxista de serviço, único, um falso bruto bem-humorado, de barba farta e grisalha pintalgada de fios dourados, que conhece de cor a vida toda que cabe na ilha e lhe entra na alma. Dean Wiggin é o mecânico de serviço, arranja praticamente tudo o que ainda tenha conserto. Sarah Boden gere a quinta do tio e convenceu o namorado, um dos músicos mais populares da Escócia, a morar na ilha. Johnny Jobson edita uma publicação desportiva, trouxe a família, agora que há electricidade, e os amigos Stu McCarthy e Gabe McVarish, cansados de beber zurrapa de produção em série, meteram mãos ao barril e acabaram a produzir as oito qualidades da cerveja artesanal com que se animam as festas em Eigg.

Não há propriamente um presidente, não há polícia, não há tribunal, não há edifício prisional. Não há crimes, não há desacatos que mereçam cuidados. O que não se sabe onde está, acabará achado, devolvido, sem descuidos, sem escalas, sem reservas.

Há uma escola básica, uma mercearia, um pub de paredes brancas, junto ao cais, um médico que faz visita às terças-feiras, e um mar imenso, caprichoso, que a Natureza quase selvagem urdiu com uma esmerada insolência, mais do que suficiente para não admitir mordaças.  

 

Steve Kroft, trinta anos de boas histórias ao serviço de um jornalismo maior, retira-se de cena, deixando um rasto de reportagens arrojadas, magníficas, entrevistas intensas a políticos, celebridades, mafiosos, criminosos, vigaristas, atletas. De tudo um pouco se preencheu a sua sólida e respeitada carreira. Apontam-lhe o sentido de responsabilidade, o rigor do trabalho de investigação, a deleitosa escrita, o enorme sentido de humanidade, a capacidade rara de revelar com desconcertante clareza as histórias mais intrincadas. E, claro, o humor; um traço de humor elegante que encontra sempre o seu espaço, a seu tempo. Afinal, “it´s all about the story”, que é como quem diz, serão quase quinhentas contadas com a mestria de Steve Kroft, para continuar a recordar.

 

Uma excelente conversa com a colega Lesley Stahl, uma última entrevista do lado oposto da sala, embalada por um reconhecido e carinhoso respeito.

"60 Minutes" will be fine, just fine, palavra de Steve Kroft.

publicado às 22:30


4 comentários

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De Sarin a 22.09.2019 às 23:20

Não dei pela reforma... anda tão ausente, a televisão de mim! Nem para os poucos programas que valem a pena olho a pantalha que, nas mais das vezes, me espanta de enfadada.
Ainda bem que há quem esteja atento às preciosidades :)
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De naomedeemouvidos a 22.09.2019 às 23:24

Há três ou quatro programas na Sic Notícias que tento não perder. Este é um deles :))
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De Maria Araújo a 26.09.2019 às 15:50

Também costumo ver 60 minutos, desde sempre gostei, mas não vi este da ilha Eigg, com Steve Kroft.

Vejo aqueles documentários "2077, 10 segundos para o futuro" da RTP1
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De naomedeemouvidos a 26.09.2019 às 16:01

Gostei muito de ver. Já passou há algum tempo.

Ainda há bons programas :))

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